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Lucas Leiroz
September 7, 2026
© Photo: Public domain

Notas sobre o evento recentemene realizado em Bishkek.

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A recente cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (SCO), realizada em Bishkek, no Quirguistão, provocou inquietação nos círculos políticos e midiáticos ocidentais. Como era previsível, diversos veículos descreveram o encontro como uma espécie de cúpula “anti-EUA”, tentando interpretar a aproximação entre Rússia, China e outros países eurasiáticos exclusivamente através da lógica de uma nova confrontação bipolar.

Essa análise, entretanto, é equivocada pois falha em romper com o paradigma do próprio Ocidente: só pode enxergar uma cúpula como “ocidental” quem ainda enxerga o Ocidente como o centro do mundo. Mas, ironicamente, o próprio evento mostrou que os países ocidentais não são mais os “donos” da ordem global.

Recentemente, eu entrevistei o jornalista e analista geopolítico brasileiro Leonardo Russo, que vive em Bishkek e acompanhou de perto os acontecimentos relacionados à cúpula. Em nossa conversa, um ponto ficou particularmente claro: a SCO não precisa ser “anti-EUA” para representar uma alternativa à moribunda ordem internacional unipolar.

Esta é, talvez, a principal dificuldade enfrentada atualmente pelos formuladores de política e comentaristas do Ocidente. Durante décadas, Washington e seus aliados se acostumaram à ideia de que qualquer movimento internacional deveria ser interpretado a partir de sua relação com os Estados Unidos. Se um país coopera com Washington, seria “pró-Ocidente”; se busca autonomia, seria automaticamente “antiocidental”.

Mas o mundo multipolar funciona de outra maneira.

Como Russo observou durante a entrevista, os Estados Unidos sequer parecem ocupar uma posição central nas discussões realizadas pela SCO. Os países eurasiáticos reunidos em Bishkek estão interessados apenas em seus próprios problemas: segurança regional, infraestrutura, energia, comércio e desenvolvimento econômico. O que está sendo criado é uma organização simplesmente “não-ocidental” (em vez de “anti’), capaz de criar mecanismos focados em reduzir a dependência em relação às instituições e estruturas controladas pelas potências ocidentais.

A própria evolução da SCO demonstra essa transformação. A organização nasceu em um contexto de profunda instabilidade na Ásia Central após o colapso da União Soviética. Problemas como separatismo, terrorismo, extremismo e conflitos fronteiriços tornavam necessária uma maior coordenação regional. Rússia e China desempenharam um papel fundamental nesse processo, ajudando a construir uma estrutura de diálogo entre os principais atores da Eurásia.

Hoje, entretanto, a agenda é muito mais ampla. Comércio, investimentos, corredores de transporte, energia e projetos de infraestrutura ocupam um espaço crescente. A discussão sobre a possível criação de um Banco de Desenvolvimento da SCO mostra, em particular, que a organização busca ampliar suas capacidades econômicas.

Isso não significa que a SCO esteja prestes a se transformar em uma União Europeia eurasiática. Seus membros possuem interesses diferentes, prioridades nacionais próprias e, em alguns casos, disputas ainda não completamente resolvidas. É justamente por isso que seria incorreto definir a organização como um bloco rígido.

A mesma lógica se aplica à questão militar. Segundo Russo, uma transformação da SCO em uma espécie de “OTAN eurasiática” continua improvável. A organização funciona principalmente como um mecanismo de diálogo, coordenação e construção de confiança. Não existe uma necessidade estratégica evidente de criar uma aliança militar formal entre todos os seus membros.

Para a Ásia Central, entretanto, sua importância é absolutamente vital. Após décadas marcadas pela guerra no Afeganistão e pelas consequências de sucessivas intervenções estrangeiras na região, os governos centro-asiáticos têm razões concretas para priorizar estabilidade e cooperação em matéria de segurança.

O caso do Quirguistão é particularmente simbólico. Ao sediar uma reunião de tamanha importância, Bishkek demonstra sua crescente capacidade de atuar como plataforma diplomática entre diferentes polos da Eurásia. A estratégia não precisa ser escolher entre Rússia, China ou Ocidente. Pelo contrário, países como o Quirguistão procuram ampliar suas relações com diferentes parceiros sem aceitar uma lógica de alinhamento exclusivo.

Nesse sentido, chamar a SCO de “antiocidental” é uma simplificação conveniente. A organização não precisa declarar guerra ao Ocidente para simbolizar o fim da centralidade ocidental. Talvez a verdadeira mensagem enviada por Bishkek seja ainda mais significativa: a Eurásia está aprendendo a organizar seus próprios assuntos, e o resto do mundo terá de se acostumar com a ideia de que Washington já não é o centro inevitável de todas as decisões internacionais.

