Fuzis israelenses ARAD-7 apreendidos com TCP, facção que não foi classificada como terrorista pelos EUA. Israel já armou cartéis na Colômbia e México.
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Na última semana 7 fuzis ARAD-7, de fabricação israelense, foram apreendidas pela Polícia Federal do Brasil, em uma transportadora localizada em Niterói, Rio de Janeiro, enquanto eram preparados para serem remetidos para narcotraficantes da organização Terceiro Comando Puro (TCP). Estes são os mesmos narcotraficantes que controlam um território chamado “Complexo de Israel”, que reúne as favelas Cidade Alta, Parada de Lucas, Vigário Geral, Cinco Bocas e Pica-Pau.
2 anos atrás atrás escrevemos aqui no Strategic Culture Foundation um artigo sobre o perigo do “narcopentecostalismo” – a vinculação profunda entre o narcotráfico e o neopentecostalismo em algumas favelas – apontando para este novo fenômeno como uma possível ameaça de segurança nacional para o Brasil, bem como eventual foco de atividades de desestabilização do tecido social e perseguição religiosa. De fato, nos territórios do TCP, igrejas católicas e centros religiosos afrobrasileiros são fechados e atacados com violência.
Não obstante, na época em que escrevemos aquele artigo, julho de 2024, não havia ainda elementos materiais suficientes para afirmar de forma incisiva a existência de uma conexão direta entre o narcopentecostalismo e o Estado de Israel. Os traficantes do TCP exaltavam o Estado de Israel, usavam patches e uniformes israelenses, mas tudo isso era circunstancial e podia ser explicado pela mera adesão ao discurso evangélico.
Agora, porém, dispomos de mais evidências específicas para poder retornar ao tema e lançar a preocupação sobre o possível vínculo entre Israel e uma das principais organizações narcotraficantes brasileiras.
Afinal, até agora ainda não se sabe como esses fuzis israelenses modernos chegaram até o ramo logístico de uma importante organização criminosa brasileira, quando esse fuzil específico ainda é pouco comum entre forças policiais brasileiras e inexiste entre os militares.
A primeira objeção que se poderia levantar seria sobre o “interesse” de Israel em armar ou financiar uma organização criminosa no Brasil. Bem, não seria a primeira vez.
Nos anos 80, 500 armas automáticas (incluindo rifles IMI Galil e submetralhadoras Uzi) e 200 mil cartuchos de munição foram encontrados em um armazém pertencente ao Cartel de Medellín, uma das maiores organizações narcotraficantes da Colômbia. À época, as “investigações independentes” concluíram que o responsável pela operação, o mercenário e militar israelense aposentado Yair Klein, havia agido por conta própria. O próprio Klein, porém, sempre afirmou que suas atividades na Colômbia (que envolviam não apenas venda de armas, mas também treinamento de grupos paramilitares) contavam com ciência e autorização das autoridades israelenses.
O vínculo de Klein com o aparato estatal israelense, demonstrando que ele não era, realmente, um “agente independente”, é confirmado pelo fato de que quando ele foi preso em Serra Leoa em 1999 por vender armas para os insurgentes da Frente Revolucionária Unida, o Estado de Israel interveio para garantir a sua libertação, bem como recusou todos os pedidos de extradição.
Uma outra notícia interessante e recente envolve o México, onde autoridades declararam que 80% das armas encontradas com os soldados dos cartéis narcotraficantes tinham origem estadunidense… e a maior parte dos 20% restantes tinha origem israelense. De fato, Israel exportou 24 mil armas automáticas entre 2006 e 2018, oficialmente, para as instituições militares e policiais do México, e mais 18 mil em anos mais recentes. Observe-se, porém, que as estimativas de observatórios independentes sugerem que os cartéis mexicanos, como um todo, dispõem de um arsenal de algumas centenas de milhares de armas automáticas. Se, algo como 15-20% dessas armas tiver origem israelense, então estamos falando de qualquer número entre 20 mil e 100 mil armas de origem israelense nas mãos dos cartéis. São números que simplesmente não batem com os números das exportações oficiais de armas israelenses para as forças de segurança mexicanas.
Um último ponto que pode chamar a atenção é a atenção recente que os EUA têm dado às organizações criminosas brasileiras, com os grupos PCC e CV categorizados como grupos terroristas pelo governo de Donald Trump. O que chama a atenção é o fato do TCP – 3ª maior organização criminosa do Brasil, com presença em alguns outros países da região, ação em vários estados brasileiros e pelo menos um vínculo verificável com um indivíduo ligado à rede de financiamento da Al-Qaeda, para não falar numa aliança operacional com o PCC – ter ficado de fora da categorização.
Naturalmente, pode ser coincidência. Mas ainda assim, é uma coincidência interessante que a organização criminosa neopentecostal armada, aparentemente, por Israel, é exatamente aquela que não foi categorizada como terrorista pela Casa Branca.


