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Raphael Machado
June 19, 2026
© Photo: Public domain

Irã derrota EUA na guerra: EUA aceitam paz com devolução de US$ 312 bilhões e controle persa sobre Ormuz. Fim da hegemonia militar americana.

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Qualquer pessoa é cética quanto à sustentabilidade da “paz” que se desenha no Oriente Médio a partir do Memorando de Entendimento a ser assinado entre Irã e EUA em alguns dias. É plausível que ele nem mesmo venha a ser assinado. E mesmo que seja assinado, considerando que trata-se de um desdobramento gradual, em fases, de um processo de paz que duraria, no mínimo, 2 meses, é até difícil acreditar que tudo correrá como pretendido pelas partes e pelos mediadores paquistaneses.

Não obstante, nos termos tal como essa “paz” se apresenta e que foram aceitos pelos EUA, estamos diante de uma vitória acachapante do Irã. Mesmo que o processo diplomático seja descarrilhado, nada mudará o fato de que os EUA aceitaram a paz com o Irã em termos unilateralmente favoráveis aos persas e que deixam Teerã numa posição muito mais forte do que antes do início da guerra.

De início, o fracasso dos EUA deve ser visto como óbvio e se fundamenta numa avaliação muito simples: Washington não conseguiu alcançar qualquer objetivo estratégico no conflito com o Irã: o “regime” não foi derrubado, o programa nuclear não foi destruído, as capacidades militares não foram eliminadas, o apoio ao Eixo da Resistência não foi liquidado e, finalmente, não foi possível reabrir o Estreito de Ormuz pela força.

Os EUA cometeram o mais básico erro de todo conflito: avaliar equivocadamente a correlação de forças. E nisso, naturalmente, os EUA foram induzidos ao erro por Israel e por seus aliados dentro dos EUA. Desde o começo, as notícias indicam que o Pentágono se opôs à ação militar contra o Irã, por bons motivos.

Mesmo se levarmos em conta a dimensão tática e operacional, os EUA não foram capazes de se impor da maneira como pretendiam. Os EUA não conseguiram superioridade aérea sobre o Irã e apostaram nos disparos de mísseis de fora do espaço aéreo iraniano. Em boa parte das vezes em que os EUA penetraram o espaço aéreo iraniano, se depararam com sistemas antiaéreos capazes de derrubar até mesmo F35. Os EUA também não conseguiram tirar proveito de suas bases militares regionais, as quais foram fustigadas e anuladas operacionalmente por chuvas de mísseis e drones, dificultando a logística dos EUA e forçando-os a usar bases cada vez mais distantes. O Irã conseguiu, ainda, forçar os porta-aviões dos EUA a tomarem distância e um deles a voltar ao seu porto para manutenção. Os EUA, ademais, demonstraram não estarem ainda aptos a enfrentar uma guerra em que os drones desempenhem um papel tático central. Mas talvez o embaraço mais significativo tenha sido o fato de que o Irã forçou os EUA a se depararem com suas próprias deficiências industriais — os EUA gastaram grandes quantidades de Tomahawks, Patriots e outros tipos de mísseis ofensivos e defensivos, os quais são produzidos a conta-gotas. O fato dos estoques de mísseis estadunidenses despencarem rapidamente sem que qualquer objetivo fosse alcançado certamente foi determinante para a relutância dos EUA de reiniciar o conflito.

Houve, ainda, a situação muito mal explicada envolvendo a destruição de vários aviões e helicópteros numa suposta tentativa de resgate de um piloto perdido (piloto, este, que simplesmente nunca mais foi visto e que nem mesmo foi garantidamente identificado). O fato do cessar-fogo vir poucos dias após essa suposta operação de resgate nos indica que a história está muito mal contada e que talvez aquilo tenha sido uma operação fracassada de forças especiais para se apossar do urânio enriquecido do Irã.

É exatamente por isso que não passa de amadorismo reduzir a questão ao “controle do Estreito de Ormuz”, já que o próprio controle sobre o Estreito de Ormuz só foi possível precisamente porque o Irã surpreendeu os EUA taticamente através de sua capacidade de apresentar desafios para os quais os EUA não tinham respostas e de negar naquele terreno algumas vantagens militares importantes dos EUA.

Naturalmente, o controle do Estreito de Ormuz teve um impacto importante no conflito ao torná-lo mais complexo, uma questão global. A realização de ataques contra países árabes do Golfo e não apenas alvos estadunidenses e israelenses também seguiu a mesma lógica de demonstrar poder e transformar o conflito num problema mais amplo e complexo. Por si só, essa postura do Irã forçou o Catar a ceder e buscar uma paz separada e aproximação com o Irã.

