Português
Raphael Machado
May 13, 2026
© Photo: Public domain

A “República Tecnológica” da Palantir seria a tecnocracia organizada como o panóptico benthamiano, na qual cientistas e engenheiros fazem as vezes de guardiões filosóficos.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

A Palantir, já notória como uma megacorporação dedicada ao controle e análise de dados, mas também como a mais propriamente e conscientemente “ideológica” das empresas de serviços informáticos, recentemente lançou um manifesto político que abre uma janela reveladora, mas não muito surpreendente, para a sua visão de futuro.

Os 22 pontos, os quais representariam passos para o estabelecimento do que eles chamam de “República Tecnológica”, merecem ser reproduzidos aqui:

“1. O Vale do Silício tem uma dívida moral para com o país que tornou possível sua ascensão. […] 

  1. Devemos nos rebelar contra a tirania dos aplicativos. […]
  2. O e-mail gratuito não é suficiente. […] 
  1. Os limites do soft power, da retórica grandiosa por si só, foram expostos. […]
    A questão não é se armas com IA serão construídas; é quem as construirá e com que finalidade. […]
     
  1. O serviço militar deve ser um dever universal. […] 
  1. Se um fuzileiro naval dos EUA pedir um rifle melhor, devemos fabricá-lo; e o mesmo vale para o software. […] 
  1. Os servidores públicos não precisam ser nossos sacerdotes. […] 
  1. Devemos demonstrar muito mais benevolência para com aqueles que se submeteram à vida pública. […]

  2. A psicologização da política moderna está nos desviando do caminho. […]
     
  1. Nossa sociedade tornou-se ansiosa demais por apressar, e muitas vezes se alegra com, a ruína de seus inimigos. […] 
  1. […] Uma era de dissuasão, a era atômica, está chegando ao fim, e uma nova era de dissuasão baseada na IA está prestes a começar. 
  1. Nenhum outro país na história do mundo promoveu valores progressistas mais do que este. […] 
  1. O poder americano tornou possível uma paz extraordinariamente longa. […] 
  1. A neutralização pós-guerra da Alemanha e do Japão deve ser revertida. […] 
  1. Devemos aplaudir aqueles que tentam construir onde o mercado falhou em agir. […] 
  1. O Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate à criminalidade violenta. […] 
  1. A exposição implacável da vida privada de figuras públicas afasta um número excessivo de talentos do serviço público. […] 
  1. A cautela na vida pública que, sem perceber, incentivamos é corrosiva. […] 
  1. A intolerância generalizada em relação às crenças religiosas em certos círculos deve ser combatida. […] 
  1. Algumas culturas produziram avanços vitais; outras permanecem disfuncionais e regressivas. […] 
  1. Devemos resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e sem sentido. […]

   ***

Mas a principal chave de leitura para os que quiserem desvendar o pensamento por trás da Palantir está na obra “A República Tecnológica”, coescrita por Alexander Karp e Nicholas Zamiska, os quais são não apenas altos funcionários da Palantir, mas também seus principais intelectuais. E apenas isso – o fato de que a Palantir tem “intelectuais” – já demarca um certo diferencial em relação a como a Palantir vê a si mesma e à sua missão.

Porque a crítica principial de Karp e Zamiska (e, por tabela, de Thiel) à maneira pela qual a Big Tech vem conduzindo seus negócios é de que as empresas norte-americanas de tecnologia abriram mão de pensar suas atividades no marco de uma cosmovisão cocriada por elas em conjunto com o Estado.

O apelo pela integração Big Tech + Estado, mas principalmente pela assunção por parte dos “tecnocratas” da missão de dar um sentido e propósito à ação do Estado, portanto, é um tema permanente dessas reflexões. Aqui teríamos que apontar, um tanto hegelianamente, que é da natureza ética do Estado o conformar o sentido e direção do desdobramento da sociedade, e que a absorção dessa função precipuamente estatal por uma tecnocracia privada consorciada com o Estado, além de uma usurpação de funções, representa o triunfo final do liberalismo sobre as concepções tradicionais de Estado – mas de um liberalismo que já não é popperiano; ou seja, estamos falando aqui de um “liberalismo de sociedade fechada”, em vez de um liberalismo de sociedade aberta, conceitos, aliás, que tomamos como sinônimos graças à catequese de Karl Popper. Peter Thiel, cofundador da Palantir, de fato, já afirmou publicamente acreditar que “democracia” e “liberdade” seriam incompatíveis.

