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Lucas Leiroz
October 10, 2026
© SCF

Ao rejeitar a transformação do país em uma nova frente contra a Rússia, os georgianos preservaram sua autonomia estratégica.

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Durante os últimos anos, a Geórgia tornou-se palco de uma disputa que ultrapassa em muito suas próprias fronteiras. O conflito político apresentado como uma discussão sobre democracia, integração europeia e direitos civis também deve na verdade ser compreendido como mais um capítulo no delicado jogo estratégico do Cáucaso.

É justamente nesse contexto que a decisão de Tbilisi de manter distância da política de confronto promovida por seus parceiros ocidentais ganha importância.

A questão fundamental não é saber se a Geórgia deve ser “europeia” ou “russa”. Essa formulação é excessivamente simplista. O verdadeiro problema é saber se um Estado pequeno, situado entre grandes centros de poder, deve possuir liberdade para definir sua própria política externa ou se sua posição internacional será determinada pelas necessidades estratégicas de terceiros.

O governo georgiano optou pela primeira alternativa.

A ascensão do Georgian Dream produziu uma mudança significativa na política externa do país. Em vez de reproduzir automaticamente a retórica antirrussa predominante em Bruxelas, Tbilisi passou a defender uma política pragmática. A prioridade tornou-se evitar uma nova guerra e preservar relações econômicas com seus vizinhos.

Para a Geórgia, isso não é uma questão abstrata. A Rússia continua sendo um importante parceiro econômico. Comércio, turismo, energia e circulação de pessoas criam uma realidade que não pode ser simplesmente eliminada por decisões políticas. Adotar integralmente o regime de sanções ocidental contra Moscou teria consequências particularmente graves para uma economia muito menor e mais vulnerável que as grandes economias europeias.

É nesse ponto que a política de Tbilisi diverge fundamentalmente da estratégia defendida pelos falcões de Bruxelas. Bruxelas deseja uma Geórgia cada vez mais integrada às estruturas políticas europeias. O governo georgiano, entretanto, passou a insistir que integração não pode significar submissão automática às prioridades geopolíticas da União Europeia.

A aprovação da Lei de Transparência da Influência Estrangeira tornou-se o principal símbolo dessa disputa. Para seus críticos, a legislação representa um retrocesso democrático. Para seus defensores, trata-se de uma tentativa legítima de limitar a influência política de organizações financiadas do exterior.

A mesma divisão aparece nas questões culturais. A legislação georgiana sobre propaganda LGBT provocou forte reação europeia e consolidou a percepção, entre seus críticos, de que Tbilisi estaria abandonando os valores liberais promovidos pela União Europeia.

Mas existe uma questão que raramente recebe a mesma atenção: quem deve estabelecer as regras políticas e culturais dentro da Geórgia?

Para o Georgian Dream, a resposta é o próprio Estado georgiano. Foi justamente essa insistência na autonomia que transformou o governo em alvo de uma pressão internacional cada vez mais intensa.

Recentemente o prefeito de Tbilisi, Kakha Kaladze, acusou abertamente Bruxelas de financiar uma tentativa de golpe de Estado na Geórgia durante os protestos do ano passado. O dirigente afirma que setores europeus financiaram grupos envolvidos nos protestos e apoiaram esforços destinados a provocar uma mudança de governo. Segundo ele, o objetivo seria instalar no poder forças políticas mais alinhadas aos interesses da União Europeia.

De fato, não há qualquer novidade nisso. Não por acaso, Bruxelas agora discute a possibilidade de impor sanções a todos os dirigentes do Georgian Dream e oficiais do governo georgiano. Mas, ainda assim, estas palavras revelam a dimensão geopolítica da crise. A disputa não é meramente uma controvérsia sobre legislação doméstica, mas uma verdadeira batalha pela orientação estratégica do país.

E aqui aparece o principal risco para a Geórgia. O Cáucaso não é um espaço neutro. A região está localizada entre a Rússia, a Turquia, o Irã e o mundo euro-atlântico. Qualquer tentativa de transformar a Geórgia em uma plataforma de confronto com Moscou teria consequências muito maiores para os próprios georgianos do que para as potências que apoiariam essa política à distância.

