Português
Hugo Dionísio
August 16, 2026
© Photo: Public domain

O imperialismo nunca desiste e a Bruxelas actual é disso prova! Seja quando age depressa, devagar ou parada.

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Um relógio suíço não seria mais preciso do que a previsibilidade da União Europeia. À falta de uma liderança própria e de um desígnio estratégico comum, um que não passe pela reverberação de mensagens produzidas noutras paragens e que ressoam fortemente nos corredores de Bruxelas, enformando e auto-sabotando todos os estados-membros, a União Europeia segue órfã de uma liderança própria que não a reduza a um mero instrumento do domínio dos monopólios ocidentais que encontram sede e protecção material junto do aparelho estatal dos EUA.

É mesmo incrível, absolutamente terrível, a forma como as instâncias europeias colocam os povos europeus em situações complicadíssimas, desenvolvendo, uma e outra vez, acções que vulnerabilizam as economias e sociedades dos estados-membros individualmente considerados. À luz das duas últimas décadas, pertencer à União Europeia transformou-se num repetido festival de autoflagelação, ineficiência e incompetência.

O horroroso modus operandi que se vulgarizou na EU, especialmente após a passagem do Goldman Sachs boy Durão Barroso, tem dois vectores fundamentais, igualmente destrutivos. O vector da ineficiência, do desperdício, da burocracia exacerbada e inultrapassável, que normalmente se inicia com um anúncio veemente por parte de Von der Leyen. Este anúncio é imediatamente seguido de pilhas de papel, toneladas de relatórios, ambiciosos roadmaps, blueprints infalíveis e que enfastiam o leitor só de para eles olhar. Depois de inúmeras conferências, seminários, cursos, sessões de diálogo social, presidências temáticas dedicadas, lá avança o suposto “diálogo”, “triálogo”, termos, entretanto, desvirtuados pelo subliminar monólogo que traduz os interesses monopolistas e oligárquicos que se escondem por detrás da camada institucional e burocrática, para que, a final, seja parida uma maravilhosa directiva, regulamento, agenda ou plano, regulamento, agenda ou plano. A sua eficácia dependerá da resposta a uma só questão: “Cui bono?”

Isto sucede em questões verdadeiramente importantes para a vida dos povos europeus, aspectos que poderiam assumir aspectos positivos nas suas vidas. Eis alguns exemplos: inteligência artificial com selo europeu; serviços digitais com selo europeu; rede ferroviária de alta velocidade que ligue toda a EU, libertando-se da dependência de combustível fóssil ligado à aviação e ao domínio dos EUA sobre o mercado internacional de aviação civil, transitando para uma área em que não dominam, o sector ferroviário; aposta numa estratégia de fornecimento de energia acessível, baseada tanto no nuclear, como nas renováveis, incluindo ainda fontes fósseis ou não fósseis provenientes de fornecedores mais próximos, menos dispendiosos e menos exigentes do ponto de vista ambiental (como não sucede com o fracking), tão necessárias para a reindustrialização, transição ambiental e energética da UE; garantia de aquisição de matérias-primas acessíveis através do estabelecimento de cadeias de abastecimento sólidas para fazer face às necessidades europeias; entre muitas outras soluções, planeadas, estudadas e apresentadas, mas esbarrando sempre no mesmo tipo de limitação e, por isso mesmo, absentes da luz do dia em que deixarão de constituir um problema. O fim abrupto ou manutenção desses problemas importa sempre a resposta a outra questão prévia: quem é prejudicado por tais medidas?

O caso dos minerais críticos: o espelho de tudo o resto

Vejamos o caso dos minerais críticos, absolutamente essenciais para que a UE possa impedir a desindustrialização rápida que sofre e, inclusive, para que se possa rearmar, agora que o apetite bélico dos seus dirigentes atinge um nível inversamente proporcional ao da capacidade humana e material para fazer essas coisas.

Os números não deixam mentir e não faltam “iniciativas” com origem na burocracia europeia. Enquanto a União Europeia discutia e publicava a CRMA (Critical Raw Materials Act — Lei das Matérias-Primas Críticas), adoptada em 2024, e o ReSourceEU Action Plan (Plano de Acção para suprimento da EU), criando até um European Critical Raw Materials Board (Conselho Europeu de Matérias-Primas Críticas) e ainda uma European Raw Materials Alliance (Aliança Europeia de Matérias-Primas), mobilizando uns meros 5 a 6 mil milhões de euros, os EUA limitaram-se a usar a Lei de Produção de Defesa para financiar estas coisas como se se tratassem de operações militares, destinando 46 mil milhões de euros para minerais críticos e terras raras, só para dar uma comparação entre dois espaços com problemas similares neste domínio. Para um output industrial semelhante — os EUA situados entre 2,8 e 2,9 biliões de $ e a EU entre 2,6 e 2,8 biliões de $ —, os EUA reuniram cerca de 8 a 10 vezes mais recursos financeiros, sem contar com o facto de, ao contrário da EU, os EUA serem também um enorme depósito de matérias-primas e minerais críticos.

Mas não se ficam por aqui as diferenças: por exemplo, no que respeita aos modelos de constituição de reservas, os EUA usam um sistema duplo composto pela Reserva de Defesa Nacional (National Defense Stockpile) e pelo Project Vault, apoiado pelo EXIM Bank. Já a EU ainda se encontra numa embrionária fase de gestão das reservas de minerais críticos, esperando pela estratégia que há-de ser delineada pelo futuro Centro Europeu de Matérias-Primas Críticas e pela coordenação a fazer-se entre os 27 estados-membros.

Um padrão que se repete: IA, energia, indústria 4.0

Se olharmos para trás, este quadrado do desfasamento entre “apetite político aparente — capacidade de execução efectiva — maior rapidez da resposta dos EUA”, fecha-se com o 4.º vértice a ser constituído pela “Primazia da Estratégia Norte-americana sobre todas as demais”. Nas questões eleitas como estratégicas pelo Ocidente, pelos EUA, EU, G7 ou NATO, e absolutamente relevantes para a hegemonia norte-americana e para a sua estratégia de segurança nacional (aqui e ali mascarando estratégias monopolistas), podemos dizer que, quanto mais propagada é a necessidade de domínio dessa matéria, para o público em geral, maior é a susceptibilidade de os EUA constituírem o centro de uma dinâmica neocolonial, em que as periferias ou semiperiferias se sacrificam por esse mesmo centro. Daí que, dizer que “a União Europeia ficou para trás”, represente um paradoxo, quando considerado o papel atribuído à Europa, como mero campo de batalha, mercado de consumo e fonte de recursos humanos e de conhecimento.

Podemos dizer que, para os povos europeus, para os povos dos estados-membros da UE, para ser mais preciso, essa barganha é inadmissível. Daí que o espaço comunicacional seja preenchido com bonitos embrulhos compostos por fantásticas agendas, brilhantes planos de acção e “Atos” legislativos sem fim, não fosse dar muito nas vistas. No final, tendemos a descobrir que a função de todo o folclore foi apenas e tão só o de arrastar os estados-membros para uma dependência neocolonial em relação aos EUA. A Comissão Europeia toma a iniciativa, agrega os esforços, responsabiliza-se pelo resultado, demite os Estados-Membros do assunto, transformando-os em meros pontos focais da estratégia europeia para, no fim, descobrimos que, afinal, o ponto focal é Bruxelas e que os outros 27 são meramente aparentes.

A situação das matérias-primas críticas é, em tudo, similar à dos hidrocarbonetos. Na energia fóssil, a shale revolution transformou os EUA no maior produtor de petróleo e gás do mundo. A Europa, que, por sua vez, era dependente da energia fóssil russa e à sombra da qual tinha visto a sua indústria florescer, foi vista pelos EUA como o mercado de consumo que tornaria possível a viabilização do negócio Shale, dentro de margens financeiras que justificassem o investimento previsto. Mas, para que tal fosse possível, havia que garantir que a EU comprava esse gás e petróleo. Contudo, para o fazer, teria de prescindir dos hidrocarbonetos russos. O resto foi história e o acosso à Federação Russa e aos povos russófonos do Donbass, usados como isco para atrair o Kremlin para um conflito de larga escala, vai crescendo à medida que se vai consolidando internacionalmente o plano de negócios da energia fóssil de xisto.

A transição fez-se à custa de um plano, agenda, centro, estratégia, blueprint e roadmap com vista ao fim do consumo da energia “antidemocrática” da Rússia. Não faltou o enunciado da “independência europeia”. A “independência” da energia russa foi vendida como se de uma verdadeira independência estratégica se tratasse. Tal como no caso das matérias-primas críticas, passo a passo, bem rápido, em menos de um ano, os EUA haviam substituído totalmente a Federação Russa, mas conseguiram ainda mais: uma dependência por parte da UE, como antes não existia em relação à Federação Russa. Tudo isto foi vendido como uma imensa vitória dos “valores e princípios europeus”.

Actualmente, quando vemos o Qatar impedido de vender energia à EU, em resultado da agressão dos EUA ao Irão; quando vemos o golfo impedido de vender a sua energia a todo o mundo; verificamos que a EU tem os reservatórios vazios e não tem como enchê-los, estando à beira de ter de comprar gás no mercado spot (diário), a preços incomportáveis para a economia europeia. Mas o mais grave de tudo, é que países como a Alemanha têm ainda em vigor contratos de fornecimento com a Federação Russa, mas recusam-se a usá-los, preferindo comprar energia também russa, desta feita à Índia, mas mais dispendiosa. Só que comprada no circuito do dólar!