Já discutimos diversas vezes sobre a natureza da crise política contemporânea, que leva à ascensão do populismo, como expressa pela cisão entre democracia e liberalismo. As elites liberais percebem que as demandas do povo são incompatíveis com seus interesses e começam a ignorar as massas. As massas, ressentidas, elevam tribunos populares que organizam partidos nacional-populistas que se estruturam ao redor do sentimento antielitista e antiliberal. É isso que está na raiz do trumpismo, do fortalecimento de Le Pen, do crescimento do AfD, etc. Os ideólogos da Palantir, em seu discurso, aparecem como os formuladores da reação liberal ao populismo democrático – o que é peculiar, dada a natureza populista do trumpismo, tão próximo desses atores, mas talvez ajude a explicar a cooptação de Trump e sua rendição ao “Deep State”.

O tom da obra é de quem confia e crê na genialidade de cientistas e engenheiros como ideólogos, aptos a criar uma tábua de valores e definir objetivos nacionais para os Estados Unidos, com o suposto “agnosticismo” político e civilizacional dos grandes nomes da Big Tech e o seu foco no atendimento a demandas da sociedade de consumo vistos como as grandes tragédias da geração.

Chama a atenção, também, o fato de que os autores da Palantir parecem crer que não apenas a Big Tech deve moldar ideologicamente o Estado e determinar seus objetivos, mas que o próprio Estado deveria se organizar de maneira mais semelhante às megacorporações da Big Tech. Talvez alguns achem curioso o fato de que os pontos 18 e 19 do manifesto, por exemplo, apontem para uma maior tolerância à corrupção. A mesma ideia aparece na obra “A República Tecnológica”. Na verdade, trata-se de uma defesa discreta da confusão entre “público” e “privado”, inclusive no âmbito patrimonial, mas principalmente no âmbito da responsabilidade, ou seja, precisamente dessa defesa de uma fusão ou confusão entre Estado e Big Tech.

E tudo isso é dito a partir de um foco geopolítico bastante específico. Os filósofos da Palantir situam o seu projeto no marco da defesa da hegemonia planetária dos EUA, ou seja, da manutenção da velha ordem unipolar do pós-Guerra Fria. Trata-se, portanto, da defesa de um “recuo” por parte da Big Tech em relação a seu viés cosmopolita e universalista, em prol de um patriotismo tecnocrático.

Muito claramente, os contornos desse pensamento apontam para essa ideologia tecnocrática como uma formulação “emergencial”, ou seja, um projeto para lidar com a crise da decadência dos EUA. E, enquanto tal, ela é propriamente expressão dessa crise e dessa decadência, por mais que seja seu objetivo tentar superá-las. Uma das provas disso é a defesa da necessidade de uma mobilização militar da sociedade, com a retomada do recrutamento obrigatório dentro dos EUA, extinto desde 1973.

Ainda que os méritos próprios do recrutamento obrigatório sejam relevantes, a realidade é que em seu período de hegemonia os EUA estavam muito à vontade com uma força completamente voluntária, de modo que uma possível retomada do recrutamento obrigatório só pode advir do reconhecimento da decadência dos EUA e da ascensão de outras potências rivais.

Mas a Palantir não se limita a defender uma certa militarização dos EUA, mas também da Alemanha e do Japão. Novamente, independentemente da questão de se Alemanha e Japão deveriam voltar a ter forças armadas completas ou não, parece bastante óbvio que essa pauta, por parte da Palantir, tem por trás de si o desejo de dispor de alguma potência militar regional que pudesse servir de escudo ou anteparo, respectivamente, contra Rússia e China.

Em relação a isso, portanto, os intelectuais da Palantir pensam como “realistas” em geopolítica, pretendendo lançar mão da estratégia de “passar o balde”, ou seja, instrumentalizar outros Estados para que assumam para si a responsabilidade de conter alguma potência ascendente rival.

Ainda, a Palantir é mais conhecida por sua relação com as tecnologias de Inteligência Artificial e seu esforço para militarizá-las e integrá-las nas políticas de segurança pública. O principal argumento de seus intelectuais é de que os EUA precisam militarizar a IA porque os seus rivais “não pensarão duas vezes em fazê-lo”. Nos parece óbvio que, por exemplo, China e Rússia têm interesse no tema; mas ao contrário do que é afirmado por Karp e Zamiska, tanto China quanto Rússia têm se posicionado publicamente em prol de uma rígida regulamentação da inteligência artificial, visando limitar seu impacto no mercado de trabalho bem como no campo militar.

