Português
Eduardo Vasco
May 28, 2026
© Photo: Public domain

Relatora da ONU para o Irã ignora sanções criminosas dos EUA e usa fontes imperialistas. Mandato é arma de guerra psicológica contra a revolução de 1979.

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Em março deste ano, em meio à criminosa guerra de agressão de EUA e Israel contra o Irã, veio a público o relatório sobre a situação dos direitos humanos na nação persa, apresentado por Mai Sato, relatora das Nações Unidas para a questão. A peça, carregada de um teor emocional fora do padrão e de uma clara simpatia pelos protestos violentos que buscavam derrubar o governo iraniano, tem dificuldades para esconder seu caráter propagandístico e nada equilibrado.

“Há muitos aspectos em que a relatora não consegue conciliar a narrativa do Estado com as provas que recebeu”, diz o documento, que repercutiu rapidamente no monopólio da imprensa imperialista. Essa afirmação é reveladora: para Sato, as afirmações do governo iraniano não passam de “narrativa”, uma versão manipulada e não confiável dos fatos. Já as alegações de ONGs sediadas na América do Norte e na Europa e financiadas pelos governos ocidentais são tratadas pela relatora como “provas”, sem mesmo tê-las investigado.

Sato acredita que as denúncias do governo iraniano sobre as destruições causadas pelos manifestantes violentos (há um vasto material gráfico dessas ações violentas) não são legítimas, mas considera até mesmo “conservador” o número de mortos apresentados pelas organizações financiadas pelos Estados Unidos e atribuído à repressão estatal.

Suas fontes, como de costume nos relatórios sobre governos que são alvo da ira de Washington, são a Anistia Internacional, Human Rights Watch, Freedom House e outros aparelhos fundados e financiados pelos Estados imperialistas e bilionários internacionais. Além disso, aparecem entidades especializadas no Irã e sediadas nos EUA, Canadá e Europa, como o Abdorrahman Boroumand Center, financiado por governos europeus e fundações privadas e que tem entre seus diretores Francis Fukuyama; Holistic Resilience, patrocinada pelo Departamento de Estado e o Iran Human Rights Documentation Center, que admite “aceitar dinheiro de governos, organizações não-governamentais e pessoas privadas”.

Mas não espanta que a relatora seja tão parcial em seu informe. Esse cargo, o de relator especial para a questão dos direitos humanos no Irã, foi elaborado precisamente para ser mais uma das muitas frentes na guerra imperialista contra Teerã. O cargo foi criado pela famigerada Comissão de Direitos Humanos da ONU em 1984, poucos anos após o triunfo da revolução e em meio à guerra por procuração do Iraque contra o Irã.

Ali já estava evidente o padrão duplo típico das fraudes humanitárias imperiais. A ditadura do Xá, nascida de um golpe de Estado patrocinado pela CIA e pelo MI6 para roubar o petróleo iraniano, e que foi uma das mais brutais do Oriente Médio graças ao suporte completo da CIA e do Mossad ao Savak e seus centros de tortura, não mereceu nenhuma preocupação por parte dos santíssimos agentes humanitários das Nações Unidas durante 25 anos. Só depois que essa ditadura brutal foi derrubada pelas massas iranianas é que o regime surgido da vontade dessas próprias massas passou a preocupar o órgão imperialista – justamente porque agora já não era mais um peão dos EUA, mas uma ameaça à sua ditadura mundial.

Mas havia ainda um outro ponto do duplo padrão da ONU quando ela criou o cargo de relator para o Irã. Em 1984, o Irã não estava em guerra contra um fantasma. Estava em guerra contra o poderoso exército iraquiano, armado pelos Estados Unidos e por todos os seus aliados e que, portanto, sentindo-se livre para fazer o que quisesse contra o novo demônio anti-ocidental, cometeu graves crimes de guerra em solo iraniano e graves violações contra opositores ou supostos opositores internos – expulsão, tortura, execução e extermínio de iranianos, xiitas, curdos e comunistas iraquianos. Porém, a Comissão de Direitos Humanos não criou nenhum mandato de relator para o Iraque – só o fez em 1991, quando Saddam Hussein passou de mocinho a vilão, ao perder a confiança do imperialismo por não ter conseguido derrotar a revolução iraniana e ameaçar o controle ocidental sobre o petróleo comercializado pelas monarquias do Golfo.

A Comissão de Direitos Humanos, embora oficialmente despolitizada, seguiu à risca os ditames do Conselho de Segurança, cuja Resolução 479 de setembro de 1980 sequer exigiu a retirada das tropas iraquianas que acabavam de invadir e ocupar 650 quilômetros de território iraniano com milhares de tanques, blindados e artilharia no primeiro dia da guerra. “Se o Irã não fosse um Estado-pária após ter ocupado a embaixada dos Estados Unidos, poderia ter obtido uma moção e uma votação que lhe fossem favoráveis”, recorda o jornalista Robert Fisk em seu livro “Great War for Civilisation”.

