Português
Raphael Machado
July 19, 2026
© Photo: Public domain

O Brasil nem joga mais o “futebol-arte”, nem consegue alcançar resultados apelando à “consciência tática” e à “eficiência”.

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Não passa um dia, no último mês, sem que brasileiros em todas as mídias e redes sociais tenham debatido as causas da decadência nacional. Da decadência do futebol nacional, mais especificamente. Pode parecer pouco ou mera trivialidade, mas quando nos voltamos para a dimensão psicossocial da nação, a qual abarca seu senso de identidade, vemos que costumes, práticas, objetos ou passatempos que para outros povos podem parecer triviais, para povos específicos podem ser elementos determinantes de seu orgulho, de seu senso de si, de sua percepção quanto a seu lugar no mundo.

E me parece inegável que no caso brasileiro, o futebol faça parte desses aspectos culturais determinantes que moldam a sua dimensão psicossocial, bem como o imaginário estrangeiro em relação ao Brasil. O principal responsável pela imagem, interior e exterior, do futebol brasileiro foi, obviamente, Pelé, o “rei”, único atleta a ganhar 3 Copas do Mundo (1958, 1962 e 1970). Com Pelé e seus companheiros das gerações de jogadores entre meados dos anos 50 e meados dos anos 80, consagra-se internacionalmente o “futebol-arte”, o “futebol pelo futebol”, em que a fruição estética do jogo, mais que o “resultado”, é o Graal a ser alcançado.

Com Pelé, o Brasil conquista o mundo – especialmente o Terceiro Mundo. Na África e na Ásia especialmente, o Brasil torna-se querido graças à magia do “futebol-arte” oferecida ao mundo através, primeiro, de Pelé e, depois, de seus herdeiros nas gerações sucessivas.

Essa narrativa tem dimensões práticas. No plano interno, o triunfo do Brasil em 1970 ajuda a consolidar internamente o país, que à época vivia sob a ditadura do General Médici. No plano internacional, a dimensão do futebol brasileiro consegue ser incomensuravelmente maior, partindo do próprio Pelé, que acabou tornando-se o principal diplomata brasileiro. Através de seu clube, o Santos, Pelé conheceu boa parte da África e da Ásia, e ainda hoje o Líbano, Bangladesh, Índia, Indonésia e Jamaica estão entre os países mais fanaticamente simpáticos à seleção brasileira. Pelé chegou a conseguir um cessar-fogo em plena Guerra de Biafra, para que ele pudesse participar de uma exibição de futebol em Lagos, Nigéria. Anos depois, foi recrutado pelo próprio Henry Kissinger para jogar pelo New York Cosmos com o objetivo de popularizar o futebol nos EUA e aproximar o país ao Brasil, num momento em que o novo presidente, o General Geisel, se voltava contra Washington.

Em tempos mais recentes, com o Brasil pentacampeão, também governos como os do Partido dos Trabalhadores souberam utilizar o futebol como ferramenta diplomática e de projeção de influência. A seleção brasileira jogou contra o Haiti em Porto-Príncipe, em plena missão MINUSTAH, visando exibir para a população uma imagem positiva da operação militar liderada pelo Brasil. A própria realização da Copa do Mundo de 2014 foi pensada para servir a um fortalecimento da imagem do Brasil como destinação turística e de investimentos.

Existe algo como uma “simpatia inata” com a qual o turista brasileiro se depara em outros países – quando o mero fato de descobrirem que você é brasileiro provoca um sorriso sincero – e em boa parte isso deriva do futebol, já que o fenômeno se dá especialmente se ele estiver usando uma camisa da seleção com um dos “grandes nomes” atrás (Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Neymar, etc.). Essa “boa vontade” é útil da perspectiva da estratégia nacional, já que ao apresentar a face de um país amistoso e alegre, alimenta a percepção do Brasil como mediador ou interlocutor apto a atravessar as barreiras da burocracia e da formalidade.

Não vivemos, porém, na época de Pelé e o Brasil não é mais um país triunfante.

Na Copa do Mundo de 2026, o Brasil perde para a Noruega, por 2-1, nas oitavas de final, seu pior resultado em décadas. O futebol brasileiro não é mais o mesmo.

O debate sobre a decadência do futebol inclui explicações que vão da substituição do catolicismo popular pelo neopentecostalismo, até o problema da exportação precoce de jogadores para a Europa. A certeza, porém, é que o Brasil nem joga mais o “futebol-arte”, nem consegue alcançar resultados apelando à “consciência tática” e à “eficiência”. Poderia isso reduzir a simpatia e o respeito que o mundo nutrem em relação ao Brasil.

Ao menos por enquanto, a resposta parece ser não. Jogadores e fãs de todo o mundo seguem reverenciando o Brasil e esperando uma recuperação iminente do futebol brasileiro. Um otimismo surpreendente, mas que dá testemunho do impacto que o futebol brasileiro teve até meados da primeira década do século XXI.