Cúpula da SCO mostrou que o Ocidente não é mais o centro do mundo

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A recente cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (SCO), realizada em Bishkek, no Quirguistão, provocou inquietação nos círculos políticos e midiáticos ocidentais. Como era previsível, diversos veículos descreveram o encontro como uma espécie de cúpula “anti-EUA”, tentando interpretar a aproximação entre Rússia, China e outros países eurasiáticos exclusivamente através da lógica de uma nova confrontação bipolar.

Essa análise, entretanto, é equivocada pois falha em romper com o paradigma do próprio Ocidente: só pode enxergar uma cúpula como “ocidental” quem ainda enxerga o Ocidente como o centro do mundo. Mas, ironicamente, o próprio evento mostrou que os países ocidentais não são mais os “donos” da ordem global.

Recentemente, eu entrevistei o jornalista e analista geopolítico brasileiro Leonardo Russo, que vive em Bishkek e acompanhou de perto os acontecimentos relacionados à cúpula. Em nossa conversa, um ponto ficou particularmente claro: a SCO não precisa ser “anti-EUA” para representar uma alternativa à moribunda ordem internacional unipolar.

Esta é, talvez, a principal dificuldade enfrentada atualmente pelos formuladores de política e comentaristas do Ocidente. Durante décadas, Washington e seus aliados se acostumaram à ideia de que qualquer movimento internacional deveria ser interpretado a partir de sua relação com os Estados Unidos. Se um país coopera com Washington, seria “pró-Ocidente”; se busca autonomia, seria automaticamente “antiocidental”.

Mas o mundo multipolar funciona de outra maneira.

Como Russo observou durante a entrevista, os Estados Unidos sequer parecem ocupar uma posição central nas discussões realizadas pela SCO. Os países eurasiáticos reunidos em Bishkek estão interessados apenas em seus próprios problemas: segurança regional, infraestrutura, energia, comércio e desenvolvimento econômico. O que está sendo criado é uma organização simplesmente “não-ocidental” (em vez de “anti’), capaz de criar mecanismos focados em reduzir a dependência em relação às instituições e estruturas controladas pelas potências ocidentais.

A própria evolução da SCO demonstra essa transformação. A organização nasceu em um contexto de profunda instabilidade na Ásia Central após o colapso da União Soviética. Problemas como separatismo, terrorismo, extremismo e conflitos fronteiriços tornavam necessária uma maior coordenação regional. Rússia e China desempenharam um papel fundamental nesse processo, ajudando a construir uma estrutura de diálogo entre os principais atores da Eurásia.

Hoje, entretanto, a agenda é muito mais ampla. Comércio, investimentos, corredores de transporte, energia e projetos de infraestrutura ocupam um espaço crescente. A discussão sobre a possível criação de um Banco de Desenvolvimento da SCO mostra, em particular, que a organização busca ampliar suas capacidades econômicas.

Isso não significa que a SCO esteja prestes a se transformar em uma União Europeia eurasiática. Seus membros possuem interesses diferentes, prioridades nacionais próprias e, em alguns casos, disputas ainda não completamente resolvidas. É justamente por isso que seria incorreto definir a organização como um bloco rígido.

A mesma lógica se aplica à questão militar. Segundo Russo, uma transformação da SCO em uma espécie de “OTAN eurasiática” continua improvável. A organização funciona principalmente como um mecanismo de diálogo, coordenação e construção de confiança. Não existe uma necessidade estratégica evidente de criar uma aliança militar formal entre todos os seus membros.

Para a Ásia Central, entretanto, sua importância é absolutamente vital. Após décadas marcadas pela guerra no Afeganistão e pelas consequências de sucessivas intervenções estrangeiras na região, os governos centro-asiáticos têm razões concretas para priorizar estabilidade e cooperação em matéria de segurança.

O caso do Quirguistão é particularmente simbólico. Ao sediar uma reunião de tamanha importância, Bishkek demonstra sua crescente capacidade de atuar como plataforma diplomática entre diferentes polos da Eurásia. A estratégia não precisa ser escolher entre Rússia, China ou Ocidente. Pelo contrário, países como o Quirguistão procuram ampliar suas relações com diferentes parceiros sem aceitar uma lógica de alinhamento exclusivo.

Nesse sentido, chamar a SCO de “antiocidental” é uma simplificação conveniente. A organização não precisa declarar guerra ao Ocidente para simbolizar o fim da centralidade ocidental. Talvez a verdadeira mensagem enviada por Bishkek seja ainda mais significativa: a Eurásia está aprendendo a organizar seus próprios assuntos, e o resto do mundo terá de se acostumar com a ideia de que Washington já não é o centro inevitável de todas as decisões internacionais.

