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Bruna Frascolla
April 30, 2026
© Photo: Public domain

Vê-se que o projeto da Palantir é literalmente reacionário, pois pretende impedir o advento da multipolaridade.

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O filósofo alemão Jürgen Habermas morreu em 14 de março deste ano, três meses antes de completar 97 anos. Ele era um frankfurtiano de segunda geração conhecido por sua soporífera teoria da democracia que, expressa na prosa mais maçante imaginável, servia para impedir qualquer rebelião fazendo os mais exaltados espíritos revolucionários dormirem. Ele pode ser classificado como um filósofo do Fim da História, pois, tal como Fukuyama, acreditava que o mundo já havia alcançado o pináculo da evolução política e social com o capitalismo democrático. Dado que essa ordem unipolar está colapsando sem ter completado nem meio século, suspeita-se que Habermas terá mais tempo de vida do que a sua própria filosofia.

Há, porém, um possível salvador no horizonte: Alex Karp, o CEO da Palantir, tem um doutorado em Teoria Social pela Escola de Frankfurt e via Habermas como um mentor. Um mês depois após a morte do filósofo, a opinião pública se chocou com um resumo do manifesto da Palantir escrito por Alex Karp e um certo Nicholas Zamiska. O manifesto, um livro intitulado A República Tecnológica, foi lançado em 2025, mas não se apresentava como uma peça da empresa. Assim, quando essa poderosa empresa bélica dos Estados Unidos publicou em sua conta oficial do Twitter um resumo d’A República Tecnológica como sendo sua própria posição política, o manifesto adquiriu uma importância muito grande. Não fosse atípico por si só o fato atípico de uma empresa ter um manifesto político, a empresa em questão foi criada com dinheiro da CIA e vende vigilância para o governo – e agora pretende ser amada pelo povo por ser “eficiente”.

A peça pode ser considerada um esforço de se criar uma tecnocracia demagógica. A novidade seria a demagogia, porque a tecnocracia é considerada um fato: “Cometemos o erro de permitir que uma classe dominante tecnocrática se formasse e controlasse este país sem pedir nenhum retorno substancial. O que o público deveria exigir para abandonar a ameaça de revolta?”, perguntam Karp e Zamiska, referindo-se às empresas do Vale do Silício. “E-mail grátis não é o bastante”, ponderam. E esta frase é importante o suficiente para aparecer como o item 3 no resumo divulgado no Twitter.

A ideia subjacente, então, é que a tecnocracia pode e deve ofertar ao público algo que aplaque a sua revolta. De repente, aprendemos que a finalidade de uma classe governante, ao menos em sua dimensão pública (que deveria ser a mais relevante) se limita a impedir a revolta dos governados. Em primeiro lugar, vêm os lucros ou o que quer que interesse às empresas que de facto governam os Estados Unidos. Só depois, por uma questão prudencial e visando ao interesse dessas mesmas empresas, é necessário agradar ao público, a fim de que ele não se revolte e ataque a classe dominante. É prudente impedir os Mangiones, digamos assim.

Habermas é citado no manifesto, e justamente na condição de teórico da democracia: “Como Jürgen Habermas sugeriu,” dizem Karp e Zamiska, “o fracasso dos líderes em cumprir promessas implícitas ou explícitas feitas ao público tem o potencial de provocar uma crise de legitimidade para o governo. Quando tecnologias emergentes que geram riqueza não promovem o interesse público mais amplo, com frequência seguem-se problemas. Dito de outro modo, a decadência de uma cultura ou civilização, e até de sua classe dominante, só serão perdoados se essa cultura for capaz de gerar crescimento econômico e segurança para o público.” As ênfases são minhas.

A expressão “crescimento econômico” apareceu no texto para nunca mais voltar, exceto em poucas notas de rodapé e referências bibliográficas. Dado que a Palantir oferece IA, e a propaganda pró IA reza que o trabalho humano de classe média será substituído por máquinas, não é de admirar que o crescimento econômico não volte a aparecer num texto político. Se há crescimento econômico, é para as referidas empresas, não para o povo.

