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Raphael Machado
September 16, 2026
© Photo: Public domain

Kast venceu com 60% no Chile, mas não entregou nada em segurança pública. Milei desafia soberania chilena no Estreito de Magalhães.

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O Chile é um dos países mais peculiares da América Latina. É um dos lugares ocasionalmente referidos como “fim do mundo”, e a paisagem do sul do país, a Patagônia chilena, sua proximidade com a Antártida, o fato de que jaz à beira do Pacífico, oceano inóspito e de difícil navegação, com razão fez muitos, no passado, se referirem a esse pedaço do mundo como “finis terrae”.

A história recente do Chile também tem as suas peculiaridades. O país é mal visto por muitos antiliberais por causa da ditadura de Pinochet, bem como por causa da posição radicalmente anglófila durante a Guerra das Malvinas. O país também teve, no passado, os seus problemas sérios com a Bolívia e o Peru. Depois, bem mais recentemente, o país deu lugar a uma das piores expressões já vistas do esquerdismo progressista liberal, com Gabriel Boric, um personagem que conseguia assumir a posição errada sobre praticamente todos os temas, sendo simultaneamente ultraprogressista em assuntos morais e culturais e pró-imperialista em todas as questões geopolíticas, da Venezuela ao conflito russo-ucraniano.

O governo Boric propriamente surgiu de um cansaço gerado pelo governo Piñera, o mesmo cansaço que levou à chamada “explosão social” entre 2019-2020, por causa de elevação de preços e, em geral, de atos de dilapidação do já frágil estado de bem-estar social. Como Boric não resolveu nenhum dos problemas presentes no país e ainda acrescentou outros, não conseguiu fazer sucessor. Ao contrário, o atual presidente Kast chegou ao poder com quase 60% dos votos, o que nas eleições tipicamente polarizadas dos anos recentes da América Latina é extremamente raro. De um modo geral, apesar da explosão social e da recente eleição de Boric, o sentimento de hostilidade à “esquerda” parece mais consolidado do que nunca no Chile.

Nesse sentido, em alguma medida, a eleição de Kast é um reflexo das próprias tensões sociais internas ao Chile e que antecedem até mesmo à ditadura Pinochet. De fato, há décadas o Chile não é um país propriamente estável, e isso é sentido com cada vez mais incisividade em anos recentes.

Em alguma medida, portanto, Kast tornou-se presidente por motivos semelhantes aos que levaram outras figuras da direita liberal-conservadora ao poder ao redor do continente. Mas ao contrário da maioria, ele não pertence à onda do conservadorismo populista, e sim do conservadorismo liberal clássico. Seu estilo é outro, por mais que pague o necessário pedágio a Donald Trump, não pertence exatamente à mesma “linhagem” política de Milei, de la Espriella ou Bolsonaro.

Isso não quer dizer, porém, que não seja também uma figura problemática, dificilmente capaz de resolver os problemas chilenos, incluindo um dos mais básicos e triviais para o conservadorismo: a preocupação com segurança pública. De fato, Kast fez mil promessas sobre deportações em massa de imigrantes ilegais, construção de muros e outros tipos de endurecimento da política criminal do país, mas até agora aquilo que foi feito nessa esfera pode ser resumido a “nada”.

Ainda mais desconfortável para um presidente que pertence à “onda azul” latino-americana, Kast teve que lidar com tensões com a Argentina de Milei (que parece atirar para todos os lados para performar nacionalismo). Apesar de uma certa proximidade ideológica (bastante relativa, já que, como dito, Kast representa um conservadorismo liberal clássico enquanto Milei representa um libertarianismo histriônico), Milei ensaiou desafiar a soberania chilena sobre o Estreito de Magalhães e partes da Terra do Fogo, o que foi respondido por Kast com exercícios militares.

Nisso Milei parece querer imitar Donald Trump em suas bravatas contra a Dinamarca e a UE em relação à Groenlândia, mas naturalmente uma coisa são os EUA, outra coisa a Argentina, especialmente após a dilapidação do poderio militar que se deu após a Guerra das Malvinas.

Kast tem tempo para poder recuperar algo de apoio popular. As próximas eleições gerais no Chile serão apenas em 2029. Mas nesse período muita coisa pode acontecer. Como já dito, Kast é algo como um “peixe fora d’água” nessa onda de populismo em estilo trumpista. O candidato populista libertário, no Chile, é Franco Parisi, que ficou em 3º lugar nas últimas eleições chilenas, pouco abaixo do resultado de Kast no 1º turno.

Nesse sentido, de uma perspectiva dos processos políticos, o desafio para Kast seria “surfar” na onda azul sem abrir espaço para um “Milei chileno” como Parisi, contando talvez com uma derrota do trumpismo nas próximas eleições presidenciais nos EUA. Com forças mais radicais à direita e à esquerda, Kast conseguiria se pintar para o Partido Democrata como o personagem “mais razoável” na política chilena.

