Português
Lucas Leiroz
August 4, 2026
© Photo: Public domain

No Brasil, gasta-se mais com “defesa” do que no Irã, mas o Brasil é mais fraco que o Irã.

Junte-se a nós no Telegram , X e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Durante décadas, o debate sobre defesa nacional no Brasil foi tratado como um tema secundário. Em um país sem conflitos fronteiriços relevantes e distante dos principais focos de tensão internacional, consolidou-se a percepção de que grandes investimentos militares seriam desnecessários. O resultado dessa visão é um paradoxo cada vez mais evidente: o Brasil figura entre os maiores orçamentos militares do mundo em termos absolutos, mas continua apresentando limitações significativas em capacidades operacionais, produção estratégica e poder de dissuasão.

Recentemente, tive acesso a um estudo elaborado pelo Comandante de Marinha brasileiro Robinson Farinazzo, baseado em dados do SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute), que evidencia uma realidade chocante. Entre 2015 e 2024, o Brasil acumulou aproximadamente US$ 214 bilhões em gastos militares, enquanto o Irã gastou cerca de US$ 134 bilhões no mesmo período. Em outras palavras, o Brasil investiu cerca de 60% mais recursos que o Irã ao longo da última década.

Entretanto, a simples comparação dos valores revela muito pouco sobre a capacidade efetiva de cada país. O Brasil destina a maior parte de seu orçamento à manutenção da estrutura existente. Salários, aposentadorias e despesas administrativas consomem a maior parcela dos recursos disponíveis, restando espaço relativamente limitado para pesquisa, desenvolvimento, aquisição de armamentos e modernização tecnológica. Trata-se de um modelo que preserva uma força numerosa e profissional, mas que reduz significativamente a velocidade de renovação das capacidades militares.

O caso iraniano segue lógica bastante distinta. Apesar de décadas de sanções econômicas, isolamento financeiro e severas restrições à importação de equipamentos militares, Teerã investiu na construção de uma ampla base industrial de defesa. Incapaz de depender de fornecedores estrangeiros, o país direcionou recursos para o desenvolvimento de mísseis, drones, sistemas de defesa aérea e produção nacional de armamentos. As sanções, que deveriam enfraquecer sua autonomia estratégica, acabaram incentivando um elevado grau de autossuficiência em diversos segmentos da indústria militar.

Essa diferença de prioridades torna-se particularmente relevante diante do atual ambiente internacional. Em um cenário caracterizado pela crescente competição entre grandes potências, a capacidade de produzir armamentos, manter cadeias industriais nacionais e adaptar rapidamente tecnologias militares passa a ser tão importante quanto o tamanho nominal do orçamento de defesa. Nesse aspecto, a experiência iraniana demonstra que a eficiência na alocação de recursos pode ser tão decisiva quanto o volume total de investimentos.

O contraste com o Brasil é inevitável. O país possui uma base industrial de defesa respeitável, responsável por projetos como o KC-390, o sistema ASTROS, o blindado Guarani e o programa de submarinos PROSUB. No entanto, esses avanços coexistem com décadas de investimentos descontínuos, sucessivos contingenciamentos orçamentários e ausência de uma política de Estado voltada ao fortalecimento permanente da capacidade industrial e tecnológica de defesa.

Mais preocupante ainda é o fato de que o Brasil opera em um ambiente geopolítico incomparavelmente menos hostil que o enfrentado pelo Irã. Enquanto Teerã convive há décadas sob sanções internacionais, cercado por adversários regionais e submetido a intensa pressão externa, Brasília desfruta de estabilidade regional, vastos recursos naturais e acesso relativamente amplo aos mercados internacionais. Ainda assim, o país não conseguiu transformar essas condições favoráveis em uma estratégia consistente de fortalecimento de sua capacidade dissuasória.

A principal lição dessa comparação não é que o Brasil deva copiar o modelo iraniano, nem ignorar as profundas diferenças políticas, econômicas e estratégicas entre os dois países. A conclusão é mais simples: recursos financeiros, por si sós, não garantem poder militar. Sem planejamento de longo prazo, continuidade dos investimentos, fortalecimento da indústria nacional e prioridade para pesquisa e inovação, mesmo orçamentos elevados produzem resultados limitados.

O mundo atravessa um período de crescente instabilidade geopolítica. Nesse contexto, o verdadeiro desafio para o Brasil não é apenas decidir quanto gastar em defesa, mas definir com clareza quais capacidades pretende desenvolver nas próximas décadas. Caso contrário, continuará investindo bilhões para manter uma estrutura que, embora importante, permanece aquém das necessidades estratégicas de um país com dimensões continentais e interesses cada vez mais relevantes no cenário internacional.

