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Eduardo Vasco
April 17, 2026
© Photo: Public domain

Um acontecimento ocorrido na manhã de sexta-feira, 14 de março, na cidade turística de Itacaré, litoral sul da Bahia, chamou a atenção do Brasil inteiro.

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Um acontecimento ocorrido na manhã de sexta-feira, 14 de março, na cidade turística de Itacaré, litoral sul da Bahia, chamou a atenção do Brasil inteiro. Menos de 20 elementos com bandeiras israelenses que gritavam “Israel, Israel” começaram a provocar ativistas solidários à Palestina que haviam se reunido para uma roda de conversa sobre turismo ético com cerca de 300 pessoas na Praça da Mangueira, na região central da cidade.

De acordo com testemunhas oculares, parte dos arruaceiros também entoava xingamentos e palavras em hebraico. A maioria deles era israelense, mas também havia alguns moradores locais que participavam de um ato a favor de Israel e hostilizaram os participantes da roda de conversa.

Contudo, os mais agressivos, que partiram para cima da roda de conversa, eram israelenses. A maioria dos brasileiros que estavam junto com os israelenses preferiu não participar das agressões. “Quem procurou confusão foram os israelenses”, conta à Strategic Culture Foundation Fernando Loureiro, responsável pelo canal O Papo, que registrou imagens do ocorrido.

Eles começaram fazendo provocações e depois alguns se infiltraram no meio da atividade e passaram a empurrar e dar socos.

Os manifestantes pró-Palestina reagiram e conseguiram expulsar os provocadores. Porém, um grupo de cerca de dez provocadores cercou quatro manifestantes para hostilizá-los e agredi-los. A polícia levou três israelenses para a delegacia, mas agiu somente no final – durante todo o ato, ela se omitiu, segundo algumas testemunhas disseram à SCF.

Ainda após os israelenses e apoiadores terem sido dispersados, dois deles voltaram para provocar a roda de conversa, que iria recomeçar. Raquel, uma turista apoiadora da Palestina, tentou conduzir um dos provocadores para fora da manifestação, mas foi agredida com um tapa no rosto e no peito. “Ele deu um tapa que pegou na minha bochecha e no meu peito e puxou minha camisa”, diz à SCF. “Depois fui falar para um policial, mas ele não deu muita atenção”, completa.

Soldados e criminosos de guerra, não turistas

Mas o que poderia explicar a violência dos israelenses? É simples: não são meros turistas. São soldados do exército de Israel que utilizam essa região do Brasil como local de descanso após participarem do extermínio de civis palestinos, libaneses e iranianos. Após o serviço militar, recebem férias e viajam pelo mundo. Itacaré, assim como Morro de São Paulo, também no litoral baiano, é um destino turístico popular entre os soldados do regime sionista há mais de 15 anos, sobretudo após a exibição de uma série gravada na região e exibida na TV israelense, justamente sobre soldados passando férias na Bahia. Daí a reivindicação de moradores por um turismo ético, não acolhedor de genocidas profissionais a serviço de um Estado terrorista.

Na virada de 2024 para 2025, esteve a turismo no Morro de São Paulo o soldado Yuval Vagdani, que havia acabado de participar de crimes de guerra na Faixa de Gaza, segundo a Fundação Hind Rajab (HRF, na sigla em inglês). A Justiça Federal brasileira havia determinado que a Polícia Federal (PF) investigasse Vagdani, atendendo a um pedido da HRF.

O militar é acusado de participar da demolição de um quarteirão residencial habitado em Gaza, no final de 2024, utilizando explosivos fora de situações de combate. A HRF apresentou evidências coletadas por meio de inteligência de fontes abertas, incluindo vídeos e dados de geolocalização, que comprovam o envolvimento do soldado nas ações denunciadas. A denúncia ainda destaca a destruição de um corredor em Gaza, que gerou expulsão forçada de civis e profundas consequências humanitárias.

Além da investigação, a HRF solicitou a prisão provisória do militar, alegando risco de fuga ou destruição de provas. A decisão judicial baseia-se no artigo 88 do Código de Processo Penal Brasileiro, que permite a aplicação da jurisdição universal para crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, conforme previsto no Estatuto de Roma, do qual o Brasil é signatário.