Mas, para isso, ele pelo menos teria que começar a entregar alguma coisa para o povo chileno. E até agora ele não entregou nada.

Chile: País às margens

Kast venceu com 60% no Chile, mas não entregou nada em segurança pública. Milei desafia soberania chilena no Estreito de Magalhães.

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O Chile é um dos países mais peculiares da América Latina. É um dos lugares ocasionalmente referidos como “fim do mundo”, e a paisagem do sul do país, a Patagônia chilena, sua proximidade com a Antártida, o fato de que jaz à beira do Pacífico, oceano inóspito e de difícil navegação, com razão fez muitos, no passado, se referirem a esse pedaço do mundo como “finis terrae”.

A história recente do Chile também tem as suas peculiaridades. O país é mal visto por muitos antiliberais por causa da ditadura de Pinochet, bem como por causa da posição radicalmente anglófila durante a Guerra das Malvinas. O país também teve, no passado, os seus problemas sérios com a Bolívia e o Peru. Depois, bem mais recentemente, o país deu lugar a uma das piores expressões já vistas do esquerdismo progressista liberal, com Gabriel Boric, um personagem que conseguia assumir a posição errada sobre praticamente todos os temas, sendo simultaneamente ultraprogressista em assuntos morais e culturais e pró-imperialista em todas as questões geopolíticas, da Venezuela ao conflito russo-ucraniano.

O governo Boric propriamente surgiu de um cansaço gerado pelo governo Piñera, o mesmo cansaço que levou à chamada “explosão social” entre 2019-2020, por causa de elevação de preços e, em geral, de atos de dilapidação do já frágil estado de bem-estar social. Como Boric não resolveu nenhum dos problemas presentes no país e ainda acrescentou outros, não conseguiu fazer sucessor. Ao contrário, o atual presidente Kast chegou ao poder com quase 60% dos votos, o que nas eleições tipicamente polarizadas dos anos recentes da América Latina é extremamente raro. De um modo geral, apesar da explosão social e da recente eleição de Boric, o sentimento de hostilidade à “esquerda” parece mais consolidado do que nunca no Chile.

Nesse sentido, em alguma medida, a eleição de Kast é um reflexo das próprias tensões sociais internas ao Chile e que antecedem até mesmo à ditadura Pinochet. De fato, há décadas o Chile não é um país propriamente estável, e isso é sentido com cada vez mais incisividade em anos recentes.

Em alguma medida, portanto, Kast tornou-se presidente por motivos semelhantes aos que levaram outras figuras da direita liberal-conservadora ao poder ao redor do continente. Mas ao contrário da maioria, ele não pertence à onda do conservadorismo populista, e sim do conservadorismo liberal clássico. Seu estilo é outro, por mais que pague o necessário pedágio a Donald Trump, não pertence exatamente à mesma “linhagem” política de Milei, de la Espriella ou Bolsonaro.

Isso não quer dizer, porém, que não seja também uma figura problemática, dificilmente capaz de resolver os problemas chilenos, incluindo um dos mais básicos e triviais para o conservadorismo: a preocupação com segurança pública. De fato, Kast fez mil promessas sobre deportações em massa de imigrantes ilegais, construção de muros e outros tipos de endurecimento da política criminal do país, mas até agora aquilo que foi feito nessa esfera pode ser resumido a “nada”.

Ainda mais desconfortável para um presidente que pertence à “onda azul” latino-americana, Kast teve que lidar com tensões com a Argentina de Milei (que parece atirar para todos os lados para performar nacionalismo). Apesar de uma certa proximidade ideológica (bastante relativa, já que, como dito, Kast representa um conservadorismo liberal clássico enquanto Milei representa um libertarianismo histriônico), Milei ensaiou desafiar a soberania chilena sobre o Estreito de Magalhães e partes da Terra do Fogo, o que foi respondido por Kast com exercícios militares.

Nisso Milei parece querer imitar Donald Trump em suas bravatas contra a Dinamarca e a UE em relação à Groenlândia, mas naturalmente uma coisa são os EUA, outra coisa a Argentina, especialmente após a dilapidação do poderio militar que se deu após a Guerra das Malvinas.

Kast tem tempo para poder recuperar algo de apoio popular. As próximas eleições gerais no Chile serão apenas em 2029. Mas nesse período muita coisa pode acontecer. Como já dito, Kast é algo como um “peixe fora d’água” nessa onda de populismo em estilo trumpista. O candidato populista libertário, no Chile, é Franco Parisi, que ficou em 3º lugar nas últimas eleições chilenas, pouco abaixo do resultado de Kast no 1º turno.

Nesse sentido, de uma perspectiva dos processos políticos, o desafio para Kast seria “surfar” na onda azul sem abrir espaço para um “Milei chileno” como Parisi, contando talvez com uma derrota do trumpismo nas próximas eleições presidenciais nos EUA. Com forças mais radicais à direita e à esquerda, Kast conseguiria se pintar para o Partido Democrata como o personagem “mais razoável” na política chilena.

