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Bruna Frascolla
May 17, 2026
© Photo: Public domain

Preso na Turquia, Sabatai Zevi enfrenta o Sultão e escolhe o turbante muçulmano. Judeus criam seita criptojudaica. O Messias morre exilado em 1676.

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[Estamos vendo a parte final história de Sabatai Zevi. Se você chegou agora, veja a primeira e a segunda parte clicando aqui e aqui.]

O sabataísmo deixou as massas judaicas ensandecidas. A crermos em Scholem, o marxismo ofereceu uma interpretação deturpada a história do movimento, entendido como uma revolta dos judeus pobres contra os judeus ricos. Na verdade, porém, entre os adeptos do sabataísmo contavam-se judeus ricos e até influentes na política internacional, como Rafael Supino, de Livorno (que acompanhou Menasseh Ben Israel em sua missão na Inglaterra), Jerônimo Nuñez da Costa (agente do Rei de Portugal nos Países Baixos) e Daniel Levi de Barrios (ex-oficial do exército espanhol na Bélgica). Scholem apontou, aliás, um perfil religioso do judeu mais atraído pelo sabataísmo: o marrano, o sefardita que simulou a conversão e, por isso, tivera instrução no catolicismo. Esse perfil teria maior propensão ao sincretismo com o cristianismo. A imitação dos marranos ia tão longe que eles tinham devoção às relíquias de um “santo” próprio, o mártir Salomão Molcho, que tentou convencer o Imperador Carlos V a reconquistar a Palestina com um exército de marranos e entregá-la aos judeus.

No entanto, os asquenazitas não ficaram para trás em matéria de sincretismo. A Alemanha foi inundada por panfletos em iídiche falando do Profeta Natan Levi, que havia ungido como rei em Jerusalém um certo Sobeza (um nome de Sabatai após passar pelo telefone sem fio), o qual havia mudado de nome, passando a se chamar Josué Helkham. Isto, em hebraico, significa “Jesus, Deus-Surgido-dos-Mortos”.

O último ato messiânico de Sabatai em Esmirna de que se tem notícia foi a distribuição de títulos reais. Por motivos desconhecidos, no dia 30 de dezembro de 1665 ele entra num bote com três ou quatro rabinos que ele havia proclamado reis e parte de Esmirna para Constantinopla. Dada a propaganda de Natan de Gaza, a expectativa dos judeus era que o Sultão se prostrasse diante do nosso Messias melômano e lhe entregasse o seu reino. Assim, a febre de cartinhas malucas com notícias espetaculares aumentou, e uma comissão de rabinos céticos chegou a descobrir uma fábrica de fake news que vendia cartas por valores altos. Os falsários foram severamente punidos.

Ao chegar a Constantinopla, Sabatai é preso. Segundo Scholem, a razão mais plausível é a econômica, já que os judeus monopolizavam o comércio na Turquia (sobretudo o comércio exterior) e haviam simplesmente parado de trabalhar – inclusive os donativos arrecadados não estavam sendo suficiente para os judeus se manterem. O fenômeno apresentava uma forma de “rebelião” sem ameaça armada: os judeus ficavam muito desaforados dizendo aos gentios que eles iam ser seus escravos com a vinda do Messias e tal, mas não faziam nada além de se alvoroçar pelas ruas, caindo no chão para “profetizar”, ou caindo mortos mesmo, porque jejuaram demais. Francamente, não deixa de lembrar o 8 de janeiro no Brasil (com um monte de pentecostal maluco enrolado em bandeira de Israel, ouvindo notícias fantasiosas no Youtube monetizado), e sabemos que esse tipo de alvoroço irrita as autoridades o bastante para pôr todo o mundo em cana.

Sabatai foi preso em Constantinopla. Não obstante, circularam notícias de que Sabatai não fora preso; que ascendera aos céus e foi substituído pelo Arcanjo Gabriel, que assumira a sua forma por algum motivo misterioso a ser revelado no futuro. Os xiitas creem que algo similar ocorreu com Cristo, em vez de ser crucificado.

Por algum motivo, o Messias (ou o Arcanjo Gabriel?) não consentiu que seus seguidores subornassem as autoridades turcas para libertá-lo. Isto deixou os seus seguidores ainda mais impressionados e eles interpretaram isso como uma disposição a descer até as qelipot. Como o vizir turco tinha uma reputação de inclemência, os judeus temiam que Sabatai fosse condenado à morte. Segundo Scholem, porém, o vizir deve ter se preocupado com a ordem social: não dava para matar o Messias dos judeus e esperar que eles voltassem a trabalhar.