Claro está: os órgãos das Nações Unidas são ferramentas utilizadas quando e contra quem o imperialismo quer. Não por acaso, a pressão total sobre o Irã foi reduzida exatamente no momento em que as lideranças iranianas decidiram arriscar uma aproximação com os Estados Unidos, após as invasões do Iraque e do Afeganistão por Bush — e então, como num passe de mágica, a Comissão de Direitos Humanos decidiu suspender o mandato do relator especial para o Irã. Quando, porém, a tentativa de aproximação fracassou, a Comissão voltou a servir como instrumento dos EUA e retomou sua carga total contra o país. Os direitos humanos, como se vê, não passam de um argumento de conveniência.

Agora vejamos quem foram os relatores especiais para os direitos humanos no Irã, designados pela Comissão de Direitos Humanos e por seu sucessor a partir da década de 2000, o Conselho de Direitos Humanos:

Andrés Aguilar Mawdsley (1984-1986), um alto burocrata do Estado venezualano durante os governos do Pacto de Punto Fijo (uma democracia de fachada), tendo sido ministro da Justiça e embaixador nos EUA;

Reynaldo Galindo Pohl (1986-1995), que representou as sucessivas ditaduras militares de El Salvador (repressiva, corrupta e fantoche dos EUA) em diversos mecanismos internacionais, incluindo a OEA – conhecida como o “ministério das colônias” dos EUA;

Maurice Copithorne (1995-2002), um funcionário do serviço exterior canadense por três décadas;

Ahmed Shaheed (2011-2016), ex-ministro e alto burocrata das Maldivas, absolutamente alinhado com a política liberal do imperialismo a ponto de fundar uma tal “Open Society Association” que, segundo a Wikipedia, é “dedicada à promoção dos direitos humanos, tolerância e democracia” e de ter sido considerado pela Anistia Internacional – organização patrocinada pelos banqueiros e governos ocidentais – como “líder na defesa dos direitos humanos” nas Maldivas. Já foi convidado de honra em eventos do Escritório de Assuntos Externos do governo britânico e recebeu o prêmio Global Leadership Awards da Vital Voices, entidade criada por ninguém menos que Hillary Clinton e Madeleine Albright;

Asma Jahangir (2016-2018), uma antiga ativista paquistanesa que nunca ocupou cargos governamentais, ao contrário dos outros relatores. Foi vice-presidente da Federação Internacional de Direitos Humanos, uma entidade patrocinada por governos europeus e George Soros. No entanto, ainda que pudesse ter sido bem-intencionada, o bom trânsito e a liderança em organizações financiadas pelos banqueiros e governos imperialistas, os maiores violadores de direitos humanos da história, não legitima ninguém como defensor dos direitos humanos – pelo contrário, descredibiliza;

Javaid Rehman (2018-2024), acadêmico britânico-paquistanês que, como revela seu perfil no portal da Universidade Brunel de Londres, “recebeu importantes bolsas de pesquisa e financiamento” da Comissão Europeia, da qual também foi assessor. Certamente não receberia esse apoio se contrariasse a política europeia para o Irã, um alvo central de desestabilização do imperialismo europeu. Também atua como conselheiro de parlamentares britânicos;

Mai Sato (2024-), uma acadêmica diretora do Institute for Crime and Justice Policy Research (ICPR) na Universidade Birkbeck de Londres. O ICPR recebe fundos públicos do Economic and Social Research Council do Reino Unido. Também é cofundadora da ONG japonesa CrimeInfo, originada de um projeto financiado pela Comissão Europeia em 2017. Seu caso é parecido ao de Rehman: se Sato contrariasse a política britânica e europeia para o Irã, as instituições pelas quais é responsável continuariam recebendo tais fundos, diante da repercussão tão negativa sobre a sua atuação?

Justificando as sanções criminosas contra o Irã

Mai Sato dedica três parágrafos de seu relatório de 17 páginas às sanções internacionais contra o Irã. Contudo, ela não dá real importância ao impacto das sanções na vida da população e na violação de seus direitos humanos.

Desde os primeiros dias da revolução de 1979, os EUA congelaram bilhões de dólares do governo iraniano, baniram o comércio e investimento de suas empresas no país, sancionaram empresas estrangeiras que investem no Irã e companhias iranianas que comercializam com o exterior e fecharam o acesso ao país ao sistema financeiro internacional. Os escravos europeus e ocidentais dos EUA seguiram o mesmo caminho de sanções, bem como a ONU, que impõe sanções econômicas ao país desde 2006.

