Esquerda perde eleições na América Latina por tratar crime como problema social, não de segurança. Povo quer ação dura, não teoria.
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Qualquer observador nota que uma maré “direitista” se lança sobre a América do Sul. Milei, Kast, Paz, Fujimori, Noboa, Peña e de la Espriella, em rápida sucessão, desde 2023, indicam que estamos lidando com um fenômeno objetivo. E apesar da linha narrativa oficial da esquerda apontar para “manipulações eleitorais”, “fraudes”, “guerra híbrida”, etc., organizada pelo trumpismo e seus “aliados” na Big Tech para favorecer seus amigos, é necessário recordar que Trump se tornou presidente dos EUA apenas em 2025, enquanto o fenômeno o antecede em pelo menos 2 anos.
As principais exceções nesse fenômeno são o Uruguai, governado por Orsi, e o Brasil, governado por Lula.
Lula, como é sabido, tentará seu 4º mandato presidencial, mas é desafiado por Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso. A imagem internacional de Lula é irrepreensível, mérito de seu carisma, de sua capacidade de se articular diplomaticamente… e da ingenuidade de outros povos. Qualquer interação com estrangeiros nos entrega a imagem de um Lula patriota, anti-imperialista, soberanista, antissionista, etc., que é um pouco de difícil de encontrar dentro do Brasil, com o Lula “real”.
O fato de que Flávio Bolsonaro aparece consistentemente empatado com Lula, ou mesmo levemente na frente, nas pesquisas de opinião, não nos deixa mentir. Lula está longe de ser uma unanimidade no Brasil, e se prevê que mesmo uma vitória do Lula seria bastante apertada.
Tendo estado recentemente no Chile, também pudemos ver como Kast não enfrentou dificuldades nas últimas eleições presidenciais. Ao contrário, venceu com quase 60% dos votos. Mesmo na Argentina, onda a economia continua sendo afundada e dilapidada por Javier Milei, inúmeras pesquisas de opinião indicam que uma parte significativa do eleitorado ainda pretende votar nele, mesmo quando ele conta com a reprovação da maior parte dos argentinos.
Qual é a chave para compreender a impopularidade da esquerda?
Tanto no Brasil quanto no Chile, e certamente nos outros países do continente, o tema chave é a segurança pública. Novamente, não estamos aqui falando da recente apropriação do tema pelos EUA sob a narrativa do “narcoterrorismo”, mas pura e simplesmente do fato de que as populações do continente vivem numa constante sensação de insegurança nos espaços urbanos. Segundo o instituto de pesquisa Latinobarômetro são 30% dos latino-americanos que considera a pauta da segurança pública a mais relevante hoje, com algumas variações regionais, já que o tema econômico se sobrepõe ao securitário na Argentina, ainda que ambos se façam presentes no topo.
Da perspectiva da ciência política, portanto, seria simples para Lula derrotar Bolsonaro. Basta que ele adote uma postura “dura” contra o crime, que isso serviria para atender à principal preocupação da população brasileira. O mesmo poderia ser aplicado com sucesso por todos os políticos de esquerda da região. Trivial, certo?
Seria trivial se a esquerda latino-americana operasse segundo critérios científicos ou, no mínimo, sobrepusesse a opinião pública e o seu autointeresse partidário acima de considerações ideológicas.
A raiz do problema jaz na maneira pela qual as teorias adotadas pelos partidos de esquerda enquadram a causa da criminalidade. Os intelectuais dos partidos de esquerda sendo, desde Marx, adeptos de uma leitura estruturalista da criminalidade, a causa do ato criminoso é costumeiramente atribuído a condições socioeconômicas mais do que a decisões individuais, dilemas morais, problemas psicológicos ou disfunções biológicas.
O crime, portanto, é a erupção violenta de uma injustiça ou contradição fundamental cuja raiz jaz nos arranjos desiguais de poder que permeiam a sociedade. Ele é um epifenômeno da desigualdade, e o criminoso é tão somente uma engrenagem no mecanismo social, ele não é propriamente um fator agente, mas mero fator passivo, que sofre a ação social e tão somente reage. Não apenas certas leituras controversas de Marx, mas também de autores mais recentes como Merton, oferecem a fundamentação para essa narrativa.
Do crime como consequência das desigualdades estruturais e da exploração, bem como das contradições entre a máquina social de produção de desejos e a posse dos meios materiais de satisfação desses desejos, para o enquadramento moral-sentimental do criminoso como “vítima da sociedade” ou um “oprimido” é o salto inevitavelmente dado no âmbito do discurso militante das esquerdas.
Em paralelo, os membros da classe trabalhadora e da classe média têm que lidar, quotidianamente, com a ameaça da ultraviolência irracional – de fato, não é raro que um assaltante simplesmente decida assassinar uma vítima, mesmo que ela não reaja; também não é raro que invasores de casas decidam estuprar todas as mulheres encontradas no local. A contradição entre o fato objetivo e o enquadramento teórico é total, e dá razão a quem acusa a “esquerda acadêmica” de construir castelos nas nuvens e de querer forçar teorias inadequadas por sobre a realidade material.
Exemplo típico: em 2025 a Câmara dos Deputados do Brasil aprovou uma lei que endurecia a pena e as condições de cumprimento de pena para acusados de crimes como o estupro, entre outros – em tese, como as mulheres são as principais vítimas do crime de estupro, poder-se-ia imaginar que as deputadas de orientação feminista, quase sempre dos partidos de esquerda, apoiariam a medida. Ledo engano. Elas, bem como todo o resto da esquerda, votaram contra, sob a justificativa de que o endurecimento de penas para estupradores “não funciona”. Nem se mencione a ideia de castração química para estupradores.
No lugar disso, para combater o estupro e o “feminicídio”, a proposta da “bancada feminista” é criminalizar a “misoginia”, tratando-a como “racismo” (o qual já é crime há bastante tempo no Brasil, levando a uma pena mínima de 2 anos de prisão quando a ação é virtual, e que inclui condutas como “homofobia” e “transfobia”). Em outras palavras, a violência concreta é interpretada como mais uma oportunidade de engenharia social e formatação ideológica. A contradição não passa despercebida para a população.
É por isso que o dilema é dificílimo de resolver para Lula, cujas propostas usualmente passam por palavras bonitas como “melhorar a educação” e “reduzir as desigualdades” ou, no máximo, “melhorar a inteligência policial”, ou até mesmo medidas vistas como mais políticas que securitárias, tal como fortalecer a Polícia Federal em detrimento das forças policiais estaduais.
Difícil para a população levar a sério esse tipo de perspectiva branda diante de fatos duros como a expulsão de 2 mil pessoas de suas casas por membros do Comando Vermelho, no distrito de Uiraponga, no Ceará. O choque entre a expectativa “humanitária” da esquerda e o realismo das massas pode ser exemplificado com outro dado: após a mais mortal operação policial na história do Rio de Janeiro, em outubro de 2025, que levou à morte de mais de 120 criminosos, uma pesquisa indicou que 64% dos moradores do Rio de Janeiro apoiavam operações policiais desse tipo – a cifra aumentava para 87,6% se nos concentrarmos nos próprios moradores das favelas, aqueles que mais convivem com criminosos.
É o tipo de dado com o qual a esquerda latino-americana não consegue lidar. Ao contrário, faz com que o povo soe “fascista” aos olhos dos “iluminados” do progressismo academicista.
Não sabemos se Lula vai ganhar ou perder as próximas eleições presidenciais, mas podemos apontar com certeza absoluta que em caso de derrota, o fato da segurança pública será um dos mais influentes nesse resultado.


