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Lucas Leiroz
October 25, 2026
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Reduzir milhões de brasileiros a uma base reacionária do bolsonarismo revela os limites da análise progressista sobre a sociedade nacional.

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Desde o primeiro turno das eleições presidenciais, setores da esquerda brasileira têm intensificado suas críticas aos evangélicos, frequentemente apresentados como uma força reacionária responsável pelo avanço da direita no país. Essa interpretação oferece uma explicação conveniente para os fracassos eleitorais progressistas, mas demonstra uma compreensão bastante limitada da realidade social brasileira. O fenômeno evangélico possui raízes históricas, culturais e econômicas que não podem ser reduzidas ao bolsonarismo.

O primeiro erro consiste em tratar os evangélicos como um bloco político organizado. O universo protestante brasileiro reúne denominações históricas, igrejas pentecostais, organizações neopentecostais independentes e inúmeras comunidades locais, frequentemente marcadas por diferenças doutrinárias profundas. Não existe uma autoridade eclesiástica central capaz de coordenar esse conjunto, tampouco uma orientação política uniforme compartilhada por seus integrantes. Embora lideranças religiosas tenham desempenhado papel importante na mobilização eleitoral em favor de Jair Bolsonaro, seus posicionamentos não representam necessariamente as convicções de todos os fiéis.

Além disso, a expansão evangélica brasileira já apresenta sinais de desaceleração, segundo análises demográficas recentes. Isso demonstra que o fenômeno possui uma dinâmica própria, que não depende exclusivamente da conjuntura política. Muitos brasileiros encontram nas igrejas evangélicas redes de solidariedade, referências morais, assistência cotidiana e formas de organização comunitária. Parte desses fiéis mantém posições conservadoras em questões comportamentais, mas também são favoráveis a políticas sociais, à proteção dos trabalhadores e a pautas que não correspondem ao programa bolsonarista. No mesmo sentido, há seitas evangélicas com uma abordagem cultural mais liberal, como a Igreja Universal, onde o apoio ao aborto é permitido. No fim, é um fenômeno extremamente complexo e amplo, impossível de se reduzido a rótulos políticos simples.

Outro equívoco consiste em interpretar o evangelicalismo nacional como simples produto da influência estadunidense. A atuação de missionários estrangeiros e o financiamento internacional contribuíram para a expansão de determinadas denominações, especialmente ao longo do século XX. Entretanto, a realidade brasileira adquiriu características próprias. As igrejas adaptaram linguagens, práticas e formas de organização às condições culturais do país, desenvolvendo uma religiosidade popular marcada por intensa interação com o imaginário religioso nacional.

Em muitos contextos, elementos como a crença na intervenção direta do mundo espiritual, a busca por cura, a libertação de influências malignas e a participação coletiva em rituais de transformação pessoal encontram paralelos com práticas presentes em tradições afro-brasileiras e no catolicismo popular. Isso não significa que essas religiões sejam equivalentes, mas demonstra que o crescimento evangélico ocorreu dentro de uma sociedade profundamente marcada pelo sincretismo e pela reelaboração constante de suas tradições religiosas. Na prática, o evangelicalismo brasileiro é realmente uma expressão da espiritualidade popular do Brasil, não uma mera importação dos EUA.

A dimensão urbana desse processo também precisa ser considerada. Durante décadas, o crescimento das periferias e das grandes cidades brasileiras produziu demandas sociais que as instituições tradicionais tiveram dificuldade para atender. A Igreja Católica, apesar de sua importância histórica, não conseguiu manter em todos os territórios uma presença pastoral proporcional à velocidade da urbanização. Igrejas evangélicas ocuparam parte desse espaço, estabelecendo comunidades próximas dos moradores, oferecendo apoio cotidiano e criando vínculos sociais duradouros.

