Netanyahu enfrenta julgamento por corrupção e perde aliados. Guerra contra Irã pode ser última cartada para se manter no poder.
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As aventuras internacionais de Netanyahu, com atos de hostilidade e agressão contra inúmeros atores regionais do Oriente Médio, tem sido objeto de uma larga produção articulista e literária, por motivos óbvios. A ação de Israel em Gaza, na Cisjordânia, na Síria, no Líbano, no Iraque e no Irã, além de suas manobras diplomáticas com a Jordânia, a Arábia Saudita, o Egito e outros países da região, tem tido impacto suficiente para merecerem a atenção dos especialistas. De fato, todo o panorama do Oriente Médio tem sido transformado nos últimos anos – em alguns casos de forma favorável a Israel, mas não sempre e basta olharmos para a resiliência iraniana para termos prova disso.
Mas uma parte muito negligenciada na análise da política de Netanyahu é a sua face doméstica, a “frente interna”, por assim dizer. Na verdade, ocasionalmente esses aspectos domésticos até são analisados, mas apenas naquilo que questões internas se comunicam diretamente com as guerras de Gaza e do Irã, como os problemas econômicos, a resistência dos judeus ultraortodoxos ao recrutamento forçado, a perda de popularidade, etc.
Ainda que esses aspectos sejam importantes há também outros que merecem atenção, e é importante ao menos mencioná-los para que possamos refletir sobre qualé o verdadeiro vínculo entre as guerras externas de Netanyahu e sua tentativa de permanecer no poder a qualquer custo.
Antes de outubro de 2023, de fato, Netanyahu aparecia nos noticiários internacionais não por qualquer coisa relacionada à Palestina, e sim por causa de um projeto de reforma do Judiciário proposto pelo Ministro da Justiça Yariv Levin, o qual visava reduzir os poderes da Suprema Corte e concentrar mais poderes no Executivo e no Legislativo, incluindo dando maior controle sobre indicações de nomes para cargos no Judiciário e reduzindo a capacidade de revisão judicial de decisões administrativas.
A proposta, lançada em janeiro de 2023, pouco após a chegada do novo governo de Netanyahu ao poder, deu início a uma onda de protestos que reuniu centenas de milhares de pessoas semanalmente, até a operação militar do Hamas em 7 de outubro de 2023. O ataque do Hamas, na verdade, sufocou o movimento popular contra Netanyahu sob a exigência de “união nacional” contra o terrorismo. O problema, porém, permanece com algumas pautas da reforma tendo avançado, enquanto outras foram derrubadas pelo Judiciário.
Mas se a controvérsia da reforma do Judiciário foi, pelo menos, parcialmente sufocada, as acusações de corrupção que Netanyahu enfrenta permanecem bem vivas na esfera pública israelense. Trata-se de 3 casos, o 4000, o 2000 e o 1000, todos eles relativos a governos anteriores (as primeiras investigações tendo começado em 2016) e dizem respeito a possíveis esquemas de favorecimento. No caso 4000 trata-se de decisões regulatórias que favoreceram a empresa Bezeq Telecom, no caso 2000 de negociações para receber cobertura midiática favorável em troca de decisões que enfraquecessem concorrentes e no caso 1000 do recebimento de presentes dados por benfeitores bilionários a Netanyahu.
Ao longo de todo o ano de 2026 este tem sido um dos tópicos principais em Israel, já que o julgamento de Netanyahu tem sido extremamente mediatizado, além de estar transcorrendo diariamente, de forma quase ininterrupta, há meses. Fala-se na possibilidade da oitiva de centenas de testemunhas. E a complexidade do caso parece ser um dos trunfos nos quais Netanyahu confia para conseguir se safar.
Tudo isso nos remete à questão do percurso rumo às próximas eleições israelenses, a serem realizadas em 27 de outubro de 2026. Atualmente, a popularidade de Netanyahu está em aproximadamente 33-38%, com uma ampla parcela da população israelense preferindo lideranças alternativas. Aos escândalos administrativos e criminais de Netanyahu, se soma uma percebida ineficiência do primeiro-ministro em lidar com as questões de segurança israelenses, começando pela falha de segurança que tornou possível a operação do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Um reflexo disso é que a coalizão governista de Netanyahu está extremamente fragilizada. Os partidos Noam, Unidade Nacional, Judaísmo Unido da Torá e Shas retiraram-se da coalizão. Além das polêmicas de Netanyahu, um dos motivos para a debandada foram as tentativas da cúpula militar israelense de forçar os judeus ultraortodoxos a servirem nas Forças Armadas, e a incapacidade ou desinteresse por Netanyahu de enfrentar essa pressão militar.
As pesquisas de opinião, por sua vez, apresentam alguns problemas para Netanyahu. Ainda que as intenções de voto, para o Likud, sejam semelhantes à quantidade que o partido recebeu em 2022, hoje o Likud já não dispõe da ampla aliança que permitiu a Netanyahu formar um governo sionista fundamentalista. E aí, considerando que diante dos 22% de intenções de voto de que o Likud dispõe, a coalizão Juntos (de Naftali Bennett e Yair Lapid) dispõe de 15%, o Yashar (de Gad Eisenkot) dispõe de 24%, o Israel Beiteinu (de Avigdor Lieberman) dispõe de 10% e os Democratas (de Yair Golan) dispõem de 11% – e nenhum desses partidos pretende se aliar a Netanyahu, a situação política israelense fica incerta.
A boa notícia para Netanyahu é que essas forças políticas também possuem diferenças razoáveis entre si. Os Democratas, por exemplo, apoiam a “solução de dois Estados”, o Israel Beiteinu é a favor da expansão irrestrita de assentamentos na Cisjordânia, o Yashar, de sua parte, é a favor da manutenção dos assentamentos tal como se encontram e se preocupa mais com a garantia de sua segurança do que com sua expansão. Mesmo no Juntos, Bennett e Lapid possuem posições razoavelmente divergentes, com Lapid sendo mais centrista e Bennett mais radical no apoio à anexação da Cisjordânia. E, de um modo geral, os líderes desses partidos tendem à intransigência em suas posições.
Internamente, Netanyahu tem poucos trunfos. Mas no plano externo, Netanyahu pode considerar a guerra contra o Irã como uma possibilidade de, ou alcançar uma vitória através de um golpe significativo contra Teerã, ou no mínimo se impor sob a perspectiva da “união nacional” diante de uma ameaça externa. Não casualmente, Netanyahu fez o possível e o impossível para impedir que as negociações de paz entre Irã e EUA fossem frutíferas.
A primeira hipótese é improvável por causa das próprias capacidades militares iranianas, mas agitar o Irã como “bicho-papão” ao qual “apenas” ele poderia resistir pode ser uma tática plausível para permanecer no poder.


