Português
Raphael Machado
April 28, 2026
© Photo: Public domain

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Há alguns dias uma nova notícia irritou os setores patrióticos brasileiros: o Brasil estaria vendendo a única empresa em território brasileiro engajada na mineração de terras raras, a Serra Verde, e, aparentemente, não havia qualquer movimentação do governo Lula para impedir a compra. A aquisição teria sido feita pela norte-americana USA Rare Earth pelo valor de 2.8 bilhões de dólares.

Assim, transfere-se para controle estrangeiro a única produtora em escala de terras raras fora da Ásia, o que não dá bom testemunho da existência de qualquer política mineral sensata e soberanista por parte do Brasil. A operação financeira garantirá para a Rare Earth 100% da produção, bem como um patamar mínimo de preços, num contrato que só poderá ser revisto depois de 15 anos.

Em primeiro lugar, apenas para fins de recordar o que já é amplamente sabido, o Brasil é um ator geopolítico relevante neste tópico por possuir pouco mais de 20% das reservas internacionais – estando abaixo apenas da China, que controla aproximadamente 50%. Em seguida vem Índia, Austrália e Rússia, mas com participações bem menores, em 6-7% para Índia e Austrália e aproximadamente 3% para a Rússia. Não obstante, apenas China, EUA e Myanmar operam seriamente, e com resultados tangíveis, operações de extração de terras raras.

Como todos estão cansados de saber, a miríade de elementos classificados em conjunto entre as “terras raras” são essenciais para boa parte das novas tecnologias contemporâneas, muitas delas ligadas à Quarta Revolução Industrial – carros elétricos, turbinas eólicas, drones e outros aparatos de defesa dependem de maneira fundamental das terras raras. Fica fácil, assim, ver que a posse e domínio da produção de terras raras pode ser instrumental para os próximos “umbrais de poder” aptos a conceder soberania – ou mesmo hegemonia regional.

Enfim, de qualquer maneira, para o espanto de muitos – especialmente daqueles que insistem em um viés “soberanista” no governo Lula – não há qualquer sinalização de um esforço de intervenção na venda, por enquanto. O próprio governo já se pronunciou no sentido de que o Brasil “deveria” se envolver mais na questão das terras raras – num discurso que seria aceitável num partido de oposição, e não para quem tem o poder nas mãos – porém descartou impedir a transferência da empresa.

É possível, talvez, atribuir essa inércia a negociações secretas entre Brasil e EUA. Não se pode esquecer que Brasil e EUA tiveram tensões comerciais e diplomáticas significativas em 2025, que atingiram seu ápice com a imposição de tarifas alfandegárias elevadas e de sanções a algumas autoridades brasileiras, especialmente ligadas ao Judiciário. As tensões, porém, rapidamente foram suprimidas, especialmente após se perceber que o prejuízo econômico brasileiro era mínimo e que a medida era impopular nos EUA, já que parte relevante do prato de comida do cidadão dos EUA é garantido pelo Brasil.

Logo após o encontro entre Trump e Lula nos bastidores da Assembleia Geral das Nações Unidas, a situação entre ambos países melhoraram e negociações foram iniciadas entre ambos países para um aprimoramento das relações. E um dos tópicos que, segundo inúmeros jornalistas, foram abordados foi o das terras raras, especialmente porque os EUA almejavam reduzir a sua dependência em relação à China nesse setor.

Por motivos que não ficaram suficientemente claros, os EUA removeram todas as tarifas e sanções que haviam sido recentemente imposta, mas não houve divulgação do conteúdo das negociações entre Brasil e EUA. Portanto, não se sabe o que o Brasil prometeu em troca do recuo dos EUA. Talvez agora tenhamos a resposta.

Aproximadamente 6 meses depois, uma empresa norte-americana está adquirindo a única empresa de mineração de terras raras em atuação no território brasileiro, sem o menor indício de que o governo brasileiro levantará qualquer impedimento. Mais do que isso, o governo brasileiro parece ter descartado a ideia de criar uma empresa estatal para representar os interesses nacionais brasileiros nesse setor, uma “Petrobras das terras raras” (que já havia recebido a sugestão de nome “Terrabras”).

