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Bruna Frascolla
August 7, 2026
© Photo: Public domain

Cristãos novos portugueses dominaram o tráfico de escravos (1595–1640) e reintroduziram a escravidão na cristandade.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Estereótipos têm algum lastro na realidade; e como os judeus têm realidades muito diferentes, têm estereótipos muito diferentes. Um positivo é o da alma sensível que sofre com a perseguição ou o preconceito. Este tem lastro na Europa do século XVIII ao XX, que compreende o período em que os judeus se secularizaram e sofreram parcial rejeição da sociedade cristã. Primo Levi corresponde a esse estereótipo positivo. Embora o seu perfil biográfico seja suficiente (ele foi o poeta idealista enviado a Auschwitz por lutar contra o fascismo), também a leitura de seus escritos autobiográficos reforça essa imagem de homem de letras sensível. E nada melhor para isso do que o contraste com o judeu grego Mordo Nahum.

A personagem aparece em A trégua, a continuação menos conhecida do clássico É isto um homem? Em sua obra célebre, Primo Levi conta da prisão e da vida em Auschwitz – que inclui uma bolsa de valores cotada em pão, coisa que não seria inventada por qualquer etnia. Ele conta que em Auschwitz havia muitas gírias em espanhol por causa dos judeus gregos de Tessalônica (ou Salonica), que falavam espanhol (pois descendiam dos judeus expulsos da Espanha) e chegaram ao campo nazista primeiro. Havia tantos judeus em Tessalônica que não dava para escondê-los, e os nazistas levaram um monte.

Em A trégua, Primo Levi conta a história do retorno da Polônia para casa sob tutela soviética. Os russos são apresentados como o contrário dos alemães: calorosos, alegres e caóticos. Se os alemães construíram uma máquina mortífera para levá-lo da Itália à Polônia, o retorno para casa sob os russos levaria quase um ano de idas e vindas pela Europa oriental, em meio a pendências burocráticas com a ONU. Ainda na Polônia, ele conhece Mordo Nahum, um judeu de Tessalônica que, por algum motivo, o escolheu para aliar-se na busca pela sobrevivência. Primo Levi ficou animado; confessou “ter considerado principalmente a sua grande mochila e sua qualidade de cidadão de Salonica, que, como todos em Auschwitz, [eu] sabia ser equivalente a uma garantia de refinadas habilidades mercantis, e de saber sair-se bem em todas as circunstâncias. A simpatia, bilateral, e a estima, unilateral, vieram depois.” Primo trabalhou para Mordo carregado a sua mochila, pesquisando preços, falando alemão e até latim (com um padre).

Mordo o tratava como um tonto ao qual tentava dar instruções para a vida: ensinou-lhe que a coisa mais importante (mais do que a comida) são os sapatos (com os quais se vai atrás de comida), e que é desonroso viver com o pão dado. Assim, ele tentava ensinar um perplexo Primo Levi a “conquistar o pão”, usando o conteúdo da mochila como capital inicial e indo à feira. Num dado momento, Primo, desmoralizado, tenta impressioná-lo com um conhecimento prático do qual muito se orgulhava, perguntando se sabia distinguir um ovo cru de cozido sem quebrá-lo. O grego, porém, ficou ofendido, pois sendo um comerciante muito experiente, já havia vendido de tudo neste mundo, e distinguir ovos é um conhecimento primário.

Primo e Mordo se separam cedo, porque a Grécia, ao contrário da Itália, pertencia à ONU, e isso facilitava o retorno. O italiano o reencontrou muitos meses depois na Bielorrússia, “quase irreconhecível pela suntuosa obesidade”, oferecendo-lhe prostitutas da Bessarábia que eram brancas e pequenas, conforme o gosto dos russos (que ele já tinha investigado). O grego se gabava de não ter mais problemas com dinheiro, de transar com suas “protegidas” e de ter organizado o local. Anotou Primo Levi: “Voltou-me à mente, sob nova luz, o episódio do ovo cozido e o desafio do desdenhoso grego: ‘Vamos, diz algum artigo com que eu já não tenha trabalhado!’.”

Por óbvio, Mordo Nahum corresponde ao estereótipo do judeu no qual se concentra o sentimento anti-judaico, seja ele medieval, nazista ou até mesmo contemporâneo – quando o Pornhub, plataforma fortemente associada à exploração e violência sexual, é propriedade de um rabino desde 2024. No entanto, Mordo Nahum também dá mostras daquela faculdade que fez muitos governantes, mesmo detestando o judaísmo, quererem judeus em seu território: a notória habilidade para multiplicar riqueza e, assim, tornar-se capaz de emprestar.