Nesse sentido, a argumentação por uma postura laissez faire em relação a IA talvez sirva mais aos próprios interesses corporativos e de controle social da Palantir do que corresponderiam a uma descrição objetiva da realidade. Karp e Zamiska tampouco abordam suficientemente as preocupações e riscos quanto à privacidade dos cidadãos, varrendo para baixo do tapete essas preocupações diante do imperativo de segurança interna – desnecessário dizer: os EUA já tiveram bons índices de segurança entre os anos 40 e 70, uma época na qual inexistia a inteligência artificial.

Não se pode subestimar o controle que a Palantir JÁ tem sobre os EUA. Elementos de sua influência subjazem todo o texto do Manifesto. Quando se fala na dívida do Vale do Silício em relação à sociedade, é importante levar em consideração, ao falar nessa dívida, que a Palantir já lucra mais de 1.5 bilhão de dólares ao ano em contratos governamentais, com o resto vindo de clientes privados que cedem seus sistemas à Palantir precisamente por causa da credibilidade garantida pelas conexões com o governo.

A ICE, por sua vez, encarregada do enfrentamento à imigração ilegal, já transferiu para a Palantir a responsabilidade por mapear vizinhanças e rastrear o deslocamento de pessoas, para direcionar o seu trabalho. A lógica aí é a própria transformação do ser humano e suas ações em algoritmos controláveis e financeirizáveis pela Big Tech. Nesse sentido, apesar da crítica às outras empresas focadas em apps voltados para serviços e consumo, sem o trabalho tentacular dessas empresas, que passaram a gerenciar cada aspecto de nossas existências (música, alimentação, compras, filmes e séries, transporte, educação, etc.) e, com isso, se apropriaram de nossos dados – ou, ainda mais especificamente, nos desconstruíram em dados; dados esses que, agora, serão utilizados pela Palantir em seu propósito de direcionar a Big Tech da priorização da satisfação dos desejos para o controle do dissenso e preservação da hegemonia planetária estadunidense.

Finalmente, é interessante o termo atribuído por Karp e Zamiska a seu projeto: “República Tecnológica”. A terminologia possivelmente remete àquela dualidade tão presente no debate político-filosófico estadunidense entre “república” e “democracia”. Mas é impossível deixar de ver no conceito uma certa referência à utopia platônica, a “Platonópolis”, uma cidade ideal governada por um rei-filósofo apoiado por uma casta de guardiões altruístas. A comparação não é absurda considerando os vínculos entre Peter Thiel e ideólogos do neorreacionarismo, defensores de algo como um tecnofeudalismo, ou seja, de um sistema político propriamente governado feudalmente por megacorporações tecnológicas.

A “República Tecnológica” da Palantir seria, portanto, a tecnocracia, a estrutura política despolitizada, movida por IA, organizada como o panóptico benthamiano, na qual cientistas e engenheiros fazem as vezes de guardiões filosóficos, reinando sobre uma massa de zangões ignorantes, vivos apenas para consumir e guerrear.

Não são não nos parece realmente algo parecido com o que Platão pretendia. Parece verdadeiramente a inversão da República platônica, uma distopia cyberpunk que bem pode levar a humanidade à sua autodestruição.

A Palantir lança o Manifesto da Tecnocracia

A “República Tecnológica” da Palantir seria a tecnocracia organizada como o panóptico benthamiano, na qual cientistas e engenheiros fazem as vezes de guardiões filosóficos.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

A Palantir, já notória como uma megacorporação dedicada ao controle e análise de dados, mas também como a mais propriamente e conscientemente “ideológica” das empresas de serviços informáticos, recentemente lançou um manifesto político que abre uma janela reveladora, mas não muito surpreendente, para a sua visão de futuro.

Os 22 pontos, os quais representariam passos para o estabelecimento do que eles chamam de “República Tecnológica”, merecem ser reproduzidos aqui:

“1. O Vale do Silício tem uma dívida moral para com o país que tornou possível sua ascensão. […] 

  1. Devemos nos rebelar contra a tirania dos aplicativos. […]
  2. O e-mail gratuito não é suficiente. […] 
  1. Os limites do soft power, da retórica grandiosa por si só, foram expostos. […]
    A questão não é se armas com IA serão construídas; é quem as construirá e com que finalidade. […]
     
  1. O serviço militar deve ser um dever universal. […] 
  1. Se um fuzileiro naval dos EUA pedir um rifle melhor, devemos fabricá-lo; e o mesmo vale para o software. […] 
  1. Os servidores públicos não precisam ser nossos sacerdotes. […] 
  1. Devemos demonstrar muito mais benevolência para com aqueles que se submeteram à vida pública. […]