Não contentes, sabendo que os EUA colocaram o mundo numa situação de dependência crucial em relação à sua energia fóssil (o Golfo está parado, o Irão e Rússia sob sanções e a Venezuela, bem, a Venezuela…), tudo para poderem impedir a desagregação do dólar e garantirem a capacidade de fixação de preços, a EU compra armas aos EUA, fornece drones e seus componentes, financiamento e inteligência ao regime de Kiev, que são usados para destruir a “frota fantasma” russa — e parece que agora iraniana também —, com consequências ainda mais nefastas para os preços internacionais da energia, energia essa que a EU vai comprar a peso de ouro, por apenas querer comprá-la aos EUA, ou em mercados por eles controlados!

Na Inteligência Artificial, o modus operandi é rigorosamente o mesmo! Os EUA dominam os grandes modelos de linguagem, a computação em nuvem de alta performance e os semicondutores avançados (via NVIDIA, AMD, Intel), sem que a Europa tome passos sérios no sentido da independência, embora já se tenham passado dois anos da apresentação do Relatório Draghi, de que tanto se falou e que apontava, entre outros, esta dependência.

A verdade é que, em tudo o que diz respeito à 4.ª Revolução Industrial, os EUA atraíram investimentos europeus em baterias, veículos eléctricos e tecnologias limpas através do Inflation Reduction Act, criando um efeito de sucção que enfraqueceu a base industrial europeia, sem que a EU tivesse respondido à altura. Empresas que poderiam ter investido na Polónia, em Espanha ou na França deslocaram-se para o Texas ou a Carolina do Norte para aceder a subsídios que a UE não “conseguiu” igualar, ou tentou retaliar, preparando-se para medidas proteccionistas que impedissem a erosão da sua base industrial. O dinheiro que negou à economia europeia, enviou-o para Kiev, para matar ucranianos e russos.

A conclusão é simples: A União Europeia produz regulamentos — o AI Act, Digital Services Act, Digital Markets Act —, produz as impressoras mais avançadas (ASML), mas não possui um único chip de alto rendimento que possa dizer seu. Quando EUA e China se digladiam pelo domínio das tecnologias mais avançadas e os países europeus ficam para trás, é preciso entender que estes países tinham mercado, conhecimento, tecnologia, mão-de-obra qualificada e capital para investir. O que não tiveram foi a vontade política para o fazerem, optando por colocarem nas mãos da burocracia de Bruxelas coisas tão importantes quanto as que aqui temos referido.

A pergunta que se impõe e que ninguém parece querer fazer é: quantas vezes pode uma entidade política de meio bilião de habitantes e a terceira maior economia do mundo vai “ficar para trás”, “acidentalmente”, sem que alguém a acuse de o fazer propositadamente?

União Europeia: a inultrapassável dependência estratégica!

Vejamos o caso do rearmamento da União Europeia e a forma como o processo está a ser executado. O que se está a preparar é uma situação em que a União Europeia faz a guerra com armas norte-americanas, como já sucede na Ucrânia, e as armas que produzirá serão produzidas com matérias-primas críticas em grande parte dominadas pelos EUA, ou sob seu licenciamento e autorização, para já não dizer, movidas a Inteligência Artificial do Vale do Silício.

O Plano “Preserving Peace — Defence Readiness Roadmap 2030” (Preservar a Paz — Itinerário para a prontidão militar 2030) prevê que apenas 55% das armas compradas com os 800.000 milhões, que se prevê gastar em defesa, venham de “fábricas europeias” ou da Ucrânia. Ora, considerando que uma parte importante destas fábricas pode ser norte-americana, detida, em parte, por empresas norte-americanas, pagando royalties a empresas norte-americanas e que uma parte da indústria de defesa na Ucrânia enferma desta dependência estratégica, bem podemos ver que, mesmo que o trabalho seja feito na Europa, o valor acrescentado poderá ser sugado pelos EUA.

Considerando que a NATO 3.0 não passa de um mercado de armas dos EUA, considerando que 48% das armas compradas por estados europeus foram armas dos EUA, que entre 2022 e 2024, 50,7% do gasto militar dos países europeus da NATO foi em armas dos EUA, resta perguntar: que objectivos de independência prossegue a estratégia de rearmamento da UE?

Ineficiência de Bruxelas: acidente ou arquitetura?

Há quem defenda que isto é simplesmente o resultado de diferenças estruturais, uma vez que, supostamente, os EUA são um Estado federal com capacidade de decisão rápida e orçamentos militares colossais, enquanto a UE é uma construção intergovernamental de 27 Estados com interesses divergentes. Esta explicação pode ser muito confortável, para muita gente, mas não explica por que motivo tudo se fez em velocidade recorde quando:

– Foi decidido gastar 71 mil milhões de euros em vacinas COVID-19, especialmente da Pfizer, tudo feito em tempo recorde;

– foi criado o sistema de compra agregada de gás natural liquefeito dos EUA, também em tempo recorde;

– foram aprovados os empréstimos bilionários ao regime de Kiev para financiamento da guerra contra a Federação Russa, recorrendo a mecanismos ad-hoc criados, à pressa, para o efeito;

– Foi aprovada a entrada dos países europeus no sistema de compra de armas dos EUA pela UE, para envio para a Ucrânia.

Nestes casos, perante a mão pesada do líder real e perante matérias em que Washington é o beneficiário directo, se bem que disfarçadas de necessidades emergentes, a Comissão e o Conselho, ou mesmo o Parlamento Europeu, a única estrutura democrática da UE e, curiosamente, a menos poderosa, não se perdem em relatórios, blueprints, roadmaps e coisas do tipo. Foi como se existisse uma “mão invisível”, não a de Adam Smith, reguladora, equilibradora, mas a outra, a de Washington, a que agarra, amordaça, pune e contém. O acordo de von der Leyen com Trump, totalmente à margem das competências da Comissão Europeia, prevendo investimento, compra de gás e armas foi um exemplo acabado disto mesmo e da existência de um mecanismo “fast-track” apenas ao dispor das vontades da Casa Branca.

Se em tudo o que é estrutural e decisivo para os povos europeus e que lhes poderia dar alguma vantagem, os órgãos europeus revelam uma incapacidade confrangedora para decidir e tomar um rumo soberano e independente, ilumina-se, então, por que razão esta Europa estará, de forma tão decisiva, a “deixar-se arrastar” para uma guerra sem fim, uma guerra que ameaça destruí-la, pela terceira vez em 130 anos. A consequência fundamental resultante de uma análise histórica das últimas décadas revela um modus operandi que nos comprova que, ao contrário de se estar a deixar arrastar, o que se passa é que Bruxelas, em tudo o que funciona como centro de decisão, transforma os países europeus em pouco mais que armas de arremesso.

Não admira que Bruxelas esteja tão identificada com estruturas como a NATO e o G7, uma vez que tais estruturas, tal como Bruxelas, concorrem para sublimar a estratégia de quem as domina, sacrificando a parte pelo todo, a periferia pelo centro.

Tal sacrifício deliberado só é possível porque a EU e Bruxelas se transformaram em tudo o que não deveriam ser, assistindo-se ao epílogo de uma história iniciada após a Segunda Guerra Mundial e que teve como protagonistas os EUA, o Reino Unido, a França e, sob um pano de fundo, a Alemanha. Este epílogo explica também a insistente incompetência de Bruxelas, quando se trata de afirmar a independência dos países europeus e a hipersónica resolução, quando se trata de afirmar a sua dependência em relação aos líderes do bloco ocidental: os EUA.

O facto é que a visão inicial de De Gaulle perdeu para o cavalo de Tróia inglês. De Gaulle defendia uma Europa “do Atlântico aos Urais”, algo que os EUA não poderiam aceitar, por razões estratégicas, ideológicas e de poder. Para Washington, uma Europa “do Atlântico aos Urais” representava uma ameaça à arquitectura da Guerra Fria e à estratégia de vitória que os próprios haviam construído. Tal estratégia partia o mundo em dois, num processo de isolamento progressivo do principal oponente, algo que tentam agora, uma vez mais, através de um processo de guerra comercial e sanções secundárias, que visam ir desacoplando, progressivamente, os três pilares soberanistas, independentes e alternativos, sobre os quais assenta a ideia de mundo multipolar, não alinhamento e libertação do domínio neocolonial: a China, a Federação Russa, o Irão. Três países tão acossados e acusados de incivilidade acabam como as grandes esperanças de uma humanidade que não pretende ser uniformizada pelo ocidentalismo atlantista e globalista.

Com efeito, De Gaulle propunha uma Europa das nações soberanas, uma espécie de “confederação” que funcionasse como “terceira força” entre os EUA e a URSS, capaz de dialogar com Moscovo e de, a longo prazo, reunificar o continente. Algo que hoje se volta a levantar em relação à China e ao mundo multipolar, posição da qual a Europa de Von der Leyen se divorciou, apesar de todos os ensinamentos da história e de todos os danos que daí advêm, como a perda de independência, influência e importância relativas dos países europeus. Macron será dos mais culpados neste processo, pela traição histórica que representa contra a sua própria nação!

Um documento secreto da CIA de 1967 notava que De Gaulle esperava que a França e a URSS fossem “os porta-vozes respectivamente da Europa Ocidental e Oriental”, com esferas de influência separadas mas sobrepostas na questão alemã. Para Washington, esta posição neutralizava as suas pretensões hegemónicas, algo que foi contrariando com uma Alemanha unificada e um Reino Unido na União Europeia. Ao contrário de hoje, De Gaulle tinha uma visão estratégica para a Europa comunitária, não pretendendo o seu domínio por Bruxelas, antes pretendendo uma confederação de estados-nação liderada por Paris. E o pior, para os EUA, é que pretendia que esta confederação fosse independente da NATO.

