Português
Raphael Machado
April 25, 2026
© Photo: Public domain

Se os populistas não superarem o seu amadorismo e corrigirem as falhas estruturais, seguirá sendo um movimento de protesto em vez de uma solução política definitiva.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

O fenômeno político contemporâneo mais significativo na Europa é a ascensão do chamado “populismo” (ocasionalmente chamado, também, de “soberanismo”) a partir daquilo que os meios hegemônicos chamam de “extrema-direita”. Na prática, em geral, por “populismo” se quer dar a entender pura e simplesmente um tipo demagógico de política, em que para e manter no poder ou adquirir apoio popular, um líder apela às massas curvando-se perante seus interesses e oferecendo soluções rápidas (mesmo que não ideais) para seus problemas.

Neste caso específico do fenômeno populista contemporâneo, porém, a irritação dos liberais vem simplesmente da preocupação autêntica de reconectar a política democrática com a “vontade geral” do povo. Considerando que a política da União Europeia tem sido conduzida de costas para o povo, não é surpreendente que eventualmente haveria uma demanda para que as vozes dissonantes do povo fossem ouvidas sobre temas como imigração, participação na UE, participação na OTAN, etc.

E nesse contexto, em pelo menos um lugar, os populistas de fato conseguiram chegar ao poder: na Hungria (sendo possível, também, apontar para a Eslováquia e, talvez, para a Itália). Viktor Orban permaneceu no poder por 16 anos, desafiando repetidamente a União Europeia, tanto em assuntos internos quanto em assuntos internacionais. Mas há alguns dias ele sofreu uma grande derrota e seu partido saiu extremamente enfraquecido.

Como que, após permanecer 16 anos no poder, e podendo fazer praticamente todas as reformas e mudanças desejadas, tendo passe livre internamente, Orban foi derrotado?

A dimensão econômica não pode ser ignorada, já que desde pelo menos a pandemia a Hungria tem sofrido com uma recessão. Trata-se de uma soma de fatores: as próprias restrições e quebras de cadeias produtivas do período pandêmico + dificuldades de acessar o gás russo barato por causa de sanções, pressões atlantistas e terrorismo ucraniano + guerra econômica travada por Bruxelas com o confisco de bilhões de euros em fundos húngaros.

Mas, em alguma medida, a incapacidade de lidar com esses problemas revela algumas fraquezas estruturais no governo de Orban que, talvez, possam ser extrapoladas e aplicadas aos populismos europeus em geral, pelo menos em amplos contornos, para expor possíveis fragilidades estruturais.

1. Americanismo

Aqui nós temos o paradoxo do patriota que imita os EUA ou que atrela os rumos do seu movimento aos rumos tomados pelo populismo estadunidense em sua encarnação trumpista. Nada é mais contraditório do que um líder populista europeu que se diz defensor da identidade nacional, mas adota incondicionalmente a agenda geopolítica dos Estados Unidos. O “americanismo”dos populistas europeus ignora que os interesses estratégicos da Europa frequentemente divergem dos norte-americanos -especialmente no comércio, na tecnologia e na própria estabilidade do continente. Ao se tornarem eco de think tanks de Washington, como o Heritage Foundation, esses partidos perdem sua razão de ser.

Já comentei em outra ocasião sobre as contradições fundamentais entre Europa e EUA e é sempre importante reiterá-lo. De fato, a Europa hoje não é um polo geopolítico autônomo pelo fato de que se trata de um continente militarmente ocupado. Por quem? Precisamente pelos EUA.

Um exemplo da contradição do “americanismo” na Europa é o caso do espanhol Vox. O Vox é um desses partidos populistas relativamente jovens que visa surfar na onda internacional do trumpismo. O partido, de fato, possui vínculos institucionais com o Heritage Foundation. Mas como é a política externa dos EUA em relação aos interesses fundamentais da Espanha? Washington se posiciona consistentemente de maneira hostil, como em todas as controvérsias que contrapõem Espanha e Marrocos. Não se trata aí de uma postura de oposição ao “comunista” Pedro Sánchez, mas de uma postura estratégica de longa data e que independe do partido no poder. O próprio Orban cometeu o erro crasso de convidar J.D. Vance ao último comício de campanha, fazendo questão de demonstrar que ele tinha o apoio dos EUA – isso poucas semanas após Washington ameaçar invadir um território europeu, e dias após uma nova onda de ataques dos EUA contra os países da UE.