Em março de 1666, Sabatai foi transferido para uma acomodação mais confortável em Constantinopla. Durante sua estadia, Constantinopla enfrentou inflação de alimentos por causa dos judeus que vinham de outras cidades orientais contemplar a face divina. Os guardas otomanos, ao constatarem que os judeus agora peregrinavam igual aos italianos (visitavam até o túmulo da mãe de Sabatai), tiveram a ideia de cobrar ingresso na prisão para deixar o peregrino olhar a cara de Sabatai – que só os recebia em fase de “iluminação”, evitando-os nas fases de “ocultamento da face”.

Diante da inflação e dos transtornos, em abril de 1666 as autoridades turcas transferiram Sabatai para Galípoli, onde os guardas otomanos expandiram o negócio e passaram a cobrar dos sabataístas para permitir festinhas dentro da “Torre Forte” na qual residia o Messias. Esse oba-oba durou pelo menos até julho, e Sabatai comandava o movimento desde a prisão em Galípoli, no lado europeu do Estreito de Dardanelos. Nessa circunstância, aboliu o jejum de 9 de av.

Eis então que chega da Polônia o profeta sabataísta Nehemia Kohen. Ele não queria simplesmente olhar a face do Messias, mas discutir e negociar. Uma dificuldade do sabataísmo era a figura do Messias Ben José, o Messias que auxilia o Messias Ben Davi (o Messias propriamente dito) e cai na batalha. A história de Sabatai, de que era um polonês morto num pogrom de 1648, não deixava os crentes muito confortáveis. A discussão terminou em briga e há duas versões: uma dos sabataístas, outra dos observadores cristãos, que Scholem prefere. Para os sabataístas, Nehemia Kohen e Sabatai Zevi discutiram teologia, mas o polonês se provou incapaz de compreender o pensamento do nosso melômano sefardita. Na versão cristã, houve um bate-boca porque Nehemia queria que Sabatai o reconhecesse como Messias Ben José, coisa que Sabatai aceitou, mas Nehemia foi além e o repreendeu por ter se proclamado Messias antes que ele próprio (Nehemia, o Messias Ben José) entrasse em cena. Sabatai não gostou de ver sua autoridade questionada e ambos brigaram. Os judeus ficaram confusos, se dividiram, mas acabaram permanecendo sob a autoridade de Sabatai e considerando Nehemia um cismático. Para se vingar, Nehemia denunciou Sabatai às autoridades turcas – e os judeus ficaram tão furiosos que Nehemia acabou pedindo para se tornar turco, escapando assim da jurisdição judaica.

Nessa época, a conversão de judeu para muçulmano no Império Otomano consistia em abandonar o chapéu judaico e passar a usar um turbante turco. Era uma conversão fácil porque não precisava de circuncisão. No entanto, a conversão de Nehemia Kohen durou só até ele voltar para a Europa, onde passou a se apresentar como Messias Ben José e continuou a pregar que Sabatai Zevi era o Messias Ben Davi.

Ao que parece, Sabatai e seus seguidores davam festinhas na Torre, com direito a moças virgens e “favoritos”. Sabatai também se gabava de manter relações sexuais com mulheres virgens e devolvê-las “intocadas” – em Esmirna, solicitara três virgens e as devolvera nessa condição. Às denúncias de depravação foram acrescidas denúncias de sedição.

Dado que a agitação entre os judeus continuava intacta, os turcos usaram de mais um expediente: forçar Sabatai a escolher entre o turbante e a morte. Isso ocorreu em setembro e Sabatai escolheu o turbante. O fato envolveu um encontro semi-oficial com o Sultão intermediado pelo seu médico, um muçulmano converso do judaísmo. Sabatai não falava turco e precisava de um intérprete, papel desempenhado pelo médico. O encontro foi semi-oficial porque os turcos, quando queriam, usavam treliças para separar o ambiente com essa finalidade sutil: o sultão via e ouvia tudo pelas treliças, dava ordens, mas não estava oficialmente no mesmo ambiente. No encontro, Sabatai negou suas pretensões messiânicas – mas ele sempre fazia isso diante de gentios, mesmo que se tratasse de um calvinista entusiasta. (Creio que o mais famoso fosse o milenarista holandês Petrus Serrarius, amigo de Menasseh Ben Israel.)

