Marrocos usa 60 mil imigrantes como arma para invadir Ceuta. Espanha pagou por criticar Israel e se aliar à Argélia.
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Na última semana tomaram as redes sociais imagens de dezenas de milhares de marroquinos (no mínimo 60 mil) invadindo a cidade espanhola de Ceuta, rompendo as barreiras que separam as fronteiras do território em relação ao Marrocos. A cidade autônoma, que possui apenas 80 mil habitantes, teve que lidar com tentativas de invasão a domicílio e vários outros crimes por parte dos invasores, que então foram enfrentados pelas forças de segurança e por alguns grupos de cidadãos auto-organizados.
Esses 60 mil invadiram Ceuta todos juntos e algumas imagens e vídeos em redes sociais revelam caminhões despejando imigrantes perto da fronteira espanhola. Fotos revelaram policiais marroquinos tentando impedir alguns invasores de retornar ao próprio país. Ainda assim, graças à ação das forças de segurança espanholas e dos cidadãos, a maior parte dos invasores parece já ter voltado para o Marrocos – e muitos deles o fizeram voluntariamente logo após entrarem em Ceuta.
O caso teve grande repercussão mundial, principalmente na Europa, com vários governos reforçando as suas próprias fronteiras e a Itália recomendando a remoção da Espanha do espaço Schengen.
Vários aspectos nesse evento chamam a atenção, porém.
Inicialmente, para assentar as bases da questão, na contramão de inúmeros “progressistas” que simpatizaram com a invasão sob o argumento da “descolonização” de Ceuta, a realidade é que Ceuta não é colônia. A cidade foi conquistada por Portugal em 1415, passando à Espanha em 1580, e desde então ela tem sido ininterruptamente possessão espanhola. Mas mesmo o período anterior a 1415 está vinculado à Europa. Recordemos que do ano 40 ao ano 709, Ceuta foi governada, em sequência, pelos romanos, pelos vândalos, pelos bizantinos e pelos visigodos, até ser conquistada pelos árabes – os quais, recordemos, também são invasores estrangeiros no norte da África. Depois disso, Ceuta trocou de mão várias vezes entre reinos árabes e berberes até, como já dito, ser conquistado por Portugal no contexto da reconquista da Península Ibérica após 700 anos de ocupação militar moura e para dar fim à pirataria mediterrânea.
Falar em devolver Ceuta aos seus “verdadeiros donos”, portanto, não faz sentido. Se o domínio espanhol de Ceuta é ilegítimo, então todas as mudanças territoriais, expansões, conquistas e ocupações no planeta nos últimos 600 anos são ilegítimos.
Não obstante, Marrocos reivindica Ceuta (além de Melilla) por um título bastante duvidoso. Primeiro, pelos motivos já apontados. Segundo, porque Marrocos, enquanto Estado, é bastante recente, tendo menos de 100 anos e nunca foi dono de Ceuta ou de Melilla. Essa não é a única reivindicação territorial duvidosa do Marrocos, afinal, seu governo reivindica também o Saara Ocidental, que luta por sua independência há décadas. O Saara Ocidental é apoiado pela Argélia contra o Marrocos, enquanto a Espanha defende a finalização da descolonização do território e a concessão, no mínimo, de autonomia à região.
Apenas dois países, no mundo, reconhecem de forma irrestrita a soberania do Marrocos sobre o Saara Ocidental, porém: EUA e Israel.
É difícil, portanto, não começar a ligar os pontos entre os eventos recentes em Ceuta e todo o panorama recente de tensões entre o governo espanhol de Pedro Sánchez e os governos dos EUA e de Israel. A Espanha, sob Sánchez, foi o país mais vocalmente crítico de Israel, especialmente durante a limpeza étnica de Gaza. Ademais, o país não permitiu o uso de seu território pelos EUA para a realização de ataques contra o Irã. Com isso, a Espanha comprou a inimizade de ambos países, os quais têm feito ameaças veladas já há algum tempo.
Há alguns anos, inclusive, o filho de Benjamin Netanyahu fez uma postagem em redes sociais recomendando aos muçulmanos que tomassem Ceuta e Melilla.
Outro fator que pode ter influenciado nessa crise, é o fato de que em julho desse ano Espanha e Argélia retomaram relações diplomáticas normais após alguns anos de ruptura. Ademais, a Espanha decidiu aumentar as importações de gás argelino, bem como colocaram no papel outros possíveis projetos conjuntos. A Argélia, como já apontamos, é uma inimiga geopolítica do Marrocos, tanto quanto a Espanha.
É necessário, porém, apontar que Sánchez e o Judiciário espanhol também são parcialmente responsáveis pelo caos migratório. Há poucos meses, Sánchez legalizou mais de 1 milhão de imigrantes ilegais, na prática demonstrando que invadir a Espanha compensa. A Suprema Corte da Espanha, por sua vez, proibiu as autoridades de realizar expulsões sumárias de imigrantes que chegassem ao país de barco. Para todos os efeitos, as decisões do Executivo e do Judiciário facilitaram o trabalho das agências que promovem a migração.
Ao abraçarem o cosmopolitismo, Sánchez e a elite espanhola tornaram o país um alvo fácil para o uso dos fluxos migratórios como armas de guerra híbrida – porque é disso que se trata. É tempo de superar a ingenuidade humanista que vê na imigração em massa um fenômeno humanitário em que vítimas do imperialismo fogem desesperadas em busca de uma vida melhor.
Na verdade, os fluxos migratórios tal como se veem na Europa nos últimos 20 anos são claramente artificiais, e considerando o papel de Israel na promoção da “diversidade” e a atuação até mesmo de ONGs israelenses ajudando imigrantes a chegarem na Europa, é difícil ignorar os agentes que manejam esse instrumento.