Décadas de asfixia fizeram com que, por exemplo, entre 2012 e 2024, o PIB per capita iraniano caísse cerca de 37%, segundo dados do Banco Mundial. Quando, em seu primeiro mandato, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear com o Irã e os europeus e reimpôs algumas sanções, as exportações iranianas de petróleo reduziram em até 80%, com um aumento relativo posterior, mas ainda longe da média do início da década passada. Em 2025, o Conselho de Segurança da ONU também retomou sanções suspensas pelo acordo de 2015 – e Sato, em seu relatório, as justifica, acusando o Irã de não ter cumprido os seus compromissos, ecoando o discurso de Trump.

As sanções também desvalorizaram sobremaneira a moeda iraniana, o que, somado ao bloqueio nas exportações, tornou as importações de produtos e serviços muito mais caros, acelerando a inflação e afastando investidores. Segundo estimativas, nos últimos 15 anos as sanções causaram uma redução significativa da classe média iraniana, empurrando milhões de pessoas para uma situação social mais vulnerável e os preços dos medicamentos aumentaram em até 300%.

“A relatora reconhece que as sanções agravaram as dificuldades econômicas do Irã, mas as evidências disponíveis indicam que as atuais dificuldades econômicas refletem múltiplos fatores interligados, incluindo décadas de decisões internas em políticas sociais, econômicas e ambientais”, afirma o documento.

Ela pondera: “nem todos os desafios humanitários e de direitos humanos do Irã podem ser atribuídos às sanções.” Mas o mesmo raciocínio não vale para a “repressão”: a culpa das violações dos direitos humanos é do Estado iraniano e ponto final. A maior potência da história da humanidade aplica um bloqueio econômico quase completo sobre o país por quase 50 anos, mas a culpa de tudo é do Estado – lembre-se, do Estado surgido da revolução de 1979, pois nunca ouviu-se um pio sobre a repressão sangrenta da ditadura fantoche de Reza Pahlevi.

“A repressão sistemática da dissidência, as restrições às liberdades civis e políticas, a discriminação contra minorias, mulheres e meninas, a má gestão econômica e a corrupção, e décadas de degradação ambiental”, termina Sato, “refletem escolhas de política interna pelas quais as autoridades iranianas são responsáveis”. Isso parece um claro e barato ataque, fora das atribuições da relatora, ao modelo político e econômico escolhido pelo povo iraniano em 1979. Talvez seja um dos sinais mais claros de ingerência e tentativa arbitrária de forçar mudança de regime através das Nações Unidas.

No final das contas, o relatório de Sato serve para justificar o ataque de décadas contra a população iraniana promovido pelos Estados Unidos e seus aliados, inclusive através da ONU. É um encobrimento dos verdadeiros atentados aos direitos humanos dos iranianos e um incentivo para que eles continuem ocorrendo, ao tentar enquadrar o governo iraniano e pressioná-lo para seguir os ditames das mesmas potências que sustentaram a ditadura do Xá e que hoje agridem o país até mesmo no terreno militar.

Ou, como reconheceu o próprio Maurice Copithorne, relator entre 1995 e 2002: esse trabalho é uma “guerra psicológica” na tentativa de quebrar a resiliência do povo iraniano.

O braço «humanitário» do imperialismo: a ofensiva da ONU contra o Irã

Relatora da ONU para o Irã ignora sanções criminosas dos EUA e usa fontes imperialistas. Mandato é arma de guerra psicológica contra a revolução de 1979.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Em março deste ano, em meio à criminosa guerra de agressão de EUA e Israel contra o Irã, veio a público o relatório sobre a situação dos direitos humanos na nação persa, apresentado por Mai Sato, relatora das Nações Unidas para a questão. A peça, carregada de um teor emocional fora do padrão e de uma clara simpatia pelos protestos violentos que buscavam derrubar o governo iraniano, tem dificuldades para esconder seu caráter propagandístico e nada equilibrado.

“Há muitos aspectos em que a relatora não consegue conciliar a narrativa do Estado com as provas que recebeu”, diz o documento, que repercutiu rapidamente no monopólio da imprensa imperialista. Essa afirmação é reveladora: para Sato, as afirmações do governo iraniano não passam de “narrativa”, uma versão manipulada e não confiável dos fatos. Já as alegações de ONGs sediadas na América do Norte e na Europa e financiadas pelos governos ocidentais são tratadas pela relatora como “provas”, sem mesmo tê-las investigado.

Sato acredita que as denúncias do governo iraniano sobre as destruições causadas pelos manifestantes violentos (há um vasto material gráfico dessas ações violentas) não são legítimas, mas considera até mesmo “conservador” o número de mortos apresentados pelas organizações financiadas pelos Estados Unidos e atribuído à repressão estatal.

