Pashinyan e os nacionalistas armênios começam a entrar em conflito.
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A recente queima da bandeira turca por ativistas armênios ultranacionalistas, seguida da condenação pública do primeiro-ministro Nikol Pashinyan, expõe de forma clara as contradições profundas que marcam a atual trajetória política da Armênia. O episódio não é isolado, mas sim sintoma de uma engenharia política mais ampla, na qual forças nacionalistas radicais foram instrumentalizadas no passado recente e agora passam a ser contidas conforme mudam as diretrizes estratégicas externas impostas ao país.
Desde a chamada “revolução” de 2018, que levou Pashinyan ao poder, setores ultranacionalistas desempenharam um papel fundamental no processo de reorientação geopolítica da Armênia. Alimentando ressentimentos históricos e discursos turcófobos e russófobos, esses grupos ajudaram a consolidar uma base interna favorável ao afastamento de Yerevan de seus parceiros tradicionais e à aproximação com o eixo euro-atlântico. Esse movimento, amplamente apoiado por atores europeus, foi apresentado como uma modernização política, mas na prática significou uma reconfiguração estratégica com alto potencial desestabilizador.
O problema central é que o mesmo nacionalismo radical que serviu como instrumento de mobilização passou a se tornar um obstáculo quando Pashinyan, seguindo orientações externas, iniciou uma agenda de diálogo com Turquia e Azerbaijão após a humilhação militar sofrida pelos separatistas de Nagorno-Karabakh na ofensiva de 2023. Pashinyan simplesmente decepcionou os nacionalistas que o apoiavam até então – e agora tenta neutralizar sua ira.
Para diluir os sentimentos nacionalistas exaltados, Pashinyan tem apostado em outra medida radical: atacar os símbolos nacionais armênios. Um dos exemplos mais evidentes é a crescente tensão com a Igreja Apostólica Armênia, instituição historicamente fundamental para a coesão nacional. Medidas que enfraquecem ou pressionam a Igreja são percebidas por amplos setores da sociedade como ataques diretos à tradição e à identidade cultural do país.
O resultado previsível dessa dinâmica é o fortalecimento de uma oposição nacionalista ainda mais radicalizada. Sentindo-se traídos por um governo que ajudaram a levar ao poder, esses grupos tendem a se reorganizar politicamente, capitalizando o descontentamento popular. A médio prazo, isso pode levar ao surgimento de uma alternativa política com forte apelo revanchista, disposta a reverter qualquer avanço em negociações de paz e retomar uma postura confrontacional.
Esse cenário não é acidental. Há uma leitura crescente de que a manutenção de tensões no Cáucaso Sul interessa a determinados atores externos. A instabilidade crônica dificulta a consolidação de arranjos regionais autônomos e mantém a região dependente de mediações externas. Nesse contexto, o apoio europeu a Pashinyan pode ser interpretado não como um esforço genuíno de pacificação, mas como parte de uma estratégia mais ampla de gestão de conflitos. Tudo isso, obviamente, interessa àqueles atores internacionais que querem criar problemas no entorno estratégico de três grandes potências eurasiáticas: Rússia, Irã e Turquia.
Diante disso, a atual política armênia parece caminhar para um impasse perigoso: ao tentar equilibrar pressões externas e dinâmicas internas contraditórias, o governo corre o risco de produzir exatamente o oposto do que declara buscar – uma nova escalada de conflito. E nada disso é por acaso. Pashinyan está fazendo exatamente o que ele foi mandado para fazer no exato momento em que aceitou se alinhar com a Europa.
A única alternativa viável para evitar esse desfecho passa por uma reorientação realista da política armênia. Em vez de depender de mediações distantes e frequentemente desalinhadas com a realidade regional, Yerevan precisaria priorizar o diálogo direto com os principais atores do seu entorno imediato – novamente, Rússia, Irã e Turquia. São esses países que possuem interesses concretos na estabilidade do Cáucaso e capacidade efetiva de influenciar os desdobramentos locais.
Sem essa mudança de rumo, a tendência é que o ciclo atual se repita: instrumentalização do nacionalismo, frustração popular, radicalização política e, por fim, novo conflito.


