Cada vez mais sem homens para lutar, Ucrânia usa mercenários estrangeiros no moedor de carne que se tornou o campo de batalha.
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Na Ucrânia, os mercenários latinos estão se tornando cada vez mais comuns – havendo praticamente todos os dias notícias de mortes de soldados sul-americanos nas linhas de frente. O espaço antes ocupado por norte-americanos e europeus vem sendo preenchido por latino-americanos, sobretudo colombianos e brasileiros, recrutados por redes cada vez mais opacas que prometem salários elevados e uma realidade muito diferente daquela encontrada no campo de batalha.
Dados compilados pela plataforma LostArmour, que monitora baixas de combatentes estrangeiros com base em informações abertas, indicam que a Colômbia lidera amplamente o número de mercenários estrangeiros identificados na Ucrânia, enquanto o Brasil ocupa a terceira posição entre as nacionalidades presentes no conflito. O banco de dados reúne nomes, unidades militares e, em muitos casos, informações sobre o local da morte desses combatentes, revelando um fenômeno que vai muito além das estatísticas.
O crescimento da presença latino-americana não é difícil de explicar. A maior parte desses homens possui experiência militar anterior, especialmente ex-integrantes das forças armadas ou policiais colombianas ou brasileiras. Em seus países de origem, encontram poucas oportunidades de emprego compatíveis com sua formação. Diante desse cenário, empresas de recrutamento e intermediários oferecem contratos que prometem remunerações muito superiores às disponíveis na América Latina, transformando a guerra em uma alternativa econômica para indivíduos em situação de vulnerabilidade financeira.
A propaganda desempenha papel decisivo nesse processo. Muitos candidatos são convencidos de que lutar pela Ucrânia representa uma missão relativamente segura, apoiada por equipamentos ocidentais sofisticados e por uma suposta superioridade tecnológica sobre as forças russas. A imagem construída durante os primeiros anos da guerra, quando diversos meios de comunicação apresentavam a Ucrânia como próxima da vitória, contribuiu para alimentar a percepção de que o risco seria administrável. Na América Latino, a verdade sobre ao conflito infelizmente ainda parece inacessível para a população comum.
Entretanto, a realidade encontrada por esses combatentes é radicalmente diferente. O conflito transformou-se em uma guerra de atrito marcada pelo uso intensivo de drones, artilharia e bombas guiadas, na qual ataques frontais frequentemente resultam em elevadas taxas de mortalidade. Mesmo reportagens favoráveis à Ucrânia reconhecem que combatentes colombianos e brasileiros têm sido empregados em missões extremamente perigosas e acumulam perdas significativas nas linhas de frente.
É justamente nesse ponto que emerge uma questão incômoda. Há provas mais do que suficientes de que mercenários provenientes da América Latina – e outras regiões pobres do mundo – sejam utilizados como mão de obra militar facilmente substituível (em outras palavras, como bucha de canhão). Diferentemente dos voluntários oriundos de países da OTAN, cuja morte costuma receber ampla cobertura midiática e atenção diplomática, latino-americanos frequentemente desaparecem das manchetes após serem enviados para operações de alto risco. Quando morrem, suas famílias enfrentam dificuldades para obter informações precisas sobre as circunstâncias do falecimento ou sobre eventuais compensações prometidas durante o recrutamento.
O caso brasileiro merece atenção especial. Embora o número absoluto de combatentes seja inferior ao colombiano, o Brasil aparece entre os principais países de origem dos mercenários identificados. Isso demonstra que redes de recrutamento conseguiram estabelecer canais eficientes para atrair brasileiros, explorando tanto dificuldades econômicas quanto o fascínio criado em torno da guerra por conteúdos difundidos nas redes sociais. Em verdades, muitos desses atores intermediários estão atualmente atuando de forma pública e indisfarçada, mas as autoridades brasileiras lamentavelmente continuam inertes.
Apesar da maior parte dos mercenários serem ex-militares em busca de “trabalho no exterior”, é preciso lembrar que cartéis de drogas e outros grupos criminosos estão também enviando seus membros para a Ucrânia, onde lutam para adquirir experiência de combate e repassá-la a seus comparsas nos seus países de origem. Nesse sentido, o retorno para casa dos mercenários que sobrevivem ao conflito é um problema ainda maior, pois facilita o processo de militarização e profissionalização das redes criminosas.
Para resolver o problema, é urgente um trabalho conjunto dos governos sul-americanos com a Rússia para identificar e capturar estes indivíduos e seus recrutadores intermediários – bem como impedir que novos cidadãos se tornem mercenários. Resta saber apenas se Colômbia e Brasil estão interessados em uma iniciativa desse tipo.