No entanto, Vagdani conseguiu escapar e fugir do Brasil com a ajuda da embaixada de Israel e de autoridades brasileiras. Apesar da decisão judicial, a PF não reteve o passaporte do criminoso, o que tornou a sua fuga possível. Jair Bolsonaro e seu filho, Eduardo, reconheceram publicamente que ajudaram na fuga do soldado. “Lançamos um contra-ataque virtual e a Polícia Federal brasileira pediu a um juiz que reconsiderasse o caso”, revelou o então deputado ao jornal Maariv à época.

Violência e racismo contra moradores

A agressão aos manifestantes solidários ao povo palestino não é o primeiro episódio de violência envolvendo soldados israelenses em Itacaré. Na verdade, ele faz parte de uma onda de agressões e tumultos causados pelos militares israelenses no último mês.

Na noite de sexta-feira, 6 de março, um grupo de israelenses quebrou vasos de plantas no meio da rua da Pituba, onde se encontra a Praça da Mangueira. Uma moradora tentou pedir para que eles parassem, mas um dos homens arremessou um celular em seu rosto. Sua amiga, uma vendedora ambulante, passou a filmar a cena, quando um dos israelenses roubou o celular de sua mão e o jogou contra o seu rosto.

A vendedora teve de levar seis pontos no nariz quebrado, que não parava de sangrar enquanto gravava um novo vídeo denunciando o ocorrido, chorando. Ela também denunciou ter sido vítima de racismo por parte dos israelenses, que imitaram sons de macaco em sua frente.

“Isso foi um ataque onde os israelenses tentaram puxar meu cabelo. Eu tentei filmar com meu próprio telefone. Um deles tomou e jogou o celular na minha cara”, disse a moça no vídeo.

A Polícia Civil foi acionada, mas disse não ter identificado os autores dos crimes.

Três dias antes, na terça-feira (03), um jovem negro chamado Cirilo foi expulso de um bar em Itacaré após histeria feita por duas israelenses. Conforme ele relatou nas redes sociais, “sentamos na ponta de uma mesa, ao lado estavam duas israelenses e elas vieram com tudo [gritando]: ‘no no no’. Quando perguntamos o motivo, elas nos ameaçaram e fizeram um funcionário nos tirar da mesa”.

Ele disse não ter conhecimento de que naquele bar é possível reservar mesas, confrontando sua expulsão. “Eu me senti desvalorizado, como se o dinheiro deles [israelenses] fosse mais importante”, completou. Ele ainda escreveu: “duas israelitas me desumanizaram”, mas que “o preconceito não vai nos calar”. O jornal Correio 24h tentou entrar em contato com a prefeitura, mas disse não ter obtido nenhuma resposta.

Já na madrugada de quarta-feira (12), israelenses realizaram uma festa em um local na Praça da Bíblia, também em Itacaré, gerando grande perturbação no descanso dos moradores com som alto que impediu os vizinhos de dormirem, segundo denúncias feitas à imprensa local. A festa durou até às 5h da manhã e a PM foi acionada, mas, conforme os denunciantes, as autoridades não foram até o local.

Fernando Loureiro afirma que há muitas reclamações de moradores e donos de estabelecimentos devido ao racismo, preconceito e balbúrdia causados pelos soldados israelenses. Também há acusações de destruição de móveis em pousadas e uso intenso de drogas.

Ameaças e conivência das autoridades brasileiras

Após a manifestação em Itacaré, ativistas pró-Palestina denunciam que estão sendo ameaçados por moradores locais apoiadores de Israel. São eles que agora estão “tensionando o debate”, como afirma Sony Carvalho – ele mesmo um morador de Itacaré que recebeu ameaças por sua participação na roda de conversa.

“Estamos sofrendo perseguição, violência e ameaça”, publicou nas redes sociais Yara Moura, uma moradora local. Ela foi uma das manifestantes agredidas após o ato. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, é possível vê-la sofrendo um tapa no rosto.

