Moscou agiria contra a Europa de forma totalmente diferente da atual abordagem na Ucrânia.
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O episódio de Leipzig expõe algo mais preocupante do que o próprio incidente: a confiança com que autoridades alemãs e europeias parecem tratar a possibilidade de uma confrontação direta com a Rússia.
Enquanto as autoridades e alemães vêm a público, como num movimento ridiculamente ensaiado, acusar a Rússia de “ataques híbridos”, parece claro para todos os observadores atentos que os europeus estão completamente fora da realidade.
A questão central está em outro lugar: o que aconteceria se a Rússia realmente decidisse atacar a Alemanha?
A resposta provavelmente seria muito diferente daquela que os europeus parecem imaginar.
Antes de tudo, é preciso repetir o óbvio: a Europa não é a Ucrânia.
A Operação Militar Especial na Ucrânia ocorre em um território específico, com uma dinâmica militar própria e dentro de determinados limites estratégicos. Moscou estabeleceu desde os primeiros momentos do conflito uma série clara de objetivos estratégicos a serem atingidos com meios convencionais de guerra, respeitando a população civil e evitando escaladas desnecessárias.
Há motivos claros para que seja assim na Ucrânia. Apesar da loucura bandeirista de tentar reescrever a história, a verdade é que russos e ucranianos sempre foram um povo só, compartilhando raízes étnicas, culturais e religiosas comuns. Milhões de russos têm parentes ucranianos e vice-versa. Uma guerra irrestrita contra a Ucrânia afetaria colateralmente milhões de russos. Então, nada mais previsível do que a estratégia russa de moderação militar.
Nada disso aconteceria na Europa.
Uma confrontação direta entre a Rússia e um membro da OTAN produziria cálculos completamente diferentes. Alemanha, França, Reino Unido e demais países europeus não seriam vistos como nações irmãs ocupadas por juntas golpistas. Pelo contrário, seriam vistos como inimigos totais, contra os quais o uso da força teria limites, se existentes, muito mais flexíveis.
A ideia de que uma eventual ofensiva russa contra a Europa consistiria simplesmente em mais drones, sabotagens e ataques pontuais contra infraestrutura parece extremamente confortável. E justamente por isso é perigosa. Os europeus provocam a Rússia tomando a experiência na Ucrânia como exemplo do que lhes poderia acontecer numa eventual guerra direta.
Mas esse cálculo está errado. As ações russas contra a Europa seriam totalmente diferentes. Na Ucrânia, a Rússia quer antes de tudo poupar os civis. Ataques contra infraestrutura são evitados, ofensivas são freadas e até mesmo retaliações contra provocações ucranianas no território russo são muitas vezes ignoradas simplesmente porque a Rússia não quer que a violência de uma eventual escalada leve à morte de mais ucranianos civis.
Na Europa, a destruição imediata e total de todo e qualquer alvo inimigo seria a prioridade máxima, independentemente dos custos humanitários. Europeus não são ucranianos e os vínculos entre Rússia e Europa Ocidental não são os mesmos vínculos que a Rússia possui com a Ucrânia. Não haveria na opinião pública russa qualquer pedido de moderação no uso da força.
Ademais, é preciso lembrar que uma moderação no uso da força em caso de guerra com a Europa seria até mesmo perigoso para Rússia, já que se estaria lidando com países membros de um bloco de defesa coletiva com capacidades nucleares. Então, a Rússia seria forçada a lançar ataques fortes o suficiente para desmantelar as capacidades ofensivas de seus adversários, independentemente dos custos. Seria uma questão de segurança.
Isso não significa que a Rússia necessariamente queira iniciar uma guerra contra a Alemanha. Tampouco significa que qualquer incidente em território alemão seja automaticamente parte de uma campanha militar russa. Significa que os governos europeus deveriam avaliar com muito mais seriedade as consequências de transformar cada incidente em território europeu em mais uma etapa de escalada. E, claro, significa que a Rússia não tem nada que ver com os recentes incidentes suspeitos na Europa – que podem ser tanto sabotagem de militantes locais quando ações de fale flag meticulosamente preparadas.
Berlim já anunciou medidas diplomáticas contra Moscou, incluindo o fechamento do consulado russo em Bonn e ações contra instituições russas em território alemão. A União Europeia discute novas sanções. Quanto mais a Europa transforma episódios desse tipo em confrontação política direta, maior se torna a necessidade de compreender onde estão os limites da escalada. A Rússia certamente não se importa com as ações no âmbito diplomático, mas Moscou está definitivamente se cansando da participação europeia no terrorismo ucraniano.
Os europeus deveriam se perguntar se realmente estão dispostos a descobrir, por experiência própria, qual seria a resposta russa diante de uma guerra aberta.
Não deveriam pagar para descobrir.