O encontro semi-oficial ocorreu em Adrianópolis, atual Edirne, o que envolveu uma viagem. Houve tempo para correr a notícia de que Sabatai iria se encontrar com o Sultão. Assim, os judeus estenderam tapetes e fizeram festa, crentes que o Sultão ia entregar o reinado. Depois da apostasia do Messias, ninguém queria acreditar que a apostasia era verdadeira ou definitiva.

Mas Sabatai foi mimado pelo Sultão. Ganhou um palacete, uma esposa extra e uma pensão. A expectativa do Sultão era que Sabatai liderasse uma conversão em massa de judeus ao islã. Aconteceram conversões, porque Sabatai continuou causando confusão, alternando entre mania e depressão. E continuou, também, sendo procurado por judeus, que o tratavam em privado como rabino. De um deles, ordenou que lhe entregasse a noiva – e cobiçar a noiva alheia é uma das 36 transgressões capitais. No entanto, uma coisa mais frequente (ou da qual temos mais notícias) era ordenar ao judeu que se convertesse ao islã. Natan temia muito passar por isso, mas não aconteceu.

Por falar em Natan, ele ofereceu uma solução aos judeus dispostos a continuar crendo no Messias de Esmirna. Se o Messias veio para acabar com a Lei e pregar a santificação pela transgressão, então a apostasia era coerente com o programa. Os judeus que seguiram Sabatai na conversão ao islã constituíram uma seita criptojudaica que existe até hoje na Turquia, chamada dönmeh. As influências dos dönmeh na política turca, suas relações com a maçonaria e a alegação de que Atatürk era dönmeh são hoje consideradas conspiracionismo antissemita pelo mainstream.

No entanto, no século XVIII, sabemos por Scholem que pelo menos um sabataísta austro-húngaro seguidor de Jacob Frank (tido por reencarnação de Sabatai) foi nobilitado, converteu-se ao catolicismo, ingressou na maçonaria e tomou parte na Revolução Francesa. (Cf. From Frankism to Jacobinism.)

Infelizmente, o assunto é tão instigante quanto misterioso para os historiadores. Tão logo a febre passou e a reputação herética do sabataísmo se consolidou, as provas foram destruídas ou ocultadas, e o movimento se tornou clandestino. A própria publicação da obra de Scholem, primeiramente em hebraico, ensejou o presidente de Israel Zalman Shazan a entregar um manuscrito iídiche do século XVIII ao pesquisador, que aprimorou a versão inglesa e posterior do seu trabalho. O manuscrito era passado de geração em geração e sobreviveu a guerras. Ninguém sabe quantos manuscritos estão nessa condição até hoje, nem quantos foram perdidos para sempre.

Sabatai viveu seus últimos dias em Dulcingo, atual cidade de Ulcinj em Montenegro. Foi degredado para lá após ser denunciado por heresias no início da década de 1670 e morreu em 1676. Os Bálcãs foram o palco final do Messias de Esmirna.

Quando o Messias judeu virou muçulmano

Preso na Turquia, Sabatai Zevi enfrenta o Sultão e escolhe o turbante muçulmano. Judeus criam seita criptojudaica. O Messias morre exilado em 1676.

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[Estamos vendo a parte final história de Sabatai Zevi. Se você chegou agora, veja a primeira e a segunda parte clicando aqui e aqui.]

O sabataísmo deixou as massas judaicas ensandecidas. A crermos em Scholem, o marxismo ofereceu uma interpretação deturpada a história do movimento, entendido como uma revolta dos judeus pobres contra os judeus ricos. Na verdade, porém, entre os adeptos do sabataísmo contavam-se judeus ricos e até influentes na política internacional, como Rafael Supino, de Livorno (que acompanhou Menasseh Ben Israel em sua missão na Inglaterra), Jerônimo Nuñez da Costa (agente do Rei de Portugal nos Países Baixos) e Daniel Levi de Barrios (ex-oficial do exército espanhol na Bélgica). Scholem apontou, aliás, um perfil religioso do judeu mais atraído pelo sabataísmo: o marrano, o sefardita que simulou a conversão e, por isso, tivera instrução no catolicismo. Esse perfil teria maior propensão ao sincretismo com o cristianismo. A imitação dos marranos ia tão longe que eles tinham devoção às relíquias de um “santo” próprio, o mártir Salomão Molcho, que tentou convencer o Imperador Carlos V a reconquistar a Palestina com um exército de marranos e entregá-la aos judeus.