“Aqui eles [os soldados israelenses] andam em bandos”, disse em um vídeo uma mulher identificada por Lili serpien Arte. “De madrugada, eu mesma não ando mais sozinha, porque é capaz de eu ser outra vítima de violência”, completou.

A mesma moça denuncia que os soldados israelenses “estão sendo protegidos por empresários que são donos de pousadas e restaurantes” e também “pela polícia, porque a polícia não faz nada”. Ela ainda afirmou, no mesmo vídeo, que os soldados costumam realizar um alto consumo de “todo o tipo de ilícitos”, corroborando outros testemunhos.

Sony sente como se os habitantes de Itacaré estivessem começando a ser segregados dentro de sua própria cidade, como os palestinos são dentro de seu próprio país. E pelos mesmos ocupantes. “Para mim, é como se eu estivesse em ‘israel’, como se estivesse em Tel Aviv, e a gente fosse o estrangeiro. Essa é a minha sensação.”

Após todos os tumultos causados pelos soldados israelenses, a Prefeitura de Itacaré lançou no dia 19 de março uma cartilha de boas práticas em português, inglês e hebraico. Nela, o município pede aos turistas que respeitem o silêncio às altas horas da noite, respeitem também as áreas residenciais e comerciais e não danifiquem equipamentos públicos e alerta contra “atitudes discriminatórias, ofensas ou agressões motivadas por origem, nacionalidade, religião ou identidade cultural”.

Soldados israelenses levam violência, racismo e segregação a cidade baiana

Um acontecimento ocorrido na manhã de sexta-feira, 14 de março, na cidade turística de Itacaré, litoral sul da Bahia, chamou a atenção do Brasil inteiro.

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Um acontecimento ocorrido na manhã de sexta-feira, 14 de março, na cidade turística de Itacaré, litoral sul da Bahia, chamou a atenção do Brasil inteiro. Menos de 20 elementos com bandeiras israelenses que gritavam “Israel, Israel” começaram a provocar ativistas solidários à Palestina que haviam se reunido para uma roda de conversa sobre turismo ético com cerca de 300 pessoas na Praça da Mangueira, na região central da cidade.

De acordo com testemunhas oculares, parte dos arruaceiros também entoava xingamentos e palavras em hebraico. A maioria deles era israelense, mas também havia alguns moradores locais que participavam de um ato a favor de Israel e hostilizaram os participantes da roda de conversa.

Contudo, os mais agressivos, que partiram para cima da roda de conversa, eram israelenses. A maioria dos brasileiros que estavam junto com os israelenses preferiu não participar das agressões. “Quem procurou confusão foram os israelenses”, conta à Strategic Culture Foundation Fernando Loureiro, responsável pelo canal O Papo, que registrou imagens do ocorrido.

Eles começaram fazendo provocações e depois alguns se infiltraram no meio da atividade e passaram a empurrar e dar socos.

Os manifestantes pró-Palestina reagiram e conseguiram expulsar os provocadores. Porém, um grupo de cerca de dez provocadores cercou quatro manifestantes para hostilizá-los e agredi-los. A polícia levou três israelenses para a delegacia, mas agiu somente no final – durante todo o ato, ela se omitiu, segundo algumas testemunhas disseram à SCF.

Ainda após os israelenses e apoiadores terem sido dispersados, dois deles voltaram para provocar a roda de conversa, que iria recomeçar. Raquel, uma turista apoiadora da Palestina, tentou conduzir um dos provocadores para fora da manifestação, mas foi agredida com um tapa no rosto e no peito. “Ele deu um tapa que pegou na minha bochecha e no meu peito e puxou minha camisa”, diz à SCF. “Depois fui falar para um policial, mas ele não deu muita atenção”, completa.

Soldados e criminosos de guerra, não turistas

Mas o que poderia explicar a violência dos israelenses? É simples: não são meros turistas. São soldados do exército de Israel que utilizam essa região do Brasil como local de descanso após participarem do extermínio de civis palestinos, libaneses e iranianos. Após o serviço militar, recebem férias e viajam pelo mundo. Itacaré, assim como Morro de São Paulo, também no litoral baiano, é um destino turístico popular entre os soldados do regime sionista há mais de 15 anos, sobretudo após a exibição de uma série gravada na região e exibida na TV israelense, justamente sobre soldados passando férias na Bahia. Daí a reivindicação de moradores por um turismo ético, não acolhedor de genocidas profissionais a serviço de um Estado terrorista.