Na contramão, Tino Chrupalla, do AfD recentemente declarou que os EUA deveriam retirar suas tropas da Alemanha. Na pesquisa de opinião imediatamente seguinte o AfD havia subido 2 p.p. Giorgia Meloni – que pode ser considerada uma semipopulista – também se contrapôs aos EUA no enfrentamento com o Papa Leão XIV e na questão do uso de bases italianas para atacar o Irã. O Reagrupamento Nacional, da França,  também se posicionou de forma crítica aos EUA em inúmeras ocasiões recentes, já desde pelo menos o sequestro de Maduro. São contraexemplos que demonstram que ser anti-EUA, hoje, compensa, mesmo que você seja um partido “de direita.

2. Sionismo

Outro erro central é o alinhamento automático com o projeto sionista, muitas vezes justificado por uma leitura distorcida da “defesa da civilização judaico-cristã”. Líderes como Viktor Orbán ou Marine Le Pen (que passou anos limpando a imagem do partido) cortejam abertamente o lóbi sionista o que, ironicamente, fortalece o globalismo que dizem combater.

Como os países europeus lidam com um problema grave e real da imigração em massa e como uma parte considerável dessa massa de imigrantes vem de países muçulmanos, por ignorância ou cálculo líderes populistas europeus “confundem” a questão interna europeia das fronteiras e da demografia com o tema geopolítico do Oriente Médio. O objetivo talvez seja conquistar a “tolerância” de Israel e do lóbi sionista diante de uma “ameaça islâmica” comum. E é aí que entra o já mencionado discurso da “civilização judaico-cristã”. Mas os frutos disso são nulos.

De fato, é necessário levar em consideração que o progressismo liberal estigmatizou todo patriotismo conservador na Europa como “o retorno do nazi-fascismo”, e esse “bicho-papão” ainda é um espantalho útil para manipular a opinião pública. Ao “normalizarem” seu posicionamento em relação a Israel, existe a expectativa de diminuir a intensidade dos ataques da mídia de massa, bem como apresentar o seu próprio partido como “a única solução” diante de uma “ameaça islâmica” que poderia ameaçar o “bem-estar” dos judeus europeus.

Mas a realidade é que esses partidos continuam sendo demonizados e perseguidos, e nada modificou o fato de que ONGs com vínculos israelenses atuam na facilitação da imigração na Europa, por uma lógica histórica de que a melhor maneira de tornar a Europa “mais segura” para os judeus seria tornando os países europeus mais heterogêneos e cosmopolitas.

Para piorar, a realidade é que depois da limpeza étnica de Gaza, iniciada em 2023, a reputação de Israel foi destruída. Ninguém mais leva a sério todo o apelo vitimista típico da propaganda sionista. Ao contrário, associar a própria imagem a Israel e a Netanyahu – como, de novo, fez Orban, parece garantir derrota.

3. Moderação excessiva

Quando chegam ao governo, a retórica incendiária frequentemente se transforma em moderação. Prometem sair da OTAN, renegociar tratados ou abandonar o euro — mas nada disso acontece. A Hungria de Orbán, por exemplo, mantém a Aliança Atlântica, recebe fundos europeus e bloqueia sanções à Rússia apenas pontualmente. Geórgia Meloni, antes crítica da “Europa burocrática”, tornou-se uma das líderes mais alinhadas a Ursula von der Leyen. Essa timidez estrutural decorre do medo real de isolamento econômico e militar. Porém, para o eleitorado, soa como traição. O populista que governa como tecnocrata perde sua alma e abre espaço para alternativas ainda mais radicais ou para o retorno de seus inimigos ao poder.

É claro que sair da OTAN ou da UE não é nada fácil e qualquer país que tente fazê-lo corre o risco de sofrer represálias. Mas a derrota de Orban só foi possível graças às “alavancas” de que Bruxelas dispunha para prejudicar seu governo e interferir nos assuntos internos da Hungria – “alavancas” que só existiam porque a Hungria permaneceu na União Europeia. Qualquer governo populista precisa tornar a sua “revolução” irrevogável através de rupturas com o passado que sejam difíceis de reverter, bem como através de uma política de máxima pressão contra os inimigos internos. Nisso, aquilo que vemos é que os liberais e globalistas tendem a ser mais inescrupulosos e maquiavélicos do que os populistas e patriotas.