No entanto, os asquenazitas não ficaram para trás em matéria de sincretismo. A Alemanha foi inundada por panfletos em iídiche falando do Profeta Natan Levi, que havia ungido como rei em Jerusalém um certo Sobeza (um nome de Sabatai após passar pelo telefone sem fio), o qual havia mudado de nome, passando a se chamar Josué Helkham. Isto, em hebraico, significa “Jesus, Deus-Surgido-dos-Mortos”.

O último ato messiânico de Sabatai em Esmirna de que se tem notícia foi a distribuição de títulos reais. Por motivos desconhecidos, no dia 30 de dezembro de 1665 ele entra num bote com três ou quatro rabinos que ele havia proclamado reis e parte de Esmirna para Constantinopla. Dada a propaganda de Natan de Gaza, a expectativa dos judeus era que o Sultão se prostrasse diante do nosso Messias melômano e lhe entregasse o seu reino. Assim, a febre de cartinhas malucas com notícias espetaculares aumentou, e uma comissão de rabinos céticos chegou a descobrir uma fábrica de fake news que vendia cartas por valores altos. Os falsários foram severamente punidos.

Ao chegar a Constantinopla, Sabatai é preso. Segundo Scholem, a razão mais plausível é a econômica, já que os judeus monopolizavam o comércio na Turquia (sobretudo o comércio exterior) e haviam simplesmente parado de trabalhar – inclusive os donativos arrecadados não estavam sendo suficiente para os judeus se manterem. O fenômeno apresentava uma forma de “rebelião” sem ameaça armada: os judeus ficavam muito desaforados dizendo aos gentios que eles iam ser seus escravos com a vinda do Messias e tal, mas não faziam nada além de se alvoroçar pelas ruas, caindo no chão para “profetizar”, ou caindo mortos mesmo, porque jejuaram demais. Francamente, não deixa de lembrar o 8 de janeiro no Brasil (com um monte de pentecostal maluco enrolado em bandeira de Israel, ouvindo notícias fantasiosas no Youtube monetizado), e sabemos que esse tipo de alvoroço irrita as autoridades o bastante para pôr todo o mundo em cana.

Sabatai foi preso em Constantinopla. Não obstante, circularam notícias de que Sabatai não fora preso; que ascendera aos céus e foi substituído pelo Arcanjo Gabriel, que assumira a sua forma por algum motivo misterioso a ser revelado no futuro. Os xiitas creem que algo similar ocorreu com Cristo, em vez de ser crucificado.

Por algum motivo, o Messias (ou o Arcanjo Gabriel?) não consentiu que seus seguidores subornassem as autoridades turcas para libertá-lo. Isto deixou os seus seguidores ainda mais impressionados e eles interpretaram isso como uma disposição a descer até as qelipot. Como o vizir turco tinha uma reputação de inclemência, os judeus temiam que Sabatai fosse condenado à morte. Segundo Scholem, porém, o vizir deve ter se preocupado com a ordem social: não dava para matar o Messias dos judeus e esperar que eles voltassem a trabalhar.

Em março de 1666, Sabatai foi transferido para uma acomodação mais confortável em Constantinopla. Durante sua estadia, Constantinopla enfrentou inflação de alimentos por causa dos judeus que vinham de outras cidades orientais contemplar a face divina. Os guardas otomanos, ao constatarem que os judeus agora peregrinavam igual aos italianos (visitavam até o túmulo da mãe de Sabatai), tiveram a ideia de cobrar ingresso na prisão para deixar o peregrino olhar a cara de Sabatai – que só os recebia em fase de “iluminação”, evitando-os nas fases de “ocultamento da face”.

Diante da inflação e dos transtornos, em abril de 1666 as autoridades turcas transferiram Sabatai para Galípoli, onde os guardas otomanos expandiram o negócio e passaram a cobrar dos sabataístas para permitir festinhas dentro da “Torre Forte” na qual residia o Messias. Esse oba-oba durou pelo menos até julho, e Sabatai comandava o movimento desde a prisão em Galípoli, no lado europeu do Estreito de Dardanelos. Nessa circunstância, aboliu o jejum de 9 de av.