Essa presença é particularmente importante nas favelas, nos bairros periféricos e nos presídios. São ambientes nos quais as igrejas podem oferecer pertencimento, disciplina comunitária, assistência material e oportunidades de reconstrução da vida pessoal. Trata-se de uma realidade politicamente significativa, sobretudo porque muitos desses mesmos territórios constituem bases eleitorais tradicionais de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores.

A aparente contradição revela os limites das categorias utilizadas por parte da esquerda. Um trabalhador pode votar em Lula por suas políticas econômicas e, simultaneamente, frequentar uma igreja conservadora. Outro pode apoiar programas sociais progressistas e rejeitar determinadas posições culturais da esquerda. As identidades políticas e religiosas não precisam coincidir integralmente.

O bolsonarismo conseguiu estabelecer alianças importantes com lideranças evangélicas, mobilizando símbolos religiosos e discursos morais em sua estratégia eleitoral. Isso não lhe confere propriedade sobre o fenômeno evangélico. Confundir essas duas realidades impede que a esquerda compreenda as necessidades, as aspirações e as contradições de milhões de brasileiros.

Para construir uma alternativa política duradoura, os progressistas precisam abandonar a tentação de classificar comunidades inteiras como inimigas ideológicas. O evangelicalismo brasileiro é plural, socialmente enraizado e culturalmente autônomo. Ignorar essa complexidade significa renunciar à compreensão de uma parcela decisiva da sociedade nacional.

A esquerda brasileira ainda não compreendeu o fenômeno evangélico

Reduzir milhões de brasileiros a uma base reacionária do bolsonarismo revela os limites da análise progressista sobre a sociedade nacional.

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Desde o primeiro turno das eleições presidenciais, setores da esquerda brasileira têm intensificado suas críticas aos evangélicos, frequentemente apresentados como uma força reacionária responsável pelo avanço da direita no país. Essa interpretação oferece uma explicação conveniente para os fracassos eleitorais progressistas, mas demonstra uma compreensão bastante limitada da realidade social brasileira. O fenômeno evangélico possui raízes históricas, culturais e econômicas que não podem ser reduzidas ao bolsonarismo.

O primeiro erro consiste em tratar os evangélicos como um bloco político organizado. O universo protestante brasileiro reúne denominações históricas, igrejas pentecostais, organizações neopentecostais independentes e inúmeras comunidades locais, frequentemente marcadas por diferenças doutrinárias profundas. Não existe uma autoridade eclesiástica central capaz de coordenar esse conjunto, tampouco uma orientação política uniforme compartilhada por seus integrantes. Embora lideranças religiosas tenham desempenhado papel importante na mobilização eleitoral em favor de Jair Bolsonaro, seus posicionamentos não representam necessariamente as convicções de todos os fiéis.

Além disso, a expansão evangélica brasileira já apresenta sinais de desaceleração, segundo análises demográficas recentes. Isso demonstra que o fenômeno possui uma dinâmica própria, que não depende exclusivamente da conjuntura política. Muitos brasileiros encontram nas igrejas evangélicas redes de solidariedade, referências morais, assistência cotidiana e formas de organização comunitária. Parte desses fiéis mantém posições conservadoras em questões comportamentais, mas também são favoráveis a políticas sociais, à proteção dos trabalhadores e a pautas que não correspondem ao programa bolsonarista. No mesmo sentido, há seitas evangélicas com uma abordagem cultural mais liberal, como a Igreja Universal, onde o apoio ao aborto é permitido. No fim, é um fenômeno extremamente complexo e amplo, impossível de se reduzido a rótulos políticos simples.

Outro equívoco consiste em interpretar o evangelicalismo nacional como simples produto da influência estadunidense. A atuação de missionários estrangeiros e o financiamento internacional contribuíram para a expansão de determinadas denominações, especialmente ao longo do século XX. Entretanto, a realidade brasileira adquiriu características próprias. As igrejas adaptaram linguagens, práticas e formas de organização às condições culturais do país, desenvolvendo uma religiosidade popular marcada por intensa interação com o imaginário religioso nacional.