Agora, se não basta apontar a incapacidade dos EUA de alcançar seus objetivos, bem como suas dificuldades táticas, para demonstrar a sua derrota para o Irã, certamente o desequilíbrio do Memorando de Entendimento, que representa um rascunho de tratado de paz, é prova suficiente.

O Memorando está programado para se desdobrar em 3 fases. O primeiro resultado imediato é o fim das ações militares em todas as frentes e o fim do bloqueio naval dos EUA. A situação do Líbano já é extremamente incerta por causa do “fator Coringa” que é Israel. Mas o fim do bloqueio naval, que já é realidade, deixou o Estreito de Ormuz no controle iraniano, que se não vai cobrar “pedágio”, já está cobrando uma “taxa de serviço” para autorizar o trânsito de navios.

A fase seguinte, a durar 30 dias, e a se iniciar após a assinatura do Memorando, envolve uma promessa por parte dos EUA de não aumentar sua presença militar nos arredores do Golfo Pérsico, a devolução de 12 bilhões de dólares congelados para o Irã, a remoção imediata de sanções às exportações de petróleo, gás e petroquímicos iranianos, a confirmação da gestão conjunta entre Irã e Omã sobre o Estreito de Ormuz e a promessa dos EUA de pressionar Israel a se retirar do Líbano. Em contrapartida a tudo isso, o Irã promete não buscar desenvolver ou adquirir armas nucleares.

E a última fase, cuja duração está prevista para pelo menos 60 dias, a devolução dos 12 bilhões de dólares congelados remanescentes, a concessão de 300 bilhões de dólares para reconstrução do Irã (o que equivale a uma indenização) e iniciar o processo de remoção de todas as sanções remanescentes. Em contrapartida, o Irã promete aceitar debater o seu enriquecimento de urânio.

Resumidamente, as obrigações iranianas neste Memorando são mínimas, enquanto os compromissos assumidos pelos EUA são desproporcionais. Por que assumir todos esses compromissos e aceitar todas essas condições se os EUA “ganharam” — como diz Trump — e poderiam “destruir o Irã a qualquer momento”?

A realidade é que entre crise internacional do petróleo, baixo estoque de mísseis, resiliência da população iraniana e dificuldade de lidar com mísseis hipersônicos e drones, os EUA repentinamente se viram num possível atoleiro apto a causar prejuízos infinitamente superiores a qualquer benefício possível de ser conquistado. Talvez finalmente consciente do erro em iniciar esse conflito, com uma popularidade baixíssima, sediando uma Copa do Mundo e preocupado com uma miríade de crises internas e externas, Trump parece ansioso por se livrar da “questão iraniana”.

O que fica provado, aqui, é que apesar dos EUA permanecerem uma superpotência militar, é possível derrotá-los sob certas condições específicas e com preparação suficiente. Não estamos, aqui, dizendo que qualquer país poderia derrotar os EUA numa guerra, mas que potências regionais dotadas de uma certa envergadura, imunizados contra revoluções coloridas e com anos de preparação militar e de investimento em tecnologias capazes de negar o potencial da marinha dos EUA e sua superioridade aérea, podem derrotá-los numa guerra defensiva.

Tendo passado recentemente pelo “momento unipolar” de superioridade inconteste dos EUA no pós-Guerra Fria, cuja máxima expressão foi a rápida destruição do regime de Saddam Hussein, claramente o mundo não é mais o mesmo, o que por si só já é uma prova de que estamos numa fase de transição geopolítica na direção da multipolaridade.

Enfraquecidos no Oriente Médio, o Irã é deixado no controle do Estreito de Ormuz. Sua capacidade de enfrentar simultaneamente todos os países árabes do Golfo está provada, e a incapacidade israelense de derrotar o Irã sem ajuda dos EUA idem. Abre-se para o Oriente Médio, com isso, a possibilidade de uma pax iranica regional, ainda que muita água vá ainda rolar por debaixo dessa ponte.

Israel permanece, porém, sendo um problema. Movido por uma ideologia messiânica e acostumado a ser tratado com privilégios derivados da influência de sua diáspora, Israel não parece disposto a respeitar os termos do Memorando, tampouco a desistir de tentar estabelecer a Grande Israel pela força das armas. É o fator israelense que torna difícil a plena concretização de um acordo de paz entre Irã e EUA.