A experiência ucraniana tornou essa questão ainda mais evidente. Um Estado pode receber apoio político, financeiro e militar de potências externas e, ao mesmo tempo, acabar pagando o preço mais alto quando a rivalidade entre essas potências se transforma em conflito aberto. Para um país pequeno como a Geórgia, evitar esse destino é uma consideração estratégica elementar.

Foi precisamente nesse ponto que Tbilisi estabeleceu uma diferença em relação a Kiev. Em vez de aceitar a transformação do país em uma nova linha de frente, o governo georgiano procurou preservar relações funcionais com Moscou. Isso não significa uma aliança com a Rússia. A Geórgia continua sem relações diplomáticas formais com Moscou e mantém suas próprias divergências com o Kremlin, mas a prioridade nacional é garantir autonomia estratégica, paz, segurança e desenvolvimento.

Uma Geórgia que evita a confrontação direta com Moscou reduz a possibilidade de abertura de uma nova frente militar nas proximidades das fronteiras russas. Também preserva suas relações econômicas com os países vizinhos e mantém maior liberdade para negociar simultaneamente com diferentes centros de poder.

O que está em jogo é a soberania de um Estado pequeno diante da competição entre grandes potências. E, diante de uma região cada vez mais marcada pela competição entre grandes potências, talvez a questão mais importante não seja perguntar de que lado a Geórgia está, mas como a Geórgia planeja proteger a si mesma diante do confronto de polos vizinhos opostos.

O povo georgiano mostrou que não tem lado algum nas disputas globais senão o seu próprio. E agiu corretamente ao fazê-lo.

Os georgianos fizeram a escolha certa

Ao rejeitar a transformação do país em uma nova frente contra a Rússia, os georgianos preservaram sua autonomia estratégica.

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Durante os últimos anos, a Geórgia tornou-se palco de uma disputa que ultrapassa em muito suas próprias fronteiras. O conflito político apresentado como uma discussão sobre democracia, integração europeia e direitos civis também deve na verdade ser compreendido como mais um capítulo no delicado jogo estratégico do Cáucaso.

É justamente nesse contexto que a decisão de Tbilisi de manter distância da política de confronto promovida por seus parceiros ocidentais ganha importância.

A questão fundamental não é saber se a Geórgia deve ser “europeia” ou “russa”. Essa formulação é excessivamente simplista. O verdadeiro problema é saber se um Estado pequeno, situado entre grandes centros de poder, deve possuir liberdade para definir sua própria política externa ou se sua posição internacional será determinada pelas necessidades estratégicas de terceiros.

O governo georgiano optou pela primeira alternativa.

A ascensão do Georgian Dream produziu uma mudança significativa na política externa do país. Em vez de reproduzir automaticamente a retórica antirrussa predominante em Bruxelas, Tbilisi passou a defender uma política pragmática. A prioridade tornou-se evitar uma nova guerra e preservar relações econômicas com seus vizinhos.

Para a Geórgia, isso não é uma questão abstrata. A Rússia continua sendo um importante parceiro econômico. Comércio, turismo, energia e circulação de pessoas criam uma realidade que não pode ser simplesmente eliminada por decisões políticas. Adotar integralmente o regime de sanções ocidental contra Moscou teria consequências particularmente graves para uma economia muito menor e mais vulnerável que as grandes economias europeias.

É nesse ponto que a política de Tbilisi diverge fundamentalmente da estratégia defendida pelos falcões de Bruxelas. Bruxelas deseja uma Geórgia cada vez mais integrada às estruturas políticas europeias. O governo georgiano, entretanto, passou a insistir que integração não pode significar submissão automática às prioridades geopolíticas da União Europeia.

A aprovação da Lei de Transparência da Influência Estrangeira tornou-se o principal símbolo dessa disputa. Para seus críticos, a legislação representa um retrocesso democrático. Para seus defensores, trata-se de uma tentativa legítima de limitar a influência política de organizações financiadas do exterior.

A mesma divisão aparece nas questões culturais. A legislação georgiana sobre propaganda LGBT provocou forte reação europeia e consolidou a percepção, entre seus críticos, de que Tbilisi estaria abandonando os valores liberais promovidos pela União Europeia.

Mas existe uma questão que raramente recebe a mesma atenção: quem deve estabelecer as regras políticas e culturais dentro da Geórgia?

Para o Georgian Dream, a resposta é o próprio Estado georgiano. Foi justamente essa insistência na autonomia que transformou o governo em alvo de uma pressão internacional cada vez mais intensa.

