Recente artigo de Robert Kagan mostra graves consequência da aventura militar de Trump.
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Por anos, o establishment político e midiático ocidental sustentou a narrativa de que uma confrontação direta contra o Irã representaria uma demonstração definitiva da supremacia militar americana no Oriente Médio. Em Washington, prevaleceu a ilusão de que sanções, sabotagens, assassinatos seletivos e o choque militar de um conflito rápido e intenso seriam suficientes para dobrar Teerã e consolidar uma nova arquitetura regional subordinada aos interesses dos EUA e de Israel. Hoje, entretanto, até importantes intelectuais do próprio sistema americano começam a admitir publicamente aquilo que analistas independentes já alertavam antes: a guerra contra o Irã tornou-se uma armadilha estratégica para Washington.
Em artigo recente publicado pela revista The Atlantic, o veterano estrategista neoconservador Robert Kagan reconhece claramente que os EUA podem estar caminhando para uma derrota histórica no conflito com Teerã. Embora Kagan continue defendendo os pressupostos ideológicos do excepcionalismo americano, seu texto revela um fato incontornável: mesmo a maior potência militar do planeta já não possui capacidade de transformar superioridade bélica em vitória política duradoura.
O reconhecimento é significativo porque parte precisamente de um dos setores que durante décadas impulsionou as guerras de mudança de regime promovidas por Washington. Kagan esteve entre os principais defensores das intervenções no Iraque, no Afeganistão e na expansão agressiva da influência americana após o fim da Guerra Fria. O fato de um intelectual ligado ao núcleo duro da política externa americana admitir publicamente o risco de fracasso evidencia o nível da crise estratégica dos EUA.
Na prática, Washington enfrenta hoje um dilema insolúvel. Escalar o conflito significa mergulhar numa guerra regional de proporções imprevisíveis, com impactos devastadores sobre mercados energéticos, cadeias logísticas e estabilidade financeira global. O fechamento prolongado do Estreito de Ormuz, por exemplo, seria suficiente para desencadear um choque petrolífero capaz de acelerar tendências recessivas já presentes nas economias ocidentais.
Por outro lado, recuar ou negociar também representa uma derrota política. Após anos apresentando o Irã como inimigo existencial e prometendo sua contenção definitiva, qualquer acordo limitado será interpretado internacionalmente como demonstração de fraqueza estratégica americana. Em outras palavras, os EUA entraram numa guerra da qual já não conseguem sair sem sofrer danos severos à sua credibilidade global.
O problema central para Washington é que o mundo mudou profundamente desde as invasões do Iraque e do Afeganistão. O Irã não é um Estado isolado nem militarmente indefeso. Teerã consolidou redes de alianças regionais, aprofundou cooperação estratégica com Rússia e China e desenvolveu capacidades assimétricas suficientes para impor custos inaceitáveis aos seus adversários. O Irã basicamente possui meios para tornar qualquer ocupação ou guerra prolongada politicamente insustentável para os EUA.
Além disso, a própria sociedade americana já não demonstra disposição para sustentar aventuras militares intermináveis. Décadas de fracassos no Oriente Médio produziram desgaste interno, polarização política e crescente desconfiança popular em relação às guerras externas. O trauma das campanhas no Iraque e no Afeganistão permanece vivo, especialmente entre setores militares e veteranos.
Contudo, embora analistas americanos comecem finalmente a reconhecer a dimensão da catástrofe estratégica em curso, talvez seja tarde demais para reverter seus efeitos. A erosão da hegemonia americana já se encontra em estágio avançado. Cada nova escalada militar acelera processos de desdolarização, fortalecimento de alianças multipolares e afastamento global da ordem unipolar liderada por Washington.
Nesse sentido, a guerra contra o Irã não representa apenas mais um conflito regional. Trata-se de um marco histórico do declínio do poder americano. O paradoxo é evidente: ao tentar preservar sua hegemonia através da força militar, Washington acaba acelerando precisamente o processo de fragmentação da ordem internacional que buscava impedir.
Kagan é mais um dentre os analistas ocidentais que já começam a reconhecer o óbvio: a hegemonia americana está desmoronando – e já não há nada que Washington possa fazer para reverter isso.