Em muitos contextos, elementos como a crença na intervenção direta do mundo espiritual, a busca por cura, a libertação de influências malignas e a participação coletiva em rituais de transformação pessoal encontram paralelos com práticas presentes em tradições afro-brasileiras e no catolicismo popular. Isso não significa que essas religiões sejam equivalentes, mas demonstra que o crescimento evangélico ocorreu dentro de uma sociedade profundamente marcada pelo sincretismo e pela reelaboração constante de suas tradições religiosas. Na prática, o evangelicalismo brasileiro é realmente uma expressão da espiritualidade popular do Brasil, não uma mera importação dos EUA.

A dimensão urbana desse processo também precisa ser considerada. Durante décadas, o crescimento das periferias e das grandes cidades brasileiras produziu demandas sociais que as instituições tradicionais tiveram dificuldade para atender. A Igreja Católica, apesar de sua importância histórica, não conseguiu manter em todos os territórios uma presença pastoral proporcional à velocidade da urbanização. Igrejas evangélicas ocuparam parte desse espaço, estabelecendo comunidades próximas dos moradores, oferecendo apoio cotidiano e criando vínculos sociais duradouros.

Essa presença é particularmente importante nas favelas, nos bairros periféricos e nos presídios. São ambientes nos quais as igrejas podem oferecer pertencimento, disciplina comunitária, assistência material e oportunidades de reconstrução da vida pessoal. Trata-se de uma realidade politicamente significativa, sobretudo porque muitos desses mesmos territórios constituem bases eleitorais tradicionais de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores.

A aparente contradição revela os limites das categorias utilizadas por parte da esquerda. Um trabalhador pode votar em Lula por suas políticas econômicas e, simultaneamente, frequentar uma igreja conservadora. Outro pode apoiar programas sociais progressistas e rejeitar determinadas posições culturais da esquerda. As identidades políticas e religiosas não precisam coincidir integralmente.

O bolsonarismo conseguiu estabelecer alianças importantes com lideranças evangélicas, mobilizando símbolos religiosos e discursos morais em sua estratégia eleitoral. Isso não lhe confere propriedade sobre o fenômeno evangélico. Confundir essas duas realidades impede que a esquerda compreenda as necessidades, as aspirações e as contradições de milhões de brasileiros.

Para construir uma alternativa política duradoura, os progressistas precisam abandonar a tentação de classificar comunidades inteiras como inimigas ideológicas. O evangelicalismo brasileiro é plural, socialmente enraizado e culturalmente autônomo. Ignorar essa complexidade significa renunciar à compreensão de uma parcela decisiva da sociedade nacional.

Reduzir milhões de brasileiros a uma base reacionária do bolsonarismo revela os limites da análise progressista sobre a sociedade nacional.

Junte-se a nós no Telegram , X e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Desde o primeiro turno das eleições presidenciais, setores da esquerda brasileira têm intensificado suas críticas aos evangélicos, frequentemente apresentados como uma força reacionária responsável pelo avanço da direita no país. Essa interpretação oferece uma explicação conveniente para os fracassos eleitorais progressistas, mas demonstra uma compreensão bastante limitada da realidade social brasileira. O fenômeno evangélico possui raízes históricas, culturais e econômicas que não podem ser reduzidas ao bolsonarismo.

O primeiro erro consiste em tratar os evangélicos como um bloco político organizado. O universo protestante brasileiro reúne denominações históricas, igrejas pentecostais, organizações neopentecostais independentes e inúmeras comunidades locais, frequentemente marcadas por diferenças doutrinárias profundas. Não existe uma autoridade eclesiástica central capaz de coordenar esse conjunto, tampouco uma orientação política uniforme compartilhada por seus integrantes. Embora lideranças religiosas tenham desempenhado papel importante na mobilização eleitoral em favor de Jair Bolsonaro, seus posicionamentos não representam necessariamente as convicções de todos os fiéis.