A verdade é que De Gaulle vetou duas vezes a entrada do Reino Unido na CEE (1963 e 1967) porque via o “relacionamento especial” anglo-americano como um mecanismo de infiltração dos interesses dos EUA no continente. De Gaulle só não viu uma coisa, é que com o tempo, e como comprova o Brexit, já nem o Reino Unido tem de estar na União Europeia para que os seus receios se concretizem. A língua e cultura anglo-saxónicas funcionaram como veículo neocolonial privilegiado, numa construção demasiado diversa para ter coerência interna. Não vindo essa coerência de Paris, a mesma só poderia vir do atlântico, através do Reino Unido, com origem nos EUA!

Assim, a derrota da visão de uma Europa “do Atlântico aos Urais” não apenas representou a derrota de uma Europa independente da hegemonia americana, como ainda explica por que razão esta Europa é incapaz de negociar com Moscovo, funciona como extensão da NATO e age como facilitadora da influência de Washington no continente europeu, na Eurásia e no Próximo Oriente. Ou por que razão a EU é incapaz de um grande acordo comercial com a China, a ASEAN ou com países asiáticos não alinhados directamente com a política externa de Washington. As relações da EU com a Ásia tendem a constituir meras extensões das relações dos EUA com esse continente.

Por que razão gastar dinheiro no desenvolvimento de um campo de batalha? Por que razão intensificar a electrificação de um continente sem hidrocarbonetos, quando a sua função é financiar o domínio energético norte-americano? Aos poucos vamos percebendo que a incompetência, a lentidão, a indecisão não são, nem acidente, nem descuido. O que muitos definem como “incompetência de Bruxelas”, ou “incompetência europeia” não representa mais do que o resultado de uma competente estratégia de longa duração, que terá na terceira guerra mundial — já em curso — o epílogo do que deveria ter sido a segunda, quando a Europa e o estado social foram, indirectamente, salvos pela URSS!

O imperialismo nunca desiste e a Bruxelas actual é disso prova! Seja quando age depressa, devagar ou parada!

Fontes e referências

Sobre minerais críticos e financiamento EU/EUA:

– European Parliament, US critical minerals policy and its implications for the EU’s strategic autonomy (PE 786.415), 2026: https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/STUD/2026/786415/ECTI_STU(2026)786415_EN.pdf

– Jones Day, The EU Critical Raw Materials Act and Its Impact on the Mining Sector, 2026: https://www.jonesday.com/en/insights/2026/05/the-eu-critical-raw-materials-act-and-its-impact-on-the-mining-sector-strategic-opportunities-for-industry-stakeholders

– Bruegel, Competing for inputs: how the European Union can improve critical raw materials supply security, 2026: https://www.bruegel.org/policy-brief/competing-inputs-how-european-union-can-improve-critical-raw-materials-supply-security

Sobre Output Industrial (Manufacturing Value Added):

– Macrotrends, European Union Manufacturing Output: https://www.macrotrends.net/global-metrics/countries/euu/european-union/manufacturing-output

– The Global Economy, USA Manufacturing Value Added: https://www.theglobaleconomy.com/USA/manufacturing_value_added/

Sobre Rearmamento e Defence Readiness 2030:

– Jason Institute, Readiness Europe 2030 lacks structure and planning, 2026: https://jasoninstitute.com/readiness-europe-2030-lacks-structure-and-planning/

– IEU Monitoring, Preserving Peace: EU Commission and High Representative unveil Defence Roadmap 2030, 2025: https://ieu-monitoring.com/editorial/preserving-peace-eu-commission-and-high-representative-unveil-defence-roadmap-2030/850806

Sobre comércio de armas e dependência da NATO:

– SIPRI, Global arms flows jump nearly 10 per cent as European demand soars, 2026: https://www.sipri.org/media/press-release/2026/global-arms-flows-jump-nearly-10-cent-european-demand-soars

– Defense News, European NATO nations reduce reliance on US arms imports, 2026: https://www.defensenews.com/global/europe/2026/03/09/european-nato-nations-reduce-reliance-on-us-arms-imports-sipri-data/

– France24 / SIPRI, NATO arms imports doubled in past five years with 60% sourced from the US, 2025: https://www.france24.com/en/europe/20250310-europe-us-arms-ukraine-nato

Sobre energia, gás e shale revolution:

– U.S. Energy Information Administration (EIA), The United States produced more crude oil than any other country in 2025, 2026: https://www.eia.gov/todayinenergy/detail.php?id=67844

– International Energy Agency (IEA), Anatomy of a natural gas crisis – Gas Market Lessons from the 2022-2023 Energy Crisis: https://www.iea.org/reports/gas-market-lessons-from-the-2022-2023-energy-crisis/anatomy-of-a-natural-gas-crisis

– Council of the European Union, Where does the EU’s gas come from?, 2024: https://www.consilium.europa.eu/en/infographics/where-does-the-eu-s-gas-come-from/

– LSE USAPP, Trump’s $750 billion EU energy deal is built on an illusion, 2025: https://blogs.lse.ac.uk/usappblog/2025/10/14/trumps-750-billion-eu-energy-deal-is-built-on-an-illusion/

– European Commission, Statement by the President on the deal with the United States, 2025: https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/statement_25_1915

– Axios, EU trade deal with Trump seen as helping Europe ditch Russian fuels, 2025: https://www.axios.com/2025/07/27/eu-deal-trump-russian-fuels

Sobre relatório draghi e tecnologia:

– HCSS, The Draghi Report Revisited | Artificial Intelligence, 2025: https://hcss.nl/news/the-draghi-report-revisited-artificial-intelligence-ai/

– EE Times, Does the Draghi Report Miss the Bigger Picture on Semiconductors?, 2024: https://www.eetimes.com/does-the-draghi-report-miss-the-bigger-picture-on-semiconductors/

Sobre De Gaulle, história e CIA:

– Princeton University, Andrew Moravcsik, De Gaulle and European Integration: https://www.princeton.edu/~amoravcs/library/de_gaulle.pdf

– EHNE, De Gaulle and Europe: https://ehne.fr/en/encyclopedia/themes/international-relations/arbiters-and-arbitration-in-europe-beginning-modern-times/de-gaulle-and-europe

– CIA Reading Room, THE CONSTANTS IN FRENCH FOREIGN POLICY: https://www.cia.gov/readingroom/document/cia-rdp85t00875r001100100079-9

– Office of the Historian (FRUS), Telegram From the Embassy in France to the Department of State, 1964–68: https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1964-68v13/d53

A competente «incompetência» de Bruxelas

O imperialismo nunca desiste e a Bruxelas actual é disso prova! Seja quando age depressa, devagar ou parada.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Um relógio suíço não seria mais preciso do que a previsibilidade da União Europeia. À falta de uma liderança própria e de um desígnio estratégico comum, um que não passe pela reverberação de mensagens produzidas noutras paragens e que ressoam fortemente nos corredores de Bruxelas, enformando e auto-sabotando todos os estados-membros, a União Europeia segue órfã de uma liderança própria que não a reduza a um mero instrumento do domínio dos monopólios ocidentais que encontram sede e protecção material junto do aparelho estatal dos EUA.

É mesmo incrível, absolutamente terrível, a forma como as instâncias europeias colocam os povos europeus em situações complicadíssimas, desenvolvendo, uma e outra vez, acções que vulnerabilizam as economias e sociedades dos estados-membros individualmente considerados. À luz das duas últimas décadas, pertencer à União Europeia transformou-se num repetido festival de autoflagelação, ineficiência e incompetência.

O horroroso modus operandi que se vulgarizou na EU, especialmente após a passagem do Goldman Sachs boy Durão Barroso, tem dois vectores fundamentais, igualmente destrutivos. O vector da ineficiência, do desperdício, da burocracia exacerbada e inultrapassável, que normalmente se inicia com um anúncio veemente por parte de Von der Leyen. Este anúncio é imediatamente seguido de pilhas de papel, toneladas de relatórios, ambiciosos roadmaps, blueprints infalíveis e que enfastiam o leitor só de para eles olhar. Depois de inúmeras conferências, seminários, cursos, sessões de diálogo social, presidências temáticas dedicadas, lá avança o suposto “diálogo”, “triálogo”, termos, entretanto, desvirtuados pelo subliminar monólogo que traduz os interesses monopolistas e oligárquicos que se escondem por detrás da camada institucional e burocrática, para que, a final, seja parida uma maravilhosa directiva, regulamento, agenda ou plano, regulamento, agenda ou plano. A sua eficácia dependerá da resposta a uma só questão: “Cui bono?”

Isto sucede em questões verdadeiramente importantes para a vida dos povos europeus, aspectos que poderiam assumir aspectos positivos nas suas vidas. Eis alguns exemplos: inteligência artificial com selo europeu; serviços digitais com selo europeu; rede ferroviária de alta velocidade que ligue toda a EU, libertando-se da dependência de combustível fóssil ligado à aviação e ao domínio dos EUA sobre o mercado internacional de aviação civil, transitando para uma área em que não dominam, o sector ferroviário; aposta numa estratégia de fornecimento de energia acessível, baseada tanto no nuclear, como nas renováveis, incluindo ainda fontes fósseis ou não fósseis provenientes de fornecedores mais próximos, menos dispendiosos e menos exigentes do ponto de vista ambiental (como não sucede com o fracking), tão necessárias para a reindustrialização, transição ambiental e energética da UE; garantia de aquisição de matérias-primas acessíveis através do estabelecimento de cadeias de abastecimento sólidas para fazer face às necessidades europeias; entre muitas outras soluções, planeadas, estudadas e apresentadas, mas esbarrando sempre no mesmo tipo de limitação e, por isso mesmo, absentes da luz do dia em que deixarão de constituir um problema. O fim abrupto ou manutenção desses problemas importa sempre a resposta a outra questão prévia: quem é prejudicado por tais medidas?