  2. A psicologização da política moderna está nos desviando do caminho. […]
     
  1. Nossa sociedade tornou-se ansiosa demais por apressar, e muitas vezes se alegra com, a ruína de seus inimigos. […] 
  1. […] Uma era de dissuasão, a era atômica, está chegando ao fim, e uma nova era de dissuasão baseada na IA está prestes a começar. 
  1. Nenhum outro país na história do mundo promoveu valores progressistas mais do que este. […] 
  1. O poder americano tornou possível uma paz extraordinariamente longa. […] 
  1. A neutralização pós-guerra da Alemanha e do Japão deve ser revertida. […] 
  1. Devemos aplaudir aqueles que tentam construir onde o mercado falhou em agir. […] 
  1. O Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate à criminalidade violenta. […] 
  1. A exposição implacável da vida privada de figuras públicas afasta um número excessivo de talentos do serviço público. […] 
  1. A cautela na vida pública que, sem perceber, incentivamos é corrosiva. […] 
  1. A intolerância generalizada em relação às crenças religiosas em certos círculos deve ser combatida. […] 
  1. Algumas culturas produziram avanços vitais; outras permanecem disfuncionais e regressivas. […] 
  1. Devemos resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e sem sentido. […]

   ***

Mas a principal chave de leitura para os que quiserem desvendar o pensamento por trás da Palantir está na obra “A República Tecnológica”, coescrita por Alexander Karp e Nicholas Zamiska, os quais são não apenas altos funcionários da Palantir, mas também seus principais intelectuais. E apenas isso – o fato de que a Palantir tem “intelectuais” – já demarca um certo diferencial em relação a como a Palantir vê a si mesma e à sua missão.

Porque a crítica principial de Karp e Zamiska (e, por tabela, de Thiel) à maneira pela qual a Big Tech vem conduzindo seus negócios é de que as empresas norte-americanas de tecnologia abriram mão de pensar suas atividades no marco de uma cosmovisão cocriada por elas em conjunto com o Estado.

O apelo pela integração Big Tech + Estado, mas principalmente pela assunção por parte dos “tecnocratas” da missão de dar um sentido e propósito à ação do Estado, portanto, é um tema permanente dessas reflexões. Aqui teríamos que apontar, um tanto hegelianamente, que é da natureza ética do Estado o conformar o sentido e direção do desdobramento da sociedade, e que a absorção dessa função precipuamente estatal por uma tecnocracia privada consorciada com o Estado, além de uma usurpação de funções, representa o triunfo final do liberalismo sobre as concepções tradicionais de Estado – mas de um liberalismo que já não é popperiano; ou seja, estamos falando aqui de um “liberalismo de sociedade fechada”, em vez de um liberalismo de sociedade aberta, conceitos, aliás, que tomamos como sinônimos graças à catequese de Karl Popper. Peter Thiel, cofundador da Palantir, de fato, já afirmou publicamente acreditar que “democracia” e “liberdade” seriam incompatíveis.

Já discutimos diversas vezes sobre a natureza da crise política contemporânea, que leva à ascensão do populismo, como expressa pela cisão entre democracia e liberalismo. As elites liberais percebem que as demandas do povo são incompatíveis com seus interesses e começam a ignorar as massas. As massas, ressentidas, elevam tribunos populares que organizam partidos nacional-populistas que se estruturam ao redor do sentimento antielitista e antiliberal. É isso que está na raiz do trumpismo, do fortalecimento de Le Pen, do crescimento do AfD, etc. Os ideólogos da Palantir, em seu discurso, aparecem como os formuladores da reação liberal ao populismo democrático – o que é peculiar, dada a natureza populista do trumpismo, tão próximo desses atores, mas talvez ajude a explicar a cooptação de Trump e sua rendição ao “Deep State”.

O tom da obra é de quem confia e crê na genialidade de cientistas e engenheiros como ideólogos, aptos a criar uma tábua de valores e definir objetivos nacionais para os Estados Unidos, com o suposto “agnosticismo” político e civilizacional dos grandes nomes da Big Tech e o seu foco no atendimento a demandas da sociedade de consumo vistos como as grandes tragédias da geração.

Chama a atenção, também, o fato de que os autores da Palantir parecem crer que não apenas a Big Tech deve moldar ideologicamente o Estado e determinar seus objetivos, mas que o próprio Estado deveria se organizar de maneira mais semelhante às megacorporações da Big Tech. Talvez alguns achem curioso o fato de que os pontos 18 e 19 do manifesto, por exemplo, apontem para uma maior tolerância à corrupção. A mesma ideia aparece na obra “A República Tecnológica”. Na verdade, trata-se de uma defesa discreta da confusão entre “público” e “privado”, inclusive no âmbito patrimonial, mas principalmente no âmbito da responsabilidade, ou seja, precisamente dessa defesa de uma fusão ou confusão entre Estado e Big Tech.