***

Há uma relação natural entre essas três coisas: habilidade mercantil, escravidão e geração de riqueza. A escravidão é onipresente nos primórdios da História humana; e, a menos que decidamos por um esforço moral aboli-la, o natural é os escravos serem usados para multiplicar as riquezas daqueles que os possuem, seja pelo seu valor de uso (num canavial, por exemplo), seja pelo seu valor de troca (na mão de comerciantes). Não faz sentido, portanto, dizer que um povo ou um grupo étnico é especialmente malvado por causa de um passado escravocrata.

Não obstante, é o que se faz hoje no Ocidente com o “homem branco”, pintado como o representante do mal na terra. O tráfico transatlântico de escravos é apresentado como racismo e supremacismo branco, sendo que no XVI o racismo não havia sido inventado ainda, e essa forma de escravidão era mais uma entre várias vigentes na África e nas Américas. Chocar-se com ela só é possível segundo os parâmetros da cristandade, que tinha essa peculiaridade de ter acabado com a escravidão paulatina e insensivelmente durante a Idade Média. Como temos visto nos últimos artigos, a escravidão retornou à cristandade ocidental por meio da “guerra justa” empreendida por Portugal contra os mouros, que podiam ser escravizados. Na prática, porém, Portugal atuou na África não como um guerreiro da fé que subjugava infiéis maometanos, e sim como mercadores de infiéis previamente escravizados por outros infiéis em guerras intestinas. Quem reintroduziu a escravidão na cristandade foi Portugal, e muito malandramente.

Seria então o português o homem branco? Ora, o português não é considerado como tal pelo epicentro da narrativa, o mundo anglófono. Mas tem mais uma complicação: na modernidade (s. XVI a XVIII), português e judeu ou cristão novo eram tomados praticamente por sinônimo, fora de Portugal e seus domínios.

Na tese “Homens de Nação e de Negócio: redes comerciais no Mundo Ibérico (1580-1640)”, de Ana Hutz, lemos que, à época da expulsão, saíram da Espanha algo entre 100 e 160 mil judeus, dos quais cerca de 50 mil foram para Portugal. Só uma quantidade entre 25 e 50 mil aceitou o batismo e permaneceu na Espanha. Assim, podemos dizer que Portugal absorveu em seu pequeno território e pequena população uma vultosa quantidade de judeus, que depois, em 1497, seria batizada à força (porque o rei de Portugal estimava mais a riqueza do reino do  que a pureza da fé).

Outra coisa relevante é que, em Portugal, “nunca houve um estatuto oficial a esse respeito [i. e., da limpeza de sangue], como houve na Espanha. Além disso, os casamentos mistos entre cristãos novos e velhos foram uma constante desde a conversão de 1496/7, apesar da legislação que os proibia” (Hutz, p. 120). Na Espanha, por outro lado, a legislação remontava ao Estatuto de Toledo (1449), que excluía os cristãos novos de cargos municipais, e só em 1555 é aprovado pelo papa Paulo IV e sancionado por Filipe II – o primeiro rei da União Ibérica. Embora os estatutos redundem, na prática, naquilo que hoje entendemos por racismo, ressalte-se que desde o final do século XIV a Espanha lidava com conversões em massa e desconfiava que se devessem somente aos benefícios mundanos (que incluíam não apanhar de cristãos).

Embora a União Ibérica tenha sido uma tragédia para os cristãos novos portugueses de um modo geral (porque a Inquisição Portuguesa sofria pressão espanhola para funcionar a sério), a parcela mais abastada achou ótima a possibilidade de acessar o mercado espanhol. Com efeito, foi o que aconteceu. Em 1580, Portugal dominava o comércio com a África subsaariana e, por conseguinte, a venda de escravos pretos para a cristandade. Em 1595, Filipe II firma o primeiro contrato de asiento com cristãos novos portugueses, e esse tipo de monopólio vai durar até o fim da União Ibérica. Assim, de 1595 até 1640, todos os pretos levados legalmente para a Ibero-América são vendidos nessa forma de monopólio que era dominado por cristãos novos portugueses. (Nesse período apareceram os calvinistas holandeses disputando comércio e terras com os portugueses, mas essa é outra história – e que também envolve capital judaico português.)