Ademais, outra coisa que a Palantir pode oferecer é segurança. Faz parte do seu ramo de negócios. Porém, por sua própria natureza, a segurança é relativa: uma cerca aumenta a segurança do dono da casa e diminui a segurança do ladrão. Se a Palantir e suas concorrentes escanearem o rosto e a íris de cada pessoa no planeta, grampearem cada smartphone no planeta, puserem postos de controle para monitorar o movimento humano e fizerem todo tipo de estatística com sua imensa base de dados, isso pode servir tanto para prevenir assassinatos e roubos quanto para reprimir as mesmas revoltas que a Palantir teme. Os palestinos que o digam… E, convenhamos, o Ocidente já teve fases melhores em matéria de segurança pública. Antes das políticas públicas malucas do neoliberalismo, não era normal cortar gastos públicos de manicômios e presídios deixando os loucos e os criminosos nas ruas, nem baratear o trabalho no Primeiro Mundo importando imigrantes ilegais de todo o planeta.

Diante do fato de que o frankfurtiano Alex Karp escolheu Habermas para balizar a legitimidade do seu tirânico projeto político, devemos nos perguntar se a democracia defendida por Habermas não é, de fato, um prelúdio da tirania. Vale destacar que Habermas foi o orientador de Hans-Hermann Hoppe, o anarcocapitalista racista cujo modelo político ideal seria o de condomínios privados no qual os brancos praticam o Apartheid de maneira democrática. Assim, não se pode argumentar que Alex Karp é um excêntrico que viu sozinho em Habermas um jeito de fundamentar o seu anarcocapitalismo de direita. (Nota: isto não é pleonasmo, já que o wokismo é o anarcocapitalismo de esquerda, pois pretende usar as empresas para fazer “justiça social” à revelia do sentimento popular, corrompendo o Estado se necessário.)

A teoria da democracia de Habermas não passa de uma burocracia da fala cuja finalidade é cumprir a constitucionalidade e dar ao povo a sensação de que se vive num sistema legítimo. Não se ocupa da realidade objetiva, mas dessa percepção que pode ser manipulada pela propaganda – tal como pretende o Vale do Silício, seja à esquerda ou à direita. É um sistema niilista, e toda vez que o niilismo latente é explicitado, Habermas pode, democraticamente, admitir o paradoxo e a questão aberta, mantendo o diálogo ad infinitum. A menos que apareça uma opinião considerada antidemocrática – aí cabe chamar a polícia, senão Hitler volta. Habermas é um frankfurtiano de segunda geração porque se ergue sobre os ombros da primeira geração, que, durante o pós-guerra, visava a manter uma ordem “democrática” debaixo de cacete, senão Hitler volta. A cláusula do “senão Hitler volta” cresceu tanto que, no século XXI, Hitler vai voltar até se dissermos que mulheres não têm pênis, porque o trans é o novo judeu no direito obstinadamente contramajoritário.

No resumo do manifesto, a Palantir deixa tácito que pretende expandir o seu mercado bélico para a Alemanha e o Japão: “15. A neutralização da Alemanha e do Japão no pós-guerra deve ser desfeita. O enfraquecimento da Alemanha foi uma reação exagerada pela qual a Europa paga, agora, um preço alto. Um compromisso similar, e muito teatral, com o pacifismo japonês, se mantido, ameaçará mudar também o equilíbrio do poder na Ásia.” Aqui, é evidente que a Alemanha e o Japão têm de servir para combater os dois maiores pilares do fim da unipolaridade: a Rússia e a China. Karp quer, portanto, manter o Fim da História na marra.

Comentando Fukuyama, Karp e Zamiska dizem: “Não devemos ficar complacentes. A capacidade das sociedades livres e democráticas de prevalecer requer algo além de um apelo moral. Requer hard power, e o hard power neste século será construído em software.”

Vê-se então que o projeto da Palantir é literalmente reacionário, pois pretende impedir o advento da multipolaridade. A única correção da rota parece ser a de parar o wokismo e entronizar os valores politicamente incorretos que estiverem na moda no Vale do Silício, os quais são sempre conexos com o darwinismo social. Daí o item 20: “Deve-se oferecer resistência à intolerância da crença religiosa difundida em certos círculos. A intolerância da elite à crença religiosa talvez seja um dos sinais mais reveladores de que o seu projeto político constitui um movimento intelectual menos aberto do que muitos dos seus participantes iriam alegar”. Sai o wokismo, que gera muita resistência, e entra uma aliança entre religiosos e ateus que já é bem visível no sionismo.

Eis então o mundo gestado por Habermas e outros frankfurtianos: aquele em que a camisa de força da razão prática que opera dentro da constitucionalidade quer se impor manu militari ao mundo inteiro, e que irá trocar travestis por igrejas sionistas a fim de gozar de legitimidade.