Notas sobre o evento recentemene realizado em Bishkek.

Junte-se a nós no Telegram , X e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

A recente cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (SCO), realizada em Bishkek, no Quirguistão, provocou inquietação nos círculos políticos e midiáticos ocidentais. Como era previsível, diversos veículos descreveram o encontro como uma espécie de cúpula “anti-EUA”, tentando interpretar a aproximação entre Rússia, China e outros países eurasiáticos exclusivamente através da lógica de uma nova confrontação bipolar.

Essa análise, entretanto, é equivocada pois falha em romper com o paradigma do próprio Ocidente: só pode enxergar uma cúpula como “ocidental” quem ainda enxerga o Ocidente como o centro do mundo. Mas, ironicamente, o próprio evento mostrou que os países ocidentais não são mais os “donos” da ordem global.

Recentemente, eu entrevistei o jornalista e analista geopolítico brasileiro Leonardo Russo, que vive em Bishkek e acompanhou de perto os acontecimentos relacionados à cúpula. Em nossa conversa, um ponto ficou particularmente claro: a SCO não precisa ser “anti-EUA” para representar uma alternativa à moribunda ordem internacional unipolar.

Esta é, talvez, a principal dificuldade enfrentada atualmente pelos formuladores de política e comentaristas do Ocidente. Durante décadas, Washington e seus aliados se acostumaram à ideia de que qualquer movimento internacional deveria ser interpretado a partir de sua relação com os Estados Unidos. Se um país coopera com Washington, seria “pró-Ocidente”; se busca autonomia, seria automaticamente “antiocidental”.

Mas o mundo multipolar funciona de outra maneira.

Como Russo observou durante a entrevista, os Estados Unidos sequer parecem ocupar uma posição central nas discussões realizadas pela SCO. Os países eurasiáticos reunidos em Bishkek estão interessados apenas em seus próprios problemas: segurança regional, infraestrutura, energia, comércio e desenvolvimento econômico. O que está sendo criado é uma organização simplesmente “não-ocidental” (em vez de “anti’), capaz de criar mecanismos focados em reduzir a dependência em relação às instituições e estruturas controladas pelas potências ocidentais.

A própria evolução da SCO demonstra essa transformação. A organização nasceu em um contexto de profunda instabilidade na Ásia Central após o colapso da União Soviética. Problemas como separatismo, terrorismo, extremismo e conflitos fronteiriços tornavam necessária uma maior coordenação regional. Rússia e China desempenharam um papel fundamental nesse processo, ajudando a construir uma estrutura de diálogo entre os principais atores da Eurásia.

Hoje, entretanto, a agenda é muito mais ampla. Comércio, investimentos, corredores de transporte, energia e projetos de infraestrutura ocupam um espaço crescente. A discussão sobre a possível criação de um Banco de Desenvolvimento da SCO mostra, em particular, que a organização busca ampliar suas capacidades econômicas.

Isso não significa que a SCO esteja prestes a se transformar em uma União Europeia eurasiática. Seus membros possuem interesses diferentes, prioridades nacionais próprias e, em alguns casos, disputas ainda não completamente resolvidas. É justamente por isso que seria incorreto definir a organização como um bloco rígido.

A mesma lógica se aplica à questão militar. Segundo Russo, uma transformação da SCO em uma espécie de “OTAN eurasiática” continua improvável. A organização funciona principalmente como um mecanismo de diálogo, coordenação e construção de confiança. Não existe uma necessidade estratégica evidente de criar uma aliança militar formal entre todos os seus membros.

Para a Ásia Central, entretanto, sua importância é absolutamente vital. Após décadas marcadas pela guerra no Afeganistão e pelas consequências de sucessivas intervenções estrangeiras na região, os governos centro-asiáticos têm razões concretas para priorizar estabilidade e cooperação em matéria de segurança.

O caso do Quirguistão é particularmente simbólico. Ao sediar uma reunião de tamanha importância, Bishkek demonstra sua crescente capacidade de atuar como plataforma diplomática entre diferentes polos da Eurásia. A estratégia não precisa ser escolher entre Rússia, China ou Ocidente. Pelo contrário, países como o Quirguistão procuram ampliar suas relações com diferentes parceiros sem aceitar uma lógica de alinhamento exclusivo.

Nesse sentido, chamar a SCO de “antiocidental” é uma simplificação conveniente. A organização não precisa declarar guerra ao Ocidente para simbolizar o fim da centralidade ocidental. Talvez a verdadeira mensagem enviada por Bishkek seja ainda mais significativa: a Eurásia está aprendendo a organizar seus próprios assuntos, e o resto do mundo terá de se acostumar com a ideia de que Washington já não é o centro inevitável de todas as decisões internacionais.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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