4. Falta de ideologia coerente

O populismo europeu é um caleidoscópio incoerente. Defende o Estado forte para subsidiar empresas nacionais, mas prega o livre mercado quando convém; critica a imigração, mas apela à mão de obra imigrante na agricultura e na construção civil; ataca a “elite globalista” enquanto mantém offshores e contatos com oligarcas. Essa ausência de uma linha ideológica clara — que não seja o “nós contra eles” — impede a formulação de políticas de longo prazo. Sem uma teoria econômica consistente ou um projeto de sociedade viável, o populismo oscila entre o assistencialismo e a austeridade, frustrando tanto os trabalhadores quanto os empresários.

Em alguma medida, vivemos num mundo pós-ideológico, dominado por um liberalismo difuso que se impõe como verdade autoevidente e “ciência”. Mas é bastante evidente que os globalistas possuem dogmas ideológicos bastante consistentes e, inclusive, filósofos, sociólogos e economistas para dar um verniz acadêmico a esses dogmas. Os populistas, por sua vez, se apoiam fundamentalmente num pragmatismo oportunista e isso, que é uma vantagem, no longo prazo é também uma de suas principais deficiências.

Com exceção do Reagrupamento Nacional, que ainda tem um viés gaullista forte, a maioria dos populistas europeus remete pouco às raízes históricas e a precedentes intelectuais de seu próprio povo, e também raramente oferecem uma tábua de valores que vá além do moralismo conservador. Especialmente para dialogar com a juventude – sempre tendente ao radicalismo – é importante ter algo em que acreditar e pelo quê lutar para oferecer.

5. Desconexão das preocupações concretas da população

Nós podemos tranquilamente apontar que a imigração em massa é um problema grave que a Europa precisa enfrentar. Mas este é um tópico entre vários outros, e a realidade é que no dia a dia do cidadão ele tem que lidar com questões de emprego, salário, saúde, educação, aposentadoria, transporte, e assim por diante. E em muitos casos os partidos populistas não têm respostas a dar a seus cidadãos para esses temas – alguns deles, no máximo, defendem cortes em serviços públicos e benefícios sociais para dificultar a vida de imigrantes.

Usando novamente o Orban como exemplo, a sua campanha esteve voltada completamente para temas de política externa e ele tinha poucas respostas a dar para as reclamações econômicas dos seus cidadãos. Naturalmente, os partidos populistas mais antigos e ideológicos, como o Reagrupamento Nacional, já solucionaram essa questão e aprenderam a lidar com os problemas quotidianos do cidadão – e esse é um dos motivos pelos quais o seu sucesso é crescente. Outros só estão crescendo por causa das tensões com a imigração, bem como por consequência do curso insano que os governos europeus têm seguido em relação à questão ucraniana, mas se chegarem ao poder, após alguns anos a decepção dos cidadãos será inevitável, tal como ocorreu com Orban.

***

O populismo está num momento muito oportuno por causa do acúmulo de erros das elites globalistas: a economia permanece estagnada, a imigração segue alta, as cidades estão cada vez menos seguras, os líderes ameaçam a Rússia com guerra, apoiam genocídios no Oriente Médio, e, de um modo geral, ignoram todas as demandas de suas populações. Mas se os populistas não superarem o seu amadorismo e corrigirem essas falhas estruturais, seguirá sendo um movimento de protesto em vez de uma solução política definitiva.

Os 5 erros de Orban e dos populistas europeus

Se os populistas não superarem o seu amadorismo e corrigirem as falhas estruturais, seguirá sendo um movimento de protesto em vez de uma solução política definitiva.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

O fenômeno político contemporâneo mais significativo na Europa é a ascensão do chamado “populismo” (ocasionalmente chamado, também, de “soberanismo”) a partir daquilo que os meios hegemônicos chamam de “extrema-direita”. Na prática, em geral, por “populismo” se quer dar a entender pura e simplesmente um tipo demagógico de política, em que para e manter no poder ou adquirir apoio popular, um líder apela às massas curvando-se perante seus interesses e oferecendo soluções rápidas (mesmo que não ideais) para seus problemas.

Neste caso específico do fenômeno populista contemporâneo, porém, a irritação dos liberais vem simplesmente da preocupação autêntica de reconectar a política democrática com a “vontade geral” do povo. Considerando que a política da União Europeia tem sido conduzida de costas para o povo, não é surpreendente que eventualmente haveria uma demanda para que as vozes dissonantes do povo fossem ouvidas sobre temas como imigração, participação na UE, participação na OTAN, etc.

E nesse contexto, em pelo menos um lugar, os populistas de fato conseguiram chegar ao poder: na Hungria (sendo possível, também, apontar para a Eslováquia e, talvez, para a Itália). Viktor Orban permaneceu no poder por 16 anos, desafiando repetidamente a União Europeia, tanto em assuntos internos quanto em assuntos internacionais. Mas há alguns dias ele sofreu uma grande derrota e seu partido saiu extremamente enfraquecido.

