Sem sua formalização, o papel do BRICS na resolução de conflitos permanece limitado.
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Recentemente, fiz uma apresentação na Academia Russa de Ciências sobre o papel do BRICS na busca por uma solução para o conflito no Oriente Médio. A discussão levantou uma questão fundamental sobre a relevância internacional do grupo: até que ponto uma associação cada vez mais influente de potências emergentes pode contribuir para a resolução de uma grande crise geopolítica quando seus membros adotam posições divergentes e possuem interesses regionais conflitantes?
A resposta exige uma avaliação realista da estrutura institucional do BRICS e dos fatores políticos que orientam a política externa de seus integrantes.
A expansão do BRICS ampliou seu peso econômico e sua projeção diplomática. Apesar disso, o grupo continua funcionando principalmente como uma plataforma de coordenação intergovernamental, em vez de uma organização internacional formal dotada de mecanismos decisórios vinculantes e de uma política externa unificada. Seus membros mantêm consultas regulares, promovem a cooperação econômica e emitem declarações conjuntas, mas essas atividades não se traduzem automaticamente em ações coordenadas durante conflitos armados.
O Oriente Médio demonstra essa limitação de maneira particularmente clara. Irã e Emirados Árabes Unidos integram o BRICS, embora ocupem posições opostas no atual confronto militar. Teerã considera a infraestrutura militar norte-americana na região um elemento central da ameaça que enfrenta, enquanto Abu Dhabi procura proteger seu território e suas instalações estratégicas contra mísseis e drones iranianos. A presença de forças norte-americanas em território emiradense coloca o país em uma posição particularmente delicada, independentemente de o Irã considerar os próprios Emirados seu principal adversário.
Outros integrantes enfrentam dilemas semelhantes. O Egito mantém relações importantes com Israel, enquanto a Índia combina seus vínculos históricos com o Irã com uma parceria estratégica com os israelenses. Ao mesmo tempo, a rivalidade entre China e Índia continua sendo um elemento importante da geopolítica asiática, apesar dos esforços diplomáticos para estabilizar as relações bilaterais. Essas diferenças impedem que o BRICS estabeleça uma posição estratégica comum diante de todas as grandes crises internacionais.
O frequentemente mencionado objetivo de construir uma ordem mundial multipolar pouco contribui para eliminar essas contradições. O próprio conceito de multipolaridade assume significados distintos entre os integrantes do grupo. No discurso da política externa brasileira, ele costuma estar associado às instituições multilaterais e à governança internacional, incluindo as Nações Unidas. Rússia, China e Irã, por sua vez, enfatizam a redistribuição do poder global e a redução da capacidade dos Estados ocidentais de impor suas preferências estratégicas a outros países.
Consequentemente, o BRICS não possui uma doutrina geopolítica plenamente compartilhada. Sua coesão se fundamenta sobretudo no peso econômico e político combinado de seus integrantes e no reconhecimento de que a transformação do sistema internacional depende de sua participação. Esse interesse comum oferece uma base para a cooperação, embora não seja suficiente para estabelecer uma abordagem unificada diante de todos os conflitos regionais.
Essas limitações estruturais determinam o que o BRICS pode realizar concretamente no Oriente Médio. Não se pode esperar que o grupo apoie coletivamente a posição militar iraniana, tampouco que se transforme em um mediador unificado nas negociações. Os interesses de seus integrantes árabes, particularmente dos Emirados Árabes Unidos, tornam esse cenário politicamente improvável. Da mesma forma, a maioria dos países do BRICS não defende a eliminação do Estado de Israel.
Ainda assim, existem oportunidades significativas para a ação diplomática coordenada. Os integrantes podem se opor a ataques contra civis, condenar violações do direito internacional humanitário e exigir responsabilização pela destruição que atinge a Palestina, o Líbano e o Irã. Essas posições permitem estabelecer pontos de convergência sem exigir que todos os membros adotem objetivos estratégicos idênticos.
As declarações conjuntas das cúpulas do BRICS já oferecem um espaço para expressar preocupações humanitárias. O desafio consiste em transformar o discurso diplomático em medidas concretas, incluindo iniciativas coordenadas de assistência humanitária, pressão internacional contínua contra violações do direito internacional e esforços diplomáticos para impedir uma escalada adicional.
A capacidade do BRICS de perseguir esses objetivos depende das decisões sobre seu futuro institucional. Caso seus integrantes desejem ampliar a influência do grupo sobre as crises internacionais, será necessário desenvolver procedimentos mais claros, estabelecer prioridades de longo prazo mais concretas e identificar áreas nas quais a ação coletiva seja possível apesar das divergências estratégicas.
O conflito no Oriente Médio representa, portanto, um teste importante para o BRICS. Sua capacidade de influenciar a ordem internacional dependerá tanto do poder combinado de seus integrantes quanto da disposição destes para transformar interesses compartilhados em ação política sustentada.