Suas fontes, como de costume nos relatórios sobre governos que são alvo da ira de Washington, são a Anistia Internacional, Human Rights Watch, Freedom House e outros aparelhos fundados e financiados pelos Estados imperialistas e bilionários internacionais. Além disso, aparecem entidades especializadas no Irã e sediadas nos EUA, Canadá e Europa, como o Abdorrahman Boroumand Center, financiado por governos europeus e fundações privadas e que tem entre seus diretores Francis Fukuyama; Holistic Resilience, patrocinada pelo Departamento de Estado e o Iran Human Rights Documentation Center, que admite “aceitar dinheiro de governos, organizações não-governamentais e pessoas privadas”.

Mas não espanta que a relatora seja tão parcial em seu informe. Esse cargo, o de relator especial para a questão dos direitos humanos no Irã, foi elaborado precisamente para ser mais uma das muitas frentes na guerra imperialista contra Teerã. O cargo foi criado pela famigerada Comissão de Direitos Humanos da ONU em 1984, poucos anos após o triunfo da revolução e em meio à guerra por procuração do Iraque contra o Irã.

Ali já estava evidente o padrão duplo típico das fraudes humanitárias imperiais. A ditadura do Xá, nascida de um golpe de Estado patrocinado pela CIA e pelo MI6 para roubar o petróleo iraniano, e que foi uma das mais brutais do Oriente Médio graças ao suporte completo da CIA e do Mossad ao Savak e seus centros de tortura, não mereceu nenhuma preocupação por parte dos santíssimos agentes humanitários das Nações Unidas durante 25 anos. Só depois que essa ditadura brutal foi derrubada pelas massas iranianas é que o regime surgido da vontade dessas próprias massas passou a preocupar o órgão imperialista – justamente porque agora já não era mais um peão dos EUA, mas uma ameaça à sua ditadura mundial.

Mas havia ainda um outro ponto do duplo padrão da ONU quando ela criou o cargo de relator para o Irã. Em 1984, o Irã não estava em guerra contra um fantasma. Estava em guerra contra o poderoso exército iraquiano, armado pelos Estados Unidos e por todos os seus aliados e que, portanto, sentindo-se livre para fazer o que quisesse contra o novo demônio anti-ocidental, cometeu graves crimes de guerra em solo iraniano e graves violações contra opositores ou supostos opositores internos – expulsão, tortura, execução e extermínio de iranianos, xiitas, curdos e comunistas iraquianos. Porém, a Comissão de Direitos Humanos não criou nenhum mandato de relator para o Iraque – só o fez em 1991, quando Saddam Hussein passou de mocinho a vilão, ao perder a confiança do imperialismo por não ter conseguido derrotar a revolução iraniana e ameaçar o controle ocidental sobre o petróleo comercializado pelas monarquias do Golfo.

A Comissão de Direitos Humanos, embora oficialmente despolitizada, seguiu à risca os ditames do Conselho de Segurança, cuja Resolução 479 de setembro de 1980 sequer exigiu a retirada das tropas iraquianas que acabavam de invadir e ocupar 650 quilômetros de território iraniano com milhares de tanques, blindados e artilharia no primeiro dia da guerra. “Se o Irã não fosse um Estado-pária após ter ocupado a embaixada dos Estados Unidos, poderia ter obtido uma moção e uma votação que lhe fossem favoráveis”, recorda o jornalista Robert Fisk em seu livro “Great War for Civilisation”.

Claro está: os órgãos das Nações Unidas são ferramentas utilizadas quando e contra quem o imperialismo quer. Não por acaso, a pressão total sobre o Irã foi reduzida exatamente no momento em que as lideranças iranianas decidiram arriscar uma aproximação com os Estados Unidos, após as invasões do Iraque e do Afeganistão por Bush — e então, como num passe de mágica, a Comissão de Direitos Humanos decidiu suspender o mandato do relator especial para o Irã. Quando, porém, a tentativa de aproximação fracassou, a Comissão voltou a servir como instrumento dos EUA e retomou sua carga total contra o país. Os direitos humanos, como se vê, não passam de um argumento de conveniência.