Os cristãos novos portugueses estão umbilicalmente ligados ao tráfico transatlântico de escravos, e o Brasil se tornou o maior polo escravocrata da cristandade. A escravidão indígena também não lhes era estranha, já que, como mostrou a historiadora Anita Novinsky, entre os bandeirantes escravizadores de índios, não poucos eram os cristãos novos.

***

Anita Novinsky faz muito bem em atrelar a iconoclastia dos bandeirantes à condição de converso à força. Não faz sentido crer que o mero banditismo ou a violência faça de alguém um iconoclasta. Uma passada d’olhos na história do México, onde não falta banditismo, mostra a iconoclastia vinculada somente a razões ideológicas. A iconoclastia é também antieconômica: mais vale vender um objeto sacro do que destruí-lo. (Ao que parece, foi esse raciocínio que salvou a Madona de Nettuno.)

Daí não se segue, claro, que todo cristão novo fosse um marrano. A própria Anita Novinsky descobriu que São José de Anchieta era judeu segundo a sua Lei, e em nenhum momento questionou a sua fé. Comenta: “segundo a lei judaica, quem nasce judeu nunca deixará de ser judeu, mesmo se convertido, pois trata-se de uma questão de alma que, aos olhos de Deus, jamais poderá mudar. Os nazistas também pensavam assim, tanto que Edith Stein, canonizada como santa Teresa Benedita da Cruz pelo mesmo papa João Paulo II que beatificou Anchieta em 1980, foi morta em Auschwitz por ser judia, embora convertida e freira católica.” (Na verdade, os nazistas pensavam como os judeus somente quanto ao caráter imutável do judaísmo, pois, raciocinavam sobre bases raciais que não coincidiam com a matrilinearidade, sendo possível incinerar como judeu alguém que os judeus não considerassem como tal.)

Se formos chamar de judeu só quem comprovadamente seguia a religião judaica, então é muito controvertida a afirmação de que 6 milhões de judeus foram exterminados pelos nazistas. E se formos chamar de judeu quem descende de judeus, então os cristãos novos eram judeus, e os judeus foram os grandes responsáveis pela escravidão moderna ocidental. O que não podemos é usar a definição de judeu de maneira cambiante, atribuindo aos judeus o martírio sob os nazistas e ao “homem branco” o escravagismo moderno. De tudo isso, aprendemos que não há povos-vítimas, e (se reprovarmos a escravidão) que as religiões não são todas igualmente boas.

ERRATA:

No último artigo, onde se lê “Quando Portugal passa ao domínio espanhol em 1580, seus cristãos novos entram sob jurisdição da Inquisição Espanhola, que, ao contrário da portuguesa, era uma instituição séria.”, leia-se “Quando Portugal passa ao domínio espanhol em 1580, seus cristãos novos ficam sob a influência da coroa espanhola, que cobrava da Inquisição Portuguesa um trabalho mais sério.”

Comércio, fé e escravidão: os cristãos-novos portugueses no período dos asientos

Cristãos novos portugueses dominaram o tráfico de escravos (1595–1640) e reintroduziram a escravidão na cristandade.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Estereótipos têm algum lastro na realidade; e como os judeus têm realidades muito diferentes, têm estereótipos muito diferentes. Um positivo é o da alma sensível que sofre com a perseguição ou o preconceito. Este tem lastro na Europa do século XVIII ao XX, que compreende o período em que os judeus se secularizaram e sofreram parcial rejeição da sociedade cristã. Primo Levi corresponde a esse estereótipo positivo. Embora o seu perfil biográfico seja suficiente (ele foi o poeta idealista enviado a Auschwitz por lutar contra o fascismo), também a leitura de seus escritos autobiográficos reforça essa imagem de homem de letras sensível. E nada melhor para isso do que o contraste com o judeu grego Mordo Nahum.

A personagem aparece em A trégua, a continuação menos conhecida do clássico É isto um homem? Em sua obra célebre, Primo Levi conta da prisão e da vida em Auschwitz – que inclui uma bolsa de valores cotada em pão, coisa que não seria inventada por qualquer etnia. Ele conta que em Auschwitz havia muitas gírias em espanhol por causa dos judeus gregos de Tessalônica (ou Salonica), que falavam espanhol (pois descendiam dos judeus expulsos da Espanha) e chegaram ao campo nazista primeiro. Havia tantos judeus em Tessalônica que não dava para escondê-los, e os nazistas levaram um monte.