O caso dos minerais críticos: o espelho de tudo o resto

Vejamos o caso dos minerais críticos, absolutamente essenciais para que a UE possa impedir a desindustrialização rápida que sofre e, inclusive, para que se possa rearmar, agora que o apetite bélico dos seus dirigentes atinge um nível inversamente proporcional ao da capacidade humana e material para fazer essas coisas.

Os números não deixam mentir e não faltam “iniciativas” com origem na burocracia europeia. Enquanto a União Europeia discutia e publicava a CRMA (Critical Raw Materials Act — Lei das Matérias-Primas Críticas), adoptada em 2024, e o ReSourceEU Action Plan (Plano de Acção para suprimento da EU), criando até um European Critical Raw Materials Board (Conselho Europeu de Matérias-Primas Críticas) e ainda uma European Raw Materials Alliance (Aliança Europeia de Matérias-Primas), mobilizando uns meros 5 a 6 mil milhões de euros, os EUA limitaram-se a usar a Lei de Produção de Defesa para financiar estas coisas como se se tratassem de operações militares, destinando 46 mil milhões de euros para minerais críticos e terras raras, só para dar uma comparação entre dois espaços com problemas similares neste domínio. Para um output industrial semelhante — os EUA situados entre 2,8 e 2,9 biliões de $ e a EU entre 2,6 e 2,8 biliões de $ —, os EUA reuniram cerca de 8 a 10 vezes mais recursos financeiros, sem contar com o facto de, ao contrário da EU, os EUA serem também um enorme depósito de matérias-primas e minerais críticos.

Mas não se ficam por aqui as diferenças: por exemplo, no que respeita aos modelos de constituição de reservas, os EUA usam um sistema duplo composto pela Reserva de Defesa Nacional (National Defense Stockpile) e pelo Project Vault, apoiado pelo EXIM Bank. Já a EU ainda se encontra numa embrionária fase de gestão das reservas de minerais críticos, esperando pela estratégia que há-de ser delineada pelo futuro Centro Europeu de Matérias-Primas Críticas e pela coordenação a fazer-se entre os 27 estados-membros.

Um padrão que se repete: IA, energia, indústria 4.0

Se olharmos para trás, este quadrado do desfasamento entre “apetite político aparente — capacidade de execução efectiva — maior rapidez da resposta dos EUA”, fecha-se com o 4.º vértice a ser constituído pela “Primazia da Estratégia Norte-americana sobre todas as demais”. Nas questões eleitas como estratégicas pelo Ocidente, pelos EUA, EU, G7 ou NATO, e absolutamente relevantes para a hegemonia norte-americana e para a sua estratégia de segurança nacional (aqui e ali mascarando estratégias monopolistas), podemos dizer que, quanto mais propagada é a necessidade de domínio dessa matéria, para o público em geral, maior é a susceptibilidade de os EUA constituírem o centro de uma dinâmica neocolonial, em que as periferias ou semiperiferias se sacrificam por esse mesmo centro. Daí que, dizer que “a União Europeia ficou para trás”, represente um paradoxo, quando considerado o papel atribuído à Europa, como mero campo de batalha, mercado de consumo e fonte de recursos humanos e de conhecimento.

Podemos dizer que, para os povos europeus, para os povos dos estados-membros da UE, para ser mais preciso, essa barganha é inadmissível. Daí que o espaço comunicacional seja preenchido com bonitos embrulhos compostos por fantásticas agendas, brilhantes planos de acção e “Atos” legislativos sem fim, não fosse dar muito nas vistas. No final, tendemos a descobrir que a função de todo o folclore foi apenas e tão só o de arrastar os estados-membros para uma dependência neocolonial em relação aos EUA. A Comissão Europeia toma a iniciativa, agrega os esforços, responsabiliza-se pelo resultado, demite os Estados-Membros do assunto, transformando-os em meros pontos focais da estratégia europeia para, no fim, descobrimos que, afinal, o ponto focal é Bruxelas e que os outros 27 são meramente aparentes.

A situação das matérias-primas críticas é, em tudo, similar à dos hidrocarbonetos. Na energia fóssil, a shale revolution transformou os EUA no maior produtor de petróleo e gás do mundo. A Europa, que, por sua vez, era dependente da energia fóssil russa e à sombra da qual tinha visto a sua indústria florescer, foi vista pelos EUA como o mercado de consumo que tornaria possível a viabilização do negócio Shale, dentro de margens financeiras que justificassem o investimento previsto. Mas, para que tal fosse possível, havia que garantir que a EU comprava esse gás e petróleo. Contudo, para o fazer, teria de prescindir dos hidrocarbonetos russos. O resto foi história e o acosso à Federação Russa e aos povos russófonos do Donbass, usados como isco para atrair o Kremlin para um conflito de larga escala, vai crescendo à medida que se vai consolidando internacionalmente o plano de negócios da energia fóssil de xisto.

A transição fez-se à custa de um plano, agenda, centro, estratégia, blueprint e roadmap com vista ao fim do consumo da energia “antidemocrática” da Rússia. Não faltou o enunciado da “independência europeia”. A “independência” da energia russa foi vendida como se de uma verdadeira independência estratégica se tratasse. Tal como no caso das matérias-primas críticas, passo a passo, bem rápido, em menos de um ano, os EUA haviam substituído totalmente a Federação Russa, mas conseguiram ainda mais: uma dependência por parte da UE, como antes não existia em relação à Federação Russa. Tudo isto foi vendido como uma imensa vitória dos “valores e princípios europeus”.

Actualmente, quando vemos o Qatar impedido de vender energia à EU, em resultado da agressão dos EUA ao Irão; quando vemos o golfo impedido de vender a sua energia a todo o mundo; verificamos que a EU tem os reservatórios vazios e não tem como enchê-los, estando à beira de ter de comprar gás no mercado spot (diário), a preços incomportáveis para a economia europeia. Mas o mais grave de tudo, é que países como a Alemanha têm ainda em vigor contratos de fornecimento com a Federação Russa, mas recusam-se a usá-los, preferindo comprar energia também russa, desta feita à Índia, mas mais dispendiosa. Só que comprada no circuito do dólar!

Não contentes, sabendo que os EUA colocaram o mundo numa situação de dependência crucial em relação à sua energia fóssil (o Golfo está parado, o Irão e Rússia sob sanções e a Venezuela, bem, a Venezuela…), tudo para poderem impedir a desagregação do dólar e garantirem a capacidade de fixação de preços, a EU compra armas aos EUA, fornece drones e seus componentes, financiamento e inteligência ao regime de Kiev, que são usados para destruir a “frota fantasma” russa — e parece que agora iraniana também —, com consequências ainda mais nefastas para os preços internacionais da energia, energia essa que a EU vai comprar a peso de ouro, por apenas querer comprá-la aos EUA, ou em mercados por eles controlados!

Na Inteligência Artificial, o modus operandi é rigorosamente o mesmo! Os EUA dominam os grandes modelos de linguagem, a computação em nuvem de alta performance e os semicondutores avançados (via NVIDIA, AMD, Intel), sem que a Europa tome passos sérios no sentido da independência, embora já se tenham passado dois anos da apresentação do Relatório Draghi, de que tanto se falou e que apontava, entre outros, esta dependência.

A verdade é que, em tudo o que diz respeito à 4.ª Revolução Industrial, os EUA atraíram investimentos europeus em baterias, veículos eléctricos e tecnologias limpas através do Inflation Reduction Act, criando um efeito de sucção que enfraqueceu a base industrial europeia, sem que a EU tivesse respondido à altura. Empresas que poderiam ter investido na Polónia, em Espanha ou na França deslocaram-se para o Texas ou a Carolina do Norte para aceder a subsídios que a UE não “conseguiu” igualar, ou tentou retaliar, preparando-se para medidas proteccionistas que impedissem a erosão da sua base industrial. O dinheiro que negou à economia europeia, enviou-o para Kiev, para matar ucranianos e russos.

A conclusão é simples: A União Europeia produz regulamentos — o AI Act, Digital Services Act, Digital Markets Act —, produz as impressoras mais avançadas (ASML), mas não possui um único chip de alto rendimento que possa dizer seu. Quando EUA e China se digladiam pelo domínio das tecnologias mais avançadas e os países europeus ficam para trás, é preciso entender que estes países tinham mercado, conhecimento, tecnologia, mão-de-obra qualificada e capital para investir. O que não tiveram foi a vontade política para o fazerem, optando por colocarem nas mãos da burocracia de Bruxelas coisas tão importantes quanto as que aqui temos referido.

A pergunta que se impõe e que ninguém parece querer fazer é: quantas vezes pode uma entidade política de meio bilião de habitantes e a terceira maior economia do mundo vai “ficar para trás”, “acidentalmente”, sem que alguém a acuse de o fazer propositadamente?

União Europeia: a inultrapassável dependência estratégica!

Vejamos o caso do rearmamento da União Europeia e a forma como o processo está a ser executado. O que se está a preparar é uma situação em que a União Europeia faz a guerra com armas norte-americanas, como já sucede na Ucrânia, e as armas que produzirá serão produzidas com matérias-primas críticas em grande parte dominadas pelos EUA, ou sob seu licenciamento e autorização, para já não dizer, movidas a Inteligência Artificial do Vale do Silício.

