É certo que a variedade de argumentos “internacionalistas” reapareceu pouco depois, associada à vitória da URSS sobre o nazismo e ao redesenho do mapa da Europa centro-oriental.
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Num artigo publicado em Consortium News que é uma verdadeira peça de bravura, Patrick Lawrence levanta uma questão extremamente importante, provavelmente uma das mais relevantes que as diplomacias da Rússia e da China são nos nossos dias obrigadas a defrontar. Como exatamente, pergunta Lawrence, é que Vasily Nebenzya foi capaz de fazer a seguinte guinada extraordinária na reunião do Conselho de Segurança da ONU de 11 de março? Por um lado, temos as suas impecáveis, excelentes, bem formuladas objeções dirigidas à resolução 2817, através da qual o “Conselho de Segurança”, com um nível demencialmente elevado de servilismo para com o Império, condenou o Irão por se defender do ataque traiçoeiro dos EUA e de Israel:
“Para nosso profundo pesar, a resolução que acaba de ser adotada está precisamente formulada num tom tão tendencioso e unilateral que confunde a causa e o efeito. Se alguém que não esteja bem versado em assuntos internacionais ler esta resolução, inevitavelmente ficará com a impressão de que Teerão, voluntariamente e por malícia, levou a cabo um ataque não provocado a países árabes. Ao mesmo tempo, os ataques contra o próprio território do Irão, para já não falar daqueles que estão por trás deles e os executaram, não só não são condenados no documento, como são simplesmente deixados de fora. E o Conselho de Segurança acabou de aprovar isto.”
Por outro lado, temos infelizmente também de encarar o facto da tímida abstenção de Nebenzya na respetiva votação. A Rússia, bem como a China, podiam ter-se mantido firmes e defendido a honra e a sanidade mental da humanidade – mas, em vez disso, escolheram mais uma vez mudar a trajetória, evitar o confronto e deixar andar. Para além do mais, isto acontece quando toda a gente que preste um mínimo atenção à política internacional deve também lembrar-se da OUTRA abstenção crucial da Rússia e da China, há não muitos anos, em 2011, a que deu luz verde ao linchamento da Líbia pela NATO.
É, pura e simplesmente, de partir o coração. Não se pode evitar dizê-lo. O diplomata russo, acrescenta Lawrence, devia antes ter produzido não um soluço, mas um estrondo, apresentando um “vociferante veto da 2817”. Mais ainda: ele devia mesmo ter “batido furiosamente com o sapato na mesa em protesto”. Confesso que me é impossível não aplaudir o comentário de Lawrence. Mas, por outro lado, creio que as razões que ele invoca para estas observações são muito mais discutíveis do que as conclusões que retira. O pomo da discórdia, do meu ponto de vista, está na avocação da própria noção de “internacionalismo”.
Desgoverno do mundo: Variedades de internacionalismo
A humanidade está, é claro, dividida/organizada sob muitas formas e de acordo com vários critérios diferentes. Por outro lado, nas “Nações Unidas” as entidades básicas não são obviamente as nações propriamente ditas, mas sim estados. Assume-se que os seres humanos vivem associados em diferentes nações, as quais por sua vez se expressam supostamente sob a forma de diferentes estados, e o propósito da ONU é torná-los o mais compatíveis e harmoniosos possível. Note-se, de passagem, que este raciocínio não implica que os chamados “estados-civilização” sejam condenáveis por princípio: na verdade, assume-se aqui que eles são meras variantes de “estados-nação”, contendo potencialmente vários grupos étnicos, mas que, no fim de contas, articulam uma certa nação, supostamente gerada pela tal multiplicidade de etnias.
A principal suposição fundadora da própria existência da ONU é que tal compatibilidade é basicamente possível. Os estados que expressam a autodeterminação das várias nações podem, por vezes, colidir em virtude de obsessões imediatistas, por falta de discernimento ou simplesmente por causa de mal-entendidos, mas os interesses próprios fundamentais, esclarecidos e a longo prazo das várias nações são alegadamente harmoniosos, ou pelo menos compatíveis.