Em A trégua, Primo Levi conta a história do retorno da Polônia para casa sob tutela soviética. Os russos são apresentados como o contrário dos alemães: calorosos, alegres e caóticos. Se os alemães construíram uma máquina mortífera para levá-lo da Itália à Polônia, o retorno para casa sob os russos levaria quase um ano de idas e vindas pela Europa oriental, em meio a pendências burocráticas com a ONU. Ainda na Polônia, ele conhece Mordo Nahum, um judeu de Tessalônica que, por algum motivo, o escolheu para aliar-se na busca pela sobrevivência. Primo Levi ficou animado; confessou “ter considerado principalmente a sua grande mochila e sua qualidade de cidadão de Salonica, que, como todos em Auschwitz, [eu] sabia ser equivalente a uma garantia de refinadas habilidades mercantis, e de saber sair-se bem em todas as circunstâncias. A simpatia, bilateral, e a estima, unilateral, vieram depois.” Primo trabalhou para Mordo carregado a sua mochila, pesquisando preços, falando alemão e até latim (com um padre).

Mordo o tratava como um tonto ao qual tentava dar instruções para a vida: ensinou-lhe que a coisa mais importante (mais do que a comida) são os sapatos (com os quais se vai atrás de comida), e que é desonroso viver com o pão dado. Assim, ele tentava ensinar um perplexo Primo Levi a “conquistar o pão”, usando o conteúdo da mochila como capital inicial e indo à feira. Num dado momento, Primo, desmoralizado, tenta impressioná-lo com um conhecimento prático do qual muito se orgulhava, perguntando se sabia distinguir um ovo cru de cozido sem quebrá-lo. O grego, porém, ficou ofendido, pois sendo um comerciante muito experiente, já havia vendido de tudo neste mundo, e distinguir ovos é um conhecimento primário.

Primo e Mordo se separam cedo, porque a Grécia, ao contrário da Itália, pertencia à ONU, e isso facilitava o retorno. O italiano o reencontrou muitos meses depois na Bielorrússia, “quase irreconhecível pela suntuosa obesidade”, oferecendo-lhe prostitutas da Bessarábia que eram brancas e pequenas, conforme o gosto dos russos (que ele já tinha investigado). O grego se gabava de não ter mais problemas com dinheiro, de transar com suas “protegidas” e de ter organizado o local. Anotou Primo Levi: “Voltou-me à mente, sob nova luz, o episódio do ovo cozido e o desafio do desdenhoso grego: ‘Vamos, diz algum artigo com que eu já não tenha trabalhado!’.”

Por óbvio, Mordo Nahum corresponde ao estereótipo do judeu no qual se concentra o sentimento anti-judaico, seja ele medieval, nazista ou até mesmo contemporâneo – quando o Pornhub, plataforma fortemente associada à exploração e violência sexual, é propriedade de um rabino desde 2024. No entanto, Mordo Nahum também dá mostras daquela faculdade que fez muitos governantes, mesmo detestando o judaísmo, quererem judeus em seu território: a notória habilidade para multiplicar riqueza e, assim, tornar-se capaz de emprestar.

***

Há uma relação natural entre essas três coisas: habilidade mercantil, escravidão e geração de riqueza. A escravidão é onipresente nos primórdios da História humana; e, a menos que decidamos por um esforço moral aboli-la, o natural é os escravos serem usados para multiplicar as riquezas daqueles que os possuem, seja pelo seu valor de uso (num canavial, por exemplo), seja pelo seu valor de troca (na mão de comerciantes). Não faz sentido, portanto, dizer que um povo ou um grupo étnico é especialmente malvado por causa de um passado escravocrata.

Não obstante, é o que se faz hoje no Ocidente com o “homem branco”, pintado como o representante do mal na terra. O tráfico transatlântico de escravos é apresentado como racismo e supremacismo branco, sendo que no XVI o racismo não havia sido inventado ainda, e essa forma de escravidão era mais uma entre várias vigentes na África e nas Américas. Chocar-se com ela só é possível segundo os parâmetros da cristandade, que tinha essa peculiaridade de ter acabado com a escravidão paulatina e insensivelmente durante a Idade Média. Como temos visto nos últimos artigos, a escravidão retornou à cristandade ocidental por meio da “guerra justa” empreendida por Portugal contra os mouros, que podiam ser escravizados. Na prática, porém, Portugal atuou na África não como um guerreiro da fé que subjugava infiéis maometanos, e sim como mercadores de infiéis previamente escravizados por outros infiéis em guerras intestinas. Quem reintroduziu a escravidão na cristandade foi Portugal, e muito malandramente.