Como que, após permanecer 16 anos no poder, e podendo fazer praticamente todas as reformas e mudanças desejadas, tendo passe livre internamente, Orban foi derrotado?

A dimensão econômica não pode ser ignorada, já que desde pelo menos a pandemia a Hungria tem sofrido com uma recessão. Trata-se de uma soma de fatores: as próprias restrições e quebras de cadeias produtivas do período pandêmico + dificuldades de acessar o gás russo barato por causa de sanções, pressões atlantistas e terrorismo ucraniano + guerra econômica travada por Bruxelas com o confisco de bilhões de euros em fundos húngaros.

Mas, em alguma medida, a incapacidade de lidar com esses problemas revela algumas fraquezas estruturais no governo de Orban que, talvez, possam ser extrapoladas e aplicadas aos populismos europeus em geral, pelo menos em amplos contornos, para expor possíveis fragilidades estruturais.

1. Americanismo

Aqui nós temos o paradoxo do patriota que imita os EUA ou que atrela os rumos do seu movimento aos rumos tomados pelo populismo estadunidense em sua encarnação trumpista. Nada é mais contraditório do que um líder populista europeu que se diz defensor da identidade nacional, mas adota incondicionalmente a agenda geopolítica dos Estados Unidos. O “americanismo”dos populistas europeus ignora que os interesses estratégicos da Europa frequentemente divergem dos norte-americanos -especialmente no comércio, na tecnologia e na própria estabilidade do continente. Ao se tornarem eco de think tanks de Washington, como o Heritage Foundation, esses partidos perdem sua razão de ser.

Já comentei em outra ocasião sobre as contradições fundamentais entre Europa e EUA e é sempre importante reiterá-lo. De fato, a Europa hoje não é um polo geopolítico autônomo pelo fato de que se trata de um continente militarmente ocupado. Por quem? Precisamente pelos EUA.

Um exemplo da contradição do “americanismo” na Europa é o caso do espanhol Vox. O Vox é um desses partidos populistas relativamente jovens que visa surfar na onda internacional do trumpismo. O partido, de fato, possui vínculos institucionais com o Heritage Foundation. Mas como é a política externa dos EUA em relação aos interesses fundamentais da Espanha? Washington se posiciona consistentemente de maneira hostil, como em todas as controvérsias que contrapõem Espanha e Marrocos. Não se trata aí de uma postura de oposição ao “comunista” Pedro Sánchez, mas de uma postura estratégica de longa data e que independe do partido no poder. O próprio Orban cometeu o erro crasso de convidar J.D. Vance ao último comício de campanha, fazendo questão de demonstrar que ele tinha o apoio dos EUA – isso poucas semanas após Washington ameaçar invadir um território europeu, e dias após uma nova onda de ataques dos EUA contra os países da UE.

Na contramão, Tino Chrupalla, do AfD recentemente declarou que os EUA deveriam retirar suas tropas da Alemanha. Na pesquisa de opinião imediatamente seguinte o AfD havia subido 2 p.p. Giorgia Meloni – que pode ser considerada uma semipopulista – também se contrapôs aos EUA no enfrentamento com o Papa Leão XIV e na questão do uso de bases italianas para atacar o Irã. O Reagrupamento Nacional, da França,  também se posicionou de forma crítica aos EUA em inúmeras ocasiões recentes, já desde pelo menos o sequestro de Maduro. São contraexemplos que demonstram que ser anti-EUA, hoje, compensa, mesmo que você seja um partido “de direita.

2. Sionismo

Outro erro central é o alinhamento automático com o projeto sionista, muitas vezes justificado por uma leitura distorcida da “defesa da civilização judaico-cristã”. Líderes como Viktor Orbán ou Marine Le Pen (que passou anos limpando a imagem do partido) cortejam abertamente o lóbi sionista o que, ironicamente, fortalece o globalismo que dizem combater.

Como os países europeus lidam com um problema grave e real da imigração em massa e como uma parte considerável dessa massa de imigrantes vem de países muçulmanos, por ignorância ou cálculo líderes populistas europeus “confundem” a questão interna europeia das fronteiras e da demografia com o tema geopolítico do Oriente Médio. O objetivo talvez seja conquistar a “tolerância” de Israel e do lóbi sionista diante de uma “ameaça islâmica” comum. E é aí que entra o já mencionado discurso da “civilização judaico-cristã”. Mas os frutos disso são nulos.