O Plano “Preserving Peace — Defence Readiness Roadmap 2030” (Preservar a Paz — Itinerário para a prontidão militar 2030) prevê que apenas 55% das armas compradas com os 800.000 milhões, que se prevê gastar em defesa, venham de “fábricas europeias” ou da Ucrânia. Ora, considerando que uma parte importante destas fábricas pode ser norte-americana, detida, em parte, por empresas norte-americanas, pagando royalties a empresas norte-americanas e que uma parte da indústria de defesa na Ucrânia enferma desta dependência estratégica, bem podemos ver que, mesmo que o trabalho seja feito na Europa, o valor acrescentado poderá ser sugado pelos EUA.

Considerando que a NATO 3.0 não passa de um mercado de armas dos EUA, considerando que 48% das armas compradas por estados europeus foram armas dos EUA, que entre 2022 e 2024, 50,7% do gasto militar dos países europeus da NATO foi em armas dos EUA, resta perguntar: que objectivos de independência prossegue a estratégia de rearmamento da UE?

Ineficiência de Bruxelas: acidente ou arquitetura?

Há quem defenda que isto é simplesmente o resultado de diferenças estruturais, uma vez que, supostamente, os EUA são um Estado federal com capacidade de decisão rápida e orçamentos militares colossais, enquanto a UE é uma construção intergovernamental de 27 Estados com interesses divergentes. Esta explicação pode ser muito confortável, para muita gente, mas não explica por que motivo tudo se fez em velocidade recorde quando:

– Foi decidido gastar 71 mil milhões de euros em vacinas COVID-19, especialmente da Pfizer, tudo feito em tempo recorde;

– foi criado o sistema de compra agregada de gás natural liquefeito dos EUA, também em tempo recorde;

– foram aprovados os empréstimos bilionários ao regime de Kiev para financiamento da guerra contra a Federação Russa, recorrendo a mecanismos ad-hoc criados, à pressa, para o efeito;

– Foi aprovada a entrada dos países europeus no sistema de compra de armas dos EUA pela UE, para envio para a Ucrânia.

Nestes casos, perante a mão pesada do líder real e perante matérias em que Washington é o beneficiário directo, se bem que disfarçadas de necessidades emergentes, a Comissão e o Conselho, ou mesmo o Parlamento Europeu, a única estrutura democrática da UE e, curiosamente, a menos poderosa, não se perdem em relatórios, blueprints, roadmaps e coisas do tipo. Foi como se existisse uma “mão invisível”, não a de Adam Smith, reguladora, equilibradora, mas a outra, a de Washington, a que agarra, amordaça, pune e contém. O acordo de von der Leyen com Trump, totalmente à margem das competências da Comissão Europeia, prevendo investimento, compra de gás e armas foi um exemplo acabado disto mesmo e da existência de um mecanismo “fast-track” apenas ao dispor das vontades da Casa Branca.

Se em tudo o que é estrutural e decisivo para os povos europeus e que lhes poderia dar alguma vantagem, os órgãos europeus revelam uma incapacidade confrangedora para decidir e tomar um rumo soberano e independente, ilumina-se, então, por que razão esta Europa estará, de forma tão decisiva, a “deixar-se arrastar” para uma guerra sem fim, uma guerra que ameaça destruí-la, pela terceira vez em 130 anos. A consequência fundamental resultante de uma análise histórica das últimas décadas revela um modus operandi que nos comprova que, ao contrário de se estar a deixar arrastar, o que se passa é que Bruxelas, em tudo o que funciona como centro de decisão, transforma os países europeus em pouco mais que armas de arremesso.

Não admira que Bruxelas esteja tão identificada com estruturas como a NATO e o G7, uma vez que tais estruturas, tal como Bruxelas, concorrem para sublimar a estratégia de quem as domina, sacrificando a parte pelo todo, a periferia pelo centro.

Tal sacrifício deliberado só é possível porque a EU e Bruxelas se transformaram em tudo o que não deveriam ser, assistindo-se ao epílogo de uma história iniciada após a Segunda Guerra Mundial e que teve como protagonistas os EUA, o Reino Unido, a França e, sob um pano de fundo, a Alemanha. Este epílogo explica também a insistente incompetência de Bruxelas, quando se trata de afirmar a independência dos países europeus e a hipersónica resolução, quando se trata de afirmar a sua dependência em relação aos líderes do bloco ocidental: os EUA.

O facto é que a visão inicial de De Gaulle perdeu para o cavalo de Tróia inglês. De Gaulle defendia uma Europa “do Atlântico aos Urais”, algo que os EUA não poderiam aceitar, por razões estratégicas, ideológicas e de poder. Para Washington, uma Europa “do Atlântico aos Urais” representava uma ameaça à arquitectura da Guerra Fria e à estratégia de vitória que os próprios haviam construído. Tal estratégia partia o mundo em dois, num processo de isolamento progressivo do principal oponente, algo que tentam agora, uma vez mais, através de um processo de guerra comercial e sanções secundárias, que visam ir desacoplando, progressivamente, os três pilares soberanistas, independentes e alternativos, sobre os quais assenta a ideia de mundo multipolar, não alinhamento e libertação do domínio neocolonial: a China, a Federação Russa, o Irão. Três países tão acossados e acusados de incivilidade acabam como as grandes esperanças de uma humanidade que não pretende ser uniformizada pelo ocidentalismo atlantista e globalista.

Com efeito, De Gaulle propunha uma Europa das nações soberanas, uma espécie de “confederação” que funcionasse como “terceira força” entre os EUA e a URSS, capaz de dialogar com Moscovo e de, a longo prazo, reunificar o continente. Algo que hoje se volta a levantar em relação à China e ao mundo multipolar, posição da qual a Europa de Von der Leyen se divorciou, apesar de todos os ensinamentos da história e de todos os danos que daí advêm, como a perda de independência, influência e importância relativas dos países europeus. Macron será dos mais culpados neste processo, pela traição histórica que representa contra a sua própria nação!

Um documento secreto da CIA de 1967 notava que De Gaulle esperava que a França e a URSS fossem “os porta-vozes respectivamente da Europa Ocidental e Oriental”, com esferas de influência separadas mas sobrepostas na questão alemã. Para Washington, esta posição neutralizava as suas pretensões hegemónicas, algo que foi contrariando com uma Alemanha unificada e um Reino Unido na União Europeia. Ao contrário de hoje, De Gaulle tinha uma visão estratégica para a Europa comunitária, não pretendendo o seu domínio por Bruxelas, antes pretendendo uma confederação de estados-nação liderada por Paris. E o pior, para os EUA, é que pretendia que esta confederação fosse independente da NATO.

A verdade é que De Gaulle vetou duas vezes a entrada do Reino Unido na CEE (1963 e 1967) porque via o “relacionamento especial” anglo-americano como um mecanismo de infiltração dos interesses dos EUA no continente. De Gaulle só não viu uma coisa, é que com o tempo, e como comprova o Brexit, já nem o Reino Unido tem de estar na União Europeia para que os seus receios se concretizem. A língua e cultura anglo-saxónicas funcionaram como veículo neocolonial privilegiado, numa construção demasiado diversa para ter coerência interna. Não vindo essa coerência de Paris, a mesma só poderia vir do atlântico, através do Reino Unido, com origem nos EUA!

Assim, a derrota da visão de uma Europa “do Atlântico aos Urais” não apenas representou a derrota de uma Europa independente da hegemonia americana, como ainda explica por que razão esta Europa é incapaz de negociar com Moscovo, funciona como extensão da NATO e age como facilitadora da influência de Washington no continente europeu, na Eurásia e no Próximo Oriente. Ou por que razão a EU é incapaz de um grande acordo comercial com a China, a ASEAN ou com países asiáticos não alinhados directamente com a política externa de Washington. As relações da EU com a Ásia tendem a constituir meras extensões das relações dos EUA com esse continente.

Por que razão gastar dinheiro no desenvolvimento de um campo de batalha? Por que razão intensificar a electrificação de um continente sem hidrocarbonetos, quando a sua função é financiar o domínio energético norte-americano? Aos poucos vamos percebendo que a incompetência, a lentidão, a indecisão não são, nem acidente, nem descuido. O que muitos definem como “incompetência de Bruxelas”, ou “incompetência europeia” não representa mais do que o resultado de uma competente estratégia de longa duração, que terá na terceira guerra mundial — já em curso — o epílogo do que deveria ter sido a segunda, quando a Europa e o estado social foram, indirectamente, salvos pela URSS!

O imperialismo nunca desiste e a Bruxelas actual é disso prova! Seja quando age depressa, devagar ou parada!