Seria então o português o homem branco? Ora, o português não é considerado como tal pelo epicentro da narrativa, o mundo anglófono. Mas tem mais uma complicação: na modernidade (s. XVI a XVIII), português e judeu ou cristão novo eram tomados praticamente por sinônimo, fora de Portugal e seus domínios.

Na tese “Homens de Nação e de Negócio: redes comerciais no Mundo Ibérico (1580-1640)”, de Ana Hutz, lemos que, à época da expulsão, saíram da Espanha algo entre 100 e 160 mil judeus, dos quais cerca de 50 mil foram para Portugal. Só uma quantidade entre 25 e 50 mil aceitou o batismo e permaneceu na Espanha. Assim, podemos dizer que Portugal absorveu em seu pequeno território e pequena população uma vultosa quantidade de judeus, que depois, em 1497, seria batizada à força (porque o rei de Portugal estimava mais a riqueza do reino do  que a pureza da fé).

Outra coisa relevante é que, em Portugal, “nunca houve um estatuto oficial a esse respeito [i. e., da limpeza de sangue], como houve na Espanha. Além disso, os casamentos mistos entre cristãos novos e velhos foram uma constante desde a conversão de 1496/7, apesar da legislação que os proibia” (Hutz, p. 120). Na Espanha, por outro lado, a legislação remontava ao Estatuto de Toledo (1449), que excluía os cristãos novos de cargos municipais, e só em 1555 é aprovado pelo papa Paulo IV e sancionado por Filipe II – o primeiro rei da União Ibérica. Embora os estatutos redundem, na prática, naquilo que hoje entendemos por racismo, ressalte-se que desde o final do século XIV a Espanha lidava com conversões em massa e desconfiava que se devessem somente aos benefícios mundanos (que incluíam não apanhar de cristãos).

Embora a União Ibérica tenha sido uma tragédia para os cristãos novos portugueses de um modo geral (porque a Inquisição Portuguesa sofria pressão espanhola para funcionar a sério), a parcela mais abastada achou ótima a possibilidade de acessar o mercado espanhol. Com efeito, foi o que aconteceu. Em 1580, Portugal dominava o comércio com a África subsaariana e, por conseguinte, a venda de escravos pretos para a cristandade. Em 1595, Filipe II firma o primeiro contrato de asiento com cristãos novos portugueses, e esse tipo de monopólio vai durar até o fim da União Ibérica. Assim, de 1595 até 1640, todos os pretos levados legalmente para a Ibero-América são vendidos nessa forma de monopólio que era dominado por cristãos novos portugueses. (Nesse período apareceram os calvinistas holandeses disputando comércio e terras com os portugueses, mas essa é outra história – e que também envolve capital judaico português.)

Os cristãos novos portugueses estão umbilicalmente ligados ao tráfico transatlântico de escravos, e o Brasil se tornou o maior polo escravocrata da cristandade. A escravidão indígena também não lhes era estranha, já que, como mostrou a historiadora Anita Novinsky, entre os bandeirantes escravizadores de índios, não poucos eram os cristãos novos.

***

Anita Novinsky faz muito bem em atrelar a iconoclastia dos bandeirantes à condição de converso à força. Não faz sentido crer que o mero banditismo ou a violência faça de alguém um iconoclasta. Uma passada d’olhos na história do México, onde não falta banditismo, mostra a iconoclastia vinculada somente a razões ideológicas. A iconoclastia é também antieconômica: mais vale vender um objeto sacro do que destruí-lo. (Ao que parece, foi esse raciocínio que salvou a Madona de Nettuno.)

Daí não se segue, claro, que todo cristão novo fosse um marrano. A própria Anita Novinsky descobriu que São José de Anchieta era judeu segundo a sua Lei, e em nenhum momento questionou a sua fé. Comenta: “segundo a lei judaica, quem nasce judeu nunca deixará de ser judeu, mesmo se convertido, pois trata-se de uma questão de alma que, aos olhos de Deus, jamais poderá mudar. Os nazistas também pensavam assim, tanto que Edith Stein, canonizada como santa Teresa Benedita da Cruz pelo mesmo papa João Paulo II que beatificou Anchieta em 1980, foi morta em Auschwitz por ser judia, embora convertida e freira católica.” (Na verdade, os nazistas pensavam como os judeus somente quanto ao caráter imutável do judaísmo, pois, raciocinavam sobre bases raciais que não coincidiam com a matrilinearidade, sendo possível incinerar como judeu alguém que os judeus não considerassem como tal.)

