Quem tinha expectativa sobre alguma clarificação da posição dos EUA quanto à NATO, não foi com a cimeira que se realizou esta semana na Suécia — a primeira em solo do mais recente membro da Aliança Atlântica — que ficou esclarecido. Tirando o anúncio de que Zelensky iria participar na cimeira de Ancara, em julho, pouco ou nada de muito relevante emergiu da reunião de ministros dos negócios estrangeiros da Aliança.
A fazer fé nas palavras de Marco Rubio, os grandes temas estarão guardados para o verão. Será na Turquia — “uma das mais importantes cimeiras de líderes da história da NATO”, segundo Rubio — que os líderes terão de responder ao “desapontamento” de Trump com a resposta da Aliança “às operações [dos EUA] no Médio Oriente”.
Coincidência, mas muito provavelmente não, na mesma semana do encontro de Helsingborg, através da rede Truth Social, Trump anunciou o envio de 5.000 tropas americanas para a Polónia. Enquanto na Alemanha, sabe-se, está prevista a saída de mais de 5.000 militares. Rubio justifica essas decisões como movimentos regulares de tropas. “Não é uma punição”, assegurou.
Mark Rutte reagiu: “Congratulo-me com o anúncio (…). Mas sejamos claros: o caminho que seguimos é o de uma Europa mais forte e de uma NATO mais forte, garantindo que, com o tempo, passo a passo, dependamos menos de um único aliado, como temos feito há tanto tempo, que são os Estados Unidos”, afirmou o secretário o secretário-geral da Aliança Atlântica.
E será em Ancara a altura de “mostrar que estamos a fazer progressos reais, que estamos a cumprir os nossos compromissos, o que significa produzir mais, reforçar as nossas cadeias de abastecimento e stocks, produzir mais rapidamente e garantir que as nossas forças armadas têm tudo o que precisam para dissuadir e defender-se”, referia Rutte, antes do arranque da cimeira.
Ora sobre essa capacidade de auto-defesa há quem tenha dúvidas. A começar por Kaja Kallas. “Não vimos a indústria crescer como esperávamos”, disse Kallas aos jornalistas após uma reunião de ministros da Defesa da União, em Bruxelas. “Os países têm muito financiamento disponível, mas a indústria de defesa não está a aumentar a produção. Precisamos de descobrir qual é o problema.”
Guillaume Faury assemelha a situação do dilema do “ovo ou a galinha”. “De um lado, há a expectativa por parte dos governos de que a indústria faça mais; de outro, a expectativa da indústria de obter clareza quanto à necessidade de contratos e de garantir que os investimentos estejam a ser direcionados para o caminho certo. Levou algum tempo até que as coisas começassem a avançar. Creio ser exatamente isso o que observamos hoje”, reagiu o CEO da Airbus ao ECO/eRadar, à margem da primeira cimeira de defesa da empresa em Manching, na Alemanha. “A transição de um cenário de paz para uma era de conflitos — e para cenários de conflito — exige algum tempo por parte da indústria. Estamos a organizar-nos; por isso, estou confiante de que alcançaremos uma situação mais favorável e de que continuaremos a progredir“, defende.
Dois pontos para reflexão. Os países da UE adquirem de empresas europeias menos de 10% do que os EUA compram a empresas americanas. Dos 19 países que recorreram ao SAFE, apenas dois — Polónia e Lituânia — já assinaram contratos.
Em Portugal, “em maio não será”, disse o ministro da Defesa, Nuno Melo. Data concreta para ser feito também não é conhecida, mas já foi aprovado em conselho de ministros a estrutura de missão responsável pela gestão do SAFE e uma comissão independente para acompanhar a aplicação dos 5,8 mil milhões de euros de investimento. Aguardemos pela chegada do investimento à indústria.
Publicado originalmente por sapo.pt