Fontes e referências

Sobre minerais críticos e financiamento EU/EUA:

– European Parliament, US critical minerals policy and its implications for the EU’s strategic autonomy (PE 786.415), 2026: https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/STUD/2026/786415/ECTI_STU(2026)786415_EN.pdf

– Jones Day, The EU Critical Raw Materials Act and Its Impact on the Mining Sector, 2026: https://www.jonesday.com/en/insights/2026/05/the-eu-critical-raw-materials-act-and-its-impact-on-the-mining-sector-strategic-opportunities-for-industry-stakeholders

– Bruegel, Competing for inputs: how the European Union can improve critical raw materials supply security, 2026: https://www.bruegel.org/policy-brief/competing-inputs-how-european-union-can-improve-critical-raw-materials-supply-security

Sobre Output Industrial (Manufacturing Value Added):

– Macrotrends, European Union Manufacturing Output: https://www.macrotrends.net/global-metrics/countries/euu/european-union/manufacturing-output

– The Global Economy, USA Manufacturing Value Added: https://www.theglobaleconomy.com/USA/manufacturing_value_added/

Sobre Rearmamento e Defence Readiness 2030:

– Jason Institute, Readiness Europe 2030 lacks structure and planning, 2026: https://jasoninstitute.com/readiness-europe-2030-lacks-structure-and-planning/

– IEU Monitoring, Preserving Peace: EU Commission and High Representative unveil Defence Roadmap 2030, 2025: https://ieu-monitoring.com/editorial/preserving-peace-eu-commission-and-high-representative-unveil-defence-roadmap-2030/850806

Sobre comércio de armas e dependência da NATO:

– SIPRI, Global arms flows jump nearly 10 per cent as European demand soars, 2026: https://www.sipri.org/media/press-release/2026/global-arms-flows-jump-nearly-10-cent-european-demand-soars

– Defense News, European NATO nations reduce reliance on US arms imports, 2026: https://www.defensenews.com/global/europe/2026/03/09/european-nato-nations-reduce-reliance-on-us-arms-imports-sipri-data/

– France24 / SIPRI, NATO arms imports doubled in past five years with 60% sourced from the US, 2025: https://www.france24.com/en/europe/20250310-europe-us-arms-ukraine-nato

Sobre energia, gás e shale revolution:

– U.S. Energy Information Administration (EIA), The United States produced more crude oil than any other country in 2025, 2026: https://www.eia.gov/todayinenergy/detail.php?id=67844

– International Energy Agency (IEA), Anatomy of a natural gas crisis – Gas Market Lessons from the 2022-2023 Energy Crisis: https://www.iea.org/reports/gas-market-lessons-from-the-2022-2023-energy-crisis/anatomy-of-a-natural-gas-crisis

– Council of the European Union, Where does the EU’s gas come from?, 2024: https://www.consilium.europa.eu/en/infographics/where-does-the-eu-s-gas-come-from/

– LSE USAPP, Trump’s $750 billion EU energy deal is built on an illusion, 2025: https://blogs.lse.ac.uk/usappblog/2025/10/14/trumps-750-billion-eu-energy-deal-is-built-on-an-illusion/

– European Commission, Statement by the President on the deal with the United States, 2025: https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/statement_25_1915

– Axios, EU trade deal with Trump seen as helping Europe ditch Russian fuels, 2025: https://www.axios.com/2025/07/27/eu-deal-trump-russian-fuels

Sobre relatório draghi e tecnologia:

– HCSS, The Draghi Report Revisited | Artificial Intelligence, 2025: https://hcss.nl/news/the-draghi-report-revisited-artificial-intelligence-ai/

– EE Times, Does the Draghi Report Miss the Bigger Picture on Semiconductors?, 2024: https://www.eetimes.com/does-the-draghi-report-miss-the-bigger-picture-on-semiconductors/

Sobre De Gaulle, história e CIA:

– Princeton University, Andrew Moravcsik, De Gaulle and European Integration: https://www.princeton.edu/~amoravcs/library/de_gaulle.pdf

– EHNE, De Gaulle and Europe: https://ehne.fr/en/encyclopedia/themes/international-relations/arbiters-and-arbitration-in-europe-beginning-modern-times/de-gaulle-and-europe

– CIA Reading Room, THE CONSTANTS IN FRENCH FOREIGN POLICY: https://www.cia.gov/readingroom/document/cia-rdp85t00875r001100100079-9

– Office of the Historian (FRUS), Telegram From the Embassy in France to the Department of State, 1964–68: https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1964-68v13/d53

O imperialismo nunca desiste e a Bruxelas actual é disso prova! Seja quando age depressa, devagar ou parada.

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Um relógio suíço não seria mais preciso do que a previsibilidade da União Europeia. À falta de uma liderança própria e de um desígnio estratégico comum, um que não passe pela reverberação de mensagens produzidas noutras paragens e que ressoam fortemente nos corredores de Bruxelas, enformando e auto-sabotando todos os estados-membros, a União Europeia segue órfã de uma liderança própria que não a reduza a um mero instrumento do domínio dos monopólios ocidentais que encontram sede e protecção material junto do aparelho estatal dos EUA.

É mesmo incrível, absolutamente terrível, a forma como as instâncias europeias colocam os povos europeus em situações complicadíssimas, desenvolvendo, uma e outra vez, acções que vulnerabilizam as economias e sociedades dos estados-membros individualmente considerados. À luz das duas últimas décadas, pertencer à União Europeia transformou-se num repetido festival de autoflagelação, ineficiência e incompetência.

O horroroso modus operandi que se vulgarizou na EU, especialmente após a passagem do Goldman Sachs boy Durão Barroso, tem dois vectores fundamentais, igualmente destrutivos. O vector da ineficiência, do desperdício, da burocracia exacerbada e inultrapassável, que normalmente se inicia com um anúncio veemente por parte de Von der Leyen. Este anúncio é imediatamente seguido de pilhas de papel, toneladas de relatórios, ambiciosos roadmaps, blueprints infalíveis e que enfastiam o leitor só de para eles olhar. Depois de inúmeras conferências, seminários, cursos, sessões de diálogo social, presidências temáticas dedicadas, lá avança o suposto “diálogo”, “triálogo”, termos, entretanto, desvirtuados pelo subliminar monólogo que traduz os interesses monopolistas e oligárquicos que se escondem por detrás da camada institucional e burocrática, para que, a final, seja parida uma maravilhosa directiva, regulamento, agenda ou plano, regulamento, agenda ou plano. A sua eficácia dependerá da resposta a uma só questão: “Cui bono?”

Isto sucede em questões verdadeiramente importantes para a vida dos povos europeus, aspectos que poderiam assumir aspectos positivos nas suas vidas. Eis alguns exemplos: inteligência artificial com selo europeu; serviços digitais com selo europeu; rede ferroviária de alta velocidade que ligue toda a EU, libertando-se da dependência de combustível fóssil ligado à aviação e ao domínio dos EUA sobre o mercado internacional de aviação civil, transitando para uma área em que não dominam, o sector ferroviário; aposta numa estratégia de fornecimento de energia acessível, baseada tanto no nuclear, como nas renováveis, incluindo ainda fontes fósseis ou não fósseis provenientes de fornecedores mais próximos, menos dispendiosos e menos exigentes do ponto de vista ambiental (como não sucede com o fracking), tão necessárias para a reindustrialização, transição ambiental e energética da UE; garantia de aquisição de matérias-primas acessíveis através do estabelecimento de cadeias de abastecimento sólidas para fazer face às necessidades europeias; entre muitas outras soluções, planeadas, estudadas e apresentadas, mas esbarrando sempre no mesmo tipo de limitação e, por isso mesmo, absentes da luz do dia em que deixarão de constituir um problema. O fim abrupto ou manutenção desses problemas importa sempre a resposta a outra questão prévia: quem é prejudicado por tais medidas?

O caso dos minerais críticos: o espelho de tudo o resto

Vejamos o caso dos minerais críticos, absolutamente essenciais para que a UE possa impedir a desindustrialização rápida que sofre e, inclusive, para que se possa rearmar, agora que o apetite bélico dos seus dirigentes atinge um nível inversamente proporcional ao da capacidade humana e material para fazer essas coisas.

Os números não deixam mentir e não faltam “iniciativas” com origem na burocracia europeia. Enquanto a União Europeia discutia e publicava a CRMA (Critical Raw Materials Act — Lei das Matérias-Primas Críticas), adoptada em 2024, e o ReSourceEU Action Plan (Plano de Acção para suprimento da EU), criando até um European Critical Raw Materials Board (Conselho Europeu de Matérias-Primas Críticas) e ainda uma European Raw Materials Alliance (Aliança Europeia de Matérias-Primas), mobilizando uns meros 5 a 6 mil milhões de euros, os EUA limitaram-se a usar a Lei de Produção de Defesa para financiar estas coisas como se se tratassem de operações militares, destinando 46 mil milhões de euros para minerais críticos e terras raras, só para dar uma comparação entre dois espaços com problemas similares neste domínio. Para um output industrial semelhante — os EUA situados entre 2,8 e 2,9 biliões de $ e a EU entre 2,6 e 2,8 biliões de $ —, os EUA reuniram cerca de 8 a 10 vezes mais recursos financeiros, sem contar com o facto de, ao contrário da EU, os EUA serem também um enorme depósito de matérias-primas e minerais críticos.

Mas não se ficam por aqui as diferenças: por exemplo, no que respeita aos modelos de constituição de reservas, os EUA usam um sistema duplo composto pela Reserva de Defesa Nacional (National Defense Stockpile) e pelo Project Vault, apoiado pelo EXIM Bank. Já a EU ainda se encontra numa embrionária fase de gestão das reservas de minerais críticos, esperando pela estratégia que há-de ser delineada pelo futuro Centro Europeu de Matérias-Primas Críticas e pela coordenação a fazer-se entre os 27 estados-membros.

Um padrão que se repete: IA, energia, indústria 4.0

Se olharmos para trás, este quadrado do desfasamento entre “apetite político aparente — capacidade de execução efectiva — maior rapidez da resposta dos EUA”, fecha-se com o 4.º vértice a ser constituído pela “Primazia da Estratégia Norte-americana sobre todas as demais”. Nas questões eleitas como estratégicas pelo Ocidente, pelos EUA, EU, G7 ou NATO, e absolutamente relevantes para a hegemonia norte-americana e para a sua estratégia de segurança nacional (aqui e ali mascarando estratégias monopolistas), podemos dizer que, quanto mais propagada é a necessidade de domínio dessa matéria, para o público em geral, maior é a susceptibilidade de os EUA constituírem o centro de uma dinâmica neocolonial, em que as periferias ou semiperiferias se sacrificam por esse mesmo centro. Daí que, dizer que “a União Europeia ficou para trás”, represente um paradoxo, quando considerado o papel atribuído à Europa, como mero campo de batalha, mercado de consumo e fonte de recursos humanos e de conhecimento.