Pax Iranica? O fim da hegemonia militar inconteste dos EUA

Irã derrota EUA na guerra: EUA aceitam paz com devolução de US$ 312 bilhões e controle persa sobre Ormuz. Fim da hegemonia militar americana.

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Qualquer pessoa é cética quanto à sustentabilidade da “paz” que se desenha no Oriente Médio a partir do Memorando de Entendimento a ser assinado entre Irã e EUA em alguns dias. É plausível que ele nem mesmo venha a ser assinado. E mesmo que seja assinado, considerando que trata-se de um desdobramento gradual, em fases, de um processo de paz que duraria, no mínimo, 2 meses, é até difícil acreditar que tudo correrá como pretendido pelas partes e pelos mediadores paquistaneses.

Não obstante, nos termos tal como essa “paz” se apresenta e que foram aceitos pelos EUA, estamos diante de uma vitória acachapante do Irã. Mesmo que o processo diplomático seja descarrilhado, nada mudará o fato de que os EUA aceitaram a paz com o Irã em termos unilateralmente favoráveis aos persas e que deixam Teerã numa posição muito mais forte do que antes do início da guerra.

De início, o fracasso dos EUA deve ser visto como óbvio e se fundamenta numa avaliação muito simples: Washington não conseguiu alcançar qualquer objetivo estratégico no conflito com o Irã: o “regime” não foi derrubado, o programa nuclear não foi destruído, as capacidades militares não foram eliminadas, o apoio ao Eixo da Resistência não foi liquidado e, finalmente, não foi possível reabrir o Estreito de Ormuz pela força.

Os EUA cometeram o mais básico erro de todo conflito: avaliar equivocadamente a correlação de forças. E nisso, naturalmente, os EUA foram induzidos ao erro por Israel e por seus aliados dentro dos EUA. Desde o começo, as notícias indicam que o Pentágono se opôs à ação militar contra o Irã, por bons motivos.

Mesmo se levarmos em conta a dimensão tática e operacional, os EUA não foram capazes de se impor da maneira como pretendiam. Os EUA não conseguiram superioridade aérea sobre o Irã e apostaram nos disparos de mísseis de fora do espaço aéreo iraniano. Em boa parte das vezes em que os EUA penetraram o espaço aéreo iraniano, se depararam com sistemas antiaéreos capazes de derrubar até mesmo F35. Os EUA também não conseguiram tirar proveito de suas bases militares regionais, as quais foram fustigadas e anuladas operacionalmente por chuvas de mísseis e drones, dificultando a logística dos EUA e forçando-os a usar bases cada vez mais distantes. O Irã conseguiu, ainda, forçar os porta-aviões dos EUA a tomarem distância e um deles a voltar ao seu porto para manutenção. Os EUA, ademais, demonstraram não estarem ainda aptos a enfrentar uma guerra em que os drones desempenhem um papel tático central. Mas talvez o embaraço mais significativo tenha sido o fato de que o Irã forçou os EUA a se depararem com suas próprias deficiências industriais — os EUA gastaram grandes quantidades de Tomahawks, Patriots e outros tipos de mísseis ofensivos e defensivos, os quais são produzidos a conta-gotas. O fato dos estoques de mísseis estadunidenses despencarem rapidamente sem que qualquer objetivo fosse alcançado certamente foi determinante para a relutância dos EUA de reiniciar o conflito.

Houve, ainda, a situação muito mal explicada envolvendo a destruição de vários aviões e helicópteros numa suposta tentativa de resgate de um piloto perdido (piloto, este, que simplesmente nunca mais foi visto e que nem mesmo foi garantidamente identificado). O fato do cessar-fogo vir poucos dias após essa suposta operação de resgate nos indica que a história está muito mal contada e que talvez aquilo tenha sido uma operação fracassada de forças especiais para se apossar do urânio enriquecido do Irã.

É exatamente por isso que não passa de amadorismo reduzir a questão ao “controle do Estreito de Ormuz”, já que o próprio controle sobre o Estreito de Ormuz só foi possível precisamente porque o Irã surpreendeu os EUA taticamente através de sua capacidade de apresentar desafios para os quais os EUA não tinham respostas e de negar naquele terreno algumas vantagens militares importantes dos EUA.

Naturalmente, o controle do Estreito de Ormuz teve um impacto importante no conflito ao torná-lo mais complexo, uma questão global. A realização de ataques contra países árabes do Golfo e não apenas alvos estadunidenses e israelenses também seguiu a mesma lógica de demonstrar poder e transformar o conflito num problema mais amplo e complexo. Por si só, essa postura do Irã forçou o Catar a ceder e buscar uma paz separada e aproximação com o Irã.

