China confronta EUA, declara nulas sanções contra Irã e se junta a Rússia e Irã. Triunvirato multipolar vira jogo e enterra hegemonia ocidental.
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O mundo ocidental assiste, muitas vezes sem o compreender na sua total extensão, ao encerramento de um ciclo histórico que dominou os últimos oitenta anos. O momento em que a China decidiu repudiar frontalmente as sanções dos EUA contra o petróleo iraniano — proibindo as suas instituições e empresas de aplicarem as directrizes delineadas por figuras como Scott Bessent — não se tratou de um mero percalço nas relações sino-americanas. Tratou-se, sim, de um “momento de Arquimedes” evidenciado por Pequim e assim manifestado perante terceiros. Pela primeira vez, a República Popular da China não procurou subterfúgios, vias transversais ou mitigações silenciosas para contornar a vontade de Washington. Pela primeira vez, a China confrontou directamente os EUA, declarando a nulidade das suas sanções em solo chinês e sujeitando‑se, de peito aberto, à punição.
Se, até ao momento, a China apenas tinha respondido a sanções directamente a si apontadas, respondendo, muitas vezes, é certo, de forma assimétrica, mas nunca correndo o risco de fazer perigar a relação dos seus maiores bancos com o sistema SWIFT e o dólar, desta feita Pequim decidiu não mais compactuar com a ideia de eficácia extraterritorial da legislação norte‑americana. Esta decisão representa o epílogo de uma longa escalada de confronto comercial, à qual a China sempre se foi furtando com assimetria, finta e esquiva. No caso do petróleo ou gás russos, Pequim optou sempre por fazer recuar os seus bancos estatais, recorrendo a pequenos bancos regionais que operam em circuitos muito circunscritos e fora da malha de controlo do dólar.
Ora, se certezas existem face às características metódicas, racionais, pacientes e calculadas do “modus operandi” chinês, é que esta não se tratou de uma decisão impulsiva; antes, constitui o resultado de uma avaliação fria e geoestratégica. Resultará de uma análise materialista, dialéctica e sustentada, ao abrigo da qual Pequim terá concluído que a relação de forças foi finalmente invertida a seu favor. O impasse que durou uma década — aquele “interregno” gramsciano onde o mundo velho morria e o novo tardava a nascer (e a compor‑se) — chegou ao fim. O Triunvirato Multipolar (China, Rússia e Irão) não só sobreviveu ao cerco como tomou o topo da colina. A partir de agora, Pequim e o Sul Global sabem que têm três pilares sólidos onde sustentar uma estratégia económica, de segurança, política, comercial ou social alternativa, e tomam consciência de que, com apoio mútuo, cada um desses pilares é bem capaz de sobreviver e sustentar-se por si próprio.
Importa, em seguida, saber o que conduziu a este momento, a esta viragem. O que é que terá feito a água ferver? O que terá precipitado o empurrão que acabará com a demonstração efectiva da incapacidade, por parte do Ocidente (EUA/NATO/G7 e vassalos), de conter a expansão da multipolaridade, bem como das suas âncoras? Com isto não quero dizer — e não podemos partir dessa premissa, face ao poder acumulado no Ocidente ao longo de 500 anos de domínio e do controlo de uma arquitectura mundial por si, e para si, constituída — que o Ocidente não será capaz de mitigar, travar em algum momento, ou até, pontualmente ou tacticamente, prevalecer sobre o mundo multipolar, contendo a sua construção, consolidação, expansão e avanço. Nem por sombras. Mas não mais poderá derrotar essa tendência!
Existem dois pilares fundamentais cuja construção e sobrevivência nos conduziram até aqui: a sobrevivência da Rússia e do Irão aos ataques perpetrados — ao longo de décadas — pelos EUA e pelos seus vassalos na Europa e na Ásia Ocidental. A confiança chinesa para este embate frontal alicerça-se na observação do fracasso ocidental em derrubar os outros dois pilares da ordem multipolar. Os pilares que constituem uma espécie de triunvirato informal, não eleito nem assumido, mas constituído pela realidade material que observamos, todos reunindo a capacidade de, sem risco de perecimento e derrota estratégica, rechaçar e enfrentar, de olhos bem abertos, o poderio dos EUA. São os únicos e não o são por acaso. São, porque assim o dizem os seus inimigos, que os elegeram como vértices de um triângulo geográfico sobre o qual se sustentaria o enfrentamento multipolar ao poder unipolar. Não foi por acaso que Brzezinsky disse no seu seminal “O Grande Tabuleiro de Xadrez: A Primazia Americana e Seus Imperativos Geoestratégicos” (The Grand Chessboard)”
O primeiro desses vértices ou pilares a experimentar e superar a necessária prova foi a Federação Russa. Os EUA, utilizando a NATO e a União Europeia como braços operacionais, mobilizaram todo o seu arsenal de recursos bélicos (o que muitos designaram como “guerra híbrida”): sanções económicas sem precedentes, instabilização política e confronto cinético por procuração. Um crescendo de intensidade conflitual que só foi aumentando desde o momento em que os russos, em reacção à queda da URSS e à tentativa de destruição da própria Rússia — operada sob o comando de um descontrolado Ieltsin — decidiram travar o descalabro e iniciar o amargo processo de reconstrução.