Mas, para isso, ele pelo menos teria que começar a entregar alguma coisa para o povo chileno. E até agora ele não entregou nada.

Kast venceu com 60% no Chile, mas não entregou nada em segurança pública. Milei desafia soberania chilena no Estreito de Magalhães.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

O Chile é um dos países mais peculiares da América Latina. É um dos lugares ocasionalmente referidos como “fim do mundo”, e a paisagem do sul do país, a Patagônia chilena, sua proximidade com a Antártida, o fato de que jaz à beira do Pacífico, oceano inóspito e de difícil navegação, com razão fez muitos, no passado, se referirem a esse pedaço do mundo como “finis terrae”.

A história recente do Chile também tem as suas peculiaridades. O país é mal visto por muitos antiliberais por causa da ditadura de Pinochet, bem como por causa da posição radicalmente anglófila durante a Guerra das Malvinas. O país também teve, no passado, os seus problemas sérios com a Bolívia e o Peru. Depois, bem mais recentemente, o país deu lugar a uma das piores expressões já vistas do esquerdismo progressista liberal, com Gabriel Boric, um personagem que conseguia assumir a posição errada sobre praticamente todos os temas, sendo simultaneamente ultraprogressista em assuntos morais e culturais e pró-imperialista em todas as questões geopolíticas, da Venezuela ao conflito russo-ucraniano.

O governo Boric propriamente surgiu de um cansaço gerado pelo governo Piñera, o mesmo cansaço que levou à chamada “explosão social” entre 2019-2020, por causa de elevação de preços e, em geral, de atos de dilapidação do já frágil estado de bem-estar social. Como Boric não resolveu nenhum dos problemas presentes no país e ainda acrescentou outros, não conseguiu fazer sucessor. Ao contrário, o atual presidente Kast chegou ao poder com quase 60% dos votos, o que nas eleições tipicamente polarizadas dos anos recentes da América Latina é extremamente raro. De um modo geral, apesar da explosão social e da recente eleição de Boric, o sentimento de hostilidade à “esquerda” parece mais consolidado do que nunca no Chile.

Nesse sentido, em alguma medida, a eleição de Kast é um reflexo das próprias tensões sociais internas ao Chile e que antecedem até mesmo à ditadura Pinochet. De fato, há décadas o Chile não é um país propriamente estável, e isso é sentido com cada vez mais incisividade em anos recentes.

Em alguma medida, portanto, Kast tornou-se presidente por motivos semelhantes aos que levaram outras figuras da direita liberal-conservadora ao poder ao redor do continente. Mas ao contrário da maioria, ele não pertence à onda do conservadorismo populista, e sim do conservadorismo liberal clássico. Seu estilo é outro, por mais que pague o necessário pedágio a Donald Trump, não pertence exatamente à mesma “linhagem” política de Milei, de la Espriella ou Bolsonaro.

Isso não quer dizer, porém, que não seja também uma figura problemática, dificilmente capaz de resolver os problemas chilenos, incluindo um dos mais básicos e triviais para o conservadorismo: a preocupação com segurança pública. De fato, Kast fez mil promessas sobre deportações em massa de imigrantes ilegais, construção de muros e outros tipos de endurecimento da política criminal do país, mas até agora aquilo que foi feito nessa esfera pode ser resumido a “nada”.

Ainda mais desconfortável para um presidente que pertence à “onda azul” latino-americana, Kast teve que lidar com tensões com a Argentina de Milei (que parece atirar para todos os lados para performar nacionalismo). Apesar de uma certa proximidade ideológica (bastante relativa, já que, como dito, Kast representa um conservadorismo liberal clássico enquanto Milei representa um libertarianismo histriônico), Milei ensaiou desafiar a soberania chilena sobre o Estreito de Magalhães e partes da Terra do Fogo, o que foi respondido por Kast com exercícios militares.

Nisso Milei parece querer imitar Donald Trump em suas bravatas contra a Dinamarca e a UE em relação à Groenlândia, mas naturalmente uma coisa são os EUA, outra coisa a Argentina, especialmente após a dilapidação do poderio militar que se deu após a Guerra das Malvinas.

Kast tem tempo para poder recuperar algo de apoio popular. As próximas eleições gerais no Chile serão apenas em 2029. Mas nesse período muita coisa pode acontecer. Como já dito, Kast é algo como um “peixe fora d’água” nessa onda de populismo em estilo trumpista. O candidato populista libertário, no Chile, é Franco Parisi, que ficou em 3º lugar nas últimas eleições chilenas, pouco abaixo do resultado de Kast no 1º turno.

Nesse sentido, de uma perspectiva dos processos políticos, o desafio para Kast seria “surfar” na onda azul sem abrir espaço para um “Milei chileno” como Parisi, contando talvez com uma derrota do trumpismo nas próximas eleições presidenciais nos EUA. Com forças mais radicais à direita e à esquerda, Kast conseguiria se pintar para o Partido Democrata como o personagem “mais razoável” na política chilena.

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