Podemos dizer que, para os povos europeus, para os povos dos estados-membros da UE, para ser mais preciso, essa barganha é inadmissível. Daí que o espaço comunicacional seja preenchido com bonitos embrulhos compostos por fantásticas agendas, brilhantes planos de acção e “Atos” legislativos sem fim, não fosse dar muito nas vistas. No final, tendemos a descobrir que a função de todo o folclore foi apenas e tão só o de arrastar os estados-membros para uma dependência neocolonial em relação aos EUA. A Comissão Europeia toma a iniciativa, agrega os esforços, responsabiliza-se pelo resultado, demite os Estados-Membros do assunto, transformando-os em meros pontos focais da estratégia europeia para, no fim, descobrimos que, afinal, o ponto focal é Bruxelas e que os outros 27 são meramente aparentes.

A situação das matérias-primas críticas é, em tudo, similar à dos hidrocarbonetos. Na energia fóssil, a shale revolution transformou os EUA no maior produtor de petróleo e gás do mundo. A Europa, que, por sua vez, era dependente da energia fóssil russa e à sombra da qual tinha visto a sua indústria florescer, foi vista pelos EUA como o mercado de consumo que tornaria possível a viabilização do negócio Shale, dentro de margens financeiras que justificassem o investimento previsto. Mas, para que tal fosse possível, havia que garantir que a EU comprava esse gás e petróleo. Contudo, para o fazer, teria de prescindir dos hidrocarbonetos russos. O resto foi história e o acosso à Federação Russa e aos povos russófonos do Donbass, usados como isco para atrair o Kremlin para um conflito de larga escala, vai crescendo à medida que se vai consolidando internacionalmente o plano de negócios da energia fóssil de xisto.

A transição fez-se à custa de um plano, agenda, centro, estratégia, blueprint e roadmap com vista ao fim do consumo da energia “antidemocrática” da Rússia. Não faltou o enunciado da “independência europeia”. A “independência” da energia russa foi vendida como se de uma verdadeira independência estratégica se tratasse. Tal como no caso das matérias-primas críticas, passo a passo, bem rápido, em menos de um ano, os EUA haviam substituído totalmente a Federação Russa, mas conseguiram ainda mais: uma dependência por parte da UE, como antes não existia em relação à Federação Russa. Tudo isto foi vendido como uma imensa vitória dos “valores e princípios europeus”.

Actualmente, quando vemos o Qatar impedido de vender energia à EU, em resultado da agressão dos EUA ao Irão; quando vemos o golfo impedido de vender a sua energia a todo o mundo; verificamos que a EU tem os reservatórios vazios e não tem como enchê-los, estando à beira de ter de comprar gás no mercado spot (diário), a preços incomportáveis para a economia europeia. Mas o mais grave de tudo, é que países como a Alemanha têm ainda em vigor contratos de fornecimento com a Federação Russa, mas recusam-se a usá-los, preferindo comprar energia também russa, desta feita à Índia, mas mais dispendiosa. Só que comprada no circuito do dólar!

Não contentes, sabendo que os EUA colocaram o mundo numa situação de dependência crucial em relação à sua energia fóssil (o Golfo está parado, o Irão e Rússia sob sanções e a Venezuela, bem, a Venezuela…), tudo para poderem impedir a desagregação do dólar e garantirem a capacidade de fixação de preços, a EU compra armas aos EUA, fornece drones e seus componentes, financiamento e inteligência ao regime de Kiev, que são usados para destruir a “frota fantasma” russa — e parece que agora iraniana também —, com consequências ainda mais nefastas para os preços internacionais da energia, energia essa que a EU vai comprar a peso de ouro, por apenas querer comprá-la aos EUA, ou em mercados por eles controlados!

Na Inteligência Artificial, o modus operandi é rigorosamente o mesmo! Os EUA dominam os grandes modelos de linguagem, a computação em nuvem de alta performance e os semicondutores avançados (via NVIDIA, AMD, Intel), sem que a Europa tome passos sérios no sentido da independência, embora já se tenham passado dois anos da apresentação do Relatório Draghi, de que tanto se falou e que apontava, entre outros, esta dependência.

A verdade é que, em tudo o que diz respeito à 4.ª Revolução Industrial, os EUA atraíram investimentos europeus em baterias, veículos eléctricos e tecnologias limpas através do Inflation Reduction Act, criando um efeito de sucção que enfraqueceu a base industrial europeia, sem que a EU tivesse respondido à altura. Empresas que poderiam ter investido na Polónia, em Espanha ou na França deslocaram-se para o Texas ou a Carolina do Norte para aceder a subsídios que a UE não “conseguiu” igualar, ou tentou retaliar, preparando-se para medidas proteccionistas que impedissem a erosão da sua base industrial. O dinheiro que negou à economia europeia, enviou-o para Kiev, para matar ucranianos e russos.

A conclusão é simples: A União Europeia produz regulamentos — o AI Act, Digital Services Act, Digital Markets Act —, produz as impressoras mais avançadas (ASML), mas não possui um único chip de alto rendimento que possa dizer seu. Quando EUA e China se digladiam pelo domínio das tecnologias mais avançadas e os países europeus ficam para trás, é preciso entender que estes países tinham mercado, conhecimento, tecnologia, mão-de-obra qualificada e capital para investir. O que não tiveram foi a vontade política para o fazerem, optando por colocarem nas mãos da burocracia de Bruxelas coisas tão importantes quanto as que aqui temos referido.

A pergunta que se impõe e que ninguém parece querer fazer é: quantas vezes pode uma entidade política de meio bilião de habitantes e a terceira maior economia do mundo vai “ficar para trás”, “acidentalmente”, sem que alguém a acuse de o fazer propositadamente?

União Europeia: a inultrapassável dependência estratégica!

Vejamos o caso do rearmamento da União Europeia e a forma como o processo está a ser executado. O que se está a preparar é uma situação em que a União Europeia faz a guerra com armas norte-americanas, como já sucede na Ucrânia, e as armas que produzirá serão produzidas com matérias-primas críticas em grande parte dominadas pelos EUA, ou sob seu licenciamento e autorização, para já não dizer, movidas a Inteligência Artificial do Vale do Silício.

O Plano “Preserving Peace — Defence Readiness Roadmap 2030” (Preservar a Paz — Itinerário para a prontidão militar 2030) prevê que apenas 55% das armas compradas com os 800.000 milhões, que se prevê gastar em defesa, venham de “fábricas europeias” ou da Ucrânia. Ora, considerando que uma parte importante destas fábricas pode ser norte-americana, detida, em parte, por empresas norte-americanas, pagando royalties a empresas norte-americanas e que uma parte da indústria de defesa na Ucrânia enferma desta dependência estratégica, bem podemos ver que, mesmo que o trabalho seja feito na Europa, o valor acrescentado poderá ser sugado pelos EUA.

Considerando que a NATO 3.0 não passa de um mercado de armas dos EUA, considerando que 48% das armas compradas por estados europeus foram armas dos EUA, que entre 2022 e 2024, 50,7% do gasto militar dos países europeus da NATO foi em armas dos EUA, resta perguntar: que objectivos de independência prossegue a estratégia de rearmamento da UE?

Ineficiência de Bruxelas: acidente ou arquitetura?

Há quem defenda que isto é simplesmente o resultado de diferenças estruturais, uma vez que, supostamente, os EUA são um Estado federal com capacidade de decisão rápida e orçamentos militares colossais, enquanto a UE é uma construção intergovernamental de 27 Estados com interesses divergentes. Esta explicação pode ser muito confortável, para muita gente, mas não explica por que motivo tudo se fez em velocidade recorde quando:

– Foi decidido gastar 71 mil milhões de euros em vacinas COVID-19, especialmente da Pfizer, tudo feito em tempo recorde;

– foi criado o sistema de compra agregada de gás natural liquefeito dos EUA, também em tempo recorde;

– foram aprovados os empréstimos bilionários ao regime de Kiev para financiamento da guerra contra a Federação Russa, recorrendo a mecanismos ad-hoc criados, à pressa, para o efeito;

– Foi aprovada a entrada dos países europeus no sistema de compra de armas dos EUA pela UE, para envio para a Ucrânia.

Nestes casos, perante a mão pesada do líder real e perante matérias em que Washington é o beneficiário directo, se bem que disfarçadas de necessidades emergentes, a Comissão e o Conselho, ou mesmo o Parlamento Europeu, a única estrutura democrática da UE e, curiosamente, a menos poderosa, não se perdem em relatórios, blueprints, roadmaps e coisas do tipo. Foi como se existisse uma “mão invisível”, não a de Adam Smith, reguladora, equilibradora, mas a outra, a de Washington, a que agarra, amordaça, pune e contém. O acordo de von der Leyen com Trump, totalmente à margem das competências da Comissão Europeia, prevendo investimento, compra de gás e armas foi um exemplo acabado disto mesmo e da existência de um mecanismo “fast-track” apenas ao dispor das vontades da Casa Branca.

Se em tudo o que é estrutural e decisivo para os povos europeus e que lhes poderia dar alguma vantagem, os órgãos europeus revelam uma incapacidade confrangedora para decidir e tomar um rumo soberano e independente, ilumina-se, então, por que razão esta Europa estará, de forma tão decisiva, a “deixar-se arrastar” para uma guerra sem fim, uma guerra que ameaça destruí-la, pela terceira vez em 130 anos. A consequência fundamental resultante de uma análise histórica das últimas décadas revela um modus operandi que nos comprova que, ao contrário de se estar a deixar arrastar, o que se passa é que Bruxelas, em tudo o que funciona como centro de decisão, transforma os países europeus em pouco mais que armas de arremesso.

