Israel usa tortura sexual como política de Estado contra palestinos desde 1967, revela relatório da Internacional Progressista.
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A propaganda imperialista, urdida sob medida para blindar o enclave colonial sionista, tenta vender a imagem de Israel como uma “democracia” cercada de inimigos. Contudo, a historiografia da resistência e os relatórios desclassificados revelam uma verdade irrefutável: a violência sexual nunca foi um “excesso pontual” ou “desvio individual” de soldados israelenses, mas sim uma ferramenta sistemática, deliberada e central do projeto de limpeza étnica, dominação colonial e genocídio contra o povo palestino.
O relatório “A Predatory State: Israeli Systemic Sexualized and Gendered Violence Against Palestinians”, publicado pela Internacional Progressista, desmonta a propaganda sionista ao mapear o uso continuado do terror sexual desde a Nakba de 1948 até a atualidade. Em artigo anterior, abordamos essa violência durante a Nakba. Mas as consequências da Guerra de 1967 mostram a brutalidade institucionalizada das forças de ocupação ganhando contornos de sadismo estrito e tortura sistemática de Estado.
A chamada Guerra dos Seis Dias em 1967 e a consequente ocupação militar ilegal da Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jerusalém Oriental, Golã e Sinai marcaram uma virada dramática no aparelho repressivo de Israel. Como demonstra o relatório, se na Nakba de 1948 o estupro e a ameaça de violência sexual foram utilizados massivamente pelas milícias sionistas para expulsar comunidades inteiras de suas terras, o período pós-1967 consagrou a tortura sexual como o método dominante de interrogatório e punição em massa contra prisioneiros e detidos palestinos sob custódia estatal.
A associação Addameer, em uma análise comparativa crucial citada no documento, traça o elo direto entre os métodos do imperialismo britânico na África e a prática colonial sionista na Palestina:
“O uso deliberado da violência sexual pelo colonialismo britânico, incluindo castração, estupro e agressão sexual contra a população queniana, não fica longe da realidade palestina. Durante as décadas de 1960 e 1970, a ocupação israelense usou táticas semelhantes, desde forçar detidos a sentar-se em garrafas de vidro, resultando em lacerações genitais, até o estupro com o uso de bastões.”
Esta barbárie não era um segredo velado, mas sim uma política institucionalizada operada em conjunto pelo exército, pelo serviço de inteligência e pelo serviço prisional israelense.
As evidências reunidas nas páginas 35 a 40 do relatório estarrecem pela gravidade e pela crueldade explícita dirigida aos prisioneiros palestinos. Em 18 de fevereiro de 1970, um relatório do Grupo de Trabalho de Especialistas da Comissão de Direitos Humanos da ONU registrou o depoimento de Mohammed Kader Derbas. Hospitalizado devido às lesões físicas incapacitantes sofridas sob tortura militar israelense, Derbas atestou ter sido diretamente castrado pelas forças de ocupação, revelando ainda que diversos outros prisioneiros submetidos ao mesmo destino preferiram o silêncio por medo e trauma.
No mesmo período, documentos sigilosos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) referentes à Prisão de Nablus (1968) e relatórios da Anistia Internacional (1970) documentaram práticas de mutilação genital e tortura elétrica: “A aplicação de choques elétricos nos testículos, a fixação de garras tipo jacaré nos genitais, a inserção de uma carga de caneta do tipo esferográfica na uretra peniana até sangrar e golpes com varas nos genitais.”
A Anistia Internacional registrou a seguinte prática cotidiana nas salas de interrogatório israelenses: “Palitos de fósforo são inseridos no pênis e às vezes acesos”. Outro prisioneiro libertado, identificado sob a sigla N.E., relatou que durante seu cativeiro “seu mamilo foi arrancado com um alicate e cigarros foram apagados em seu corpo, entre uma infinidade de outras práticas brutais”.
Destruir a honra das mulheres para quebrar a Resistência
Como já foi observado em outro artigo, a tortura sexual de prisioneiros tem como um objetivo fundamenta desmantelar a coesão social e a dignidade das mulheres palestinas na tentativa de aniquilar a luta de libertação nacional. Os relatos registrados no relatório sobre os estupros perpetrados por soldados de Israel são chocantes em sua totalidade.
Em 1970, o relatório da ONU registrou o depoimento de Dawlat El Sayed Allam, estuprada duas vezes por soldados israelenses. O primeiro ataque ocorreu quando as forças sionistas invadiram sua residência durante o almoço em família:
“Os soldados alinharam a família contra a parede e pediram seus cartões de identidade antes de espancar seu marido de sessenta e cinco anos. Os soldados então tentaram estuprá-la. Seu filho de quinze anos interveio e supostamente atacou os soldados com uma faca. Os soldados então mataram seu filho no local antes de prosseguirem para estuprá-la.”
Dawlat foi estuprada uma segunda vez ao tentar cruzar a fronteira para o Egito, testemunhando que diversas outras mulheres de sua aldeia sofreram o mesmo destino e que as que resistiram foram sumariamente executadas. No mesmo documento, uma testemunha anônima relatou ter sido molestada sexualmente pelo próprio Governador da Prisão de Nablus ao solicitar permissão de visita ao marido, confirmando que outras quatro jovens haviam sido levadas para uma sala adjacente por oficiais israelenses e estupradas.