De fato, é necessário levar em consideração que o progressismo liberal estigmatizou todo patriotismo conservador na Europa como “o retorno do nazi-fascismo”, e esse “bicho-papão” ainda é um espantalho útil para manipular a opinião pública. Ao “normalizarem” seu posicionamento em relação a Israel, existe a expectativa de diminuir a intensidade dos ataques da mídia de massa, bem como apresentar o seu próprio partido como “a única solução” diante de uma “ameaça islâmica” que poderia ameaçar o “bem-estar” dos judeus europeus.

Mas a realidade é que esses partidos continuam sendo demonizados e perseguidos, e nada modificou o fato de que ONGs com vínculos israelenses atuam na facilitação da imigração na Europa, por uma lógica histórica de que a melhor maneira de tornar a Europa “mais segura” para os judeus seria tornando os países europeus mais heterogêneos e cosmopolitas.

Para piorar, a realidade é que depois da limpeza étnica de Gaza, iniciada em 2023, a reputação de Israel foi destruída. Ninguém mais leva a sério todo o apelo vitimista típico da propaganda sionista. Ao contrário, associar a própria imagem a Israel e a Netanyahu – como, de novo, fez Orban, parece garantir derrota.

3. Moderação excessiva

Quando chegam ao governo, a retórica incendiária frequentemente se transforma em moderação. Prometem sair da OTAN, renegociar tratados ou abandonar o euro — mas nada disso acontece. A Hungria de Orbán, por exemplo, mantém a Aliança Atlântica, recebe fundos europeus e bloqueia sanções à Rússia apenas pontualmente. Geórgia Meloni, antes crítica da “Europa burocrática”, tornou-se uma das líderes mais alinhadas a Ursula von der Leyen. Essa timidez estrutural decorre do medo real de isolamento econômico e militar. Porém, para o eleitorado, soa como traição. O populista que governa como tecnocrata perde sua alma e abre espaço para alternativas ainda mais radicais ou para o retorno de seus inimigos ao poder.

É claro que sair da OTAN ou da UE não é nada fácil e qualquer país que tente fazê-lo corre o risco de sofrer represálias. Mas a derrota de Orban só foi possível graças às “alavancas” de que Bruxelas dispunha para prejudicar seu governo e interferir nos assuntos internos da Hungria – “alavancas” que só existiam porque a Hungria permaneceu na União Europeia. Qualquer governo populista precisa tornar a sua “revolução” irrevogável através de rupturas com o passado que sejam difíceis de reverter, bem como através de uma política de máxima pressão contra os inimigos internos. Nisso, aquilo que vemos é que os liberais e globalistas tendem a ser mais inescrupulosos e maquiavélicos do que os populistas e patriotas.

4. Falta de ideologia coerente

O populismo europeu é um caleidoscópio incoerente. Defende o Estado forte para subsidiar empresas nacionais, mas prega o livre mercado quando convém; critica a imigração, mas apela à mão de obra imigrante na agricultura e na construção civil; ataca a “elite globalista” enquanto mantém offshores e contatos com oligarcas. Essa ausência de uma linha ideológica clara — que não seja o “nós contra eles” — impede a formulação de políticas de longo prazo. Sem uma teoria econômica consistente ou um projeto de sociedade viável, o populismo oscila entre o assistencialismo e a austeridade, frustrando tanto os trabalhadores quanto os empresários.

Em alguma medida, vivemos num mundo pós-ideológico, dominado por um liberalismo difuso que se impõe como verdade autoevidente e “ciência”. Mas é bastante evidente que os globalistas possuem dogmas ideológicos bastante consistentes e, inclusive, filósofos, sociólogos e economistas para dar um verniz acadêmico a esses dogmas. Os populistas, por sua vez, se apoiam fundamentalmente num pragmatismo oportunista e isso, que é uma vantagem, no longo prazo é também uma de suas principais deficiências.

Com exceção do Reagrupamento Nacional, que ainda tem um viés gaullista forte, a maioria dos populistas europeus remete pouco às raízes históricas e a precedentes intelectuais de seu próprio povo, e também raramente oferecem uma tábua de valores que vá além do moralismo conservador. Especialmente para dialogar com a juventude – sempre tendente ao radicalismo – é importante ter algo em que acreditar e pelo quê lutar para oferecer.

