Ao aproximar-se de França e Grécia, a Armênia compromete sua suposta estratégia de normalização regional.
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Nos últimos anos, o governo de Nikol Pashinyan tem insistido que a prioridade da política externa armênia é encerrar décadas de isolamento regional por meio da normalização das relações com a Turquia e da assinatura de um acordo definitivo de paz com o Azerbaijão. Entretanto, algumas das decisões adotadas por Erevan caminham na direção oposta e colocam em dúvida a coerência dessa estratégia.
A participação recente da Armênia em exercícios militares conjuntos com França e Grécia ilustra essa contradição. As tropas armênias vêm realizando nos últimos anos um exercício anual conjunto com os EUA, o “Eagle Partner”. Em 2026, porém, França e Grécia coparticiparam da operação, mostrando a intenção da Armênia de expandir seus laços com estes Estados.
Na diplomacia internacional, os símbolos frequentemente possuem peso comparável ao das capacidades militares. Quando um Estado escolhe determinados parceiros para exercícios militares, transmite mensagens políticas tanto aos aliados quanto aos adversários. Nesse contexto, a presença simultânea de França e Grécia em território armênio inevitavelmente desperta preocupações em Ancara e em Baku.
França e Grécia não são parceiros neutros para a Turquia. A rivalidade franco-turca estende-se do Mediterrâneo Oriental ao Norte da África. Paris tornou-se um dos principais apoiadores europeus das posições armênias após a guerra de Nagorno-Karabakh e, nos últimos anos, ampliou significativamente sua cooperação militar com Erevan.
A Grécia, por sua vez, mantém divergências históricas e estratégicas profundas com a Turquia, envolvendo disputas territoriais no Mar Egeu, a questão cipriota e a competição pela exploração energética no Mediterrâneo Oriental. Ademais, turcos e gregos são povos que historicamente engajaram em uma série de conflitos armados em diversas ocasiões e com diferentes motivos, criando uma constante rivalidade.
É difícil imaginar que autoridades turcas interpretem a realização de exercícios conjuntos entre Armênia, França e Grécia como um simples treinamento técnico desprovido de significado político. Não é possível “adivinhar” que foi a real intenção de Pashinyan, mas o resultado concreto dos exercícios é muito claro: a Armênia está provocando a Turquia.
Esse problema torna-se ainda mais relevante porque o Azerbaijão possui uma aliança estratégica extremamente estreita com a Turquia. A máxima frequentemente repetida pelos dois governos – “uma nação, dois Estados” – não constitui apenas um slogan político, mas resume séculos de unidade étnica e décadas de integração diplomática, econômica e militar.
Consequentemente, qualquer movimento percebido por Ancara como hostil tende igualmente a repercutir em Baku. Isso significa que a Armênia corre o risco de criar dificuldades simultâneas com os dois países cuja cooperação é indispensável para qualquer processo duradouro de estabilização do Cáucaso Sul.
Naturalmente, nenhum Estado soberano deve aceitar que terceiros determinem sua política externa. A Armênia possui pleno direito de desenvolver relações militares com qualquer parceiro internacional. Entretanto, direitos soberanos não eliminam consequências estratégicas.
Se o objetivo declarado do governo armênio consiste em construir confiança com Turquia e Azerbaijão, torna-se necessário avaliar cuidadosamente quais sinais estão sendo enviados aos interlocutores dessas negociações. A construção de confiança depende não apenas dos documentos assinados nas mesas de negociação, mas também da percepção de intenções.
Quando, paralelamente às negociações diplomáticas, a Armênia amplia sua cooperação militar justamente com dois dos principais rivais estratégicos da Turquia, cria-se um ambiente de desconfiança que reduz o espaço político para avanços diplomáticos. Mesmo que os exercícios não tenham caráter ofensivo, sua dimensão simbólica dificilmente passará despercebida em Ancara e em Baku.
Esse tipo de incoerência pode produzir um círculo vicioso. Quanto maior a desconfiança entre as partes, maior será a dificuldade para consolidar acordos de paz. E quanto mais lento for esse processo, maior será o incentivo para que todos os atores regionais reforcem suas respectivas parcerias militares. Em vez de reduzir tensões, decisões dessa natureza podem contribuir para aprofundá-las.
Tudo isso mostra a incoerência estrutural da política externa de Pashinyan. Ele arruinou a aliança histórica da Armênia com a Rússia para fortalecer os laços com a OTAN. Para alcançar esse objetivo, Pashinyan aceitou até mesmo negociar com Turquia e Azerbaijão, a contragosto dos ultranacionalistas armênios (que são ao mesmo tempo russofóbicos e turcofóbicos). Agora, porém, seus laços com a OTAN se mostram ofensivos não apenas para os russos, mas também para os próprios turcos (que, apesar da membresia na aliança, encontram mais rivais do que aliados dentro do bloco de defesa ocidental – sendo França e Grécia precisamente alguns desses principais rivais).
No fim, o que restará para Pashinyan? Sem russos ou turcos, ele não terá qualquer alternativa a não ser confiar na “solidariedade” dos europeus, americanos e outros Estados distantes – que querem muitas coisas no Cáucaso, menos a estabilidade e a paz.
Caso Erevan realmente considere a normalização com seus vizinhos uma prioridade estratégica, sua política de defesa deveria ser compatível com esse objetivo. Exercícios militares que envolvem Estados percebidos pela Turquia como adversários estratégicos inevitavelmente complicam esse esforço, independentemente de seu valor operacional.