Este raciocínio é ele mesmo a expressão duma forma de internacionalismo: o internacionalismo dos nacionalismos, segundo o qual, se cada nação obtém a sua autodeterminação e assim encontra o estado que é a sua verdadeira alma gémea, que lhe corresponde adequadamente, então, graças ao triunfo destas afinidades eletivas, as próprias razões das guerras tenderão simplesmente a definhar. O patriota esclarecido de um determinado país compreende fundamentalmente (e simpatiza com) os motivos do patriota esclarecido de outro país. Não existem motivos insolúveis para conflitos entre estes dois; nada que o diálogo, presumivelmente reforçado pelo comércio pacífico, não possa superar. As guerras tenderão a desaparecer quando a humanidade estiver finalmente organizada em estados-nação, em vez de impérios e/ou cidades-estado.
O século XIX, abundante na produção desta variedade de internacionalismo, criou também outras espécies importantes do mesmo género: nomeadamente o internacionalismo proletário, o internacionalismo do livre comércio e o internacionalismo tecnocrático, este último por sua vez subdivisível nos internacionalismos dos engenheiros, dos conselheiros económicos e dos advogados. É basicamente assim que o mapa mental do internacionalismo nos séculos XIX e XX aparece apresentado por Mark Mazower no seu importante livro de 2013 “Governing the World: The History of an Idea, 1815 to the Present”, Londres, Penguin Books (versão portuguesa: “Governar o Mundo – História de uma ideia: de 1815 até aos nossos dias”).
De acordo com a apresentação de Mazower, todos os internacionalismos desfrutaram, sem dúvida, do seu tempo de glória, fortalecidos pelos seus apoiantes sinceros, mesmo entusiastas, mas todos acabaram basicamente por fracassar. Um fracasso importante sendo também a última versão (pós-1991) de internacionalismo, correspondente ao projeto dos EUA-com-Ocidente-Alargado de reformular a ONU e as outras instituições mundiais, visando alguma forma de expressão direta da “sociedade civil global” (assumida como existente) e que fosse diretamente ligável, curto-circuitando assim a mediação dos estados existentes, a um Governo Mundial. Este esforço, por sua vez, teria sido suportado pelo poder militar dos EUA, o “poder duro” sendo por outro lado transformado em verdadeira autoridade pelo poder norte-americano também no domínio da noosfera; e teria operado particularmente com base no grupo de alegações normalmente associadas às chamadas causas “humanitárias” e “ecológicas”.
Tudo isto, admitia Mazower, era provavelmente insustentável e incoerente desde o início, expressava uma versão bastante tendenciosa (centrada no Ocidente, ou mesmo diretamente nos EUA) dos factos e dos problemas, e estaria já em profunda crise, se não mesmo completamente moribundo, há treze anos, quando o livro de Mazower foi inicialmente publicado.
Voltamos, portanto, à estaca-zero: o velho, mas também “eternamente jovem” internacionalismo dos nacionalismos que, provavelmente, encontrou a sua expressão máxima na arquitetura básica da ONU. É verdade que as nações (ou, mais exatamente, os estados que são a sua expressão política) agem de acordo com os seus interesses e obedecem ao chamado “direito internacional” apenas na medida em que consideram conveniente manter essa obediência. Por conseguinte, impõe-se a conclusão de que permanecemos sempre totalmente adentro do domínio do maquiavelismo, sendo o “direito” aqui apenas mais uma arma (retórica) que se pode usar, entre muitas outras variedades de armas.
Mas o facto é que, ao mesmo tempo, a multiplicidade das partes intervenientes, e a variedade das suas perspetivas, tende a segregar uma espécie de sucedâneo de “esfera pública”, com a retórica a substituir parcialmente as armas ou pelo menos a contê-las, e a divisão dos poderes, bem como a variabilidade dos sistemas de alianças, a induzir os dispositivos de controlo e equilíbrio que supostamente “civilizam” os costumes, ainda que sem verdadeiramente os “moralizar”. Noutros termos: na ausência de boas intenções, pelo menos a honra formal deveria acabar por ser sustentável, e até necessária, enquanto subproduto e benefício secundário da interação duma multitude de ladrões.