5. Desconexão das preocupações concretas da população

Nós podemos tranquilamente apontar que a imigração em massa é um problema grave que a Europa precisa enfrentar. Mas este é um tópico entre vários outros, e a realidade é que no dia a dia do cidadão ele tem que lidar com questões de emprego, salário, saúde, educação, aposentadoria, transporte, e assim por diante. E em muitos casos os partidos populistas não têm respostas a dar a seus cidadãos para esses temas – alguns deles, no máximo, defendem cortes em serviços públicos e benefícios sociais para dificultar a vida de imigrantes.

Usando novamente o Orban como exemplo, a sua campanha esteve voltada completamente para temas de política externa e ele tinha poucas respostas a dar para as reclamações econômicas dos seus cidadãos. Naturalmente, os partidos populistas mais antigos e ideológicos, como o Reagrupamento Nacional, já solucionaram essa questão e aprenderam a lidar com os problemas quotidianos do cidadão – e esse é um dos motivos pelos quais o seu sucesso é crescente. Outros só estão crescendo por causa das tensões com a imigração, bem como por consequência do curso insano que os governos europeus têm seguido em relação à questão ucraniana, mas se chegarem ao poder, após alguns anos a decepção dos cidadãos será inevitável, tal como ocorreu com Orban.

***

O populismo está num momento muito oportuno por causa do acúmulo de erros das elites globalistas: a economia permanece estagnada, a imigração segue alta, as cidades estão cada vez menos seguras, os líderes ameaçam a Rússia com guerra, apoiam genocídios no Oriente Médio, e, de um modo geral, ignoram todas as demandas de suas populações. Mas se os populistas não superarem o seu amadorismo e corrigirem essas falhas estruturais, seguirá sendo um movimento de protesto em vez de uma solução política definitiva.

Se os populistas não superarem o seu amadorismo e corrigirem as falhas estruturais, seguirá sendo um movimento de protesto em vez de uma solução política definitiva.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

O fenômeno político contemporâneo mais significativo na Europa é a ascensão do chamado “populismo” (ocasionalmente chamado, também, de “soberanismo”) a partir daquilo que os meios hegemônicos chamam de “extrema-direita”. Na prática, em geral, por “populismo” se quer dar a entender pura e simplesmente um tipo demagógico de política, em que para e manter no poder ou adquirir apoio popular, um líder apela às massas curvando-se perante seus interesses e oferecendo soluções rápidas (mesmo que não ideais) para seus problemas.

Neste caso específico do fenômeno populista contemporâneo, porém, a irritação dos liberais vem simplesmente da preocupação autêntica de reconectar a política democrática com a “vontade geral” do povo. Considerando que a política da União Europeia tem sido conduzida de costas para o povo, não é surpreendente que eventualmente haveria uma demanda para que as vozes dissonantes do povo fossem ouvidas sobre temas como imigração, participação na UE, participação na OTAN, etc.

E nesse contexto, em pelo menos um lugar, os populistas de fato conseguiram chegar ao poder: na Hungria (sendo possível, também, apontar para a Eslováquia e, talvez, para a Itália). Viktor Orban permaneceu no poder por 16 anos, desafiando repetidamente a União Europeia, tanto em assuntos internos quanto em assuntos internacionais. Mas há alguns dias ele sofreu uma grande derrota e seu partido saiu extremamente enfraquecido.

Como que, após permanecer 16 anos no poder, e podendo fazer praticamente todas as reformas e mudanças desejadas, tendo passe livre internamente, Orban foi derrotado?

A dimensão econômica não pode ser ignorada, já que desde pelo menos a pandemia a Hungria tem sofrido com uma recessão. Trata-se de uma soma de fatores: as próprias restrições e quebras de cadeias produtivas do período pandêmico + dificuldades de acessar o gás russo barato por causa de sanções, pressões atlantistas e terrorismo ucraniano + guerra econômica travada por Bruxelas com o confisco de bilhões de euros em fundos húngaros.

Mas, em alguma medida, a incapacidade de lidar com esses problemas revela algumas fraquezas estruturais no governo de Orban que, talvez, possam ser extrapoladas e aplicadas aos populismos europeus em geral, pelo menos em amplos contornos, para expor possíveis fragilidades estruturais.

1. Americanismo

Aqui nós temos o paradoxo do patriota que imita os EUA ou que atrela os rumos do seu movimento aos rumos tomados pelo populismo estadunidense em sua encarnação trumpista. Nada é mais contraditório do que um líder populista europeu que se diz defensor da identidade nacional, mas adota incondicionalmente a agenda geopolítica dos Estados Unidos. O “americanismo”dos populistas europeus ignora que os interesses estratégicos da Europa frequentemente divergem dos norte-americanos -especialmente no comércio, na tecnologia e na própria estabilidade do continente. Ao se tornarem eco de think tanks de Washington, como o Heritage Foundation, esses partidos perdem sua razão de ser.