Agora vejamos quem foram os relatores especiais para os direitos humanos no Irã, designados pela Comissão de Direitos Humanos e por seu sucessor a partir da década de 2000, o Conselho de Direitos Humanos:

Andrés Aguilar Mawdsley (1984-1986), um alto burocrata do Estado venezualano durante os governos do Pacto de Punto Fijo (uma democracia de fachada), tendo sido ministro da Justiça e embaixador nos EUA;

Reynaldo Galindo Pohl (1986-1995), que representou as sucessivas ditaduras militares de El Salvador (repressiva, corrupta e fantoche dos EUA) em diversos mecanismos internacionais, incluindo a OEA – conhecida como o “ministério das colônias” dos EUA;

Maurice Copithorne (1995-2002), um funcionário do serviço exterior canadense por três décadas;

Ahmed Shaheed (2011-2016), ex-ministro e alto burocrata das Maldivas, absolutamente alinhado com a política liberal do imperialismo a ponto de fundar uma tal “Open Society Association” que, segundo a Wikipedia, é “dedicada à promoção dos direitos humanos, tolerância e democracia” e de ter sido considerado pela Anistia Internacional – organização patrocinada pelos banqueiros e governos ocidentais – como “líder na defesa dos direitos humanos” nas Maldivas. Já foi convidado de honra em eventos do Escritório de Assuntos Externos do governo britânico e recebeu o prêmio Global Leadership Awards da Vital Voices, entidade criada por ninguém menos que Hillary Clinton e Madeleine Albright;

Asma Jahangir (2016-2018), uma antiga ativista paquistanesa que nunca ocupou cargos governamentais, ao contrário dos outros relatores. Foi vice-presidente da Federação Internacional de Direitos Humanos, uma entidade patrocinada por governos europeus e George Soros. No entanto, ainda que pudesse ter sido bem-intencionada, o bom trânsito e a liderança em organizações financiadas pelos banqueiros e governos imperialistas, os maiores violadores de direitos humanos da história, não legitima ninguém como defensor dos direitos humanos – pelo contrário, descredibiliza;

Javaid Rehman (2018-2024), acadêmico britânico-paquistanês que, como revela seu perfil no portal da Universidade Brunel de Londres, “recebeu importantes bolsas de pesquisa e financiamento” da Comissão Europeia, da qual também foi assessor. Certamente não receberia esse apoio se contrariasse a política europeia para o Irã, um alvo central de desestabilização do imperialismo europeu. Também atua como conselheiro de parlamentares britânicos;

Mai Sato (2024-), uma acadêmica diretora do Institute for Crime and Justice Policy Research (ICPR) na Universidade Birkbeck de Londres. O ICPR recebe fundos públicos do Economic and Social Research Council do Reino Unido. Também é cofundadora da ONG japonesa CrimeInfo, originada de um projeto financiado pela Comissão Europeia em 2017. Seu caso é parecido ao de Rehman: se Sato contrariasse a política britânica e europeia para o Irã, as instituições pelas quais é responsável continuariam recebendo tais fundos, diante da repercussão tão negativa sobre a sua atuação?

Justificando as sanções criminosas contra o Irã

Mai Sato dedica três parágrafos de seu relatório de 17 páginas às sanções internacionais contra o Irã. Contudo, ela não dá real importância ao impacto das sanções na vida da população e na violação de seus direitos humanos.

Desde os primeiros dias da revolução de 1979, os EUA congelaram bilhões de dólares do governo iraniano, baniram o comércio e investimento de suas empresas no país, sancionaram empresas estrangeiras que investem no Irã e companhias iranianas que comercializam com o exterior e fecharam o acesso ao país ao sistema financeiro internacional. Os escravos europeus e ocidentais dos EUA seguiram o mesmo caminho de sanções, bem como a ONU, que impõe sanções econômicas ao país desde 2006.

Décadas de asfixia fizeram com que, por exemplo, entre 2012 e 2024, o PIB per capita iraniano caísse cerca de 37%, segundo dados do Banco Mundial. Quando, em seu primeiro mandato, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear com o Irã e os europeus e reimpôs algumas sanções, as exportações iranianas de petróleo reduziram em até 80%, com um aumento relativo posterior, mas ainda longe da média do início da década passada. Em 2025, o Conselho de Segurança da ONU também retomou sanções suspensas pelo acordo de 2015 – e Sato, em seu relatório, as justifica, acusando o Irã de não ter cumprido os seus compromissos, ecoando o discurso de Trump.

As sanções também desvalorizaram sobremaneira a moeda iraniana, o que, somado ao bloqueio nas exportações, tornou as importações de produtos e serviços muito mais caros, acelerando a inflação e afastando investidores. Segundo estimativas, nos últimos 15 anos as sanções causaram uma redução significativa da classe média iraniana, empurrando milhões de pessoas para uma situação social mais vulnerável e os preços dos medicamentos aumentaram em até 300%.

“A relatora reconhece que as sanções agravaram as dificuldades econômicas do Irã, mas as evidências disponíveis indicam que as atuais dificuldades econômicas refletem múltiplos fatores interligados, incluindo décadas de decisões internas em políticas sociais, econômicas e ambientais”, afirma o documento.