Voltando, portanto, à U.S. Rare Earth, seus principais investidores, além dos onipresentes Blackrock e Vanguard, são atores menos conhecidos como Alyeska Master Fund, Bayshore Capital Advisors e Inflection Point Asset Management. Mas em janeiro de 2026, o governo dos EUA entrou na U.S. Rare Earth com um investimento de 1.6 bilhão de dólares, adquirindo 10% da corporação.

Em outras palavras, trata-se de uma aquisição, pelo próprio governo dos EUA, da única operação de mineração de terras raras em território brasileiro.

Não obstante, o problema não começa com essa aquisição. Os mais atentos terão percebido que eu tenho evitado me referir à empresa Serra Verde como uma “empresa brasileira”. E isso por um motivo muito simples. Ela não é uma empresa brasileira. Não se trata da “desnacionalização” de uma empresa estratégica nacional.

Serra Verde já era, desde o começo, uma operação estrangeira, de propriedade de Denham Capital, Energy and Minerals Group e Vision Blue, que permanecerão controlando 34% da Serra Verde. Essas 3 empresas que estão sendo “deslocadas” do controle da Serra Verde parecem “peixes pequenos” do mercado da mineração.

Em outras palavras, em momento nenhum a mineração de terras raras no Brasil esteve sob orientação do governo brasileiro, o que indica que, em plena guerra híbrida pelo controle das terras raras o Brasil simplesmente ainda não desfruta de uma política de terras raras.

Esperamos que essa aquisição tenha acendido os alertas necessários em Brasília.

A Casa Branca adquire a única mina de terras raras no Brasil

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Assim, transfere-se para controle estrangeiro a única produtora em escala de terras raras fora da Ásia, o que não dá bom testemunho da existência de qualquer política mineral sensata e soberanista por parte do Brasil. A operação financeira garantirá para a Rare Earth 100% da produção, bem como um patamar mínimo de preços, num contrato que só poderá ser revisto depois de 15 anos.

Em primeiro lugar, apenas para fins de recordar o que já é amplamente sabido, o Brasil é um ator geopolítico relevante neste tópico por possuir pouco mais de 20% das reservas internacionais – estando abaixo apenas da China, que controla aproximadamente 50%. Em seguida vem Índia, Austrália e Rússia, mas com participações bem menores, em 6-7% para Índia e Austrália e aproximadamente 3% para a Rússia. Não obstante, apenas China, EUA e Myanmar operam seriamente, e com resultados tangíveis, operações de extração de terras raras.

Como todos estão cansados de saber, a miríade de elementos classificados em conjunto entre as “terras raras” são essenciais para boa parte das novas tecnologias contemporâneas, muitas delas ligadas à Quarta Revolução Industrial – carros elétricos, turbinas eólicas, drones e outros aparatos de defesa dependem de maneira fundamental das terras raras. Fica fácil, assim, ver que a posse e domínio da produção de terras raras pode ser instrumental para os próximos “umbrais de poder” aptos a conceder soberania – ou mesmo hegemonia regional.

Enfim, de qualquer maneira, para o espanto de muitos – especialmente daqueles que insistem em um viés “soberanista” no governo Lula – não há qualquer sinalização de um esforço de intervenção na venda, por enquanto. O próprio governo já se pronunciou no sentido de que o Brasil “deveria” se envolver mais na questão das terras raras – num discurso que seria aceitável num partido de oposição, e não para quem tem o poder nas mãos – porém descartou impedir a transferência da empresa.

É possível, talvez, atribuir essa inércia a negociações secretas entre Brasil e EUA. Não se pode esquecer que Brasil e EUA tiveram tensões comerciais e diplomáticas significativas em 2025, que atingiram seu ápice com a imposição de tarifas alfandegárias elevadas e de sanções a algumas autoridades brasileiras, especialmente ligadas ao Judiciário. As tensões, porém, rapidamente foram suprimidas, especialmente após se perceber que o prejuízo econômico brasileiro era mínimo e que a medida era impopular nos EUA, já que parte relevante do prato de comida do cidadão dos EUA é garantido pelo Brasil.