Eis então que chega da Polônia o profeta sabataísta Nehemia Kohen. Ele não queria simplesmente olhar a face do Messias, mas discutir e negociar. Uma dificuldade do sabataísmo era a figura do Messias Ben José, o Messias que auxilia o Messias Ben Davi (o Messias propriamente dito) e cai na batalha. A história de Sabatai, de que era um polonês morto num pogrom de 1648, não deixava os crentes muito confortáveis. A discussão terminou em briga e há duas versões: uma dos sabataístas, outra dos observadores cristãos, que Scholem prefere. Para os sabataístas, Nehemia Kohen e Sabatai Zevi discutiram teologia, mas o polonês se provou incapaz de compreender o pensamento do nosso melômano sefardita. Na versão cristã, houve um bate-boca porque Nehemia queria que Sabatai o reconhecesse como Messias Ben José, coisa que Sabatai aceitou, mas Nehemia foi além e o repreendeu por ter se proclamado Messias antes que ele próprio (Nehemia, o Messias Ben José) entrasse em cena. Sabatai não gostou de ver sua autoridade questionada e ambos brigaram. Os judeus ficaram confusos, se dividiram, mas acabaram permanecendo sob a autoridade de Sabatai e considerando Nehemia um cismático. Para se vingar, Nehemia denunciou Sabatai às autoridades turcas – e os judeus ficaram tão furiosos que Nehemia acabou pedindo para se tornar turco, escapando assim da jurisdição judaica.

Nessa época, a conversão de judeu para muçulmano no Império Otomano consistia em abandonar o chapéu judaico e passar a usar um turbante turco. Era uma conversão fácil porque não precisava de circuncisão. No entanto, a conversão de Nehemia Kohen durou só até ele voltar para a Europa, onde passou a se apresentar como Messias Ben José e continuou a pregar que Sabatai Zevi era o Messias Ben Davi.

Ao que parece, Sabatai e seus seguidores davam festinhas na Torre, com direito a moças virgens e “favoritos”. Sabatai também se gabava de manter relações sexuais com mulheres virgens e devolvê-las “intocadas” – em Esmirna, solicitara três virgens e as devolvera nessa condição. Às denúncias de depravação foram acrescidas denúncias de sedição.

Dado que a agitação entre os judeus continuava intacta, os turcos usaram de mais um expediente: forçar Sabatai a escolher entre o turbante e a morte. Isso ocorreu em setembro e Sabatai escolheu o turbante. O fato envolveu um encontro semi-oficial com o Sultão intermediado pelo seu médico, um muçulmano converso do judaísmo. Sabatai não falava turco e precisava de um intérprete, papel desempenhado pelo médico. O encontro foi semi-oficial porque os turcos, quando queriam, usavam treliças para separar o ambiente com essa finalidade sutil: o sultão via e ouvia tudo pelas treliças, dava ordens, mas não estava oficialmente no mesmo ambiente. No encontro, Sabatai negou suas pretensões messiânicas – mas ele sempre fazia isso diante de gentios, mesmo que se tratasse de um calvinista entusiasta. (Creio que o mais famoso fosse o milenarista holandês Petrus Serrarius, amigo de Menasseh Ben Israel.)

O encontro semi-oficial ocorreu em Adrianópolis, atual Edirne, o que envolveu uma viagem. Houve tempo para correr a notícia de que Sabatai iria se encontrar com o Sultão. Assim, os judeus estenderam tapetes e fizeram festa, crentes que o Sultão ia entregar o reinado. Depois da apostasia do Messias, ninguém queria acreditar que a apostasia era verdadeira ou definitiva.

Mas Sabatai foi mimado pelo Sultão. Ganhou um palacete, uma esposa extra e uma pensão. A expectativa do Sultão era que Sabatai liderasse uma conversão em massa de judeus ao islã. Aconteceram conversões, porque Sabatai continuou causando confusão, alternando entre mania e depressão. E continuou, também, sendo procurado por judeus, que o tratavam em privado como rabino. De um deles, ordenou que lhe entregasse a noiva – e cobiçar a noiva alheia é uma das 36 transgressões capitais. No entanto, uma coisa mais frequente (ou da qual temos mais notícias) era ordenar ao judeu que se convertesse ao islã. Natan temia muito passar por isso, mas não aconteceu.

Por falar em Natan, ele ofereceu uma solução aos judeus dispostos a continuar crendo no Messias de Esmirna. Se o Messias veio para acabar com a Lei e pregar a santificação pela transgressão, então a apostasia era coerente com o programa. Os judeus que seguiram Sabatai na conversão ao islã constituíram uma seita criptojudaica que existe até hoje na Turquia, chamada dönmeh. As influências dos dönmeh na política turca, suas relações com a maçonaria e a alegação de que Atatürk era dönmeh são hoje consideradas conspiracionismo antissemita pelo mainstream.