Na virada de 2024 para 2025, esteve a turismo no Morro de São Paulo o soldado Yuval Vagdani, que havia acabado de participar de crimes de guerra na Faixa de Gaza, segundo a Fundação Hind Rajab (HRF, na sigla em inglês). A Justiça Federal brasileira havia determinado que a Polícia Federal (PF) investigasse Vagdani, atendendo a um pedido da HRF.

O militar é acusado de participar da demolição de um quarteirão residencial habitado em Gaza, no final de 2024, utilizando explosivos fora de situações de combate. A HRF apresentou evidências coletadas por meio de inteligência de fontes abertas, incluindo vídeos e dados de geolocalização, que comprovam o envolvimento do soldado nas ações denunciadas. A denúncia ainda destaca a destruição de um corredor em Gaza, que gerou expulsão forçada de civis e profundas consequências humanitárias.

Além da investigação, a HRF solicitou a prisão provisória do militar, alegando risco de fuga ou destruição de provas. A decisão judicial baseia-se no artigo 88 do Código de Processo Penal Brasileiro, que permite a aplicação da jurisdição universal para crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, conforme previsto no Estatuto de Roma, do qual o Brasil é signatário.

No entanto, Vagdani conseguiu escapar e fugir do Brasil com a ajuda da embaixada de Israel e de autoridades brasileiras. Apesar da decisão judicial, a PF não reteve o passaporte do criminoso, o que tornou a sua fuga possível. Jair Bolsonaro e seu filho, Eduardo, reconheceram publicamente que ajudaram na fuga do soldado. “Lançamos um contra-ataque virtual e a Polícia Federal brasileira pediu a um juiz que reconsiderasse o caso”, revelou o então deputado ao jornal Maariv à época.

Violência e racismo contra moradores

A agressão aos manifestantes solidários ao povo palestino não é o primeiro episódio de violência envolvendo soldados israelenses em Itacaré. Na verdade, ele faz parte de uma onda de agressões e tumultos causados pelos militares israelenses no último mês.

Na noite de sexta-feira, 6 de março, um grupo de israelenses quebrou vasos de plantas no meio da rua da Pituba, onde se encontra a Praça da Mangueira. Uma moradora tentou pedir para que eles parassem, mas um dos homens arremessou um celular em seu rosto. Sua amiga, uma vendedora ambulante, passou a filmar a cena, quando um dos israelenses roubou o celular de sua mão e o jogou contra o seu rosto.

A vendedora teve de levar seis pontos no nariz quebrado, que não parava de sangrar enquanto gravava um novo vídeo denunciando o ocorrido, chorando. Ela também denunciou ter sido vítima de racismo por parte dos israelenses, que imitaram sons de macaco em sua frente.

“Isso foi um ataque onde os israelenses tentaram puxar meu cabelo. Eu tentei filmar com meu próprio telefone. Um deles tomou e jogou o celular na minha cara”, disse a moça no vídeo.

A Polícia Civil foi acionada, mas disse não ter identificado os autores dos crimes.

Três dias antes, na terça-feira (03), um jovem negro chamado Cirilo foi expulso de um bar em Itacaré após histeria feita por duas israelenses. Conforme ele relatou nas redes sociais, “sentamos na ponta de uma mesa, ao lado estavam duas israelenses e elas vieram com tudo [gritando]: ‘no no no’. Quando perguntamos o motivo, elas nos ameaçaram e fizeram um funcionário nos tirar da mesa”.

Ele disse não ter conhecimento de que naquele bar é possível reservar mesas, confrontando sua expulsão. “Eu me senti desvalorizado, como se o dinheiro deles [israelenses] fosse mais importante”, completou. Ele ainda escreveu: “duas israelitas me desumanizaram”, mas que “o preconceito não vai nos calar”. O jornal Correio 24h tentou entrar em contato com a prefeitura, mas disse não ter obtido nenhuma resposta.

