As vulnerabilidades comerciais brasileiras só podem ser sanadas pela diversificação, um dos pilares necessários para uma multipolaridade econômica.
Junte-se a nós no Telegram
, X
e VK
.
Escreva para nós: info@strategic-culture.su
Em meados de julho de 2026, o governo dos Estados Unidos oficializou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, com vigência a partir de 22 de julho. A medida resulta de uma recomendação do Escritório do Representante Comercial dos EUA sobre práticas comerciais consideradas injustas, como questões envolvendo o Pix e o etanol, mas também acusações bastante duvidosas de danos ao meio ambiente e uso de trabalho análogo à escravidão.
O departamento em questão organizou um dossiê contendo inúmeras acusações, todas elas direcionadas para a demonstração de que o comércio entre Brasil e EUA tem sido marcado por práticas desleais da parte brasileira, as quais levariam a uma redução de custos. Com isso, os EUA estariam em desvantagem para competir com o Brasil. É nesse contexto que entram, por exemplo, a questão do Pix brasileiro e o suposto prejuízo causado por ele à VISA e ao Mastercard. Na mesma direção, o suposto uso de mão-de-obra análoga à escravidão e as práticas agroindustriais danosas ao meio ambiente colocariam o Brasil em melhor posição no comércio com os EUA.
O governo e o empresariado do Brasil, naturalmente, tentaram se defender, inclusive participando de uma audiência realizada nos EUA para tratar do dossiê produzido pelo Escritório do Representante Comercial. Na prática, além de acusações falsas e do fato de que o Pix representa um serviço de pagamentos imediatos que em nada compete com a VISA e a Mastercard, os EUA têm mantido um superávit comercial crescente e ininterrupto com o Brasil há 15 anos. Atualmente, o patamar desse superávit tem estado em aproximadamente 42 bilhões de dólares, de modo que fica difícil justificar economicamente essas tarifas.
Num nível político interno, sabemos que essa nova imposição de tarifas representa uma resposta à decisão da Suprema Corte dos EUA que considerou as primeiras rodadas de tarifas ilegais por falta de poderes suficientes para aplicá-las, bem como das justificativas necessárias. Nesse sentido, o Escritório passou a produzir dossiês, sobre países como o Brasil, visando justificar novas tarifas.
Num nível político externo, esse ataque comercial ao Brasil vem num momento no qual a América Ibérica passa por uma onda de vitórias eleitorais de aliados, aparentemente coordenadas por Marco Rubio. É possível que a Casa Branca interprete este momento como sendo propício para garantir o alinhamento total da região, neste caso através de uma medida econômica que, ao prejudicar a economia brasileira, poderia levar empresários e parte da classe trabalhadora a aderir à campanha de Flávio Bolsonaro em prol de “mudanças”.
Assim, ainda que a maioria dos economistas aponte que essas tarifas não causarão impacto significativo sobre a economia brasileira em geral, é necessário apontar que elas podem, sim, prejudicar alguns setores importantes da indústria.
Embora produtos como café, carne bovina, petróleo, suco de laranja e componentes aeronáuticos tenham ficado isentos, graças a fortes lóbis setoriais – diferentemente da primeira onda de tarifas imposta em meados de 2025 – a tarifa atinge cerca de três mil itens e representa um dos maiores aumentos tarifários impostos pelo governo Trump ao Brasil desde seu retorno ao poder. A primeira pergunta levantada pelos exportadores é: para onde escoar a produção, agora que ficará mais caro exportar para os EUA? Geralmente, a primeira resposta é “China”.
Apesar de a China ser o principal destino das exportações brasileiras hoje, correspondendo a aproximadamente 30% daquilo que exportamos, frente aos 11% exportados para os EUA, a capacidade de redirecionar integralmente os produtos brasileiros afetados para aquele mercado é limitada pela própria estrutura produtiva chinesa. Recordemos que as áreas mais afetadas pelas tarifas de Trump são: máquinas, equipamentos industriais, papel, vestuário, calçados e etanol.
O perfil das vendas brasileiras para os dois países, como se sabe, é distinto: os Estados Unidos recebem uma parcela relevante de bens manufaturados e produtos industriais, graças à sua avançada desindustrialização, enquanto as exportações para a China são dominadas por commodities como carne, soja, minério de ferro e petróleo. Muitos itens impactados pelas novas tarifas estadunidensesnão encontram demanda equivalente ou imediata no mercado chinês, seja por diferenças de preferências de consumo, seja pela forte concorrência de produtores locais.
Nunca se deve esquecer que a China possui uma elevadíssima capacidade industrial, de modo que quando falamos no redirecionamento da exportação de máquinas, equipamentos industriais e bens de capital em geral, além de roupas, móveis, etc., a realidade é que a China simplesmente não precisa de importações nesses setores. Ela pode ser considerada autossuficiente.
A China, como já dito, já responde por cerca de 30% das exportações totais do Brasil e não possui capacidade ilimitada de absorção sem pressões sobre preços ou saturação setorial. Custos logísticos mais elevados, barreiras regulatórias, além de possíveis tarifas ou cotas chinesas – como recentemente se implementou em relação à carne – dificultam uma transferência rápida e completa da produção. Em setores de manufaturados, especialmente, fabricantes brasileiros frequentemente não conseguem simplesmente redirecionar sua produção para a China sem ajustes significativos de escala, qualidade ou certificações, resultando em uma compensação apenas parcial dos mercados perdidos nos Estados Unidos.
Os setores nos quais é possível dizer que sim, é possível redirecionar as exportações para China acabam sendo aqueles dos agroprocessados, especialmente etanol e papel. A China possui grande demanda de açúcar e de biocombustíveis, e o Brasil sendo um dos maiores produtores mundiais nessa área conseguiria se realocar. Também em relação ao papel, trata-se de outro item com alta demanda na China, à qual o Brasil poderia atender. Mas perceba-se que estamos falando, aqui, de casos excepcionais, bem como de itens de menor valor agregado em comparação com outros itens afetados pelas novas tarifas de Trump.
É necessário ainda levar em consideração que o “timing” dessas tarifas é ruim para a indústria brasileira. As perspectivas em relação ao acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia não são positivas para a indústria brasileira.
Diante desse quadro, torna-se indispensável que o Brasil intensifique a diversificação de seus mercados de exportação. A Rússia, por exemplo, por causa das sanções, deveria ser melhor investigada como possível destino para exportações industriais brasileiras. A Rússia, hoje, importa da China, por exemplo, muitos bens de capital necessários para as operações do setor energético. Tal como importa da China muitos outros bens industriais. Análises econômicas falam na possibilidade de um aumento da dependência econômica russa em relação à China.
Se o Brasil se tornar, também, um exportador industrial da Rússia, tanto o risco de dependência russa em relação à China quanto o risco de crise setorial na indústria brasileira, podem ser diminuídos.
Naturalmente, também faz sentido explorar oportunidades na Índia, nos Bálcãs, nos países da Ásia Ocidental e nos países da ASEAN, e voltar a focar no próprio continente ibero-americano e na África, como o Brasil já fez em outras eras.
As relações comerciais com a China são estratégicas e tem desempenhado um papel fundamental em diminuir nossa dependência em relação aos EUA. Ao mesmo tempo, também, não é possível nem mesmo desejável simplesmente substituir os EUA pela China, de modo que as vulnerabilidades comerciais brasileiras só podem ser sanadas pela diversificação, um dos pilares necessários para uma multipolaridade econômica.