Neste contexto, a invocação da espécie de internacionalismo normalmente associada a Cuba foi e é, afirmemo-lo agora de forma direta, predominantemente uma impostura ou um mal-entendido. A própria ideia, típica dos movimentos socialistas e comunistas do século XIX, de que a solidariedade global e internacional das classes estava destinada a substituir a Torre de Babel configurada pela divisão da humanidade em muitas nações – é basicamente falsa. As solidariedades nacionais são, simplesmente, muito mais importantes do que as solidariedades de classe – independentemente do renascimento mais recente destas ideias, ou mais exatamente da sua imagem simétrica, correspondendo à noção duma administração global pelos governantes económicos mundiais, os plutocratas-unidos-do-mundo que frequentemente expressam o seu propósito de criar um alegado governo global (na verdade, um desgoverno global) à la Davos ou algo mais ou menos semelhante.
Separação das águas
Reconheçamos, todavia, que os movimentos transnacionais são algo a ponderar. Pensemos, por exemplo, nas religiões universais, ou na versão secularizada daquelas que são os vários “ismos” políticos. Mas estes não substituem nem escapam ao fundamental “sistema de classificação” das pessoas que são as nações. Para ser mais explícito: se eu sou português, a única identidade aceitavelmente anterior e precedente a essa é a que se refere à própria condição humana. Todas as outras pertenças (familiares, profissionais, religiosas, ideológicas, políticas, económicas…) são subalternas à minha nacionalidade. Até mesmo as afinidades idiomáticas, apesar da sua enorme importância, estão submetidas a isso.
Muito mais ainda no que diz respeito às afinidades políticas que, durante todo o século XX, induziram vários agentes políticos a tantos erros trágicos, em grande parte devido aos equívocos do tal “internacionalismo”. Admitindo embora que este tema exigiria discussão muito mais detalhada, afirmo desde já que uma das melhores coisas que o “Tio Zé” (como os norte-americanos lhe chamaram: “Uncle Joe”) fez na sua longa carreira política foi precisamente a dissolução da Terceira Internacional, a Internacional Comunista, nos anos quarenta.
É certo que a variedade de argumentos “internacionalistas” reapareceu pouco depois, associada à vitória da URSS sobre o nazismo e ao redesenho do mapa da Europa centro-oriental. Mas pensemos na confusão e na quantidade de problemas que os soviéticos vieram depois a enfrentar, precisamente por terem cedido nas pressões dos comunistas locais, passando assim do estrito propósito de “segurança coletiva” para políticas externas doutrinárias, ou para o proselitismo armado. De maneira nenhuma. Nenhum “internacionalismo proletário” é base sólida para uma boa política externa, mesmo de um estado assumindo-se como um projeto socialista.
Um problema bastante diferente é, no entanto, aquele que vieram a configurar os processos de descolonização posteriores a 1945. Nesses, a URSS desempenhou basicamente um papel relevante e bom. Não como resultado de qualquer imaginária inspiração “proletária”, mas basicamente porque foi um importante apoio dos nacionalismos emergentes. Noutros termos, estava do lado do internacionalismo dos nacionalismos. Segundo Luciano Canfora, 1956, o “ano da separação das águas”, foi precisamente o ano crucial quanto a este aspeto, o momento em que a URSS emergiu simultaneamente como uma grande defensora do “Terceiro Mundo”, ou do “Sul Global”, através do seu apoio ao Egito de Gamal Abdel Nasser contra as potências coloniais, e como opressora da Europa centro-oriental, através da sua desastrosa intervenção na Hungria de Imre Nagy. (E também, de forma muito importante, em trajetória de rotura irreversível com o seu antigo protegido, Israel, dado o novo alinhamento com o Egito e com a causa árabe).