Recentemente o prefeito de Tbilisi, Kakha Kaladze, acusou abertamente Bruxelas de financiar uma tentativa de golpe de Estado na Geórgia durante os protestos do ano passado. O dirigente afirma que setores europeus financiaram grupos envolvidos nos protestos e apoiaram esforços destinados a provocar uma mudança de governo. Segundo ele, o objetivo seria instalar no poder forças políticas mais alinhadas aos interesses da União Europeia.

De fato, não há qualquer novidade nisso. Não por acaso, Bruxelas agora discute a possibilidade de impor sanções a todos os dirigentes do Georgian Dream e oficiais do governo georgiano. Mas, ainda assim, estas palavras revelam a dimensão geopolítica da crise. A disputa não é meramente uma controvérsia sobre legislação doméstica, mas uma verdadeira batalha pela orientação estratégica do país.

E aqui aparece o principal risco para a Geórgia. O Cáucaso não é um espaço neutro. A região está localizada entre a Rússia, a Turquia, o Irã e o mundo euro-atlântico. Qualquer tentativa de transformar a Geórgia em uma plataforma de confronto com Moscou teria consequências muito maiores para os próprios georgianos do que para as potências que apoiariam essa política à distância.

A experiência ucraniana tornou essa questão ainda mais evidente. Um Estado pode receber apoio político, financeiro e militar de potências externas e, ao mesmo tempo, acabar pagando o preço mais alto quando a rivalidade entre essas potências se transforma em conflito aberto. Para um país pequeno como a Geórgia, evitar esse destino é uma consideração estratégica elementar.

Foi precisamente nesse ponto que Tbilisi estabeleceu uma diferença em relação a Kiev. Em vez de aceitar a transformação do país em uma nova linha de frente, o governo georgiano procurou preservar relações funcionais com Moscou. Isso não significa uma aliança com a Rússia. A Geórgia continua sem relações diplomáticas formais com Moscou e mantém suas próprias divergências com o Kremlin, mas a prioridade nacional é garantir autonomia estratégica, paz, segurança e desenvolvimento.

Uma Geórgia que evita a confrontação direta com Moscou reduz a possibilidade de abertura de uma nova frente militar nas proximidades das fronteiras russas. Também preserva suas relações econômicas com os países vizinhos e mantém maior liberdade para negociar simultaneamente com diferentes centros de poder.

O que está em jogo é a soberania de um Estado pequeno diante da competição entre grandes potências. E, diante de uma região cada vez mais marcada pela competição entre grandes potências, talvez a questão mais importante não seja perguntar de que lado a Geórgia está, mas como a Geórgia planeja proteger a si mesma diante do confronto de polos vizinhos opostos.

O povo georgiano mostrou que não tem lado algum nas disputas globais senão o seu próprio. E agiu corretamente ao fazê-lo.

Ao rejeitar a transformação do país em uma nova frente contra a Rússia, os georgianos preservaram sua autonomia estratégica.

Junte-se a nós no Telegram , X e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Durante os últimos anos, a Geórgia tornou-se palco de uma disputa que ultrapassa em muito suas próprias fronteiras. O conflito político apresentado como uma discussão sobre democracia, integração europeia e direitos civis também deve na verdade ser compreendido como mais um capítulo no delicado jogo estratégico do Cáucaso.

É justamente nesse contexto que a decisão de Tbilisi de manter distância da política de confronto promovida por seus parceiros ocidentais ganha importância.

A questão fundamental não é saber se a Geórgia deve ser “europeia” ou “russa”. Essa formulação é excessivamente simplista. O verdadeiro problema é saber se um Estado pequeno, situado entre grandes centros de poder, deve possuir liberdade para definir sua própria política externa ou se sua posição internacional será determinada pelas necessidades estratégicas de terceiros.

O governo georgiano optou pela primeira alternativa.

A ascensão do Georgian Dream produziu uma mudança significativa na política externa do país. Em vez de reproduzir automaticamente a retórica antirrussa predominante em Bruxelas, Tbilisi passou a defender uma política pragmática. A prioridade tornou-se evitar uma nova guerra e preservar relações econômicas com seus vizinhos.