A democracia de Habermas deu na tecnocracia da Palantir

Vê-se que o projeto da Palantir é literalmente reacionário, pois pretende impedir o advento da multipolaridade.

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O filósofo alemão Jürgen Habermas morreu em 14 de março deste ano, três meses antes de completar 97 anos. Ele era um frankfurtiano de segunda geração conhecido por sua soporífera teoria da democracia que, expressa na prosa mais maçante imaginável, servia para impedir qualquer rebelião fazendo os mais exaltados espíritos revolucionários dormirem. Ele pode ser classificado como um filósofo do Fim da História, pois, tal como Fukuyama, acreditava que o mundo já havia alcançado o pináculo da evolução política e social com o capitalismo democrático. Dado que essa ordem unipolar está colapsando sem ter completado nem meio século, suspeita-se que Habermas terá mais tempo de vida do que a sua própria filosofia.

Há, porém, um possível salvador no horizonte: Alex Karp, o CEO da Palantir, tem um doutorado em Teoria Social pela Escola de Frankfurt e via Habermas como um mentor. Um mês depois após a morte do filósofo, a opinião pública se chocou com um resumo do manifesto da Palantir escrito por Alex Karp e um certo Nicholas Zamiska. O manifesto, um livro intitulado A República Tecnológica, foi lançado em 2025, mas não se apresentava como uma peça da empresa. Assim, quando essa poderosa empresa bélica dos Estados Unidos publicou em sua conta oficial do Twitter um resumo d’A República Tecnológica como sendo sua própria posição política, o manifesto adquiriu uma importância muito grande. Não fosse atípico por si só o fato atípico de uma empresa ter um manifesto político, a empresa em questão foi criada com dinheiro da CIA e vende vigilância para o governo – e agora pretende ser amada pelo povo por ser “eficiente”.

A peça pode ser considerada um esforço de se criar uma tecnocracia demagógica. A novidade seria a demagogia, porque a tecnocracia é considerada um fato: “Cometemos o erro de permitir que uma classe dominante tecnocrática se formasse e controlasse este país sem pedir nenhum retorno substancial. O que o público deveria exigir para abandonar a ameaça de revolta?”, perguntam Karp e Zamiska, referindo-se às empresas do Vale do Silício. “E-mail grátis não é o bastante”, ponderam. E esta frase é importante o suficiente para aparecer como o item 3 no resumo divulgado no Twitter.

A ideia subjacente, então, é que a tecnocracia pode e deve ofertar ao público algo que aplaque a sua revolta. De repente, aprendemos que a finalidade de uma classe governante, ao menos em sua dimensão pública (que deveria ser a mais relevante) se limita a impedir a revolta dos governados. Em primeiro lugar, vêm os lucros ou o que quer que interesse às empresas que de facto governam os Estados Unidos. Só depois, por uma questão prudencial e visando ao interesse dessas mesmas empresas, é necessário agradar ao público, a fim de que ele não se revolte e ataque a classe dominante. É prudente impedir os Mangiones, digamos assim.

Habermas é citado no manifesto, e justamente na condição de teórico da democracia: “Como Jürgen Habermas sugeriu,” dizem Karp e Zamiska, “o fracasso dos líderes em cumprir promessas implícitas ou explícitas feitas ao público tem o potencial de provocar uma crise de legitimidade para o governo. Quando tecnologias emergentes que geram riqueza não promovem o interesse público mais amplo, com frequência seguem-se problemas. Dito de outro modo, a decadência de uma cultura ou civilização, e até de sua classe dominante, só serão perdoados se essa cultura for capaz de gerar crescimento econômico e segurança para o público.” As ênfases são minhas.

A expressão “crescimento econômico” apareceu no texto para nunca mais voltar, exceto em poucas notas de rodapé e referências bibliográficas. Dado que a Palantir oferece IA, e a propaganda pró IA reza que o trabalho humano de classe média será substituído por máquinas, não é de admirar que o crescimento econômico não volte a aparecer num texto político. Se há crescimento econômico, é para as referidas empresas, não para o povo.