Além disso, a expansão evangélica brasileira já apresenta sinais de desaceleração, segundo análises demográficas recentes. Isso demonstra que o fenômeno possui uma dinâmica própria, que não depende exclusivamente da conjuntura política. Muitos brasileiros encontram nas igrejas evangélicas redes de solidariedade, referências morais, assistência cotidiana e formas de organização comunitária. Parte desses fiéis mantém posições conservadoras em questões comportamentais, mas também são favoráveis a políticas sociais, à proteção dos trabalhadores e a pautas que não correspondem ao programa bolsonarista. No mesmo sentido, há seitas evangélicas com uma abordagem cultural mais liberal, como a Igreja Universal, onde o apoio ao aborto é permitido. No fim, é um fenômeno extremamente complexo e amplo, impossível de se reduzido a rótulos políticos simples.

Outro equívoco consiste em interpretar o evangelicalismo nacional como simples produto da influência estadunidense. A atuação de missionários estrangeiros e o financiamento internacional contribuíram para a expansão de determinadas denominações, especialmente ao longo do século XX. Entretanto, a realidade brasileira adquiriu características próprias. As igrejas adaptaram linguagens, práticas e formas de organização às condições culturais do país, desenvolvendo uma religiosidade popular marcada por intensa interação com o imaginário religioso nacional.

Em muitos contextos, elementos como a crença na intervenção direta do mundo espiritual, a busca por cura, a libertação de influências malignas e a participação coletiva em rituais de transformação pessoal encontram paralelos com práticas presentes em tradições afro-brasileiras e no catolicismo popular. Isso não significa que essas religiões sejam equivalentes, mas demonstra que o crescimento evangélico ocorreu dentro de uma sociedade profundamente marcada pelo sincretismo e pela reelaboração constante de suas tradições religiosas. Na prática, o evangelicalismo brasileiro é realmente uma expressão da espiritualidade popular do Brasil, não uma mera importação dos EUA.

A dimensão urbana desse processo também precisa ser considerada. Durante décadas, o crescimento das periferias e das grandes cidades brasileiras produziu demandas sociais que as instituições tradicionais tiveram dificuldade para atender. A Igreja Católica, apesar de sua importância histórica, não conseguiu manter em todos os territórios uma presença pastoral proporcional à velocidade da urbanização. Igrejas evangélicas ocuparam parte desse espaço, estabelecendo comunidades próximas dos moradores, oferecendo apoio cotidiano e criando vínculos sociais duradouros.

Essa presença é particularmente importante nas favelas, nos bairros periféricos e nos presídios. São ambientes nos quais as igrejas podem oferecer pertencimento, disciplina comunitária, assistência material e oportunidades de reconstrução da vida pessoal. Trata-se de uma realidade politicamente significativa, sobretudo porque muitos desses mesmos territórios constituem bases eleitorais tradicionais de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores.

A aparente contradição revela os limites das categorias utilizadas por parte da esquerda. Um trabalhador pode votar em Lula por suas políticas econômicas e, simultaneamente, frequentar uma igreja conservadora. Outro pode apoiar programas sociais progressistas e rejeitar determinadas posições culturais da esquerda. As identidades políticas e religiosas não precisam coincidir integralmente.

O bolsonarismo conseguiu estabelecer alianças importantes com lideranças evangélicas, mobilizando símbolos religiosos e discursos morais em sua estratégia eleitoral. Isso não lhe confere propriedade sobre o fenômeno evangélico. Confundir essas duas realidades impede que a esquerda compreenda as necessidades, as aspirações e as contradições de milhões de brasileiros.

Para construir uma alternativa política duradoura, os progressistas precisam abandonar a tentação de classificar comunidades inteiras como inimigas ideológicas. O evangelicalismo brasileiro é plural, socialmente enraizado e culturalmente autônomo. Ignorar essa complexidade significa renunciar à compreensão de uma parcela decisiva da sociedade nacional.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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