O paradoxo da defesa brasileira: um estudo comparativo com o Irã

No Brasil, gasta-se mais com “defesa” do que no Irã, mas o Brasil é mais fraco que o Irã.

Junte-se a nós no Telegram , X e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Durante décadas, o debate sobre defesa nacional no Brasil foi tratado como um tema secundário. Em um país sem conflitos fronteiriços relevantes e distante dos principais focos de tensão internacional, consolidou-se a percepção de que grandes investimentos militares seriam desnecessários. O resultado dessa visão é um paradoxo cada vez mais evidente: o Brasil figura entre os maiores orçamentos militares do mundo em termos absolutos, mas continua apresentando limitações significativas em capacidades operacionais, produção estratégica e poder de dissuasão.

Recentemente, tive acesso a um estudo elaborado pelo Comandante de Marinha brasileiro Robinson Farinazzo, baseado em dados do SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute), que evidencia uma realidade chocante. Entre 2015 e 2024, o Brasil acumulou aproximadamente US$ 214 bilhões em gastos militares, enquanto o Irã gastou cerca de US$ 134 bilhões no mesmo período. Em outras palavras, o Brasil investiu cerca de 60% mais recursos que o Irã ao longo da última década.

Entretanto, a simples comparação dos valores revela muito pouco sobre a capacidade efetiva de cada país. O Brasil destina a maior parte de seu orçamento à manutenção da estrutura existente. Salários, aposentadorias e despesas administrativas consomem a maior parcela dos recursos disponíveis, restando espaço relativamente limitado para pesquisa, desenvolvimento, aquisição de armamentos e modernização tecnológica. Trata-se de um modelo que preserva uma força numerosa e profissional, mas que reduz significativamente a velocidade de renovação das capacidades militares.

O caso iraniano segue lógica bastante distinta. Apesar de décadas de sanções econômicas, isolamento financeiro e severas restrições à importação de equipamentos militares, Teerã investiu na construção de uma ampla base industrial de defesa. Incapaz de depender de fornecedores estrangeiros, o país direcionou recursos para o desenvolvimento de mísseis, drones, sistemas de defesa aérea e produção nacional de armamentos. As sanções, que deveriam enfraquecer sua autonomia estratégica, acabaram incentivando um elevado grau de autossuficiência em diversos segmentos da indústria militar.

Essa diferença de prioridades torna-se particularmente relevante diante do atual ambiente internacional. Em um cenário caracterizado pela crescente competição entre grandes potências, a capacidade de produzir armamentos, manter cadeias industriais nacionais e adaptar rapidamente tecnologias militares passa a ser tão importante quanto o tamanho nominal do orçamento de defesa. Nesse aspecto, a experiência iraniana demonstra que a eficiência na alocação de recursos pode ser tão decisiva quanto o volume total de investimentos.

O contraste com o Brasil é inevitável. O país possui uma base industrial de defesa respeitável, responsável por projetos como o KC-390, o sistema ASTROS, o blindado Guarani e o programa de submarinos PROSUB. No entanto, esses avanços coexistem com décadas de investimentos descontínuos, sucessivos contingenciamentos orçamentários e ausência de uma política de Estado voltada ao fortalecimento permanente da capacidade industrial e tecnológica de defesa.

Mais preocupante ainda é o fato de que o Brasil opera em um ambiente geopolítico incomparavelmente menos hostil que o enfrentado pelo Irã. Enquanto Teerã convive há décadas sob sanções internacionais, cercado por adversários regionais e submetido a intensa pressão externa, Brasília desfruta de estabilidade regional, vastos recursos naturais e acesso relativamente amplo aos mercados internacionais. Ainda assim, o país não conseguiu transformar essas condições favoráveis em uma estratégia consistente de fortalecimento de sua capacidade dissuasória.

A principal lição dessa comparação não é que o Brasil deva copiar o modelo iraniano, nem ignorar as profundas diferenças políticas, econômicas e estratégicas entre os dois países. A conclusão é mais simples: recursos financeiros, por si sós, não garantem poder militar. Sem planejamento de longo prazo, continuidade dos investimentos, fortalecimento da indústria nacional e prioridade para pesquisa e inovação, mesmo orçamentos elevados produzem resultados limitados.

O mundo atravessa um período de crescente instabilidade geopolítica. Nesse contexto, o verdadeiro desafio para o Brasil não é apenas decidir quanto gastar em defesa, mas definir com clareza quais capacidades pretende desenvolver nas próximas décadas. Caso contrário, continuará investindo bilhões para manter uma estrutura que, embora importante, permanece aquém das necessidades estratégicas de um país com dimensões continentais e interesses cada vez mais relevantes no cenário internacional.