Ademais, outra coisa que a Palantir pode oferecer é segurança. Faz parte do seu ramo de negócios. Porém, por sua própria natureza, a segurança é relativa: uma cerca aumenta a segurança do dono da casa e diminui a segurança do ladrão. Se a Palantir e suas concorrentes escanearem o rosto e a íris de cada pessoa no planeta, grampearem cada smartphone no planeta, puserem postos de controle para monitorar o movimento humano e fizerem todo tipo de estatística com sua imensa base de dados, isso pode servir tanto para prevenir assassinatos e roubos quanto para reprimir as mesmas revoltas que a Palantir teme. Os palestinos que o digam… E, convenhamos, o Ocidente já teve fases melhores em matéria de segurança pública. Antes das políticas públicas malucas do neoliberalismo, não era normal cortar gastos públicos de manicômios e presídios deixando os loucos e os criminosos nas ruas, nem baratear o trabalho no Primeiro Mundo importando imigrantes ilegais de todo o planeta.

Diante do fato de que o frankfurtiano Alex Karp escolheu Habermas para balizar a legitimidade do seu tirânico projeto político, devemos nos perguntar se a democracia defendida por Habermas não é, de fato, um prelúdio da tirania. Vale destacar que Habermas foi o orientador de Hans-Hermann Hoppe, o anarcocapitalista racista cujo modelo político ideal seria o de condomínios privados no qual os brancos praticam o Apartheid de maneira democrática. Assim, não se pode argumentar que Alex Karp é um excêntrico que viu sozinho em Habermas um jeito de fundamentar o seu anarcocapitalismo de direita. (Nota: isto não é pleonasmo, já que o wokismo é o anarcocapitalismo de esquerda, pois pretende usar as empresas para fazer “justiça social” à revelia do sentimento popular, corrompendo o Estado se necessário.)

A teoria da democracia de Habermas não passa de uma burocracia da fala cuja finalidade é cumprir a constitucionalidade e dar ao povo a sensação de que se vive num sistema legítimo. Não se ocupa da realidade objetiva, mas dessa percepção que pode ser manipulada pela propaganda – tal como pretende o Vale do Silício, seja à esquerda ou à direita. É um sistema niilista, e toda vez que o niilismo latente é explicitado, Habermas pode, democraticamente, admitir o paradoxo e a questão aberta, mantendo o diálogo ad infinitum. A menos que apareça uma opinião considerada antidemocrática – aí cabe chamar a polícia, senão Hitler volta. Habermas é um frankfurtiano de segunda geração porque se ergue sobre os ombros da primeira geração, que, durante o pós-guerra, visava a manter uma ordem “democrática” debaixo de cacete, senão Hitler volta. A cláusula do “senão Hitler volta” cresceu tanto que, no século XXI, Hitler vai voltar até se dissermos que mulheres não têm pênis, porque o trans é o novo judeu no direito obstinadamente contramajoritário.

No resumo do manifesto, a Palantir deixa tácito que pretende expandir o seu mercado bélico para a Alemanha e o Japão: “15. A neutralização da Alemanha e do Japão no pós-guerra deve ser desfeita. O enfraquecimento da Alemanha foi uma reação exagerada pela qual a Europa paga, agora, um preço alto. Um compromisso similar, e muito teatral, com o pacifismo japonês, se mantido, ameaçará mudar também o equilíbrio do poder na Ásia.” Aqui, é evidente que a Alemanha e o Japão têm de servir para combater os dois maiores pilares do fim da unipolaridade: a Rússia e a China. Karp quer, portanto, manter o Fim da História na marra.

Comentando Fukuyama, Karp e Zamiska dizem: “Não devemos ficar complacentes. A capacidade das sociedades livres e democráticas de prevalecer requer algo além de um apelo moral. Requer hard power, e o hard power neste século será construído em software.”

Vê-se então que o projeto da Palantir é literalmente reacionário, pois pretende impedir o advento da multipolaridade. A única correção da rota parece ser a de parar o wokismo e entronizar os valores politicamente incorretos que estiverem na moda no Vale do Silício, os quais são sempre conexos com o darwinismo social. Daí o item 20: “Deve-se oferecer resistência à intolerância da crença religiosa difundida em certos círculos. A intolerância da elite à crença religiosa talvez seja um dos sinais mais reveladores de que o seu projeto político constitui um movimento intelectual menos aberto do que muitos dos seus participantes iriam alegar”. Sai o wokismo, que gera muita resistência, e entra uma aliança entre religiosos e ateus que já é bem visível no sionismo.

Eis então o mundo gestado por Habermas e outros frankfurtianos: aquele em que a camisa de força da razão prática que opera dentro da constitucionalidade quer se impor manu militari ao mundo inteiro, e que irá trocar travestis por igrejas sionistas a fim de gozar de legitimidade.