Se formos chamar de judeu só quem comprovadamente seguia a religião judaica, então é muito controvertida a afirmação de que 6 milhões de judeus foram exterminados pelos nazistas. E se formos chamar de judeu quem descende de judeus, então os cristãos novos eram judeus, e os judeus foram os grandes responsáveis pela escravidão moderna ocidental. O que não podemos é usar a definição de judeu de maneira cambiante, atribuindo aos judeus o martírio sob os nazistas e ao “homem branco” o escravagismo moderno. De tudo isso, aprendemos que não há povos-vítimas, e (se reprovarmos a escravidão) que as religiões não são todas igualmente boas.

ERRATA:

No último artigo, onde se lê “Quando Portugal passa ao domínio espanhol em 1580, seus cristãos novos entram sob jurisdição da Inquisição Espanhola, que, ao contrário da portuguesa, era uma instituição séria.”, leia-se “Quando Portugal passa ao domínio espanhol em 1580, seus cristãos novos ficam sob a influência da coroa espanhola, que cobrava da Inquisição Portuguesa um trabalho mais sério.”

Cristãos novos portugueses dominaram o tráfico de escravos (1595–1640) e reintroduziram a escravidão na cristandade.

Junte-se a nós no Telegram , X e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Estereótipos têm algum lastro na realidade; e como os judeus têm realidades muito diferentes, têm estereótipos muito diferentes. Um positivo é o da alma sensível que sofre com a perseguição ou o preconceito. Este tem lastro na Europa do século XVIII ao XX, que compreende o período em que os judeus se secularizaram e sofreram parcial rejeição da sociedade cristã. Primo Levi corresponde a esse estereótipo positivo. Embora o seu perfil biográfico seja suficiente (ele foi o poeta idealista enviado a Auschwitz por lutar contra o fascismo), também a leitura de seus escritos autobiográficos reforça essa imagem de homem de letras sensível. E nada melhor para isso do que o contraste com o judeu grego Mordo Nahum.

A personagem aparece em A trégua, a continuação menos conhecida do clássico É isto um homem? Em sua obra célebre, Primo Levi conta da prisão e da vida em Auschwitz – que inclui uma bolsa de valores cotada em pão, coisa que não seria inventada por qualquer etnia. Ele conta que em Auschwitz havia muitas gírias em espanhol por causa dos judeus gregos de Tessalônica (ou Salonica), que falavam espanhol (pois descendiam dos judeus expulsos da Espanha) e chegaram ao campo nazista primeiro. Havia tantos judeus em Tessalônica que não dava para escondê-los, e os nazistas levaram um monte.

Em A trégua, Primo Levi conta a história do retorno da Polônia para casa sob tutela soviética. Os russos são apresentados como o contrário dos alemães: calorosos, alegres e caóticos. Se os alemães construíram uma máquina mortífera para levá-lo da Itália à Polônia, o retorno para casa sob os russos levaria quase um ano de idas e vindas pela Europa oriental, em meio a pendências burocráticas com a ONU. Ainda na Polônia, ele conhece Mordo Nahum, um judeu de Tessalônica que, por algum motivo, o escolheu para aliar-se na busca pela sobrevivência. Primo Levi ficou animado; confessou “ter considerado principalmente a sua grande mochila e sua qualidade de cidadão de Salonica, que, como todos em Auschwitz, [eu] sabia ser equivalente a uma garantia de refinadas habilidades mercantis, e de saber sair-se bem em todas as circunstâncias. A simpatia, bilateral, e a estima, unilateral, vieram depois.” Primo trabalhou para Mordo carregado a sua mochila, pesquisando preços, falando alemão e até latim (com um padre).