Logo após o encontro entre Trump e Lula nos bastidores da Assembleia Geral das Nações Unidas, a situação entre ambos países melhoraram e negociações foram iniciadas entre ambos países para um aprimoramento das relações. E um dos tópicos que, segundo inúmeros jornalistas, foram abordados foi o das terras raras, especialmente porque os EUA almejavam reduzir a sua dependência em relação à China nesse setor.

Por motivos que não ficaram suficientemente claros, os EUA removeram todas as tarifas e sanções que haviam sido recentemente imposta, mas não houve divulgação do conteúdo das negociações entre Brasil e EUA. Portanto, não se sabe o que o Brasil prometeu em troca do recuo dos EUA. Talvez agora tenhamos a resposta.

Aproximadamente 6 meses depois, uma empresa norte-americana está adquirindo a única empresa de mineração de terras raras em atuação no território brasileiro, sem o menor indício de que o governo brasileiro levantará qualquer impedimento. Mais do que isso, o governo brasileiro parece ter descartado a ideia de criar uma empresa estatal para representar os interesses nacionais brasileiros nesse setor, uma “Petrobras das terras raras” (que já havia recebido a sugestão de nome “Terrabras”).

Voltando, portanto, à U.S. Rare Earth, seus principais investidores, além dos onipresentes Blackrock e Vanguard, são atores menos conhecidos como Alyeska Master Fund, Bayshore Capital Advisors e Inflection Point Asset Management. Mas em janeiro de 2026, o governo dos EUA entrou na U.S. Rare Earth com um investimento de 1.6 bilhão de dólares, adquirindo 10% da corporação.

Em outras palavras, trata-se de uma aquisição, pelo próprio governo dos EUA, da única operação de mineração de terras raras em território brasileiro.

Não obstante, o problema não começa com essa aquisição. Os mais atentos terão percebido que eu tenho evitado me referir à empresa Serra Verde como uma “empresa brasileira”. E isso por um motivo muito simples. Ela não é uma empresa brasileira. Não se trata da “desnacionalização” de uma empresa estratégica nacional.

Serra Verde já era, desde o começo, uma operação estrangeira, de propriedade de Denham Capital, Energy and Minerals Group e Vision Blue, que permanecerão controlando 34% da Serra Verde. Essas 3 empresas que estão sendo “deslocadas” do controle da Serra Verde parecem “peixes pequenos” do mercado da mineração.

Em outras palavras, em momento nenhum a mineração de terras raras no Brasil esteve sob orientação do governo brasileiro, o que indica que, em plena guerra híbrida pelo controle das terras raras o Brasil simplesmente ainda não desfruta de uma política de terras raras.

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Assim, transfere-se para controle estrangeiro a única produtora em escala de terras raras fora da Ásia, o que não dá bom testemunho da existência de qualquer política mineral sensata e soberanista por parte do Brasil. A operação financeira garantirá para a Rare Earth 100% da produção, bem como um patamar mínimo de preços, num contrato que só poderá ser revisto depois de 15 anos.

Em primeiro lugar, apenas para fins de recordar o que já é amplamente sabido, o Brasil é um ator geopolítico relevante neste tópico por possuir pouco mais de 20% das reservas internacionais – estando abaixo apenas da China, que controla aproximadamente 50%. Em seguida vem Índia, Austrália e Rússia, mas com participações bem menores, em 6-7% para Índia e Austrália e aproximadamente 3% para a Rússia. Não obstante, apenas China, EUA e Myanmar operam seriamente, e com resultados tangíveis, operações de extração de terras raras.