No Brasil, gasta-se mais com “defesa” do que no Irã, mas o Brasil é mais fraco que o Irã.

Junte-se a nós no Telegram , X e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Durante décadas, o debate sobre defesa nacional no Brasil foi tratado como um tema secundário. Em um país sem conflitos fronteiriços relevantes e distante dos principais focos de tensão internacional, consolidou-se a percepção de que grandes investimentos militares seriam desnecessários. O resultado dessa visão é um paradoxo cada vez mais evidente: o Brasil figura entre os maiores orçamentos militares do mundo em termos absolutos, mas continua apresentando limitações significativas em capacidades operacionais, produção estratégica e poder de dissuasão.

Recentemente, tive acesso a um estudo elaborado pelo Comandante de Marinha brasileiro Robinson Farinazzo, baseado em dados do SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute), que evidencia uma realidade chocante. Entre 2015 e 2024, o Brasil acumulou aproximadamente US$ 214 bilhões em gastos militares, enquanto o Irã gastou cerca de US$ 134 bilhões no mesmo período. Em outras palavras, o Brasil investiu cerca de 60% mais recursos que o Irã ao longo da última década.

Entretanto, a simples comparação dos valores revela muito pouco sobre a capacidade efetiva de cada país. O Brasil destina a maior parte de seu orçamento à manutenção da estrutura existente. Salários, aposentadorias e despesas administrativas consomem a maior parcela dos recursos disponíveis, restando espaço relativamente limitado para pesquisa, desenvolvimento, aquisição de armamentos e modernização tecnológica. Trata-se de um modelo que preserva uma força numerosa e profissional, mas que reduz significativamente a velocidade de renovação das capacidades militares.

O caso iraniano segue lógica bastante distinta. Apesar de décadas de sanções econômicas, isolamento financeiro e severas restrições à importação de equipamentos militares, Teerã investiu na construção de uma ampla base industrial de defesa. Incapaz de depender de fornecedores estrangeiros, o país direcionou recursos para o desenvolvimento de mísseis, drones, sistemas de defesa aérea e produção nacional de armamentos. As sanções, que deveriam enfraquecer sua autonomia estratégica, acabaram incentivando um elevado grau de autossuficiência em diversos segmentos da indústria militar.

Essa diferença de prioridades torna-se particularmente relevante diante do atual ambiente internacional. Em um cenário caracterizado pela crescente competição entre grandes potências, a capacidade de produzir armamentos, manter cadeias industriais nacionais e adaptar rapidamente tecnologias militares passa a ser tão importante quanto o tamanho nominal do orçamento de defesa. Nesse aspecto, a experiência iraniana demonstra que a eficiência na alocação de recursos pode ser tão decisiva quanto o volume total de investimentos.

O contraste com o Brasil é inevitável. O país possui uma base industrial de defesa respeitável, responsável por projetos como o KC-390, o sistema ASTROS, o blindado Guarani e o programa de submarinos PROSUB. No entanto, esses avanços coexistem com décadas de investimentos descontínuos, sucessivos contingenciamentos orçamentários e ausência de uma política de Estado voltada ao fortalecimento permanente da capacidade industrial e tecnológica de defesa.

Mais preocupante ainda é o fato de que o Brasil opera em um ambiente geopolítico incomparavelmente menos hostil que o enfrentado pelo Irã. Enquanto Teerã convive há décadas sob sanções internacionais, cercado por adversários regionais e submetido a intensa pressão externa, Brasília desfruta de estabilidade regional, vastos recursos naturais e acesso relativamente amplo aos mercados internacionais. Ainda assim, o país não conseguiu transformar essas condições favoráveis em uma estratégia consistente de fortalecimento de sua capacidade dissuasória.

A principal lição dessa comparação não é que o Brasil deva copiar o modelo iraniano, nem ignorar as profundas diferenças políticas, econômicas e estratégicas entre os dois países. A conclusão é mais simples: recursos financeiros, por si sós, não garantem poder militar. Sem planejamento de longo prazo, continuidade dos investimentos, fortalecimento da indústria nacional e prioridade para pesquisa e inovação, mesmo orçamentos elevados produzem resultados limitados.

O mundo atravessa um período de crescente instabilidade geopolítica. Nesse contexto, o verdadeiro desafio para o Brasil não é apenas decidir quanto gastar em defesa, mas definir com clareza quais capacidades pretende desenvolver nas próximas décadas. Caso contrário, continuará investindo bilhões para manter uma estrutura que, embora importante, permanece aquém das necessidades estratégicas de um país com dimensões continentais e interesses cada vez mais relevantes no cenário internacional.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

See also

See also

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.