No entanto, apesar da intensidade do cerco geográfico da NATO, da força das ONG instaladas no seu território e dos vastos montantes aí investidos pela USAID, a verdade é que a Federação Russa aguentou, contra‑atacou e recuperou parte importante do seu potencial e da sua escala industrial.
Para o Sul Global, Moscovo deixou de ser uma potência em declínio para se tornar o símbolo da resistência à unipolaridade. De todo este processo, a Federação Russa e líderes como Putin, Medvedev, Peskov, Patrushev ou Serguei Lavrov tornaram-se amplamente reconhecidos e admirados no Sul Global. Como em tudo, com mais ou menos mérito, frustraram-se os planos ocidentais. 20 pacotes de sanções, um beco energético e um buraco sem matérias-primas e sem saída que prendem a EU e uma indústria militar 3 a 5 vezes menos capaz do que a Rússia, tudo associado a um crescimento económico em média superior ao da EU, são factores bem demonstrativos do porquê do impasse a que se chegou. O Ocidente exige que Moscovo lhe reconheça uma vitória que não logrou em nenhum dos planos em que moveu combate ao inimigo.
O segundo caso, o segundo degrau da subida do triunvirato multipolar ao topo da colina, foi o Irão. Washington — desta feita servindo-se de Israel e das monarquias do Golfo — tentou asfixiar o regime persa, mas o resultado foi oposto ao pretendido: o Irão demonstrou ser uma potência tecnológica capaz de sobreviver a décadas de assédio brutal, revelando uma capacidade efectiva de disrupção da economia mundial. Deste confronto e apesar de todas as linhas dirigentes assassinadas pelos EUA, Israel e certas monarquias do Golfo, o Sul Global constatou que o Irão é um país amplamente mais importante e poderoso do que faria supor a caricatura que Hollywood e a imprensa do regime haviam feito dele.
Um exemplo interessante do que o Irão conseguiu consiste no caso dos vídeos musicais “Lego”, que conquistaram o mundo e são o símbolo de um soft power com que o Irão até hoje não contava. O impasse a que chegámos, quando Trump é obrigado a dizer “nós ganhamos, mas admito que os iranianos achem que não foram derrotados”, conta-nos que os EUA não sabem como sair do buraco em que se enterraram.
Ao não perceber que, face à bravata que faz de si, apresentando-se ao mundo como todo-poderoso e com estatuto quase divino, coloca as vítimas da agressão numa situação em que, para ganharem, basta não morrerem, Washington torna todas as possíveis vitórias em derrotas iminentes. Nem derrubaram o “regime”, nem o desarmaram dos seus mísseis mais poderosos, nem lhe tiraram o urânio, nem acabaram com o seu plano nuclear e ainda acabaram por entupir o estreito de Ormuz, quando antes se encontrava desentupido.
Agora, querendo reunir um grupo de 20 vassalos voluntários armados em canalizadores-desentupidores, a ver vamos se não acabam por deixar tudo sem internet, uma vez que por ali também passam importantíssimos cabos submarinos. O Irão agradeceu e, como nação capaz, soberana e senhora do seu nariz, aproveitou a agressão para a transformar em oportunidade de se tornar numa potência de âmbito global, capaz de derrubar toda a economia mundial.
Tudo isto só poderia acabar, tal como no caso da Federação Russa, com os agressores a culparem Pequim pela sua própria incapacidade de derrubar estes dois pilares do triunvirato multipolar. Desta forma, os EUA e a UE expuseram a sua maior fraqueza: a impotência militar e industrial para confrontar potências preparadas e capazes de responder de forma veemente aos ataques sofridos. Se o objectivo era a punição da Federação Russa e do Irão pela veleidade de desconsiderarem o poder de dissuasão em que assentava a vaidade ocidental, ao falharem o tiro, EUA, NATO, EU, G7 e Israel viram desmoronar-se toda a sua estratégia de “contenção” da China e, por maioria de razão, da multipolaridade.