Agora, se não basta apontar a incapacidade dos EUA de alcançar seus objetivos, bem como suas dificuldades táticas, para demonstrar a sua derrota para o Irã, certamente o desequilíbrio do Memorando de Entendimento, que representa um rascunho de tratado de paz, é prova suficiente.

O Memorando está programado para se desdobrar em 3 fases. O primeiro resultado imediato é o fim das ações militares em todas as frentes e o fim do bloqueio naval dos EUA. A situação do Líbano já é extremamente incerta por causa do “fator Coringa” que é Israel. Mas o fim do bloqueio naval, que já é realidade, deixou o Estreito de Ormuz no controle iraniano, que se não vai cobrar “pedágio”, já está cobrando uma “taxa de serviço” para autorizar o trânsito de navios.

A fase seguinte, a durar 30 dias, e a se iniciar após a assinatura do Memorando, envolve uma promessa por parte dos EUA de não aumentar sua presença militar nos arredores do Golfo Pérsico, a devolução de 12 bilhões de dólares congelados para o Irã, a remoção imediata de sanções às exportações de petróleo, gás e petroquímicos iranianos, a confirmação da gestão conjunta entre Irã e Omã sobre o Estreito de Ormuz e a promessa dos EUA de pressionar Israel a se retirar do Líbano. Em contrapartida a tudo isso, o Irã promete não buscar desenvolver ou adquirir armas nucleares.

E a última fase, cuja duração está prevista para pelo menos 60 dias, a devolução dos 12 bilhões de dólares congelados remanescentes, a concessão de 300 bilhões de dólares para reconstrução do Irã (o que equivale a uma indenização) e iniciar o processo de remoção de todas as sanções remanescentes. Em contrapartida, o Irã promete aceitar debater o seu enriquecimento de urânio.

Resumidamente, as obrigações iranianas neste Memorando são mínimas, enquanto os compromissos assumidos pelos EUA são desproporcionais. Por que assumir todos esses compromissos e aceitar todas essas condições se os EUA “ganharam” — como diz Trump — e poderiam “destruir o Irã a qualquer momento”?

A realidade é que entre crise internacional do petróleo, baixo estoque de mísseis, resiliência da população iraniana e dificuldade de lidar com mísseis hipersônicos e drones, os EUA repentinamente se viram num possível atoleiro apto a causar prejuízos infinitamente superiores a qualquer benefício possível de ser conquistado. Talvez finalmente consciente do erro em iniciar esse conflito, com uma popularidade baixíssima, sediando uma Copa do Mundo e preocupado com uma miríade de crises internas e externas, Trump parece ansioso por se livrar da “questão iraniana”.

O que fica provado, aqui, é que apesar dos EUA permanecerem uma superpotência militar, é possível derrotá-los sob certas condições específicas e com preparação suficiente. Não estamos, aqui, dizendo que qualquer país poderia derrotar os EUA numa guerra, mas que potências regionais dotadas de uma certa envergadura, imunizados contra revoluções coloridas e com anos de preparação militar e de investimento em tecnologias capazes de negar o potencial da marinha dos EUA e sua superioridade aérea, podem derrotá-los numa guerra defensiva.

Tendo passado recentemente pelo “momento unipolar” de superioridade inconteste dos EUA no pós-Guerra Fria, cuja máxima expressão foi a rápida destruição do regime de Saddam Hussein, claramente o mundo não é mais o mesmo, o que por si só já é uma prova de que estamos numa fase de transição geopolítica na direção da multipolaridade.

Enfraquecidos no Oriente Médio, o Irã é deixado no controle do Estreito de Ormuz. Sua capacidade de enfrentar simultaneamente todos os países árabes do Golfo está provada, e a incapacidade israelense de derrotar o Irã sem ajuda dos EUA idem. Abre-se para o Oriente Médio, com isso, a possibilidade de uma pax iranica regional, ainda que muita água vá ainda rolar por debaixo dessa ponte.

Israel permanece, porém, sendo um problema. Movido por uma ideologia messiânica e acostumado a ser tratado com privilégios derivados da influência de sua diáspora, Israel não parece disposto a respeitar os termos do Memorando, tampouco a desistir de tentar estabelecer a Grande Israel pela força das armas. É o fator israelense que torna difícil a plena concretização de um acordo de paz entre Irã e EUA.