E tudo isso é dito a partir de um foco geopolítico bastante específico. Os filósofos da Palantir situam o seu projeto no marco da defesa da hegemonia planetária dos EUA, ou seja, da manutenção da velha ordem unipolar do pós-Guerra Fria. Trata-se, portanto, da defesa de um “recuo” por parte da Big Tech em relação a seu viés cosmopolita e universalista, em prol de um patriotismo tecnocrático.

Muito claramente, os contornos desse pensamento apontam para essa ideologia tecnocrática como uma formulação “emergencial”, ou seja, um projeto para lidar com a crise da decadência dos EUA. E, enquanto tal, ela é propriamente expressão dessa crise e dessa decadência, por mais que seja seu objetivo tentar superá-las. Uma das provas disso é a defesa da necessidade de uma mobilização militar da sociedade, com a retomada do recrutamento obrigatório dentro dos EUA, extinto desde 1973.

Ainda que os méritos próprios do recrutamento obrigatório sejam relevantes, a realidade é que em seu período de hegemonia os EUA estavam muito à vontade com uma força completamente voluntária, de modo que uma possível retomada do recrutamento obrigatório só pode advir do reconhecimento da decadência dos EUA e da ascensão de outras potências rivais.

Mas a Palantir não se limita a defender uma certa militarização dos EUA, mas também da Alemanha e do Japão. Novamente, independentemente da questão de se Alemanha e Japão deveriam voltar a ter forças armadas completas ou não, parece bastante óbvio que essa pauta, por parte da Palantir, tem por trás de si o desejo de dispor de alguma potência militar regional que pudesse servir de escudo ou anteparo, respectivamente, contra Rússia e China.

Em relação a isso, portanto, os intelectuais da Palantir pensam como “realistas” em geopolítica, pretendendo lançar mão da estratégia de “passar o balde”, ou seja, instrumentalizar outros Estados para que assumam para si a responsabilidade de conter alguma potência ascendente rival.

Ainda, a Palantir é mais conhecida por sua relação com as tecnologias de Inteligência Artificial e seu esforço para militarizá-las e integrá-las nas políticas de segurança pública. O principal argumento de seus intelectuais é de que os EUA precisam militarizar a IA porque os seus rivais “não pensarão duas vezes em fazê-lo”. Nos parece óbvio que, por exemplo, China e Rússia têm interesse no tema; mas ao contrário do que é afirmado por Karp e Zamiska, tanto China quanto Rússia têm se posicionado publicamente em prol de uma rígida regulamentação da inteligência artificial, visando limitar seu impacto no mercado de trabalho bem como no campo militar.

Nesse sentido, a argumentação por uma postura laissez faire em relação a IA talvez sirva mais aos próprios interesses corporativos e de controle social da Palantir do que corresponderiam a uma descrição objetiva da realidade. Karp e Zamiska tampouco abordam suficientemente as preocupações e riscos quanto à privacidade dos cidadãos, varrendo para baixo do tapete essas preocupações diante do imperativo de segurança interna – desnecessário dizer: os EUA já tiveram bons índices de segurança entre os anos 40 e 70, uma época na qual inexistia a inteligência artificial.

Não se pode subestimar o controle que a Palantir JÁ tem sobre os EUA. Elementos de sua influência subjazem todo o texto do Manifesto. Quando se fala na dívida do Vale do Silício em relação à sociedade, é importante levar em consideração, ao falar nessa dívida, que a Palantir já lucra mais de 1.5 bilhão de dólares ao ano em contratos governamentais, com o resto vindo de clientes privados que cedem seus sistemas à Palantir precisamente por causa da credibilidade garantida pelas conexões com o governo.

A ICE, por sua vez, encarregada do enfrentamento à imigração ilegal, já transferiu para a Palantir a responsabilidade por mapear vizinhanças e rastrear o deslocamento de pessoas, para direcionar o seu trabalho. A lógica aí é a própria transformação do ser humano e suas ações em algoritmos controláveis e financeirizáveis pela Big Tech. Nesse sentido, apesar da crítica às outras empresas focadas em apps voltados para serviços e consumo, sem o trabalho tentacular dessas empresas, que passaram a gerenciar cada aspecto de nossas existências (música, alimentação, compras, filmes e séries, transporte, educação, etc.) e, com isso, se apropriaram de nossos dados – ou, ainda mais especificamente, nos desconstruíram em dados; dados esses que, agora, serão utilizados pela Palantir em seu propósito de direcionar a Big Tech da priorização da satisfação dos desejos para o controle do dissenso e preservação da hegemonia planetária estadunidense.