Não admira que Bruxelas esteja tão identificada com estruturas como a NATO e o G7, uma vez que tais estruturas, tal como Bruxelas, concorrem para sublimar a estratégia de quem as domina, sacrificando a parte pelo todo, a periferia pelo centro.

Tal sacrifício deliberado só é possível porque a EU e Bruxelas se transformaram em tudo o que não deveriam ser, assistindo-se ao epílogo de uma história iniciada após a Segunda Guerra Mundial e que teve como protagonistas os EUA, o Reino Unido, a França e, sob um pano de fundo, a Alemanha. Este epílogo explica também a insistente incompetência de Bruxelas, quando se trata de afirmar a independência dos países europeus e a hipersónica resolução, quando se trata de afirmar a sua dependência em relação aos líderes do bloco ocidental: os EUA.

O facto é que a visão inicial de De Gaulle perdeu para o cavalo de Tróia inglês. De Gaulle defendia uma Europa “do Atlântico aos Urais”, algo que os EUA não poderiam aceitar, por razões estratégicas, ideológicas e de poder. Para Washington, uma Europa “do Atlântico aos Urais” representava uma ameaça à arquitectura da Guerra Fria e à estratégia de vitória que os próprios haviam construído. Tal estratégia partia o mundo em dois, num processo de isolamento progressivo do principal oponente, algo que tentam agora, uma vez mais, através de um processo de guerra comercial e sanções secundárias, que visam ir desacoplando, progressivamente, os três pilares soberanistas, independentes e alternativos, sobre os quais assenta a ideia de mundo multipolar, não alinhamento e libertação do domínio neocolonial: a China, a Federação Russa, o Irão. Três países tão acossados e acusados de incivilidade acabam como as grandes esperanças de uma humanidade que não pretende ser uniformizada pelo ocidentalismo atlantista e globalista.

Com efeito, De Gaulle propunha uma Europa das nações soberanas, uma espécie de “confederação” que funcionasse como “terceira força” entre os EUA e a URSS, capaz de dialogar com Moscovo e de, a longo prazo, reunificar o continente. Algo que hoje se volta a levantar em relação à China e ao mundo multipolar, posição da qual a Europa de Von der Leyen se divorciou, apesar de todos os ensinamentos da história e de todos os danos que daí advêm, como a perda de independência, influência e importância relativas dos países europeus. Macron será dos mais culpados neste processo, pela traição histórica que representa contra a sua própria nação!

Um documento secreto da CIA de 1967 notava que De Gaulle esperava que a França e a URSS fossem “os porta-vozes respectivamente da Europa Ocidental e Oriental”, com esferas de influência separadas mas sobrepostas na questão alemã. Para Washington, esta posição neutralizava as suas pretensões hegemónicas, algo que foi contrariando com uma Alemanha unificada e um Reino Unido na União Europeia. Ao contrário de hoje, De Gaulle tinha uma visão estratégica para a Europa comunitária, não pretendendo o seu domínio por Bruxelas, antes pretendendo uma confederação de estados-nação liderada por Paris. E o pior, para os EUA, é que pretendia que esta confederação fosse independente da NATO.

A verdade é que De Gaulle vetou duas vezes a entrada do Reino Unido na CEE (1963 e 1967) porque via o “relacionamento especial” anglo-americano como um mecanismo de infiltração dos interesses dos EUA no continente. De Gaulle só não viu uma coisa, é que com o tempo, e como comprova o Brexit, já nem o Reino Unido tem de estar na União Europeia para que os seus receios se concretizem. A língua e cultura anglo-saxónicas funcionaram como veículo neocolonial privilegiado, numa construção demasiado diversa para ter coerência interna. Não vindo essa coerência de Paris, a mesma só poderia vir do atlântico, através do Reino Unido, com origem nos EUA!

Assim, a derrota da visão de uma Europa “do Atlântico aos Urais” não apenas representou a derrota de uma Europa independente da hegemonia americana, como ainda explica por que razão esta Europa é incapaz de negociar com Moscovo, funciona como extensão da NATO e age como facilitadora da influência de Washington no continente europeu, na Eurásia e no Próximo Oriente. Ou por que razão a EU é incapaz de um grande acordo comercial com a China, a ASEAN ou com países asiáticos não alinhados directamente com a política externa de Washington. As relações da EU com a Ásia tendem a constituir meras extensões das relações dos EUA com esse continente.

Por que razão gastar dinheiro no desenvolvimento de um campo de batalha? Por que razão intensificar a electrificação de um continente sem hidrocarbonetos, quando a sua função é financiar o domínio energético norte-americano? Aos poucos vamos percebendo que a incompetência, a lentidão, a indecisão não são, nem acidente, nem descuido. O que muitos definem como “incompetência de Bruxelas”, ou “incompetência europeia” não representa mais do que o resultado de uma competente estratégia de longa duração, que terá na terceira guerra mundial — já em curso — o epílogo do que deveria ter sido a segunda, quando a Europa e o estado social foram, indirectamente, salvos pela URSS!

O imperialismo nunca desiste e a Bruxelas actual é disso prova! Seja quando age depressa, devagar ou parada!

Fontes e referências

Sobre minerais críticos e financiamento EU/EUA:

– European Parliament, US critical minerals policy and its implications for the EU’s strategic autonomy (PE 786.415), 2026: https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/STUD/2026/786415/ECTI_STU(2026)786415_EN.pdf

– Jones Day, The EU Critical Raw Materials Act and Its Impact on the Mining Sector, 2026: https://www.jonesday.com/en/insights/2026/05/the-eu-critical-raw-materials-act-and-its-impact-on-the-mining-sector-strategic-opportunities-for-industry-stakeholders

– Bruegel, Competing for inputs: how the European Union can improve critical raw materials supply security, 2026: https://www.bruegel.org/policy-brief/competing-inputs-how-european-union-can-improve-critical-raw-materials-supply-security

Sobre Output Industrial (Manufacturing Value Added):

– Macrotrends, European Union Manufacturing Output: https://www.macrotrends.net/global-metrics/countries/euu/european-union/manufacturing-output

– The Global Economy, USA Manufacturing Value Added: https://www.theglobaleconomy.com/USA/manufacturing_value_added/

Sobre Rearmamento e Defence Readiness 2030:

– Jason Institute, Readiness Europe 2030 lacks structure and planning, 2026: https://jasoninstitute.com/readiness-europe-2030-lacks-structure-and-planning/

– IEU Monitoring, Preserving Peace: EU Commission and High Representative unveil Defence Roadmap 2030, 2025: https://ieu-monitoring.com/editorial/preserving-peace-eu-commission-and-high-representative-unveil-defence-roadmap-2030/850806

Sobre comércio de armas e dependência da NATO:

– SIPRI, Global arms flows jump nearly 10 per cent as European demand soars, 2026: https://www.sipri.org/media/press-release/2026/global-arms-flows-jump-nearly-10-cent-european-demand-soars

– Defense News, European NATO nations reduce reliance on US arms imports, 2026: https://www.defensenews.com/global/europe/2026/03/09/european-nato-nations-reduce-reliance-on-us-arms-imports-sipri-data/

– France24 / SIPRI, NATO arms imports doubled in past five years with 60% sourced from the US, 2025: https://www.france24.com/en/europe/20250310-europe-us-arms-ukraine-nato

Sobre energia, gás e shale revolution:

– U.S. Energy Information Administration (EIA), The United States produced more crude oil than any other country in 2025, 2026: https://www.eia.gov/todayinenergy/detail.php?id=67844

– International Energy Agency (IEA), Anatomy of a natural gas crisis – Gas Market Lessons from the 2022-2023 Energy Crisis: https://www.iea.org/reports/gas-market-lessons-from-the-2022-2023-energy-crisis/anatomy-of-a-natural-gas-crisis

– Council of the European Union, Where does the EU’s gas come from?, 2024: https://www.consilium.europa.eu/en/infographics/where-does-the-eu-s-gas-come-from/

– LSE USAPP, Trump’s $750 billion EU energy deal is built on an illusion, 2025: https://blogs.lse.ac.uk/usappblog/2025/10/14/trumps-750-billion-eu-energy-deal-is-built-on-an-illusion/

– European Commission, Statement by the President on the deal with the United States, 2025: https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/statement_25_1915

– Axios, EU trade deal with Trump seen as helping Europe ditch Russian fuels, 2025: https://www.axios.com/2025/07/27/eu-deal-trump-russian-fuels

Sobre relatório draghi e tecnologia:

– HCSS, The Draghi Report Revisited | Artificial Intelligence, 2025: https://hcss.nl/news/the-draghi-report-revisited-artificial-intelligence-ai/

– EE Times, Does the Draghi Report Miss the Bigger Picture on Semiconductors?, 2024: https://www.eetimes.com/does-the-draghi-report-miss-the-bigger-picture-on-semiconductors/

Sobre De Gaulle, história e CIA:

– Princeton University, Andrew Moravcsik, De Gaulle and European Integration: https://www.princeton.edu/~amoravcs/library/de_gaulle.pdf

– EHNE, De Gaulle and Europe: https://ehne.fr/en/encyclopedia/themes/international-relations/arbiters-and-arbitration-in-europe-beginning-modern-times/de-gaulle-and-europe

– CIA Reading Room, THE CONSTANTS IN FRENCH FOREIGN POLICY: https://www.cia.gov/readingroom/document/cia-rdp85t00875r001100100079-9

– Office of the Historian (FRUS), Telegram From the Embassy in France to the Department of State, 1964–68: https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1964-68v13/d53

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August 13, 2026

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