Ela pondera: “nem todos os desafios humanitários e de direitos humanos do Irã podem ser atribuídos às sanções.” Mas o mesmo raciocínio não vale para a “repressão”: a culpa das violações dos direitos humanos é do Estado iraniano e ponto final. A maior potência da história da humanidade aplica um bloqueio econômico quase completo sobre o país por quase 50 anos, mas a culpa de tudo é do Estado – lembre-se, do Estado surgido da revolução de 1979, pois nunca ouviu-se um pio sobre a repressão sangrenta da ditadura fantoche de Reza Pahlevi.

“A repressão sistemática da dissidência, as restrições às liberdades civis e políticas, a discriminação contra minorias, mulheres e meninas, a má gestão econômica e a corrupção, e décadas de degradação ambiental”, termina Sato, “refletem escolhas de política interna pelas quais as autoridades iranianas são responsáveis”. Isso parece um claro e barato ataque, fora das atribuições da relatora, ao modelo político e econômico escolhido pelo povo iraniano em 1979. Talvez seja um dos sinais mais claros de ingerência e tentativa arbitrária de forçar mudança de regime através das Nações Unidas.

No final das contas, o relatório de Sato serve para justificar o ataque de décadas contra a população iraniana promovido pelos Estados Unidos e seus aliados, inclusive através da ONU. É um encobrimento dos verdadeiros atentados aos direitos humanos dos iranianos e um incentivo para que eles continuem ocorrendo, ao tentar enquadrar o governo iraniano e pressioná-lo para seguir os ditames das mesmas potências que sustentaram a ditadura do Xá e que hoje agridem o país até mesmo no terreno militar.

Ou, como reconheceu o próprio Maurice Copithorne, relator entre 1995 e 2002: esse trabalho é uma “guerra psicológica” na tentativa de quebrar a resiliência do povo iraniano.

Relatora da ONU para o Irã ignora sanções criminosas dos EUA e usa fontes imperialistas. Mandato é arma de guerra psicológica contra a revolução de 1979.

Junte-se a nós no Telegram Twitter e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Em março deste ano, em meio à criminosa guerra de agressão de EUA e Israel contra o Irã, veio a público o relatório sobre a situação dos direitos humanos na nação persa, apresentado por Mai Sato, relatora das Nações Unidas para a questão. A peça, carregada de um teor emocional fora do padrão e de uma clara simpatia pelos protestos violentos que buscavam derrubar o governo iraniano, tem dificuldades para esconder seu caráter propagandístico e nada equilibrado.

“Há muitos aspectos em que a relatora não consegue conciliar a narrativa do Estado com as provas que recebeu”, diz o documento, que repercutiu rapidamente no monopólio da imprensa imperialista. Essa afirmação é reveladora: para Sato, as afirmações do governo iraniano não passam de “narrativa”, uma versão manipulada e não confiável dos fatos. Já as alegações de ONGs sediadas na América do Norte e na Europa e financiadas pelos governos ocidentais são tratadas pela relatora como “provas”, sem mesmo tê-las investigado.

Sato acredita que as denúncias do governo iraniano sobre as destruições causadas pelos manifestantes violentos (há um vasto material gráfico dessas ações violentas) não são legítimas, mas considera até mesmo “conservador” o número de mortos apresentados pelas organizações financiadas pelos Estados Unidos e atribuído à repressão estatal.

Suas fontes, como de costume nos relatórios sobre governos que são alvo da ira de Washington, são a Anistia Internacional, Human Rights Watch, Freedom House e outros aparelhos fundados e financiados pelos Estados imperialistas e bilionários internacionais. Além disso, aparecem entidades especializadas no Irã e sediadas nos EUA, Canadá e Europa, como o Abdorrahman Boroumand Center, financiado por governos europeus e fundações privadas e que tem entre seus diretores Francis Fukuyama; Holistic Resilience, patrocinada pelo Departamento de Estado e o Iran Human Rights Documentation Center, que admite “aceitar dinheiro de governos, organizações não-governamentais e pessoas privadas”.

Mas não espanta que a relatora seja tão parcial em seu informe. Esse cargo, o de relator especial para a questão dos direitos humanos no Irã, foi elaborado precisamente para ser mais uma das muitas frentes na guerra imperialista contra Teerã. O cargo foi criado pela famigerada Comissão de Direitos Humanos da ONU em 1984, poucos anos após o triunfo da revolução e em meio à guerra por procuração do Iraque contra o Irã.

Ali já estava evidente o padrão duplo típico das fraudes humanitárias imperiais. A ditadura do Xá, nascida de um golpe de Estado patrocinado pela CIA e pelo MI6 para roubar o petróleo iraniano, e que foi uma das mais brutais do Oriente Médio graças ao suporte completo da CIA e do Mossad ao Savak e seus centros de tortura, não mereceu nenhuma preocupação por parte dos santíssimos agentes humanitários das Nações Unidas durante 25 anos. Só depois que essa ditadura brutal foi derrubada pelas massas iranianas é que o regime surgido da vontade dessas próprias massas passou a preocupar o órgão imperialista – justamente porque agora já não era mais um peão dos EUA, mas uma ameaça à sua ditadura mundial.