Já na madrugada de quarta-feira (12), israelenses realizaram uma festa em um local na Praça da Bíblia, também em Itacaré, gerando grande perturbação no descanso dos moradores com som alto que impediu os vizinhos de dormirem, segundo denúncias feitas à imprensa local. A festa durou até às 5h da manhã e a PM foi acionada, mas, conforme os denunciantes, as autoridades não foram até o local.

Fernando Loureiro afirma que há muitas reclamações de moradores e donos de estabelecimentos devido ao racismo, preconceito e balbúrdia causados pelos soldados israelenses. Também há acusações de destruição de móveis em pousadas e uso intenso de drogas.

Ameaças e conivência das autoridades brasileiras

Após a manifestação em Itacaré, ativistas pró-Palestina denunciam que estão sendo ameaçados por moradores locais apoiadores de Israel. São eles que agora estão “tensionando o debate”, como afirma Sony Carvalho – ele mesmo um morador de Itacaré que recebeu ameaças por sua participação na roda de conversa.

“Estamos sofrendo perseguição, violência e ameaça”, publicou nas redes sociais Yara Moura, uma moradora local. Ela foi uma das manifestantes agredidas após o ato. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, é possível vê-la sofrendo um tapa no rosto.

“Aqui eles [os soldados israelenses] andam em bandos”, disse em um vídeo uma mulher identificada por Lili serpien Arte. “De madrugada, eu mesma não ando mais sozinha, porque é capaz de eu ser outra vítima de violência”, completou.

A mesma moça denuncia que os soldados israelenses “estão sendo protegidos por empresários que são donos de pousadas e restaurantes” e também “pela polícia, porque a polícia não faz nada”. Ela ainda afirmou, no mesmo vídeo, que os soldados costumam realizar um alto consumo de “todo o tipo de ilícitos”, corroborando outros testemunhos.

Sony sente como se os habitantes de Itacaré estivessem começando a ser segregados dentro de sua própria cidade, como os palestinos são dentro de seu próprio país. E pelos mesmos ocupantes. “Para mim, é como se eu estivesse em ‘israel’, como se estivesse em Tel Aviv, e a gente fosse o estrangeiro. Essa é a minha sensação.”

Após todos os tumultos causados pelos soldados israelenses, a Prefeitura de Itacaré lançou no dia 19 de março uma cartilha de boas práticas em português, inglês e hebraico. Nela, o município pede aos turistas que respeitem o silêncio às altas horas da noite, respeitem também as áreas residenciais e comerciais e não danifiquem equipamentos públicos e alerta contra “atitudes discriminatórias, ofensas ou agressões motivadas por origem, nacionalidade, religião ou identidade cultural”.

Um acontecimento ocorrido na manhã de sexta-feira, 14 de março, na cidade turística de Itacaré, litoral sul da Bahia, chamou a atenção do Brasil inteiro.

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Um acontecimento ocorrido na manhã de sexta-feira, 14 de março, na cidade turística de Itacaré, litoral sul da Bahia, chamou a atenção do Brasil inteiro. Menos de 20 elementos com bandeiras israelenses que gritavam “Israel, Israel” começaram a provocar ativistas solidários à Palestina que haviam se reunido para uma roda de conversa sobre turismo ético com cerca de 300 pessoas na Praça da Mangueira, na região central da cidade.

De acordo com testemunhas oculares, parte dos arruaceiros também entoava xingamentos e palavras em hebraico. A maioria deles era israelense, mas também havia alguns moradores locais que participavam de um ato a favor de Israel e hostilizaram os participantes da roda de conversa.

Contudo, os mais agressivos, que partiram para cima da roda de conversa, eram israelenses. A maioria dos brasileiros que estavam junto com os israelenses preferiu não participar das agressões. “Quem procurou confusão foram os israelenses”, conta à Strategic Culture Foundation Fernando Loureiro, responsável pelo canal O Papo, que registrou imagens do ocorrido.

Eles começaram fazendo provocações e depois alguns se infiltraram no meio da atividade e passaram a empurrar e dar socos.