No entanto, no século XVIII, sabemos por Scholem que pelo menos um sabataísta austro-húngaro seguidor de Jacob Frank (tido por reencarnação de Sabatai) foi nobilitado, converteu-se ao catolicismo, ingressou na maçonaria e tomou parte na Revolução Francesa. (Cf. From Frankism to Jacobinism.)

Infelizmente, o assunto é tão instigante quanto misterioso para os historiadores. Tão logo a febre passou e a reputação herética do sabataísmo se consolidou, as provas foram destruídas ou ocultadas, e o movimento se tornou clandestino. A própria publicação da obra de Scholem, primeiramente em hebraico, ensejou o presidente de Israel Zalman Shazan a entregar um manuscrito iídiche do século XVIII ao pesquisador, que aprimorou a versão inglesa e posterior do seu trabalho. O manuscrito era passado de geração em geração e sobreviveu a guerras. Ninguém sabe quantos manuscritos estão nessa condição até hoje, nem quantos foram perdidos para sempre.

Sabatai viveu seus últimos dias em Dulcingo, atual cidade de Ulcinj em Montenegro. Foi degredado para lá após ser denunciado por heresias no início da década de 1670 e morreu em 1676. Os Bálcãs foram o palco final do Messias de Esmirna.

Preso na Turquia, Sabatai Zevi enfrenta o Sultão e escolhe o turbante muçulmano. Judeus criam seita criptojudaica. O Messias morre exilado em 1676.

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[Estamos vendo a parte final história de Sabatai Zevi. Se você chegou agora, veja a primeira e a segunda parte clicando aqui e aqui.]

O sabataísmo deixou as massas judaicas ensandecidas. A crermos em Scholem, o marxismo ofereceu uma interpretação deturpada a história do movimento, entendido como uma revolta dos judeus pobres contra os judeus ricos. Na verdade, porém, entre os adeptos do sabataísmo contavam-se judeus ricos e até influentes na política internacional, como Rafael Supino, de Livorno (que acompanhou Menasseh Ben Israel em sua missão na Inglaterra), Jerônimo Nuñez da Costa (agente do Rei de Portugal nos Países Baixos) e Daniel Levi de Barrios (ex-oficial do exército espanhol na Bélgica). Scholem apontou, aliás, um perfil religioso do judeu mais atraído pelo sabataísmo: o marrano, o sefardita que simulou a conversão e, por isso, tivera instrução no catolicismo. Esse perfil teria maior propensão ao sincretismo com o cristianismo. A imitação dos marranos ia tão longe que eles tinham devoção às relíquias de um “santo” próprio, o mártir Salomão Molcho, que tentou convencer o Imperador Carlos V a reconquistar a Palestina com um exército de marranos e entregá-la aos judeus.

No entanto, os asquenazitas não ficaram para trás em matéria de sincretismo. A Alemanha foi inundada por panfletos em iídiche falando do Profeta Natan Levi, que havia ungido como rei em Jerusalém um certo Sobeza (um nome de Sabatai após passar pelo telefone sem fio), o qual havia mudado de nome, passando a se chamar Josué Helkham. Isto, em hebraico, significa “Jesus, Deus-Surgido-dos-Mortos”.

O último ato messiânico de Sabatai em Esmirna de que se tem notícia foi a distribuição de títulos reais. Por motivos desconhecidos, no dia 30 de dezembro de 1665 ele entra num bote com três ou quatro rabinos que ele havia proclamado reis e parte de Esmirna para Constantinopla. Dada a propaganda de Natan de Gaza, a expectativa dos judeus era que o Sultão se prostrasse diante do nosso Messias melômano e lhe entregasse o seu reino. Assim, a febre de cartinhas malucas com notícias espetaculares aumentou, e uma comissão de rabinos céticos chegou a descobrir uma fábrica de fake news que vendia cartas por valores altos. Os falsários foram severamente punidos.