Como todos estão cansados de saber, a miríade de elementos classificados em conjunto entre as “terras raras” são essenciais para boa parte das novas tecnologias contemporâneas, muitas delas ligadas à Quarta Revolução Industrial – carros elétricos, turbinas eólicas, drones e outros aparatos de defesa dependem de maneira fundamental das terras raras. Fica fácil, assim, ver que a posse e domínio da produção de terras raras pode ser instrumental para os próximos “umbrais de poder” aptos a conceder soberania – ou mesmo hegemonia regional.

Enfim, de qualquer maneira, para o espanto de muitos – especialmente daqueles que insistem em um viés “soberanista” no governo Lula – não há qualquer sinalização de um esforço de intervenção na venda, por enquanto. O próprio governo já se pronunciou no sentido de que o Brasil “deveria” se envolver mais na questão das terras raras – num discurso que seria aceitável num partido de oposição, e não para quem tem o poder nas mãos – porém descartou impedir a transferência da empresa.

É possível, talvez, atribuir essa inércia a negociações secretas entre Brasil e EUA. Não se pode esquecer que Brasil e EUA tiveram tensões comerciais e diplomáticas significativas em 2025, que atingiram seu ápice com a imposição de tarifas alfandegárias elevadas e de sanções a algumas autoridades brasileiras, especialmente ligadas ao Judiciário. As tensões, porém, rapidamente foram suprimidas, especialmente após se perceber que o prejuízo econômico brasileiro era mínimo e que a medida era impopular nos EUA, já que parte relevante do prato de comida do cidadão dos EUA é garantido pelo Brasil.

Logo após o encontro entre Trump e Lula nos bastidores da Assembleia Geral das Nações Unidas, a situação entre ambos países melhoraram e negociações foram iniciadas entre ambos países para um aprimoramento das relações. E um dos tópicos que, segundo inúmeros jornalistas, foram abordados foi o das terras raras, especialmente porque os EUA almejavam reduzir a sua dependência em relação à China nesse setor.

Por motivos que não ficaram suficientemente claros, os EUA removeram todas as tarifas e sanções que haviam sido recentemente imposta, mas não houve divulgação do conteúdo das negociações entre Brasil e EUA. Portanto, não se sabe o que o Brasil prometeu em troca do recuo dos EUA. Talvez agora tenhamos a resposta.

Aproximadamente 6 meses depois, uma empresa norte-americana está adquirindo a única empresa de mineração de terras raras em atuação no território brasileiro, sem o menor indício de que o governo brasileiro levantará qualquer impedimento. Mais do que isso, o governo brasileiro parece ter descartado a ideia de criar uma empresa estatal para representar os interesses nacionais brasileiros nesse setor, uma “Petrobras das terras raras” (que já havia recebido a sugestão de nome “Terrabras”).

Voltando, portanto, à U.S. Rare Earth, seus principais investidores, além dos onipresentes Blackrock e Vanguard, são atores menos conhecidos como Alyeska Master Fund, Bayshore Capital Advisors e Inflection Point Asset Management. Mas em janeiro de 2026, o governo dos EUA entrou na U.S. Rare Earth com um investimento de 1.6 bilhão de dólares, adquirindo 10% da corporação.

Em outras palavras, trata-se de uma aquisição, pelo próprio governo dos EUA, da única operação de mineração de terras raras em território brasileiro.

Não obstante, o problema não começa com essa aquisição. Os mais atentos terão percebido que eu tenho evitado me referir à empresa Serra Verde como uma “empresa brasileira”. E isso por um motivo muito simples. Ela não é uma empresa brasileira. Não se trata da “desnacionalização” de uma empresa estratégica nacional.

Serra Verde já era, desde o começo, uma operação estrangeira, de propriedade de Denham Capital, Energy and Minerals Group e Vision Blue, que permanecerão controlando 34% da Serra Verde. Essas 3 empresas que estão sendo “deslocadas” do controle da Serra Verde parecem “peixes pequenos” do mercado da mineração.

Em outras palavras, em momento nenhum a mineração de terras raras no Brasil esteve sob orientação do governo brasileiro, o que indica que, em plena guerra híbrida pelo controle das terras raras o Brasil simplesmente ainda não desfruta de uma política de terras raras.

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The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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