Os manifestantes pró-Palestina reagiram e conseguiram expulsar os provocadores. Porém, um grupo de cerca de dez provocadores cercou quatro manifestantes para hostilizá-los e agredi-los. A polícia levou três israelenses para a delegacia, mas agiu somente no final – durante todo o ato, ela se omitiu, segundo algumas testemunhas disseram à SCF.

Ainda após os israelenses e apoiadores terem sido dispersados, dois deles voltaram para provocar a roda de conversa, que iria recomeçar. Raquel, uma turista apoiadora da Palestina, tentou conduzir um dos provocadores para fora da manifestação, mas foi agredida com um tapa no rosto e no peito. “Ele deu um tapa que pegou na minha bochecha e no meu peito e puxou minha camisa”, diz à SCF. “Depois fui falar para um policial, mas ele não deu muita atenção”, completa.

Soldados e criminosos de guerra, não turistas

Mas o que poderia explicar a violência dos israelenses? É simples: não são meros turistas. São soldados do exército de Israel que utilizam essa região do Brasil como local de descanso após participarem do extermínio de civis palestinos, libaneses e iranianos. Após o serviço militar, recebem férias e viajam pelo mundo. Itacaré, assim como Morro de São Paulo, também no litoral baiano, é um destino turístico popular entre os soldados do regime sionista há mais de 15 anos, sobretudo após a exibição de uma série gravada na região e exibida na TV israelense, justamente sobre soldados passando férias na Bahia. Daí a reivindicação de moradores por um turismo ético, não acolhedor de genocidas profissionais a serviço de um Estado terrorista.

Na virada de 2024 para 2025, esteve a turismo no Morro de São Paulo o soldado Yuval Vagdani, que havia acabado de participar de crimes de guerra na Faixa de Gaza, segundo a Fundação Hind Rajab (HRF, na sigla em inglês). A Justiça Federal brasileira havia determinado que a Polícia Federal (PF) investigasse Vagdani, atendendo a um pedido da HRF.

O militar é acusado de participar da demolição de um quarteirão residencial habitado em Gaza, no final de 2024, utilizando explosivos fora de situações de combate. A HRF apresentou evidências coletadas por meio de inteligência de fontes abertas, incluindo vídeos e dados de geolocalização, que comprovam o envolvimento do soldado nas ações denunciadas. A denúncia ainda destaca a destruição de um corredor em Gaza, que gerou expulsão forçada de civis e profundas consequências humanitárias.

Além da investigação, a HRF solicitou a prisão provisória do militar, alegando risco de fuga ou destruição de provas. A decisão judicial baseia-se no artigo 88 do Código de Processo Penal Brasileiro, que permite a aplicação da jurisdição universal para crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, conforme previsto no Estatuto de Roma, do qual o Brasil é signatário.

No entanto, Vagdani conseguiu escapar e fugir do Brasil com a ajuda da embaixada de Israel e de autoridades brasileiras. Apesar da decisão judicial, a PF não reteve o passaporte do criminoso, o que tornou a sua fuga possível. Jair Bolsonaro e seu filho, Eduardo, reconheceram publicamente que ajudaram na fuga do soldado. “Lançamos um contra-ataque virtual e a Polícia Federal brasileira pediu a um juiz que reconsiderasse o caso”, revelou o então deputado ao jornal Maariv à época.

Violência e racismo contra moradores

A agressão aos manifestantes solidários ao povo palestino não é o primeiro episódio de violência envolvendo soldados israelenses em Itacaré. Na verdade, ele faz parte de uma onda de agressões e tumultos causados pelos militares israelenses no último mês.

Na noite de sexta-feira, 6 de março, um grupo de israelenses quebrou vasos de plantas no meio da rua da Pituba, onde se encontra a Praça da Mangueira. Uma moradora tentou pedir para que eles parassem, mas um dos homens arremessou um celular em seu rosto. Sua amiga, uma vendedora ambulante, passou a filmar a cena, quando um dos israelenses roubou o celular de sua mão e o jogou contra o seu rosto.

