Trump cede ao imperialismo e trai sua base: dívida de US$ 40 trilhões, guerra contra Irã e genocídio em Gaza racham o MAGA.
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A política desastrosa do atual mandato de Donald Trump está acelerando a crise no coração do sistema capitalista mundial. O magnata sempre se caracterizou pelas críticas ao regime político norte-americano, pela defesa do “America First” e, portanto, por uma oposição declarada aos principais interesses do imperialismo. Foram essas posições que lhe renderam tanto apoio popular, não apenas da pequena burguesia de ideias conservadoras, mas também de amplos setores proletários – inclusive parte dos que costumavam se identificar com a esquerda.
Trump, no entanto, jamais conseguiu colocar suas ideias em prática. A realidade concreta é uma força avassaladora contra a qual as intenções dos indivíduos pouco ou nada podem fazer.
Na presidência, ele oscila entre a tomada de decisões baseadas em sua própria política e aquelas que são contrárias a tudo o que pregava. Trump não pode se livrar da tutela dos que comandam o regime americano.
A essência dessas contradições está precisamente no caráter de classe do trumpismo. É um movimento tipicamente pequeno-burguês. No caso dos Estados Unidos, setores da burguesia que foram fortemente prejudicados pela política neoliberal e, portanto, pela concorrência desleal das maiores corporações do mundo, também devem ser considerados parte desse fenômeno pequeno-burguês. A pequena burguesia é uma classe que flutua no meio da oposição inconciliável entre os trabalhadores e a grande burguesia imperialista. Ela não tem uma independência real e segue a classe que se mostrar mais forte para derrotar a sua antagonista.
O governo Trump deve ser analisado a partir dessas contradições de classe. Como o trumpismo não é um movimento independente, ele cede às pressões de um lado e de outro. Quando essas pressões se tornarem muito agudas, ele irá se esfacelar.
Já estamos vendo o princípio desse esfacelamento. A base de Trump está cada vez mais dividida. Ao atender de modo crescente os interesses do imperialismo, Trump agrada a um setor que o apoiou, ao setor mais aburguesado e dominante. Contudo, ele é minoritário, em termos numéricos, em relação à massa trumpista de pequenos comerciantes, profissionais liberais, camponeses, trabalhadores urbanos e desempregados. Ao tentar salvar os lucros da burguesia imperialista, Trump inevitavelmente ataca o outro polo do trumpismo.
Ao invés de conquistar uma recuperação econômica que reduzisse o desemprego, reindustrializasse o país e valorizasse o salário, o seguidismo de Trump aos ditames da grande burguesia está aprofundando a crise econômica nos Estados Unidos. A dívida pública alcançou extraordinários 40 trilhões de dólares pela primeira vez na história. A crise energética se aprofunda, com um aumento exponencial do preço da gasolina, enquanto o do diesel se aproxima de um recorde histórico.
Em certa medida, isso é consequência da guerra desencadeada pelos Estados Unidos contra o Irã, que foi vista como uma facada nas costas dos eleitores de Trump que acreditaram em sua propaganda anti-intervencionista. Nem o roubo do petróleo venezuelano, a partir de bombardeios e do sequestro de um presidente que corroboraram o sentimento de frustração de parte do MAGA, deverá salvar o mercado petrolífero norte-americano.
A agressão ao Irã foi um tiro no próprio pé. Trump acreditou que acertaria as contas com os iranianos rapidamente, mas se afundou em um lamaçal do qual ainda não conseguiu se livrar. Fora as consequências econômicas imediatas, houve um claro prejuízo à máquina de guerra do imperialismo e à sua dominação no Oriente Médio. Ao ceder às pressões de Israel – que na verdade são as pressões do imperialismo para proteger seu preposto mais importante no mundo todo, um posto de controle do comércio internacional e das riquezas naturais daquela região –, Trump também arruinou o que restava de sua reputação como “nacionalista”.
Políticos e influenciadores que já vinham se opondo à postura ambígua de seu governo em relação à guerra na Ucrânia perceberam que a agressão ao Irã para proteger Israel era a gota d’água. Tucker Carlson, Marjorie Taylor Greene e mesmo Charlie Kirk devem ser vistos não apenas como extremos desse fenômeno de descontentamento, mas sim como representantes de uma revolta latente de grandes proporções contra os rumos tomados pela política trumpista. Eles são apenas a face visível de um movimento com milhões de seguidores. Suas posições refletem o sentimento de milhões de americanos desiludidos com Trump. Thomas Massie e Rand Paul, embora não tenham chegado ao extremo de Marjorie, também expressam o tamanho da pressão das bases sobre a cúpula do trumpismo.
A opinião dos americanos sobre Israel desde o início do genocídio em Gaza é reveladora. Nunca o povo americano esteve tão contrário ao sionismo e simpático à Palestina. O patrocínio e cumplicidade do governo Biden ao genocídio foi um fator importante para a derrota de Kamala Harris, vista como continuadora das políticas de Biden, uma vez que era sua vice. Uma pesquisa de janeiro de 2025 mostrou que praticamente um em cada três eleitores de Biden em 2020 se recusou a votar em Harris em 2024 devido ao apoio a Israel. A pesquisa não mensurou, mas é certo que um determinado número de eleitores democratas votou em Trump como protesto, guiados pela crença de que com ele seria diferente. Isso é perceptível quando se constata que políticos democratas populares e críticos do Estado Profundo e da política imperialista, como Robert Kennedy Jr. e Tulsi Gabbard, ingressaram no governo Trump. Gabbard, inclusive, também está entre os descontentes com a política externa de Trump e por isso foi marginalizada no governo. Kennedy ainda não teve grandes atritos públicos porque seu foco está em questões praticamente alheias à política externa.
Mesmo entre os trumpistas tradicionais o antagonismo com Israel e o apoio à Palestina tem sido crescente. Pelo fato de a guerra em Gaza, da qual a guerra do Irã é um desdobramento, ser um dos fenômenos geopolíticos mais importantes das últimas décadas, um divisor de águas na política internacional e mesmo na política local de cada país, ela é sintomática das transformações que estão ocorrendo na dominação do regime capitalista. A crise no andar de cima está começando a gerar movimentações no andar de baixo. Para que fique claro: uma parcela importante do povo americano está se deslocando para a esquerda, para posições de confronto direto com a burguesia e para uma política independente em direção às reivindicações históricas dos trabalhadores. Esse fenômeno abarca tanto democratas quanto republicanos – e é entre os trumpistas que ele encontra mais eco, pois estes, apesar de outros preconceitos, superam com maior facilidade a política identitária e a crença religiosa na democracia imperialista e nas instituições putrefatas do regime político.