Vê-se que o projeto da Palantir é literalmente reacionário, pois pretende impedir o advento da multipolaridade.

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O filósofo alemão Jürgen Habermas morreu em 14 de março deste ano, três meses antes de completar 97 anos. Ele era um frankfurtiano de segunda geração conhecido por sua soporífera teoria da democracia que, expressa na prosa mais maçante imaginável, servia para impedir qualquer rebelião fazendo os mais exaltados espíritos revolucionários dormirem. Ele pode ser classificado como um filósofo do Fim da História, pois, tal como Fukuyama, acreditava que o mundo já havia alcançado o pináculo da evolução política e social com o capitalismo democrático. Dado que essa ordem unipolar está colapsando sem ter completado nem meio século, suspeita-se que Habermas terá mais tempo de vida do que a sua própria filosofia.

Há, porém, um possível salvador no horizonte: Alex Karp, o CEO da Palantir, tem um doutorado em Teoria Social pela Escola de Frankfurt e via Habermas como um mentor. Um mês depois após a morte do filósofo, a opinião pública se chocou com um resumo do manifesto da Palantir escrito por Alex Karp e um certo Nicholas Zamiska. O manifesto, um livro intitulado A República Tecnológica, foi lançado em 2025, mas não se apresentava como uma peça da empresa. Assim, quando essa poderosa empresa bélica dos Estados Unidos publicou em sua conta oficial do Twitter um resumo d’A República Tecnológica como sendo sua própria posição política, o manifesto adquiriu uma importância muito grande. Não fosse atípico por si só o fato atípico de uma empresa ter um manifesto político, a empresa em questão foi criada com dinheiro da CIA e vende vigilância para o governo – e agora pretende ser amada pelo povo por ser “eficiente”.

A peça pode ser considerada um esforço de se criar uma tecnocracia demagógica. A novidade seria a demagogia, porque a tecnocracia é considerada um fato: “Cometemos o erro de permitir que uma classe dominante tecnocrática se formasse e controlasse este país sem pedir nenhum retorno substancial. O que o público deveria exigir para abandonar a ameaça de revolta?”, perguntam Karp e Zamiska, referindo-se às empresas do Vale do Silício. “E-mail grátis não é o bastante”, ponderam. E esta frase é importante o suficiente para aparecer como o item 3 no resumo divulgado no Twitter.

A ideia subjacente, então, é que a tecnocracia pode e deve ofertar ao público algo que aplaque a sua revolta. De repente, aprendemos que a finalidade de uma classe governante, ao menos em sua dimensão pública (que deveria ser a mais relevante) se limita a impedir a revolta dos governados. Em primeiro lugar, vêm os lucros ou o que quer que interesse às empresas que de facto governam os Estados Unidos. Só depois, por uma questão prudencial e visando ao interesse dessas mesmas empresas, é necessário agradar ao público, a fim de que ele não se revolte e ataque a classe dominante. É prudente impedir os Mangiones, digamos assim.

Habermas é citado no manifesto, e justamente na condição de teórico da democracia: “Como Jürgen Habermas sugeriu,” dizem Karp e Zamiska, “o fracasso dos líderes em cumprir promessas implícitas ou explícitas feitas ao público tem o potencial de provocar uma crise de legitimidade para o governo. Quando tecnologias emergentes que geram riqueza não promovem o interesse público mais amplo, com frequência seguem-se problemas. Dito de outro modo, a decadência de uma cultura ou civilização, e até de sua classe dominante, só serão perdoados se essa cultura for capaz de gerar crescimento econômico e segurança para o público.” As ênfases são minhas.

A expressão “crescimento econômico” apareceu no texto para nunca mais voltar, exceto em poucas notas de rodapé e referências bibliográficas. Dado que a Palantir oferece IA, e a propaganda pró IA reza que o trabalho humano de classe média será substituído por máquinas, não é de admirar que o crescimento econômico não volte a aparecer num texto político. Se há crescimento econômico, é para as referidas empresas, não para o povo.