Finalmente, é interessante o termo atribuído por Karp e Zamiska a seu projeto: “República Tecnológica”. A terminologia possivelmente remete àquela dualidade tão presente no debate político-filosófico estadunidense entre “república” e “democracia”. Mas é impossível deixar de ver no conceito uma certa referência à utopia platônica, a “Platonópolis”, uma cidade ideal governada por um rei-filósofo apoiado por uma casta de guardiões altruístas. A comparação não é absurda considerando os vínculos entre Peter Thiel e ideólogos do neorreacionarismo, defensores de algo como um tecnofeudalismo, ou seja, de um sistema político propriamente governado feudalmente por megacorporações tecnológicas.

A “República Tecnológica” da Palantir seria, portanto, a tecnocracia, a estrutura política despolitizada, movida por IA, organizada como o panóptico benthamiano, na qual cientistas e engenheiros fazem as vezes de guardiões filosóficos, reinando sobre uma massa de zangões ignorantes, vivos apenas para consumir e guerrear.

Não são não nos parece realmente algo parecido com o que Platão pretendia. Parece verdadeiramente a inversão da República platônica, uma distopia cyberpunk que bem pode levar a humanidade à sua autodestruição.

A “República Tecnológica” da Palantir seria a tecnocracia organizada como o panóptico benthamiano, na qual cientistas e engenheiros fazem as vezes de guardiões filosóficos.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

A Palantir, já notória como uma megacorporação dedicada ao controle e análise de dados, mas também como a mais propriamente e conscientemente “ideológica” das empresas de serviços informáticos, recentemente lançou um manifesto político que abre uma janela reveladora, mas não muito surpreendente, para a sua visão de futuro.

Os 22 pontos, os quais representariam passos para o estabelecimento do que eles chamam de “República Tecnológica”, merecem ser reproduzidos aqui:

“1. O Vale do Silício tem uma dívida moral para com o país que tornou possível sua ascensão. […] 

  1. Devemos nos rebelar contra a tirania dos aplicativos. […]
  2. O e-mail gratuito não é suficiente. […] 
  1. Os limites do soft power, da retórica grandiosa por si só, foram expostos. […]
    A questão não é se armas com IA serão construídas; é quem as construirá e com que finalidade. […]
     
  1. O serviço militar deve ser um dever universal. […] 
  1. Se um fuzileiro naval dos EUA pedir um rifle melhor, devemos fabricá-lo; e o mesmo vale para o software. […] 
  1. Os servidores públicos não precisam ser nossos sacerdotes. […] 
  1. Devemos demonstrar muito mais benevolência para com aqueles que se submeteram à vida pública. […]

  2. A psicologização da política moderna está nos desviando do caminho. […]
     
  1. Nossa sociedade tornou-se ansiosa demais por apressar, e muitas vezes se alegra com, a ruína de seus inimigos. […] 
  1. […] Uma era de dissuasão, a era atômica, está chegando ao fim, e uma nova era de dissuasão baseada na IA está prestes a começar. 
  1. Nenhum outro país na história do mundo promoveu valores progressistas mais do que este. […] 
  1. O poder americano tornou possível uma paz extraordinariamente longa. […] 
  1. A neutralização pós-guerra da Alemanha e do Japão deve ser revertida. […] 
  1. Devemos aplaudir aqueles que tentam construir onde o mercado falhou em agir. […] 
  1. O Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate à criminalidade violenta. […] 
  1. A exposição implacável da vida privada de figuras públicas afasta um número excessivo de talentos do serviço público. […] 
  1. A cautela na vida pública que, sem perceber, incentivamos é corrosiva. […] 
  1. A intolerância generalizada em relação às crenças religiosas em certos círculos deve ser combatida. […] 
  1. Algumas culturas produziram avanços vitais; outras permanecem disfuncionais e regressivas. […] 
  1. Devemos resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e sem sentido. […]

   ***

Mas a principal chave de leitura para os que quiserem desvendar o pensamento por trás da Palantir está na obra “A República Tecnológica”, coescrita por Alexander Karp e Nicholas Zamiska, os quais são não apenas altos funcionários da Palantir, mas também seus principais intelectuais. E apenas isso – o fato de que a Palantir tem “intelectuais” – já demarca um certo diferencial em relação a como a Palantir vê a si mesma e à sua missão.