Mas havia ainda um outro ponto do duplo padrão da ONU quando ela criou o cargo de relator para o Irã. Em 1984, o Irã não estava em guerra contra um fantasma. Estava em guerra contra o poderoso exército iraquiano, armado pelos Estados Unidos e por todos os seus aliados e que, portanto, sentindo-se livre para fazer o que quisesse contra o novo demônio anti-ocidental, cometeu graves crimes de guerra em solo iraniano e graves violações contra opositores ou supostos opositores internos – expulsão, tortura, execução e extermínio de iranianos, xiitas, curdos e comunistas iraquianos. Porém, a Comissão de Direitos Humanos não criou nenhum mandato de relator para o Iraque – só o fez em 1991, quando Saddam Hussein passou de mocinho a vilão, ao perder a confiança do imperialismo por não ter conseguido derrotar a revolução iraniana e ameaçar o controle ocidental sobre o petróleo comercializado pelas monarquias do Golfo.

A Comissão de Direitos Humanos, embora oficialmente despolitizada, seguiu à risca os ditames do Conselho de Segurança, cuja Resolução 479 de setembro de 1980 sequer exigiu a retirada das tropas iraquianas que acabavam de invadir e ocupar 650 quilômetros de território iraniano com milhares de tanques, blindados e artilharia no primeiro dia da guerra. “Se o Irã não fosse um Estado-pária após ter ocupado a embaixada dos Estados Unidos, poderia ter obtido uma moção e uma votação que lhe fossem favoráveis”, recorda o jornalista Robert Fisk em seu livro “Great War for Civilisation”.

Claro está: os órgãos das Nações Unidas são ferramentas utilizadas quando e contra quem o imperialismo quer. Não por acaso, a pressão total sobre o Irã foi reduzida exatamente no momento em que as lideranças iranianas decidiram arriscar uma aproximação com os Estados Unidos, após as invasões do Iraque e do Afeganistão por Bush — e então, como num passe de mágica, a Comissão de Direitos Humanos decidiu suspender o mandato do relator especial para o Irã. Quando, porém, a tentativa de aproximação fracassou, a Comissão voltou a servir como instrumento dos EUA e retomou sua carga total contra o país. Os direitos humanos, como se vê, não passam de um argumento de conveniência.

Agora vejamos quem foram os relatores especiais para os direitos humanos no Irã, designados pela Comissão de Direitos Humanos e por seu sucessor a partir da década de 2000, o Conselho de Direitos Humanos:

Andrés Aguilar Mawdsley (1984-1986), um alto burocrata do Estado venezualano durante os governos do Pacto de Punto Fijo (uma democracia de fachada), tendo sido ministro da Justiça e embaixador nos EUA;

Reynaldo Galindo Pohl (1986-1995), que representou as sucessivas ditaduras militares de El Salvador (repressiva, corrupta e fantoche dos EUA) em diversos mecanismos internacionais, incluindo a OEA – conhecida como o “ministério das colônias” dos EUA;

Maurice Copithorne (1995-2002), um funcionário do serviço exterior canadense por três décadas;

Ahmed Shaheed (2011-2016), ex-ministro e alto burocrata das Maldivas, absolutamente alinhado com a política liberal do imperialismo a ponto de fundar uma tal “Open Society Association” que, segundo a Wikipedia, é “dedicada à promoção dos direitos humanos, tolerância e democracia” e de ter sido considerado pela Anistia Internacional – organização patrocinada pelos banqueiros e governos ocidentais – como “líder na defesa dos direitos humanos” nas Maldivas. Já foi convidado de honra em eventos do Escritório de Assuntos Externos do governo britânico e recebeu o prêmio Global Leadership Awards da Vital Voices, entidade criada por ninguém menos que Hillary Clinton e Madeleine Albright;

Asma Jahangir (2016-2018), uma antiga ativista paquistanesa que nunca ocupou cargos governamentais, ao contrário dos outros relatores. Foi vice-presidente da Federação Internacional de Direitos Humanos, uma entidade patrocinada por governos europeus e George Soros. No entanto, ainda que pudesse ter sido bem-intencionada, o bom trânsito e a liderança em organizações financiadas pelos banqueiros e governos imperialistas, os maiores violadores de direitos humanos da história, não legitima ninguém como defensor dos direitos humanos – pelo contrário, descredibiliza;

Javaid Rehman (2018-2024), acadêmico britânico-paquistanês que, como revela seu perfil no portal da Universidade Brunel de Londres, “recebeu importantes bolsas de pesquisa e financiamento” da Comissão Europeia, da qual também foi assessor. Certamente não receberia esse apoio se contrariasse a política europeia para o Irã, um alvo central de desestabilização do imperialismo europeu. Também atua como conselheiro de parlamentares britânicos;