Mordo o tratava como um tonto ao qual tentava dar instruções para a vida: ensinou-lhe que a coisa mais importante (mais do que a comida) são os sapatos (com os quais se vai atrás de comida), e que é desonroso viver com o pão dado. Assim, ele tentava ensinar um perplexo Primo Levi a “conquistar o pão”, usando o conteúdo da mochila como capital inicial e indo à feira. Num dado momento, Primo, desmoralizado, tenta impressioná-lo com um conhecimento prático do qual muito se orgulhava, perguntando se sabia distinguir um ovo cru de cozido sem quebrá-lo. O grego, porém, ficou ofendido, pois sendo um comerciante muito experiente, já havia vendido de tudo neste mundo, e distinguir ovos é um conhecimento primário.

Primo e Mordo se separam cedo, porque a Grécia, ao contrário da Itália, pertencia à ONU, e isso facilitava o retorno. O italiano o reencontrou muitos meses depois na Bielorrússia, “quase irreconhecível pela suntuosa obesidade”, oferecendo-lhe prostitutas da Bessarábia que eram brancas e pequenas, conforme o gosto dos russos (que ele já tinha investigado). O grego se gabava de não ter mais problemas com dinheiro, de transar com suas “protegidas” e de ter organizado o local. Anotou Primo Levi: “Voltou-me à mente, sob nova luz, o episódio do ovo cozido e o desafio do desdenhoso grego: ‘Vamos, diz algum artigo com que eu já não tenha trabalhado!’.”

Por óbvio, Mordo Nahum corresponde ao estereótipo do judeu no qual se concentra o sentimento anti-judaico, seja ele medieval, nazista ou até mesmo contemporâneo – quando o Pornhub, plataforma fortemente associada à exploração e violência sexual, é propriedade de um rabino desde 2024. No entanto, Mordo Nahum também dá mostras daquela faculdade que fez muitos governantes, mesmo detestando o judaísmo, quererem judeus em seu território: a notória habilidade para multiplicar riqueza e, assim, tornar-se capaz de emprestar.

***

Há uma relação natural entre essas três coisas: habilidade mercantil, escravidão e geração de riqueza. A escravidão é onipresente nos primórdios da História humana; e, a menos que decidamos por um esforço moral aboli-la, o natural é os escravos serem usados para multiplicar as riquezas daqueles que os possuem, seja pelo seu valor de uso (num canavial, por exemplo), seja pelo seu valor de troca (na mão de comerciantes). Não faz sentido, portanto, dizer que um povo ou um grupo étnico é especialmente malvado por causa de um passado escravocrata.

Não obstante, é o que se faz hoje no Ocidente com o “homem branco”, pintado como o representante do mal na terra. O tráfico transatlântico de escravos é apresentado como racismo e supremacismo branco, sendo que no XVI o racismo não havia sido inventado ainda, e essa forma de escravidão era mais uma entre várias vigentes na África e nas Américas. Chocar-se com ela só é possível segundo os parâmetros da cristandade, que tinha essa peculiaridade de ter acabado com a escravidão paulatina e insensivelmente durante a Idade Média. Como temos visto nos últimos artigos, a escravidão retornou à cristandade ocidental por meio da “guerra justa” empreendida por Portugal contra os mouros, que podiam ser escravizados. Na prática, porém, Portugal atuou na África não como um guerreiro da fé que subjugava infiéis maometanos, e sim como mercadores de infiéis previamente escravizados por outros infiéis em guerras intestinas. Quem reintroduziu a escravidão na cristandade foi Portugal, e muito malandramente.

Seria então o português o homem branco? Ora, o português não é considerado como tal pelo epicentro da narrativa, o mundo anglófono. Mas tem mais uma complicação: na modernidade (s. XVI a XVIII), português e judeu ou cristão novo eram tomados praticamente por sinônimo, fora de Portugal e seus domínios.

Na tese “Homens de Nação e de Negócio: redes comerciais no Mundo Ibérico (1580-1640)”, de Ana Hutz, lemos que, à época da expulsão, saíram da Espanha algo entre 100 e 160 mil judeus, dos quais cerca de 50 mil foram para Portugal. Só uma quantidade entre 25 e 50 mil aceitou o batismo e permaneceu na Espanha. Assim, podemos dizer que Portugal absorveu em seu pequeno território e pequena população uma vultosa quantidade de judeus, que depois, em 1497, seria batizada à força (porque o rei de Portugal estimava mais a riqueza do reino do  que a pureza da fé).