Agora, o Ocidente parece necessitar de um improvável “suicídio chinês” — uma submissão voluntária — para que os seus planos funcionem. Os EUA e a UE querem que a Federação Russa assuma uma derrota que não sofreu; EUA e Israel querem que o Irão lhes reconheça uma vitória que não conseguiram; uns e outros querem que Pequim se submeta a um poder de dissuasão que os próprios provaram ser mais débil do que o queriam admitir. A China, que era o alvo final de toda esta estratégia, encontrou uma protecção implacável onde antes parecia ter dúvidas de que pudesse existir.
Para compreendermos por que razão o Ocidente falhou neste embate, é preciso olhar para a erosão interna da Europa, a vassala preferida dos EUA. Enquanto a China se afirmava, a União Europeia mergulhava numa “Vassalização Estratégica” sem precedentes.
Embora o discurso oficial em Bruxelas e em Paris promova a “Autonomia Estratégica”, a realidade industrial conta uma história de dependência absoluta. O Relatório Draghi (2024) já alertava para a fragmentação da indústria de defesa europeia e a sua falta de escala frente aos gigantes transatlânticos. Quando olhamos para a indústria europeia, percebemos que, apesar de todo o investimento no armamentismo, será muito difícil fugir ao domínio omnipresente dos EUA em toda a cadeia de valor. Das licenças e royalties ligados à propriedade industrial, ao controlo de exportações, devido à incorporação de componentes, ao domínio do capital expresso de múltiplas formas, como obrigações, compra de acções, investimento de fundos como a Blackrock ou a Vanguard, em toda a cadeia de produção, ou ainda o domínio da finança e do sistema monetário, a UE encontra-se enredada numa malha de dependência dos EUA.
Esta vassalização explica a incapacidade europeia de servir como um real contrapeso. A “reindustrialização” europeia é uma ilusão se o capital que a sustenta e a tecnologia que a opera são extensões do complexo industrial-militar dos EUA. Pequim sabe que, ao confrontar Washington, está a confrontar um bloco cujo “músculo” europeu está atrofiado pela própria dependência em relação ao mestre transatlântico. Se os EUA pretendem confrontar o triunvirato multipolar, dividindo as frentes entre procuradores locais – a UE e a NATO no caso russo e Israel e o Golfo no caso iraniano – então, no caso russo, a estratégia teria de falhar, pois o atleta que os EUA escolheram para competir não apenas é aleijado, como não tem sequer vontade própria. Ora, numa era em que até as máquinas aprendem e tudo é movido a inteligência artificial, não ter vontade própria é uma limitação gravíssima.
A verdade é que até aqui, vivíamos um impasse. Os EUA tentavam impedir a ascensão das potências multipolares enquanto assistiam à deterioração da própria posição. Era um empate técnico no cimo da ladeira. Mas a resposta ríspida da China às sanções sobre o petróleo iraniano quebrou esse equilíbrio, ao dar a conhecer ao Sul Global que todos os acontecimentos que aí conduziram inauguraram uma nova era. Uma era em que o Ocidente reconhece que não pode ganhar aos seus oponentes, sem que estes aceitem a sua própria derrota (como o fizeram a Líbia ao prescindir do seu programa nuclear ou a Venezuela ao não lograr impedir o sequestro do seu presidente e sucumbir às demandas dos EUA).
Neste exacto momento, com Donald Trump em Pequim a desfazer-se em elogios ao seu homólogo chinês, a inversão é total. Nunca os EUA estiveram numa posição tão dependente e enfraquecida perante um oponente — nem mesmo no auge da Guerra Fria com a URSS. Enquanto a comunicação social ocidental continua a fabricar narrativas de “crise chinesa”, a realidade no terreno é a da confiança do vitorioso. O desfilar dos oligarcas dos EUA e o amontoado que fizeram para conseguir um breve aperto de mão de Xi, anunciou ao mundo todo uma das maiores ironias da história dos últimos 100 anos: 35 anos depois da auto-capitulação da URSS e do inaugurar do “fim da história” com a vitória do capitalismo, não existe nada mais irónico, paradoxal e desconcertante do que assistir a um exército de capitalistas monopolistas e na fase imperialista a procurarem entrar e salvar-se numa potência socialista! A maior potência mundial!
O que esta realidade comprova é que os EUA; o neoliberalismo, o capitalismo imperialista, todos cantaram vitória cedo demais! Afinal existem outros caminhos para a humanidade! O fim da história ainda não chegou!