Ao chegar a Constantinopla, Sabatai é preso. Segundo Scholem, a razão mais plausível é a econômica, já que os judeus monopolizavam o comércio na Turquia (sobretudo o comércio exterior) e haviam simplesmente parado de trabalhar – inclusive os donativos arrecadados não estavam sendo suficiente para os judeus se manterem. O fenômeno apresentava uma forma de “rebelião” sem ameaça armada: os judeus ficavam muito desaforados dizendo aos gentios que eles iam ser seus escravos com a vinda do Messias e tal, mas não faziam nada além de se alvoroçar pelas ruas, caindo no chão para “profetizar”, ou caindo mortos mesmo, porque jejuaram demais. Francamente, não deixa de lembrar o 8 de janeiro no Brasil (com um monte de pentecostal maluco enrolado em bandeira de Israel, ouvindo notícias fantasiosas no Youtube monetizado), e sabemos que esse tipo de alvoroço irrita as autoridades o bastante para pôr todo o mundo em cana.

Sabatai foi preso em Constantinopla. Não obstante, circularam notícias de que Sabatai não fora preso; que ascendera aos céus e foi substituído pelo Arcanjo Gabriel, que assumira a sua forma por algum motivo misterioso a ser revelado no futuro. Os xiitas creem que algo similar ocorreu com Cristo, em vez de ser crucificado.

Por algum motivo, o Messias (ou o Arcanjo Gabriel?) não consentiu que seus seguidores subornassem as autoridades turcas para libertá-lo. Isto deixou os seus seguidores ainda mais impressionados e eles interpretaram isso como uma disposição a descer até as qelipot. Como o vizir turco tinha uma reputação de inclemência, os judeus temiam que Sabatai fosse condenado à morte. Segundo Scholem, porém, o vizir deve ter se preocupado com a ordem social: não dava para matar o Messias dos judeus e esperar que eles voltassem a trabalhar.

Em março de 1666, Sabatai foi transferido para uma acomodação mais confortável em Constantinopla. Durante sua estadia, Constantinopla enfrentou inflação de alimentos por causa dos judeus que vinham de outras cidades orientais contemplar a face divina. Os guardas otomanos, ao constatarem que os judeus agora peregrinavam igual aos italianos (visitavam até o túmulo da mãe de Sabatai), tiveram a ideia de cobrar ingresso na prisão para deixar o peregrino olhar a cara de Sabatai – que só os recebia em fase de “iluminação”, evitando-os nas fases de “ocultamento da face”.

Diante da inflação e dos transtornos, em abril de 1666 as autoridades turcas transferiram Sabatai para Galípoli, onde os guardas otomanos expandiram o negócio e passaram a cobrar dos sabataístas para permitir festinhas dentro da “Torre Forte” na qual residia o Messias. Esse oba-oba durou pelo menos até julho, e Sabatai comandava o movimento desde a prisão em Galípoli, no lado europeu do Estreito de Dardanelos. Nessa circunstância, aboliu o jejum de 9 de av.

Eis então que chega da Polônia o profeta sabataísta Nehemia Kohen. Ele não queria simplesmente olhar a face do Messias, mas discutir e negociar. Uma dificuldade do sabataísmo era a figura do Messias Ben José, o Messias que auxilia o Messias Ben Davi (o Messias propriamente dito) e cai na batalha. A história de Sabatai, de que era um polonês morto num pogrom de 1648, não deixava os crentes muito confortáveis. A discussão terminou em briga e há duas versões: uma dos sabataístas, outra dos observadores cristãos, que Scholem prefere. Para os sabataístas, Nehemia Kohen e Sabatai Zevi discutiram teologia, mas o polonês se provou incapaz de compreender o pensamento do nosso melômano sefardita. Na versão cristã, houve um bate-boca porque Nehemia queria que Sabatai o reconhecesse como Messias Ben José, coisa que Sabatai aceitou, mas Nehemia foi além e o repreendeu por ter se proclamado Messias antes que ele próprio (Nehemia, o Messias Ben José) entrasse em cena. Sabatai não gostou de ver sua autoridade questionada e ambos brigaram. Os judeus ficaram confusos, se dividiram, mas acabaram permanecendo sob a autoridade de Sabatai e considerando Nehemia um cismático. Para se vingar, Nehemia denunciou Sabatai às autoridades turcas – e os judeus ficaram tão furiosos que Nehemia acabou pedindo para se tornar turco, escapando assim da jurisdição judaica.

Nessa época, a conversão de judeu para muçulmano no Império Otomano consistia em abandonar o chapéu judaico e passar a usar um turbante turco. Era uma conversão fácil porque não precisava de circuncisão. No entanto, a conversão de Nehemia Kohen durou só até ele voltar para a Europa, onde passou a se apresentar como Messias Ben José e continuou a pregar que Sabatai Zevi era o Messias Ben Davi.