Porque a crítica principial de Karp e Zamiska (e, por tabela, de Thiel) à maneira pela qual a Big Tech vem conduzindo seus negócios é de que as empresas norte-americanas de tecnologia abriram mão de pensar suas atividades no marco de uma cosmovisão cocriada por elas em conjunto com o Estado.

O apelo pela integração Big Tech + Estado, mas principalmente pela assunção por parte dos “tecnocratas” da missão de dar um sentido e propósito à ação do Estado, portanto, é um tema permanente dessas reflexões. Aqui teríamos que apontar, um tanto hegelianamente, que é da natureza ética do Estado o conformar o sentido e direção do desdobramento da sociedade, e que a absorção dessa função precipuamente estatal por uma tecnocracia privada consorciada com o Estado, além de uma usurpação de funções, representa o triunfo final do liberalismo sobre as concepções tradicionais de Estado – mas de um liberalismo que já não é popperiano; ou seja, estamos falando aqui de um “liberalismo de sociedade fechada”, em vez de um liberalismo de sociedade aberta, conceitos, aliás, que tomamos como sinônimos graças à catequese de Karl Popper. Peter Thiel, cofundador da Palantir, de fato, já afirmou publicamente acreditar que “democracia” e “liberdade” seriam incompatíveis.

Já discutimos diversas vezes sobre a natureza da crise política contemporânea, que leva à ascensão do populismo, como expressa pela cisão entre democracia e liberalismo. As elites liberais percebem que as demandas do povo são incompatíveis com seus interesses e começam a ignorar as massas. As massas, ressentidas, elevam tribunos populares que organizam partidos nacional-populistas que se estruturam ao redor do sentimento antielitista e antiliberal. É isso que está na raiz do trumpismo, do fortalecimento de Le Pen, do crescimento do AfD, etc. Os ideólogos da Palantir, em seu discurso, aparecem como os formuladores da reação liberal ao populismo democrático – o que é peculiar, dada a natureza populista do trumpismo, tão próximo desses atores, mas talvez ajude a explicar a cooptação de Trump e sua rendição ao “Deep State”.

O tom da obra é de quem confia e crê na genialidade de cientistas e engenheiros como ideólogos, aptos a criar uma tábua de valores e definir objetivos nacionais para os Estados Unidos, com o suposto “agnosticismo” político e civilizacional dos grandes nomes da Big Tech e o seu foco no atendimento a demandas da sociedade de consumo vistos como as grandes tragédias da geração.

Chama a atenção, também, o fato de que os autores da Palantir parecem crer que não apenas a Big Tech deve moldar ideologicamente o Estado e determinar seus objetivos, mas que o próprio Estado deveria se organizar de maneira mais semelhante às megacorporações da Big Tech. Talvez alguns achem curioso o fato de que os pontos 18 e 19 do manifesto, por exemplo, apontem para uma maior tolerância à corrupção. A mesma ideia aparece na obra “A República Tecnológica”. Na verdade, trata-se de uma defesa discreta da confusão entre “público” e “privado”, inclusive no âmbito patrimonial, mas principalmente no âmbito da responsabilidade, ou seja, precisamente dessa defesa de uma fusão ou confusão entre Estado e Big Tech.

E tudo isso é dito a partir de um foco geopolítico bastante específico. Os filósofos da Palantir situam o seu projeto no marco da defesa da hegemonia planetária dos EUA, ou seja, da manutenção da velha ordem unipolar do pós-Guerra Fria. Trata-se, portanto, da defesa de um “recuo” por parte da Big Tech em relação a seu viés cosmopolita e universalista, em prol de um patriotismo tecnocrático.

Muito claramente, os contornos desse pensamento apontam para essa ideologia tecnocrática como uma formulação “emergencial”, ou seja, um projeto para lidar com a crise da decadência dos EUA. E, enquanto tal, ela é propriamente expressão dessa crise e dessa decadência, por mais que seja seu objetivo tentar superá-las. Uma das provas disso é a defesa da necessidade de uma mobilização militar da sociedade, com a retomada do recrutamento obrigatório dentro dos EUA, extinto desde 1973.

Ainda que os méritos próprios do recrutamento obrigatório sejam relevantes, a realidade é que em seu período de hegemonia os EUA estavam muito à vontade com uma força completamente voluntária, de modo que uma possível retomada do recrutamento obrigatório só pode advir do reconhecimento da decadência dos EUA e da ascensão de outras potências rivais.