Já comentei em outra ocasião sobre as contradições fundamentais entre Europa e EUA e é sempre importante reiterá-lo. De fato, a Europa hoje não é um polo geopolítico autônomo pelo fato de que se trata de um continente militarmente ocupado. Por quem? Precisamente pelos EUA.

Um exemplo da contradição do “americanismo” na Europa é o caso do espanhol Vox. O Vox é um desses partidos populistas relativamente jovens que visa surfar na onda internacional do trumpismo. O partido, de fato, possui vínculos institucionais com o Heritage Foundation. Mas como é a política externa dos EUA em relação aos interesses fundamentais da Espanha? Washington se posiciona consistentemente de maneira hostil, como em todas as controvérsias que contrapõem Espanha e Marrocos. Não se trata aí de uma postura de oposição ao “comunista” Pedro Sánchez, mas de uma postura estratégica de longa data e que independe do partido no poder. O próprio Orban cometeu o erro crasso de convidar J.D. Vance ao último comício de campanha, fazendo questão de demonstrar que ele tinha o apoio dos EUA – isso poucas semanas após Washington ameaçar invadir um território europeu, e dias após uma nova onda de ataques dos EUA contra os países da UE.

Na contramão, Tino Chrupalla, do AfD recentemente declarou que os EUA deveriam retirar suas tropas da Alemanha. Na pesquisa de opinião imediatamente seguinte o AfD havia subido 2 p.p. Giorgia Meloni – que pode ser considerada uma semipopulista – também se contrapôs aos EUA no enfrentamento com o Papa Leão XIV e na questão do uso de bases italianas para atacar o Irã. O Reagrupamento Nacional, da França,  também se posicionou de forma crítica aos EUA em inúmeras ocasiões recentes, já desde pelo menos o sequestro de Maduro. São contraexemplos que demonstram que ser anti-EUA, hoje, compensa, mesmo que você seja um partido “de direita.

2. Sionismo

Outro erro central é o alinhamento automático com o projeto sionista, muitas vezes justificado por uma leitura distorcida da “defesa da civilização judaico-cristã”. Líderes como Viktor Orbán ou Marine Le Pen (que passou anos limpando a imagem do partido) cortejam abertamente o lóbi sionista o que, ironicamente, fortalece o globalismo que dizem combater.

Como os países europeus lidam com um problema grave e real da imigração em massa e como uma parte considerável dessa massa de imigrantes vem de países muçulmanos, por ignorância ou cálculo líderes populistas europeus “confundem” a questão interna europeia das fronteiras e da demografia com o tema geopolítico do Oriente Médio. O objetivo talvez seja conquistar a “tolerância” de Israel e do lóbi sionista diante de uma “ameaça islâmica” comum. E é aí que entra o já mencionado discurso da “civilização judaico-cristã”. Mas os frutos disso são nulos.

De fato, é necessário levar em consideração que o progressismo liberal estigmatizou todo patriotismo conservador na Europa como “o retorno do nazi-fascismo”, e esse “bicho-papão” ainda é um espantalho útil para manipular a opinião pública. Ao “normalizarem” seu posicionamento em relação a Israel, existe a expectativa de diminuir a intensidade dos ataques da mídia de massa, bem como apresentar o seu próprio partido como “a única solução” diante de uma “ameaça islâmica” que poderia ameaçar o “bem-estar” dos judeus europeus.

Mas a realidade é que esses partidos continuam sendo demonizados e perseguidos, e nada modificou o fato de que ONGs com vínculos israelenses atuam na facilitação da imigração na Europa, por uma lógica histórica de que a melhor maneira de tornar a Europa “mais segura” para os judeus seria tornando os países europeus mais heterogêneos e cosmopolitas.

Para piorar, a realidade é que depois da limpeza étnica de Gaza, iniciada em 2023, a reputação de Israel foi destruída. Ninguém mais leva a sério todo o apelo vitimista típico da propaganda sionista. Ao contrário, associar a própria imagem a Israel e a Netanyahu – como, de novo, fez Orban, parece garantir derrota.