Ao que parece, Sabatai e seus seguidores davam festinhas na Torre, com direito a moças virgens e “favoritos”. Sabatai também se gabava de manter relações sexuais com mulheres virgens e devolvê-las “intocadas” – em Esmirna, solicitara três virgens e as devolvera nessa condição. Às denúncias de depravação foram acrescidas denúncias de sedição.

Dado que a agitação entre os judeus continuava intacta, os turcos usaram de mais um expediente: forçar Sabatai a escolher entre o turbante e a morte. Isso ocorreu em setembro e Sabatai escolheu o turbante. O fato envolveu um encontro semi-oficial com o Sultão intermediado pelo seu médico, um muçulmano converso do judaísmo. Sabatai não falava turco e precisava de um intérprete, papel desempenhado pelo médico. O encontro foi semi-oficial porque os turcos, quando queriam, usavam treliças para separar o ambiente com essa finalidade sutil: o sultão via e ouvia tudo pelas treliças, dava ordens, mas não estava oficialmente no mesmo ambiente. No encontro, Sabatai negou suas pretensões messiânicas – mas ele sempre fazia isso diante de gentios, mesmo que se tratasse de um calvinista entusiasta. (Creio que o mais famoso fosse o milenarista holandês Petrus Serrarius, amigo de Menasseh Ben Israel.)

O encontro semi-oficial ocorreu em Adrianópolis, atual Edirne, o que envolveu uma viagem. Houve tempo para correr a notícia de que Sabatai iria se encontrar com o Sultão. Assim, os judeus estenderam tapetes e fizeram festa, crentes que o Sultão ia entregar o reinado. Depois da apostasia do Messias, ninguém queria acreditar que a apostasia era verdadeira ou definitiva.

Mas Sabatai foi mimado pelo Sultão. Ganhou um palacete, uma esposa extra e uma pensão. A expectativa do Sultão era que Sabatai liderasse uma conversão em massa de judeus ao islã. Aconteceram conversões, porque Sabatai continuou causando confusão, alternando entre mania e depressão. E continuou, também, sendo procurado por judeus, que o tratavam em privado como rabino. De um deles, ordenou que lhe entregasse a noiva – e cobiçar a noiva alheia é uma das 36 transgressões capitais. No entanto, uma coisa mais frequente (ou da qual temos mais notícias) era ordenar ao judeu que se convertesse ao islã. Natan temia muito passar por isso, mas não aconteceu.

Por falar em Natan, ele ofereceu uma solução aos judeus dispostos a continuar crendo no Messias de Esmirna. Se o Messias veio para acabar com a Lei e pregar a santificação pela transgressão, então a apostasia era coerente com o programa. Os judeus que seguiram Sabatai na conversão ao islã constituíram uma seita criptojudaica que existe até hoje na Turquia, chamada dönmeh. As influências dos dönmeh na política turca, suas relações com a maçonaria e a alegação de que Atatürk era dönmeh são hoje consideradas conspiracionismo antissemita pelo mainstream.

No entanto, no século XVIII, sabemos por Scholem que pelo menos um sabataísta austro-húngaro seguidor de Jacob Frank (tido por reencarnação de Sabatai) foi nobilitado, converteu-se ao catolicismo, ingressou na maçonaria e tomou parte na Revolução Francesa. (Cf. From Frankism to Jacobinism.)

Infelizmente, o assunto é tão instigante quanto misterioso para os historiadores. Tão logo a febre passou e a reputação herética do sabataísmo se consolidou, as provas foram destruídas ou ocultadas, e o movimento se tornou clandestino. A própria publicação da obra de Scholem, primeiramente em hebraico, ensejou o presidente de Israel Zalman Shazan a entregar um manuscrito iídiche do século XVIII ao pesquisador, que aprimorou a versão inglesa e posterior do seu trabalho. O manuscrito era passado de geração em geração e sobreviveu a guerras. Ninguém sabe quantos manuscritos estão nessa condição até hoje, nem quantos foram perdidos para sempre.

Sabatai viveu seus últimos dias em Dulcingo, atual cidade de Ulcinj em Montenegro. Foi degredado para lá após ser denunciado por heresias no início da década de 1670 e morreu em 1676. Os Bálcãs foram o palco final do Messias de Esmirna.

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