Mai Sato (2024-), uma acadêmica diretora do Institute for Crime and Justice Policy Research (ICPR) na Universidade Birkbeck de Londres. O ICPR recebe fundos públicos do Economic and Social Research Council do Reino Unido. Também é cofundadora da ONG japonesa CrimeInfo, originada de um projeto financiado pela Comissão Europeia em 2017. Seu caso é parecido ao de Rehman: se Sato contrariasse a política britânica e europeia para o Irã, as instituições pelas quais é responsável continuariam recebendo tais fundos, diante da repercussão tão negativa sobre a sua atuação?

Justificando as sanções criminosas contra o Irã

Mai Sato dedica três parágrafos de seu relatório de 17 páginas às sanções internacionais contra o Irã. Contudo, ela não dá real importância ao impacto das sanções na vida da população e na violação de seus direitos humanos.

Desde os primeiros dias da revolução de 1979, os EUA congelaram bilhões de dólares do governo iraniano, baniram o comércio e investimento de suas empresas no país, sancionaram empresas estrangeiras que investem no Irã e companhias iranianas que comercializam com o exterior e fecharam o acesso ao país ao sistema financeiro internacional. Os escravos europeus e ocidentais dos EUA seguiram o mesmo caminho de sanções, bem como a ONU, que impõe sanções econômicas ao país desde 2006.

Décadas de asfixia fizeram com que, por exemplo, entre 2012 e 2024, o PIB per capita iraniano caísse cerca de 37%, segundo dados do Banco Mundial. Quando, em seu primeiro mandato, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear com o Irã e os europeus e reimpôs algumas sanções, as exportações iranianas de petróleo reduziram em até 80%, com um aumento relativo posterior, mas ainda longe da média do início da década passada. Em 2025, o Conselho de Segurança da ONU também retomou sanções suspensas pelo acordo de 2015 – e Sato, em seu relatório, as justifica, acusando o Irã de não ter cumprido os seus compromissos, ecoando o discurso de Trump.

As sanções também desvalorizaram sobremaneira a moeda iraniana, o que, somado ao bloqueio nas exportações, tornou as importações de produtos e serviços muito mais caros, acelerando a inflação e afastando investidores. Segundo estimativas, nos últimos 15 anos as sanções causaram uma redução significativa da classe média iraniana, empurrando milhões de pessoas para uma situação social mais vulnerável e os preços dos medicamentos aumentaram em até 300%.

“A relatora reconhece que as sanções agravaram as dificuldades econômicas do Irã, mas as evidências disponíveis indicam que as atuais dificuldades econômicas refletem múltiplos fatores interligados, incluindo décadas de decisões internas em políticas sociais, econômicas e ambientais”, afirma o documento.

Ela pondera: “nem todos os desafios humanitários e de direitos humanos do Irã podem ser atribuídos às sanções.” Mas o mesmo raciocínio não vale para a “repressão”: a culpa das violações dos direitos humanos é do Estado iraniano e ponto final. A maior potência da história da humanidade aplica um bloqueio econômico quase completo sobre o país por quase 50 anos, mas a culpa de tudo é do Estado – lembre-se, do Estado surgido da revolução de 1979, pois nunca ouviu-se um pio sobre a repressão sangrenta da ditadura fantoche de Reza Pahlevi.

“A repressão sistemática da dissidência, as restrições às liberdades civis e políticas, a discriminação contra minorias, mulheres e meninas, a má gestão econômica e a corrupção, e décadas de degradação ambiental”, termina Sato, “refletem escolhas de política interna pelas quais as autoridades iranianas são responsáveis”. Isso parece um claro e barato ataque, fora das atribuições da relatora, ao modelo político e econômico escolhido pelo povo iraniano em 1979. Talvez seja um dos sinais mais claros de ingerência e tentativa arbitrária de forçar mudança de regime através das Nações Unidas.

No final das contas, o relatório de Sato serve para justificar o ataque de décadas contra a população iraniana promovido pelos Estados Unidos e seus aliados, inclusive através da ONU. É um encobrimento dos verdadeiros atentados aos direitos humanos dos iranianos e um incentivo para que eles continuem ocorrendo, ao tentar enquadrar o governo iraniano e pressioná-lo para seguir os ditames das mesmas potências que sustentaram a ditadura do Xá e que hoje agridem o país até mesmo no terreno militar.

Ou, como reconheceu o próprio Maurice Copithorne, relator entre 1995 e 2002: esse trabalho é uma “guerra psicológica” na tentativa de quebrar a resiliência do povo iraniano.

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