Irã derrota EUA na guerra: EUA aceitam paz com devolução de US$ 312 bilhões e controle persa sobre Ormuz. Fim da hegemonia militar americana.

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Qualquer pessoa é cética quanto à sustentabilidade da “paz” que se desenha no Oriente Médio a partir do Memorando de Entendimento a ser assinado entre Irã e EUA em alguns dias. É plausível que ele nem mesmo venha a ser assinado. E mesmo que seja assinado, considerando que trata-se de um desdobramento gradual, em fases, de um processo de paz que duraria, no mínimo, 2 meses, é até difícil acreditar que tudo correrá como pretendido pelas partes e pelos mediadores paquistaneses.

Não obstante, nos termos tal como essa “paz” se apresenta e que foram aceitos pelos EUA, estamos diante de uma vitória acachapante do Irã. Mesmo que o processo diplomático seja descarrilhado, nada mudará o fato de que os EUA aceitaram a paz com o Irã em termos unilateralmente favoráveis aos persas e que deixam Teerã numa posição muito mais forte do que antes do início da guerra.

De início, o fracasso dos EUA deve ser visto como óbvio e se fundamenta numa avaliação muito simples: Washington não conseguiu alcançar qualquer objetivo estratégico no conflito com o Irã: o “regime” não foi derrubado, o programa nuclear não foi destruído, as capacidades militares não foram eliminadas, o apoio ao Eixo da Resistência não foi liquidado e, finalmente, não foi possível reabrir o Estreito de Ormuz pela força.

Os EUA cometeram o mais básico erro de todo conflito: avaliar equivocadamente a correlação de forças. E nisso, naturalmente, os EUA foram induzidos ao erro por Israel e por seus aliados dentro dos EUA. Desde o começo, as notícias indicam que o Pentágono se opôs à ação militar contra o Irã, por bons motivos.

Mesmo se levarmos em conta a dimensão tática e operacional, os EUA não foram capazes de se impor da maneira como pretendiam. Os EUA não conseguiram superioridade aérea sobre o Irã e apostaram nos disparos de mísseis de fora do espaço aéreo iraniano. Em boa parte das vezes em que os EUA penetraram o espaço aéreo iraniano, se depararam com sistemas antiaéreos capazes de derrubar até mesmo F35. Os EUA também não conseguiram tirar proveito de suas bases militares regionais, as quais foram fustigadas e anuladas operacionalmente por chuvas de mísseis e drones, dificultando a logística dos EUA e forçando-os a usar bases cada vez mais distantes. O Irã conseguiu, ainda, forçar os porta-aviões dos EUA a tomarem distância e um deles a voltar ao seu porto para manutenção. Os EUA, ademais, demonstraram não estarem ainda aptos a enfrentar uma guerra em que os drones desempenhem um papel tático central. Mas talvez o embaraço mais significativo tenha sido o fato de que o Irã forçou os EUA a se depararem com suas próprias deficiências industriais — os EUA gastaram grandes quantidades de Tomahawks, Patriots e outros tipos de mísseis ofensivos e defensivos, os quais são produzidos a conta-gotas. O fato dos estoques de mísseis estadunidenses despencarem rapidamente sem que qualquer objetivo fosse alcançado certamente foi determinante para a relutância dos EUA de reiniciar o conflito.

Houve, ainda, a situação muito mal explicada envolvendo a destruição de vários aviões e helicópteros numa suposta tentativa de resgate de um piloto perdido (piloto, este, que simplesmente nunca mais foi visto e que nem mesmo foi garantidamente identificado). O fato do cessar-fogo vir poucos dias após essa suposta operação de resgate nos indica que a história está muito mal contada e que talvez aquilo tenha sido uma operação fracassada de forças especiais para se apossar do urânio enriquecido do Irã.

É exatamente por isso que não passa de amadorismo reduzir a questão ao “controle do Estreito de Ormuz”, já que o próprio controle sobre o Estreito de Ormuz só foi possível precisamente porque o Irã surpreendeu os EUA taticamente através de sua capacidade de apresentar desafios para os quais os EUA não tinham respostas e de negar naquele terreno algumas vantagens militares importantes dos EUA.

Naturalmente, o controle do Estreito de Ormuz teve um impacto importante no conflito ao torná-lo mais complexo, uma questão global. A realização de ataques contra países árabes do Golfo e não apenas alvos estadunidenses e israelenses também seguiu a mesma lógica de demonstrar poder e transformar o conflito num problema mais amplo e complexo. Por si só, essa postura do Irã forçou o Catar a ceder e buscar uma paz separada e aproximação com o Irã.