Outra coisa relevante é que, em Portugal, “nunca houve um estatuto oficial a esse respeito [i. e., da limpeza de sangue], como houve na Espanha. Além disso, os casamentos mistos entre cristãos novos e velhos foram uma constante desde a conversão de 1496/7, apesar da legislação que os proibia” (Hutz, p. 120). Na Espanha, por outro lado, a legislação remontava ao Estatuto de Toledo (1449), que excluía os cristãos novos de cargos municipais, e só em 1555 é aprovado pelo papa Paulo IV e sancionado por Filipe II – o primeiro rei da União Ibérica. Embora os estatutos redundem, na prática, naquilo que hoje entendemos por racismo, ressalte-se que desde o final do século XIV a Espanha lidava com conversões em massa e desconfiava que se devessem somente aos benefícios mundanos (que incluíam não apanhar de cristãos).

Embora a União Ibérica tenha sido uma tragédia para os cristãos novos portugueses de um modo geral (porque a Inquisição Portuguesa sofria pressão espanhola para funcionar a sério), a parcela mais abastada achou ótima a possibilidade de acessar o mercado espanhol. Com efeito, foi o que aconteceu. Em 1580, Portugal dominava o comércio com a África subsaariana e, por conseguinte, a venda de escravos pretos para a cristandade. Em 1595, Filipe II firma o primeiro contrato de asiento com cristãos novos portugueses, e esse tipo de monopólio vai durar até o fim da União Ibérica. Assim, de 1595 até 1640, todos os pretos levados legalmente para a Ibero-América são vendidos nessa forma de monopólio que era dominado por cristãos novos portugueses. (Nesse período apareceram os calvinistas holandeses disputando comércio e terras com os portugueses, mas essa é outra história – e que também envolve capital judaico português.)

Os cristãos novos portugueses estão umbilicalmente ligados ao tráfico transatlântico de escravos, e o Brasil se tornou o maior polo escravocrata da cristandade. A escravidão indígena também não lhes era estranha, já que, como mostrou a historiadora Anita Novinsky, entre os bandeirantes escravizadores de índios, não poucos eram os cristãos novos.

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Anita Novinsky faz muito bem em atrelar a iconoclastia dos bandeirantes à condição de converso à força. Não faz sentido crer que o mero banditismo ou a violência faça de alguém um iconoclasta. Uma passada d’olhos na história do México, onde não falta banditismo, mostra a iconoclastia vinculada somente a razões ideológicas. A iconoclastia é também antieconômica: mais vale vender um objeto sacro do que destruí-lo. (Ao que parece, foi esse raciocínio que salvou a Madona de Nettuno.)

Daí não se segue, claro, que todo cristão novo fosse um marrano. A própria Anita Novinsky descobriu que São José de Anchieta era judeu segundo a sua Lei, e em nenhum momento questionou a sua fé. Comenta: “segundo a lei judaica, quem nasce judeu nunca deixará de ser judeu, mesmo se convertido, pois trata-se de uma questão de alma que, aos olhos de Deus, jamais poderá mudar. Os nazistas também pensavam assim, tanto que Edith Stein, canonizada como santa Teresa Benedita da Cruz pelo mesmo papa João Paulo II que beatificou Anchieta em 1980, foi morta em Auschwitz por ser judia, embora convertida e freira católica.” (Na verdade, os nazistas pensavam como os judeus somente quanto ao caráter imutável do judaísmo, pois, raciocinavam sobre bases raciais que não coincidiam com a matrilinearidade, sendo possível incinerar como judeu alguém que os judeus não considerassem como tal.)

Se formos chamar de judeu só quem comprovadamente seguia a religião judaica, então é muito controvertida a afirmação de que 6 milhões de judeus foram exterminados pelos nazistas. E se formos chamar de judeu quem descende de judeus, então os cristãos novos eram judeus, e os judeus foram os grandes responsáveis pela escravidão moderna ocidental. O que não podemos é usar a definição de judeu de maneira cambiante, atribuindo aos judeus o martírio sob os nazistas e ao “homem branco” o escravagismo moderno. De tudo isso, aprendemos que não há povos-vítimas, e (se reprovarmos a escravidão) que as religiões não são todas igualmente boas.

ERRATA:

No último artigo, onde se lê “Quando Portugal passa ao domínio espanhol em 1580, seus cristãos novos entram sob jurisdição da Inquisição Espanhola, que, ao contrário da portuguesa, era uma instituição séria.”, leia-se “Quando Portugal passa ao domínio espanhol em 1580, seus cristãos novos ficam sob a influência da coroa espanhola, que cobrava da Inquisição Portuguesa um trabalho mais sério.”

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