O Apolo 13 do sentido de decência da humanidade
Agora bem, o caso de Cuba configura uma questão totalmente diferente da confusão em que os soviéticos caíram na Europa de Leste por causa das sereias do “internacionalismo”. A ilha, recordemo-lo agora, tinha sido preventivamente “libertada” da Espanha pelos EUA, em 1898, através da “esplêndida pequena guerra”, aliás reconhecidamente baseada em mentiras, com o objetivo de evitar a sua total independência, e assim permaneceu (submetida à infame “Emenda Platt”) até à vitória de Fidel Castro e dos seus companheiros.
Desde a sua revolução do Ano Novo de 1959, Cuba tem, sem dúvida, prestado um enorme serviço à humanidade, pela qual esta ainda lhe está profundamente devedora. Pense-se, por exemplo, na ajuda dada à descolonização angolana e à própria preservação da unidade de Angola no período pós-1974, como Patrick Lawrence corretamente aponta – ajuda, devo agora acrescentar, quanto à qual não se pode deixar de notar com desolação a estranha, absoluta mudez do governo angolano durante as atuais dificuldades cubanas.
Mas não só no que diz respeito ao apoio militar a Angola e a outras causas de libertação nacional se tornou Cuba digna de nota. Acima de tudo, devemos também referir o serviço excecional prestado à saúde pública em todo o mundo – incluindo como beneficiário até mesmo o seu vizinho do Norte, a “sicko” sociedade dos EUA, como bem ilustrado no famoso filme de Michael Moore.
Além disso, durante a crise da COVID, Cuba, um país aproximadamente do tamanho de Portugal, e submetido pelos embargos dos EUA a um número colossal de restrições que, felizmente, não afetam os portugueses e que estes na sua maioria nem sequer conseguem imaginar, adiantou-se imediatamente para assistir muitos países com médicos e material médico, incluindo vários (repugnantemente ingratos) países europeus países europeus, Portugal um deles. E foi até capaz de lançar rapidamente várias vacinas que produziu autonomamente e ofereceu à “EU” para comercialização a baixo custo – tudo, claro, para grande preocupação de Josep Borrell, o grotesco Borrell, que então expressou de forma enfática a sua infame recomendação de que toda a gente desconfiasse da “diplomacia das máscaras” de Cuba (e da Rússia, e da China); e, claro, também para enorme ansiedade da Ursula von der Pfizer…
Estes são, sem dúvida, os feitos pelos quais Cuba será lembrada para sempre. Estas são as conquistas pelas quais, para além de qualquer dúvida razoável, lhe é e será permitido proclamar que “estou feliz porque sou gigante” (“y soy feliz porque soy gigante”) (ver a letra de Silvio Rodriguez e a versão de Chico Buarque).
Bom, mas há algum “internacionalismo” que seja aqui identificável? Provavelmente não seria essa a palavra da minha escolha, mas, se for esse o caso, de entre aqueles que são identificados por Mazower, a variedade de internacionalismo verdadeiramente referível a Cuba é decerto o internacionalismo dos nacionalismos: o patriota de qualquer nação “normal” olha para o patriota de outra nação “normal”, e simpatiza imediata e plenamente com ele.
Para além disso, atrevo-me a sugerir, há todavia, no caso de Cuba, mais um imperativo ainda: um imperativo plenamente pan-humano que é de certo modo mais importante ainda, mesmo avassalador. A Ilha do Caribe pode realmente ser considerada, neste momento, o Apolo 13 do sentido de decência da humanidade. Independentemente dos aspetos pelos quais esta missão até aos limites da experiência humana possa retrospetivamente ser considerada um sucesso, ou antes um fracasso, o mais importante agora é definitivamente trazê-la de volta à vida ao seio comum da humanidade, arrancando-a das garras do seu predador.
Não gostaria de ser lembrado como uma pessoa de alguma forma no comando se, Deus nos livre de tal eventualidade, essa missão de resgate estivesse destinada a não ser cumprida. Certamente não enquanto eu estivesse no meu turno.