A vendedora teve de levar seis pontos no nariz quebrado, que não parava de sangrar enquanto gravava um novo vídeo denunciando o ocorrido, chorando. Ela também denunciou ter sido vítima de racismo por parte dos israelenses, que imitaram sons de macaco em sua frente.

“Isso foi um ataque onde os israelenses tentaram puxar meu cabelo. Eu tentei filmar com meu próprio telefone. Um deles tomou e jogou o celular na minha cara”, disse a moça no vídeo.

A Polícia Civil foi acionada, mas disse não ter identificado os autores dos crimes.

Três dias antes, na terça-feira (03), um jovem negro chamado Cirilo foi expulso de um bar em Itacaré após histeria feita por duas israelenses. Conforme ele relatou nas redes sociais, “sentamos na ponta de uma mesa, ao lado estavam duas israelenses e elas vieram com tudo [gritando]: ‘no no no’. Quando perguntamos o motivo, elas nos ameaçaram e fizeram um funcionário nos tirar da mesa”.

Ele disse não ter conhecimento de que naquele bar é possível reservar mesas, confrontando sua expulsão. “Eu me senti desvalorizado, como se o dinheiro deles [israelenses] fosse mais importante”, completou. Ele ainda escreveu: “duas israelitas me desumanizaram”, mas que “o preconceito não vai nos calar”. O jornal Correio 24h tentou entrar em contato com a prefeitura, mas disse não ter obtido nenhuma resposta.

Já na madrugada de quarta-feira (12), israelenses realizaram uma festa em um local na Praça da Bíblia, também em Itacaré, gerando grande perturbação no descanso dos moradores com som alto que impediu os vizinhos de dormirem, segundo denúncias feitas à imprensa local. A festa durou até às 5h da manhã e a PM foi acionada, mas, conforme os denunciantes, as autoridades não foram até o local.

Fernando Loureiro afirma que há muitas reclamações de moradores e donos de estabelecimentos devido ao racismo, preconceito e balbúrdia causados pelos soldados israelenses. Também há acusações de destruição de móveis em pousadas e uso intenso de drogas.

Ameaças e conivência das autoridades brasileiras

Após a manifestação em Itacaré, ativistas pró-Palestina denunciam que estão sendo ameaçados por moradores locais apoiadores de Israel. São eles que agora estão “tensionando o debate”, como afirma Sony Carvalho – ele mesmo um morador de Itacaré que recebeu ameaças por sua participação na roda de conversa.

“Estamos sofrendo perseguição, violência e ameaça”, publicou nas redes sociais Yara Moura, uma moradora local. Ela foi uma das manifestantes agredidas após o ato. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, é possível vê-la sofrendo um tapa no rosto.

“Aqui eles [os soldados israelenses] andam em bandos”, disse em um vídeo uma mulher identificada por Lili serpien Arte. “De madrugada, eu mesma não ando mais sozinha, porque é capaz de eu ser outra vítima de violência”, completou.

A mesma moça denuncia que os soldados israelenses “estão sendo protegidos por empresários que são donos de pousadas e restaurantes” e também “pela polícia, porque a polícia não faz nada”. Ela ainda afirmou, no mesmo vídeo, que os soldados costumam realizar um alto consumo de “todo o tipo de ilícitos”, corroborando outros testemunhos.

Sony sente como se os habitantes de Itacaré estivessem começando a ser segregados dentro de sua própria cidade, como os palestinos são dentro de seu próprio país. E pelos mesmos ocupantes. “Para mim, é como se eu estivesse em ‘israel’, como se estivesse em Tel Aviv, e a gente fosse o estrangeiro. Essa é a minha sensação.”

Após todos os tumultos causados pelos soldados israelenses, a Prefeitura de Itacaré lançou no dia 19 de março uma cartilha de boas práticas em português, inglês e hebraico. Nela, o município pede aos turistas que respeitem o silêncio às altas horas da noite, respeitem também as áreas residenciais e comerciais e não danifiquem equipamentos públicos e alerta contra “atitudes discriminatórias, ofensas ou agressões motivadas por origem, nacionalidade, religião ou identidade cultural”.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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