Mas a Palantir não se limita a defender uma certa militarização dos EUA, mas também da Alemanha e do Japão. Novamente, independentemente da questão de se Alemanha e Japão deveriam voltar a ter forças armadas completas ou não, parece bastante óbvio que essa pauta, por parte da Palantir, tem por trás de si o desejo de dispor de alguma potência militar regional que pudesse servir de escudo ou anteparo, respectivamente, contra Rússia e China.

Em relação a isso, portanto, os intelectuais da Palantir pensam como “realistas” em geopolítica, pretendendo lançar mão da estratégia de “passar o balde”, ou seja, instrumentalizar outros Estados para que assumam para si a responsabilidade de conter alguma potência ascendente rival.

Ainda, a Palantir é mais conhecida por sua relação com as tecnologias de Inteligência Artificial e seu esforço para militarizá-las e integrá-las nas políticas de segurança pública. O principal argumento de seus intelectuais é de que os EUA precisam militarizar a IA porque os seus rivais “não pensarão duas vezes em fazê-lo”. Nos parece óbvio que, por exemplo, China e Rússia têm interesse no tema; mas ao contrário do que é afirmado por Karp e Zamiska, tanto China quanto Rússia têm se posicionado publicamente em prol de uma rígida regulamentação da inteligência artificial, visando limitar seu impacto no mercado de trabalho bem como no campo militar.

Nesse sentido, a argumentação por uma postura laissez faire em relação a IA talvez sirva mais aos próprios interesses corporativos e de controle social da Palantir do que corresponderiam a uma descrição objetiva da realidade. Karp e Zamiska tampouco abordam suficientemente as preocupações e riscos quanto à privacidade dos cidadãos, varrendo para baixo do tapete essas preocupações diante do imperativo de segurança interna – desnecessário dizer: os EUA já tiveram bons índices de segurança entre os anos 40 e 70, uma época na qual inexistia a inteligência artificial.

Não se pode subestimar o controle que a Palantir JÁ tem sobre os EUA. Elementos de sua influência subjazem todo o texto do Manifesto. Quando se fala na dívida do Vale do Silício em relação à sociedade, é importante levar em consideração, ao falar nessa dívida, que a Palantir já lucra mais de 1.5 bilhão de dólares ao ano em contratos governamentais, com o resto vindo de clientes privados que cedem seus sistemas à Palantir precisamente por causa da credibilidade garantida pelas conexões com o governo.

A ICE, por sua vez, encarregada do enfrentamento à imigração ilegal, já transferiu para a Palantir a responsabilidade por mapear vizinhanças e rastrear o deslocamento de pessoas, para direcionar o seu trabalho. A lógica aí é a própria transformação do ser humano e suas ações em algoritmos controláveis e financeirizáveis pela Big Tech. Nesse sentido, apesar da crítica às outras empresas focadas em apps voltados para serviços e consumo, sem o trabalho tentacular dessas empresas, que passaram a gerenciar cada aspecto de nossas existências (música, alimentação, compras, filmes e séries, transporte, educação, etc.) e, com isso, se apropriaram de nossos dados – ou, ainda mais especificamente, nos desconstruíram em dados; dados esses que, agora, serão utilizados pela Palantir em seu propósito de direcionar a Big Tech da priorização da satisfação dos desejos para o controle do dissenso e preservação da hegemonia planetária estadunidense.

Finalmente, é interessante o termo atribuído por Karp e Zamiska a seu projeto: “República Tecnológica”. A terminologia possivelmente remete àquela dualidade tão presente no debate político-filosófico estadunidense entre “república” e “democracia”. Mas é impossível deixar de ver no conceito uma certa referência à utopia platônica, a “Platonópolis”, uma cidade ideal governada por um rei-filósofo apoiado por uma casta de guardiões altruístas. A comparação não é absurda considerando os vínculos entre Peter Thiel e ideólogos do neorreacionarismo, defensores de algo como um tecnofeudalismo, ou seja, de um sistema político propriamente governado feudalmente por megacorporações tecnológicas.

A “República Tecnológica” da Palantir seria, portanto, a tecnocracia, a estrutura política despolitizada, movida por IA, organizada como o panóptico benthamiano, na qual cientistas e engenheiros fazem as vezes de guardiões filosóficos, reinando sobre uma massa de zangões ignorantes, vivos apenas para consumir e guerrear.

Não são não nos parece realmente algo parecido com o que Platão pretendia. Parece verdadeiramente a inversão da República platônica, uma distopia cyberpunk que bem pode levar a humanidade à sua autodestruição.

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