A crise do futebol brasileiro e seus efeitos sobre a projecao internacional do Brasil

O Brasil nem joga mais o “futebol-arte”, nem consegue alcançar resultados apelando à “consciência tática” e à “eficiência”.

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Não passa um dia, no último mês, sem que brasileiros em todas as mídias e redes sociais tenham debatido as causas da decadência nacional. Da decadência do futebol nacional, mais especificamente. Pode parecer pouco ou mera trivialidade, mas quando nos voltamos para a dimensão psicossocial da nação, a qual abarca seu senso de identidade, vemos que costumes, práticas, objetos ou passatempos que para outros povos podem parecer triviais, para povos específicos podem ser elementos determinantes de seu orgulho, de seu senso de si, de sua percepção quanto a seu lugar no mundo.

E me parece inegável que no caso brasileiro, o futebol faça parte desses aspectos culturais determinantes que moldam a sua dimensão psicossocial, bem como o imaginário estrangeiro em relação ao Brasil. O principal responsável pela imagem, interior e exterior, do futebol brasileiro foi, obviamente, Pelé, o “rei”, único atleta a ganhar 3 Copas do Mundo (1958, 1962 e 1970). Com Pelé e seus companheiros das gerações de jogadores entre meados dos anos 50 e meados dos anos 80, consagra-se internacionalmente o “futebol-arte”, o “futebol pelo futebol”, em que a fruição estética do jogo, mais que o “resultado”, é o Graal a ser alcançado.

Com Pelé, o Brasil conquista o mundo – especialmente o Terceiro Mundo. Na África e na Ásia especialmente, o Brasil torna-se querido graças à magia do “futebol-arte” oferecida ao mundo através, primeiro, de Pelé e, depois, de seus herdeiros nas gerações sucessivas.

Essa narrativa tem dimensões práticas. No plano interno, o triunfo do Brasil em 1970 ajuda a consolidar internamente o país, que à época vivia sob a ditadura do General Médici. No plano internacional, a dimensão do futebol brasileiro consegue ser incomensuravelmente maior, partindo do próprio Pelé, que acabou tornando-se o principal diplomata brasileiro. Através de seu clube, o Santos, Pelé conheceu boa parte da África e da Ásia, e ainda hoje o Líbano, Bangladesh, Índia, Indonésia e Jamaica estão entre os países mais fanaticamente simpáticos à seleção brasileira. Pelé chegou a conseguir um cessar-fogo em plena Guerra de Biafra, para que ele pudesse participar de uma exibição de futebol em Lagos, Nigéria. Anos depois, foi recrutado pelo próprio Henry Kissinger para jogar pelo New York Cosmos com o objetivo de popularizar o futebol nos EUA e aproximar o país ao Brasil, num momento em que o novo presidente, o General Geisel, se voltava contra Washington.

Em tempos mais recentes, com o Brasil pentacampeão, também governos como os do Partido dos Trabalhadores souberam utilizar o futebol como ferramenta diplomática e de projeção de influência. A seleção brasileira jogou contra o Haiti em Porto-Príncipe, em plena missão MINUSTAH, visando exibir para a população uma imagem positiva da operação militar liderada pelo Brasil. A própria realização da Copa do Mundo de 2014 foi pensada para servir a um fortalecimento da imagem do Brasil como destinação turística e de investimentos.

Existe algo como uma “simpatia inata” com a qual o turista brasileiro se depara em outros países – quando o mero fato de descobrirem que você é brasileiro provoca um sorriso sincero – e em boa parte isso deriva do futebol, já que o fenômeno se dá especialmente se ele estiver usando uma camisa da seleção com um dos “grandes nomes” atrás (Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Neymar, etc.). Essa “boa vontade” é útil da perspectiva da estratégia nacional, já que ao apresentar a face de um país amistoso e alegre, alimenta a percepção do Brasil como mediador ou interlocutor apto a atravessar as barreiras da burocracia e da formalidade.

Não vivemos, porém, na época de Pelé e o Brasil não é mais um país triunfante.

Na Copa do Mundo de 2026, o Brasil perde para a Noruega, por 2-1, nas oitavas de final, seu pior resultado em décadas. O futebol brasileiro não é mais o mesmo.

O debate sobre a decadência do futebol inclui explicações que vão da substituição do catolicismo popular pelo neopentecostalismo, até o problema da exportação precoce de jogadores para a Europa. A certeza, porém, é que o Brasil nem joga mais o “futebol-arte”, nem consegue alcançar resultados apelando à “consciência tática” e à “eficiência”. Poderia isso reduzir a simpatia e o respeito que o mundo nutrem em relação ao Brasil.

Ao menos por enquanto, a resposta parece ser não. Jogadores e fãs de todo o mundo seguem reverenciando o Brasil e esperando uma recuperação iminente do futebol brasileiro. Um otimismo surpreendente, mas que dá testemunho do impacto que o futebol brasileiro teve até meados da primeira década do século XXI.

