Pesquisa Cato: 37% dos americanos preferem socialismo ao capitalismo. Trump, ao atacar comunismo, só aumenta sua popularidade entre jovens.
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Dando continuidade ao raciocínio iniciado no artigo anterior, há uma tendência geral ao deslocamento de parcelas significativas das massas norte-americanas para posições revolucionárias, ainda que esse deslocamento, obviamente, seja gradual e não necessariamente linear. Uma pesquisa do Instituto Cato, um think tank neoliberal linha-dura, publicada no meio deste ano, revelou alguns dados que confirmam essa percepção: mais de um terço (37%) dos americanos têm uma visão mais favorável do socialismo do que do capitalismo, que ainda continua em maioria (52%). Mas vindo da sociedade mais capitalista do mundo, da ponta de lança da luta anticomunista, é algo extraordinário. Além disso, há um empate de 37% a 37% entre os que têm uma opinião favorável e os que têm uma opinião desfavorável do socialismo – com um adicional de que 21% têm uma visão favorável do comunismo, isto é, uma visão mais radical e mais convicta. Essa visão favorável do comunismo chega a ser compartilhada por 38% dos americanos com menos de 30 anos.
E os dados mais valiosos estão justamente na parte da pesquisa sobre a opinião da juventude. Esses 38% da Geração Z favoráveis ao comunismo estão apenas sete pontos percentuais atrás dos que ainda são favoráveis ao capitalismo (45%). Mas há mais jovens dessa geração favoráveis ao comunismo do que desfavoráveis (38% vs. 36%). No entanto, quando se compara o percentual dos favoráveis ao socialismo com o dos favoráveis ao capitalismo, o socialismo vence por 53% a 45%. É claro que a social democracia, os democratas socialistas e toda uma turba de oportunistas desfigurou tanto o socialismo (assim como o stalinismo fez com o comunismo) que parte desses entrevistados certamente pensa que o socialismo se resume a reformas sociais dentro da ordem burguesa ou que o comunismo é o Estado controlando tudo.
Mas daí até compreender que a realização do socialismo, e depois do comunismo, passa necessariamente por uma luta revolucionária para destruir o Estado burguês e edificar o poder proletário é uma questão de experiência com as próprias frustrações e limites da política reformista. Essa experiência está se esgotando, na medida em que os demagogos da “ala esquerda” do Partido Democrata não conseguem apresentar uma verdadeira alternativa à bandidagem da política burguesa, vendem ilusões cada vez mais inacreditáveis e funcionam graças ao financiamento das ONGs bancadas pelos grandes capitalistas. Ou seja, na medida em que se afundam junto com todo o regime.
Neste momento de sinais de regeneração do movimento das massas americanas, é natural que oportunistas se aproveitem do descontentamento com o regime. Trump fez isso quando estava na oposição. Agora é a vez dos democratas, em especial dos “socialistas” ou “progressistas” e, em menor medida, de alguns “libertários” e republicanos ex-trumpistas. Eles procuram se afastar tanto do establishment republicano quanto democrata, apresentando-se, de certo modo, como “antissistema”. Utilizam o repúdio às guerras, que não é nada senão um sentimento anti-imperialista ainda em formação, para angariar votos. É possível que alguns alcancem vitórias nas eleições locais este ano. Mas o que importa não é o que farão se eleitos, pois não farão nada de muito distinto daquilo que fizeram Bernie Sanders ou AOC (isto é, a política tradicional dos democratas com uma fachada um pouco mais social). O que importa é que o eleitorado dá mostras de que quer algo diferente, algo que rompa com o bipartidarismo e com a engrenagem enferrujada do sistema político e econômico norte-americano. Algo que enfrente os poderosos e suas instituições cada vez mais impopulares.
Embora confusos, protestos que ora se intensificam, ora diminuem, mas que tendem a ser cada vez mais recorrentes na vida política dos Estados Unidos, são uma amostra dessa radicalização. Não se trata de organizações vinculadas ao Partido Democrata ou aos seus apêndices (embora eles tentem capturar esse tipo de movimento), mas sim de agrupamentos independentes que encontram na ação direta a maneira de expressar sua indignação e desejo de destruição do regime. São protestos ainda muito desorganizados, sem uma direção política clara e em grande medida espontâneos. Mas a espontaneidade é apenas a fase inicial de um movimento revolucionário, que amadurece na luta. E, por não estar organizativamente atrelado ao Partido Democrata, esse movimento tende a desenvolver métodos de luta combativos. Tende a crescer.
A explosão social a partir da execução de George Floyd foi contida apenas porque as ONGs e fundações relacionadas aos democratas encontraram brechas na ingenuidade daquele movimento para corrompê-lo e destruí-lo por dentro com a política woke. O resultado: a eleição de Biden e Kamala Harris. Mas alguma coisa o movimento negro e popular americano aprendeu, pois a mesma Harris, que se apresentou como a rainha do antirracismo, caiu do trono ao ser rechaçada por amplas massas trabalhadoras, perdendo a eleição seguinte para o próprio Trump.
Nem os democratas nem Trump conseguiram reverter a tendência à desagregação do regime e ao consequente crescimento da mobilização social, ainda que embrionária. Como válvula de escape para o desastre que tem sido este mandato, e expressando ao mesmo tempo sua submissão ao imperialismo, Trump apertou o cerco contra tudo o que possa representar, ainda que remotamente, uma ameaça revolucionária à crise na qual o regime se encontra. Daí a caracterização de pequenos coletivos, ou mesmo movimentos desconexos do ponto de vista organizacional, como “terroristas de extrema-esquerda”, a exemplo de ativistas antifascistas (uma colcha de retalhos política e ideológica) ou grupos de solidariedade internacional com a Palestina.
A verborragia de um governo tão impopular, que acompanha suas ações, é um tiro que pode sair pela culatra. Uma pesquisa da Focaldata publicada no último final de semana pelo Financial Times apontou um índice de aprovação de meros 33% – mesmo percentual encontrado pelo Ipsos/Reuters em meados de agosto. É o nível mais baixo em dois mandatos, igualado por uma medição de dezembro de 2017. Nos EUA e mundo afora, um número crescente de pessoas se revolta e se organiza para repudiar as ações de Trump, que em geral são vistas como ações do governo ou mesmo do regime político dos EUA, e não de um presidente em específico.
A própria burguesia americana trata de pressionar Trump com essas questões, em busca de aprimorar o controle sobre sua política, que, em última instância, segue sendo ambígua, vacilante e desconfiável. Então, uma vitória democrata na Câmara e até mesmo no Senado, que são possíveis agora de acordo com as pesquisas eleitorais, fechariam o cerco sobre o governo.
Mas a possível perda de controle governamental sobre o legislativo, somada à deterioração econômica, mantém a política americana em crise. Uma crise dos de cima. E as ações e propaganda de Trump contra o movimento social alimentam o descontentamento e o chamado à organização dos de baixo. Além de ser o principal agente de desestabilização do andar de cima, Trump é ainda o maior propagandista da rebelião do andar de baixo, com sua retórica anticomunista ecoada por toda a administração.
Um presidente detestável, impopular, traidor de sua base, cujas ações prejudicam materialmente milhões de pessoas, gera uma oposição a tudo o que ele fala e faz. Quando Trump pragueja contra o comunismo, quantas pessoas não passam a ver o comunismo com bons olhos, apenas por oposição a Trump?