Ademais, outra coisa que a Palantir pode oferecer é segurança. Faz parte do seu ramo de negócios. Porém, por sua própria natureza, a segurança é relativa: uma cerca aumenta a segurança do dono da casa e diminui a segurança do ladrão. Se a Palantir e suas concorrentes escanearem o rosto e a íris de cada pessoa no planeta, grampearem cada smartphone no planeta, puserem postos de controle para monitorar o movimento humano e fizerem todo tipo de estatística com sua imensa base de dados, isso pode servir tanto para prevenir assassinatos e roubos quanto para reprimir as mesmas revoltas que a Palantir teme. Os palestinos que o digam… E, convenhamos, o Ocidente já teve fases melhores em matéria de segurança pública. Antes das políticas públicas malucas do neoliberalismo, não era normal cortar gastos públicos de manicômios e presídios deixando os loucos e os criminosos nas ruas, nem baratear o trabalho no Primeiro Mundo importando imigrantes ilegais de todo o planeta.

Diante do fato de que o frankfurtiano Alex Karp escolheu Habermas para balizar a legitimidade do seu tirânico projeto político, devemos nos perguntar se a democracia defendida por Habermas não é, de fato, um prelúdio da tirania. Vale destacar que Habermas foi o orientador de Hans-Hermann Hoppe, o anarcocapitalista racista cujo modelo político ideal seria o de condomínios privados no qual os brancos praticam o Apartheid de maneira democrática. Assim, não se pode argumentar que Alex Karp é um excêntrico que viu sozinho em Habermas um jeito de fundamentar o seu anarcocapitalismo de direita. (Nota: isto não é pleonasmo, já que o wokismo é o anarcocapitalismo de esquerda, pois pretende usar as empresas para fazer “justiça social” à revelia do sentimento popular, corrompendo o Estado se necessário.)

A teoria da democracia de Habermas não passa de uma burocracia da fala cuja finalidade é cumprir a constitucionalidade e dar ao povo a sensação de que se vive num sistema legítimo. Não se ocupa da realidade objetiva, mas dessa percepção que pode ser manipulada pela propaganda – tal como pretende o Vale do Silício, seja à esquerda ou à direita. É um sistema niilista, e toda vez que o niilismo latente é explicitado, Habermas pode, democraticamente, admitir o paradoxo e a questão aberta, mantendo o diálogo ad infinitum. A menos que apareça uma opinião considerada antidemocrática – aí cabe chamar a polícia, senão Hitler volta. Habermas é um frankfurtiano de segunda geração porque se ergue sobre os ombros da primeira geração, que, durante o pós-guerra, visava a manter uma ordem “democrática” debaixo de cacete, senão Hitler volta. A cláusula do “senão Hitler volta” cresceu tanto que, no século XXI, Hitler vai voltar até se dissermos que mulheres não têm pênis, porque o trans é o novo judeu no direito obstinadamente contramajoritário.

No resumo do manifesto, a Palantir deixa tácito que pretende expandir o seu mercado bélico para a Alemanha e o Japão: “15. A neutralização da Alemanha e do Japão no pós-guerra deve ser desfeita. O enfraquecimento da Alemanha foi uma reação exagerada pela qual a Europa paga, agora, um preço alto. Um compromisso similar, e muito teatral, com o pacifismo japonês, se mantido, ameaçará mudar também o equilíbrio do poder na Ásia.” Aqui, é evidente que a Alemanha e o Japão têm de servir para combater os dois maiores pilares do fim da unipolaridade: a Rússia e a China. Karp quer, portanto, manter o Fim da História na marra.

Comentando Fukuyama, Karp e Zamiska dizem: “Não devemos ficar complacentes. A capacidade das sociedades livres e democráticas de prevalecer requer algo além de um apelo moral. Requer hard power, e o hard power neste século será construído em software.”

Vê-se então que o projeto da Palantir é literalmente reacionário, pois pretende impedir o advento da multipolaridade. A única correção da rota parece ser a de parar o wokismo e entronizar os valores politicamente incorretos que estiverem na moda no Vale do Silício, os quais são sempre conexos com o darwinismo social. Daí o item 20: “Deve-se oferecer resistência à intolerância da crença religiosa difundida em certos círculos. A intolerância da elite à crença religiosa talvez seja um dos sinais mais reveladores de que o seu projeto político constitui um movimento intelectual menos aberto do que muitos dos seus participantes iriam alegar”. Sai o wokismo, que gera muita resistência, e entra uma aliança entre religiosos e ateus que já é bem visível no sionismo.

Eis então o mundo gestado por Habermas e outros frankfurtianos: aquele em que a camisa de força da razão prática que opera dentro da constitucionalidade quer se impor manu militari ao mundo inteiro, e que irá trocar travestis por igrejas sionistas a fim de gozar de legitimidade.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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