3. Moderação excessiva

Quando chegam ao governo, a retórica incendiária frequentemente se transforma em moderação. Prometem sair da OTAN, renegociar tratados ou abandonar o euro — mas nada disso acontece. A Hungria de Orbán, por exemplo, mantém a Aliança Atlântica, recebe fundos europeus e bloqueia sanções à Rússia apenas pontualmente. Geórgia Meloni, antes crítica da “Europa burocrática”, tornou-se uma das líderes mais alinhadas a Ursula von der Leyen. Essa timidez estrutural decorre do medo real de isolamento econômico e militar. Porém, para o eleitorado, soa como traição. O populista que governa como tecnocrata perde sua alma e abre espaço para alternativas ainda mais radicais ou para o retorno de seus inimigos ao poder.

É claro que sair da OTAN ou da UE não é nada fácil e qualquer país que tente fazê-lo corre o risco de sofrer represálias. Mas a derrota de Orban só foi possível graças às “alavancas” de que Bruxelas dispunha para prejudicar seu governo e interferir nos assuntos internos da Hungria – “alavancas” que só existiam porque a Hungria permaneceu na União Europeia. Qualquer governo populista precisa tornar a sua “revolução” irrevogável através de rupturas com o passado que sejam difíceis de reverter, bem como através de uma política de máxima pressão contra os inimigos internos. Nisso, aquilo que vemos é que os liberais e globalistas tendem a ser mais inescrupulosos e maquiavélicos do que os populistas e patriotas.

4. Falta de ideologia coerente

O populismo europeu é um caleidoscópio incoerente. Defende o Estado forte para subsidiar empresas nacionais, mas prega o livre mercado quando convém; critica a imigração, mas apela à mão de obra imigrante na agricultura e na construção civil; ataca a “elite globalista” enquanto mantém offshores e contatos com oligarcas. Essa ausência de uma linha ideológica clara — que não seja o “nós contra eles” — impede a formulação de políticas de longo prazo. Sem uma teoria econômica consistente ou um projeto de sociedade viável, o populismo oscila entre o assistencialismo e a austeridade, frustrando tanto os trabalhadores quanto os empresários.

Em alguma medida, vivemos num mundo pós-ideológico, dominado por um liberalismo difuso que se impõe como verdade autoevidente e “ciência”. Mas é bastante evidente que os globalistas possuem dogmas ideológicos bastante consistentes e, inclusive, filósofos, sociólogos e economistas para dar um verniz acadêmico a esses dogmas. Os populistas, por sua vez, se apoiam fundamentalmente num pragmatismo oportunista e isso, que é uma vantagem, no longo prazo é também uma de suas principais deficiências.

Com exceção do Reagrupamento Nacional, que ainda tem um viés gaullista forte, a maioria dos populistas europeus remete pouco às raízes históricas e a precedentes intelectuais de seu próprio povo, e também raramente oferecem uma tábua de valores que vá além do moralismo conservador. Especialmente para dialogar com a juventude – sempre tendente ao radicalismo – é importante ter algo em que acreditar e pelo quê lutar para oferecer.

5. Desconexão das preocupações concretas da população

Nós podemos tranquilamente apontar que a imigração em massa é um problema grave que a Europa precisa enfrentar. Mas este é um tópico entre vários outros, e a realidade é que no dia a dia do cidadão ele tem que lidar com questões de emprego, salário, saúde, educação, aposentadoria, transporte, e assim por diante. E em muitos casos os partidos populistas não têm respostas a dar a seus cidadãos para esses temas – alguns deles, no máximo, defendem cortes em serviços públicos e benefícios sociais para dificultar a vida de imigrantes.

Usando novamente o Orban como exemplo, a sua campanha esteve voltada completamente para temas de política externa e ele tinha poucas respostas a dar para as reclamações econômicas dos seus cidadãos. Naturalmente, os partidos populistas mais antigos e ideológicos, como o Reagrupamento Nacional, já solucionaram essa questão e aprenderam a lidar com os problemas quotidianos do cidadão – e esse é um dos motivos pelos quais o seu sucesso é crescente. Outros só estão crescendo por causa das tensões com a imigração, bem como por consequência do curso insano que os governos europeus têm seguido em relação à questão ucraniana, mas se chegarem ao poder, após alguns anos a decepção dos cidadãos será inevitável, tal como ocorreu com Orban.

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O populismo está num momento muito oportuno por causa do acúmulo de erros das elites globalistas: a economia permanece estagnada, a imigração segue alta, as cidades estão cada vez menos seguras, os líderes ameaçam a Rússia com guerra, apoiam genocídios no Oriente Médio, e, de um modo geral, ignoram todas as demandas de suas populações. Mas se os populistas não superarem o seu amadorismo e corrigirem essas falhas estruturais, seguirá sendo um movimento de protesto em vez de uma solução política definitiva.

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