O Brasil nem joga mais o “futebol-arte”, nem consegue alcançar resultados apelando à “consciência tática” e à “eficiência”.

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Não passa um dia, no último mês, sem que brasileiros em todas as mídias e redes sociais tenham debatido as causas da decadência nacional. Da decadência do futebol nacional, mais especificamente. Pode parecer pouco ou mera trivialidade, mas quando nos voltamos para a dimensão psicossocial da nação, a qual abarca seu senso de identidade, vemos que costumes, práticas, objetos ou passatempos que para outros povos podem parecer triviais, para povos específicos podem ser elementos determinantes de seu orgulho, de seu senso de si, de sua percepção quanto a seu lugar no mundo.

E me parece inegável que no caso brasileiro, o futebol faça parte desses aspectos culturais determinantes que moldam a sua dimensão psicossocial, bem como o imaginário estrangeiro em relação ao Brasil. O principal responsável pela imagem, interior e exterior, do futebol brasileiro foi, obviamente, Pelé, o “rei”, único atleta a ganhar 3 Copas do Mundo (1958, 1962 e 1970). Com Pelé e seus companheiros das gerações de jogadores entre meados dos anos 50 e meados dos anos 80, consagra-se internacionalmente o “futebol-arte”, o “futebol pelo futebol”, em que a fruição estética do jogo, mais que o “resultado”, é o Graal a ser alcançado.

Com Pelé, o Brasil conquista o mundo – especialmente o Terceiro Mundo. Na África e na Ásia especialmente, o Brasil torna-se querido graças à magia do “futebol-arte” oferecida ao mundo através, primeiro, de Pelé e, depois, de seus herdeiros nas gerações sucessivas.

Essa narrativa tem dimensões práticas. No plano interno, o triunfo do Brasil em 1970 ajuda a consolidar internamente o país, que à época vivia sob a ditadura do General Médici. No plano internacional, a dimensão do futebol brasileiro consegue ser incomensuravelmente maior, partindo do próprio Pelé, que acabou tornando-se o principal diplomata brasileiro. Através de seu clube, o Santos, Pelé conheceu boa parte da África e da Ásia, e ainda hoje o Líbano, Bangladesh, Índia, Indonésia e Jamaica estão entre os países mais fanaticamente simpáticos à seleção brasileira. Pelé chegou a conseguir um cessar-fogo em plena Guerra de Biafra, para que ele pudesse participar de uma exibição de futebol em Lagos, Nigéria. Anos depois, foi recrutado pelo próprio Henry Kissinger para jogar pelo New York Cosmos com o objetivo de popularizar o futebol nos EUA e aproximar o país ao Brasil, num momento em que o novo presidente, o General Geisel, se voltava contra Washington.

Em tempos mais recentes, com o Brasil pentacampeão, também governos como os do Partido dos Trabalhadores souberam utilizar o futebol como ferramenta diplomática e de projeção de influência. A seleção brasileira jogou contra o Haiti em Porto-Príncipe, em plena missão MINUSTAH, visando exibir para a população uma imagem positiva da operação militar liderada pelo Brasil. A própria realização da Copa do Mundo de 2014 foi pensada para servir a um fortalecimento da imagem do Brasil como destinação turística e de investimentos.

Existe algo como uma “simpatia inata” com a qual o turista brasileiro se depara em outros países – quando o mero fato de descobrirem que você é brasileiro provoca um sorriso sincero – e em boa parte isso deriva do futebol, já que o fenômeno se dá especialmente se ele estiver usando uma camisa da seleção com um dos “grandes nomes” atrás (Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Neymar, etc.). Essa “boa vontade” é útil da perspectiva da estratégia nacional, já que ao apresentar a face de um país amistoso e alegre, alimenta a percepção do Brasil como mediador ou interlocutor apto a atravessar as barreiras da burocracia e da formalidade.

Não vivemos, porém, na época de Pelé e o Brasil não é mais um país triunfante.

Na Copa do Mundo de 2026, o Brasil perde para a Noruega, por 2-1, nas oitavas de final, seu pior resultado em décadas. O futebol brasileiro não é mais o mesmo.

O debate sobre a decadência do futebol inclui explicações que vão da substituição do catolicismo popular pelo neopentecostalismo, até o problema da exportação precoce de jogadores para a Europa. A certeza, porém, é que o Brasil nem joga mais o “futebol-arte”, nem consegue alcançar resultados apelando à “consciência tática” e à “eficiência”. Poderia isso reduzir a simpatia e o respeito que o mundo nutrem em relação ao Brasil.

Ao menos por enquanto, a resposta parece ser não. Jogadores e fãs de todo o mundo seguem reverenciando o Brasil e esperando uma recuperação iminente do futebol brasileiro. Um otimismo surpreendente, mas que dá testemunho do impacto que o futebol brasileiro teve até meados da primeira década do século XXI.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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