Entre os episódios mais sórdidos e emblemáticos do sadismo do Estado sionista está o caso da militante e prisioneira política Rasmea Odeh, presa em 1969 e levada ao Centro de Detenção al-Moskobiya, em Jerusalém. Durante quarenta e cinco dias de detenção ininterrupta e vinte e cinco dias de tortura contínua, Rasmea foi desnudada, acorrentada e espancada com barras de ferro. O ápice do horror ocorreu quando os torturadores tentaram forçar seu próprio pai, Yusef Odeh, também preso, a estuprá-la.
O depoimento de Yusef Odeh perante o Comitê Especial da ONU em 1979 expõe a depravação do regime colonial:
“Quando me trouxeram de volta… Rasmiah não conseguia parar em pé com as próprias pernas. Ela estava deitada no chão e havia manchas de sangue em suas roupas. Seu rosto estava azul e ela tinha um olho roxo. Então ela foi levantada por dois soldados, e naquele momento comecei a chorar e gritar e eles me vendaram e acho que ela foi então levada embora… Eu gostaria de ter morrido a ter visto essa coisa… É uma questão de honra… Tudo bem, interprete, por que não? O que há para contar? Eles a seguraram e empurraram um bastão. […] Um dos interrogadores, ele disse, me pediu para ter relações com ela, e eu disse: ‘Nem pense nisso. Eu nunca faria tal coisa.’ Eles estavam me espancando e espancando a ela e nós dois estávamos gritando. Rasmiah ainda estava dizendo: ‘Eu não sei de nada.’ E eles abriram as pernas dela e empurraram o bastão nela. Ela estava sangrando pela boca, pelo rosto e por trás. Então eu fiquei inconsciente.”
A companheira de cativeiro Aisha Odeh relatou no documentário Women in Struggle (2004) o suplício idêntico a que foi submetida:
“Eles me ordenaram que tirasse minhas roupas. É claro que não tirei. Então eles vieram e me despiram à força. Eles me despiram totalmente e algemaram minhas mãos atrás de mim e me jogaram no chão. Eram dois homens e uma mulher. A mulher pisou na minha cabeça e um dos homens cravou o joelho no meu abdômen enquanto minhas mãos estavam algemadas debaixo de mim no chão. Ele então passou a apertar meus seios, enquanto outro [soldado masculino] segurava minhas pernas e tentava me violar usando um bastão. Não importava o quanto eu gritasse, eles não paravam. Eu me lembro da dor. Parecia que vinha do ventre da terra e atravessava meu corpo como um tornado alcançando o céu. Como se todas as injustiças da história humana – perpetradas por humanos contra humanos – estivessem se reunindo naquela noite dentro deles [os soldados] e eles fossem despejar tudo sobre mim. Eles me carregaram e me exibiram. Alguns seguravam minhas mãos e alguns seguravam minhas pernas e me arrastaram na frente de uma fileira de homens. Eles tinham alinhado os homens apenas para me exibir nua na frente deles. Então me arrastaram de volta para a sala e começaram o processo tudo de novo. Naquele momento eu não aguentei mais e perdi a consciência.”
O relatório destaca ainda a célebre investigação promovida pelo jornal britânico The Sunday Times em junho de 1977, intitulada “Israel and Torture”. Com base em dezenas de entrevistas com sobreviventes palestinos submetidos ao centro de torturas Moskobiya, o jornal comprovou que a violência sexual não era exceção, mas regra institucionalizada. A maquiagem de “democracia” servia apenas ao beneplácito do imperialismo norte-americano e europeu, que financiava e armava o estado sionista enquanto suas ONGs de direitos humanos eram incapazes de fazer qualquer coisa.
O relato do marceneiro Omar Abdul-Karim, de Beit Sahur, explicita essa barbárie: após ser submetido a gases sufocantes, banhos congelantes e espancamentos, o interrogador israelense “Orli” apertou e esmagou seus genitais enquanto Omar estava suspenso pelos pulsos. Como declarou Omar: “A mente não pode imaginar como isso dói. Foi tão ruim que me fez esquecer todas as outras dores”.
Quem acompanha as notícias da imprensa alternativa e árabe sobre os prisioneiros palestinos do atual massacre em Gaza percebe que a tortura sexual, as mutilações genitais, os estupros sistemáticos e a degradação humana perpetrados contra palestinos desde 1967 não constituem anomalias, mas sim engrenagens indispensáveis de um projeto genocida que visa quebrar a espinha dorsal da Resistência e exterminar o povo palestino.
Uma antiga tática do imperialismo para manter sua dominação é apontar o dedo para bodes expiatórios quando já não é mais possível continuar com os mesmos agentes. Por isso os processos e acusações contra Netanyahu e seus capangas da extrema-direita sionista. Mas o histórico de décadas de torturas sexuais nos campos de concentração israelenses comprova que não se trata de um método exclusivo de tal ou qual partido: é uma política geral e sistemática do imperialismo, aplicada por seus funcionários de direita ou de esquerda em Israel. Portanto, não é substituindo o governo Netanyahu por outro que a situação irá melhorar para os palestinos. A única solução é o fim da ocupação com a destruição do Estado de Israel, que foi implantado artificialmente pelo imperialismo para aplicar exatamente essa política de extermínio e sofrimento aos povos da região.