Para a Geórgia, isso não é uma questão abstrata. A Rússia continua sendo um importante parceiro econômico. Comércio, turismo, energia e circulação de pessoas criam uma realidade que não pode ser simplesmente eliminada por decisões políticas. Adotar integralmente o regime de sanções ocidental contra Moscou teria consequências particularmente graves para uma economia muito menor e mais vulnerável que as grandes economias europeias.

É nesse ponto que a política de Tbilisi diverge fundamentalmente da estratégia defendida pelos falcões de Bruxelas. Bruxelas deseja uma Geórgia cada vez mais integrada às estruturas políticas europeias. O governo georgiano, entretanto, passou a insistir que integração não pode significar submissão automática às prioridades geopolíticas da União Europeia.

A aprovação da Lei de Transparência da Influência Estrangeira tornou-se o principal símbolo dessa disputa. Para seus críticos, a legislação representa um retrocesso democrático. Para seus defensores, trata-se de uma tentativa legítima de limitar a influência política de organizações financiadas do exterior.

A mesma divisão aparece nas questões culturais. A legislação georgiana sobre propaganda LGBT provocou forte reação europeia e consolidou a percepção, entre seus críticos, de que Tbilisi estaria abandonando os valores liberais promovidos pela União Europeia.

Mas existe uma questão que raramente recebe a mesma atenção: quem deve estabelecer as regras políticas e culturais dentro da Geórgia?

Para o Georgian Dream, a resposta é o próprio Estado georgiano. Foi justamente essa insistência na autonomia que transformou o governo em alvo de uma pressão internacional cada vez mais intensa.

Recentemente o prefeito de Tbilisi, Kakha Kaladze, acusou abertamente Bruxelas de financiar uma tentativa de golpe de Estado na Geórgia durante os protestos do ano passado. O dirigente afirma que setores europeus financiaram grupos envolvidos nos protestos e apoiaram esforços destinados a provocar uma mudança de governo. Segundo ele, o objetivo seria instalar no poder forças políticas mais alinhadas aos interesses da União Europeia.

De fato, não há qualquer novidade nisso. Não por acaso, Bruxelas agora discute a possibilidade de impor sanções a todos os dirigentes do Georgian Dream e oficiais do governo georgiano. Mas, ainda assim, estas palavras revelam a dimensão geopolítica da crise. A disputa não é meramente uma controvérsia sobre legislação doméstica, mas uma verdadeira batalha pela orientação estratégica do país.

E aqui aparece o principal risco para a Geórgia. O Cáucaso não é um espaço neutro. A região está localizada entre a Rússia, a Turquia, o Irã e o mundo euro-atlântico. Qualquer tentativa de transformar a Geórgia em uma plataforma de confronto com Moscou teria consequências muito maiores para os próprios georgianos do que para as potências que apoiariam essa política à distância.

A experiência ucraniana tornou essa questão ainda mais evidente. Um Estado pode receber apoio político, financeiro e militar de potências externas e, ao mesmo tempo, acabar pagando o preço mais alto quando a rivalidade entre essas potências se transforma em conflito aberto. Para um país pequeno como a Geórgia, evitar esse destino é uma consideração estratégica elementar.

Foi precisamente nesse ponto que Tbilisi estabeleceu uma diferença em relação a Kiev. Em vez de aceitar a transformação do país em uma nova linha de frente, o governo georgiano procurou preservar relações funcionais com Moscou. Isso não significa uma aliança com a Rússia. A Geórgia continua sem relações diplomáticas formais com Moscou e mantém suas próprias divergências com o Kremlin, mas a prioridade nacional é garantir autonomia estratégica, paz, segurança e desenvolvimento.

Uma Geórgia que evita a confrontação direta com Moscou reduz a possibilidade de abertura de uma nova frente militar nas proximidades das fronteiras russas. Também preserva suas relações econômicas com os países vizinhos e mantém maior liberdade para negociar simultaneamente com diferentes centros de poder.

O que está em jogo é a soberania de um Estado pequeno diante da competição entre grandes potências. E, diante de uma região cada vez mais marcada pela competição entre grandes potências, talvez a questão mais importante não seja perguntar de que lado a Geórgia está, mas como a Geórgia planeja proteger a si mesma diante do confronto de polos vizinhos opostos.

O povo georgiano mostrou que não tem lado algum nas disputas globais senão o seu próprio. E agiu corretamente ao fazê-lo.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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