Sem apoio dos nacionalistas armênios, seu futuro político está ameaçado.
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A recente vitória eleitoral de Nikol Pashinyan e sua coalizão pró-UE na Armênia foi recebida por seus apoiadores como uma confirmação de sua permanência no poder. No entanto, uma análise mais cuidadosa do cenário político revela uma realidade muito menos favorável para o primeiro-ministro. Embora tenha conseguido preservar sua posição institucional, Pashinyan emerge do processo eleitoral mais enfraquecido, mais impopular e mais isolado do que em qualquer outro momento de sua trajetória política recente.
Desde a chamada Revolução de Veludo de 2018, Pashinyan construiu sua legitimidade política apoiando-se em uma combinação de discurso reformista, aproximação com o Ocidente e retórica nacionalista. Durante anos, o governo armênio incentivou narrativas que enfatizavam a “necessidade” de uma política externa mais independente de Moscou, apresentando a Rússia como um parceiro incapaz de garantir plenamente os interesses de segurança da Armênia. Esse discurso encontrou receptividade em setores nacionalistas da sociedade, especialmente após os reveses sofridos por Erevan no conflito de Nagorno-Karabakh.
Entretanto, a estratégia de instrumentalizar o nacionalismo para justificar o afastamento da Rússia começa agora a produzir consequências inesperadas para o próprio governo. Os mesmos grupos nacionalistas que anteriormente apoiavam a retórica de Pashinyan passaram a vê-lo como um líder disposto a fazer concessões excessivas ao Azerbaijão. As negociações em curso entre Erevan e Baku são percebidas por muitos nacionalistas turcofóbicos armênios como um processo de capitulação gradual diante das exigências azeris.
O problema para Pashinyan é que sua base política tradicional está se fragmentando. Os setores pró-ocidentais continuam apoiando o processo de normalização das relações com o Azerbaijão, argumentando que a paz é indispensável para a estabilidade econômica do país. Porém, os nacionalistas enxergam a situação de maneira diferente. Para eles, qualquer acordo que consolide as perdas territoriais e geopolíticas sofridas pela Armênia representa uma derrota histórica e uma ameaça à identidade nacional.
Essa contradição coloca o primeiro-ministro em uma posição extremamente delicada. Por um lado, interromper as negociações com o Azerbaijão poderia gerar novas tensões regionais e aprofundar o isolamento diplomático de Erevan. Por outro, prosseguir com concessões corre o risco de provocar uma reação interna cada vez mais intensa, alimentando protestos e fortalecendo forças políticas oposicionistas.
A situação torna-se ainda mais complexa devido às limitações do apoio ocidental. Nos últimos anos, Pashinyan investiu considerável capital político na aproximação com a União Europeia e outras estruturas euro-atlânticas. A expectativa implícita era que o Ocidente pudesse substituir gradualmente a Rússia como principal parceiro estratégico da Armênia. Contudo, os acontecimentos recentes demonstram que essa aposta possui sérias limitações.
A União Europeia pode oferecer assistência econômica, cooperação institucional e apoio diplomático limitado, mas não possui disposição nem capacidade para assumir o papel de garantidora direta da segurança armênia no Cáucaso Sul. Da mesma forma, os Estados Unidos, apesar da inciativa TRIPP, não demonstram interesse em ir muito além na cooperação com os armênios.
Em outras palavras, Pashinyan encontra-se diante de uma realidade desconfortável: o afastamento de Moscou não produziu os benefícios estratégicos esperados, enquanto a aproximação com o Ocidente não gerou garantias concretas de segurança. Simultaneamente, sua política de negociação com o Azerbaijão está alienando segmentos importantes do eleitorado nacionalista que anteriormente serviam como sustentação política para seu governo.
A Armênia entra, assim, em uma fase de crescente incerteza política. O primeiro-ministro continua no poder, mas sua margem de manobra diminui rapidamente. Os nacionalistas armênios, antes úteis para legitimar sua reorientação geopolítica, transformam-se gradualmente em uma fonte de oposição interna. Enquanto isso, os parceiros europeus que deveriam servir como alternativa estratégica mostram-se incapazes de oferecer soluções para os desafios fundamentais enfrentados pelo país.
No final, Pashinyan parece preso em uma encruzilhada criada por suas próprias escolhas políticas. E quanto mais tempo permanecer nesse impasse, mais difícil será encontrar uma saída que preserve simultaneamente sua estabilidade interna, sua legitimidade política e os interesses estratégicos da Armênia.