Agora, se não basta apontar a incapacidade dos EUA de alcançar seus objetivos, bem como suas dificuldades táticas, para demonstrar a sua derrota para o Irã, certamente o desequilíbrio do Memorando de Entendimento, que representa um rascunho de tratado de paz, é prova suficiente.

O Memorando está programado para se desdobrar em 3 fases. O primeiro resultado imediato é o fim das ações militares em todas as frentes e o fim do bloqueio naval dos EUA. A situação do Líbano já é extremamente incerta por causa do “fator Coringa” que é Israel. Mas o fim do bloqueio naval, que já é realidade, deixou o Estreito de Ormuz no controle iraniano, que se não vai cobrar “pedágio”, já está cobrando uma “taxa de serviço” para autorizar o trânsito de navios.

A fase seguinte, a durar 30 dias, e a se iniciar após a assinatura do Memorando, envolve uma promessa por parte dos EUA de não aumentar sua presença militar nos arredores do Golfo Pérsico, a devolução de 12 bilhões de dólares congelados para o Irã, a remoção imediata de sanções às exportações de petróleo, gás e petroquímicos iranianos, a confirmação da gestão conjunta entre Irã e Omã sobre o Estreito de Ormuz e a promessa dos EUA de pressionar Israel a se retirar do Líbano. Em contrapartida a tudo isso, o Irã promete não buscar desenvolver ou adquirir armas nucleares.

E a última fase, cuja duração está prevista para pelo menos 60 dias, a devolução dos 12 bilhões de dólares congelados remanescentes, a concessão de 300 bilhões de dólares para reconstrução do Irã (o que equivale a uma indenização) e iniciar o processo de remoção de todas as sanções remanescentes. Em contrapartida, o Irã promete aceitar debater o seu enriquecimento de urânio.

Resumidamente, as obrigações iranianas neste Memorando são mínimas, enquanto os compromissos assumidos pelos EUA são desproporcionais. Por que assumir todos esses compromissos e aceitar todas essas condições se os EUA “ganharam” — como diz Trump — e poderiam “destruir o Irã a qualquer momento”?

A realidade é que entre crise internacional do petróleo, baixo estoque de mísseis, resiliência da população iraniana e dificuldade de lidar com mísseis hipersônicos e drones, os EUA repentinamente se viram num possível atoleiro apto a causar prejuízos infinitamente superiores a qualquer benefício possível de ser conquistado. Talvez finalmente consciente do erro em iniciar esse conflito, com uma popularidade baixíssima, sediando uma Copa do Mundo e preocupado com uma miríade de crises internas e externas, Trump parece ansioso por se livrar da “questão iraniana”.

O que fica provado, aqui, é que apesar dos EUA permanecerem uma superpotência militar, é possível derrotá-los sob certas condições específicas e com preparação suficiente. Não estamos, aqui, dizendo que qualquer país poderia derrotar os EUA numa guerra, mas que potências regionais dotadas de uma certa envergadura, imunizados contra revoluções coloridas e com anos de preparação militar e de investimento em tecnologias capazes de negar o potencial da marinha dos EUA e sua superioridade aérea, podem derrotá-los numa guerra defensiva.

Tendo passado recentemente pelo “momento unipolar” de superioridade inconteste dos EUA no pós-Guerra Fria, cuja máxima expressão foi a rápida destruição do regime de Saddam Hussein, claramente o mundo não é mais o mesmo, o que por si só já é uma prova de que estamos numa fase de transição geopolítica na direção da multipolaridade.

Enfraquecidos no Oriente Médio, o Irã é deixado no controle do Estreito de Ormuz. Sua capacidade de enfrentar simultaneamente todos os países árabes do Golfo está provada, e a incapacidade israelense de derrotar o Irã sem ajuda dos EUA idem. Abre-se para o Oriente Médio, com isso, a possibilidade de uma pax iranica regional, ainda que muita água vá ainda rolar por debaixo dessa ponte.

Israel permanece, porém, sendo um problema. Movido por uma ideologia messiânica e acostumado a ser tratado com privilégios derivados da influência de sua diáspora, Israel não parece disposto a respeitar os termos do Memorando, tampouco a desistir de tentar estabelecer a Grande Israel pela força das armas. É o fator israelense que torna difícil a plena concretização de um acordo de paz entre Irã e EUA.

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June 13, 2026

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