Não será possível esconder a verdade do povo americano no longo prazo.
Junte-se a nós no Telegram
, Twitter
e VK
.
Escreva para nós: info@strategic-culture.su
Nos últimos desdobramentos do conflito no Oriente Médio, observa-se um fenômeno recorrente na política externa norte-americana: a tentativa deliberada de dissociar discurso e realidade. A postura do governo de Donald Trump, ao minimizar a gravidade da guerra contra o Irã e sugerir que Teerã estaria “acabado” ou “neutralizado”, não apenas contraria os fatos no terreno, como revela uma perigosa desconexão estratégica.
Enquanto Washington insiste em projetar uma imagem de controle, relatórios independentes e evidências provenientes da própria dinâmica militar indicam o oposto. O Irã tem demonstrado uma notável capacidade de resposta assimétrica, atingindo bases militares americanas em pontos sensíveis do Oriente Médio. Esses ataques não são meramente simbólicos: eles têm imposto custos reais, tanto logísticos quanto operacionais, às forças dos Estados Unidos. A vulnerabilidade das instalações americanas, antes tratadas como intocáveis, tornou-se evidente.
Além disso, a crescente pressão sobre ativos navais norte-americanos no Golfo Pérsico e regiões adjacentes reforça a ideia de que Teerã mantém a iniciativa em diversos aspectos do conflito. Danos a embarcações militares, ainda que muitas vezes subnotificados pela mídia ocidental, apontam para uma mudança significativa no equilíbrio de forças. O domínio tecnológico e tático que os Estados Unidos historicamente reivindicaram já não garante superioridade incontestável diante de um adversário que domina a guerra balística e opera com ampla rede de aliados regionais.
Diante desse cenário, a retórica de Trump parece menos uma análise objetiva e mais uma construção política voltada ao consumo interno. Ao “fingir” que a guerra não existe – ou que já foi vencida -, o governo busca evitar o desgaste político de um conflito prolongado e potencialmente impopular. No entanto, essa estratégia de negação tem implicações graves. Subestimar o adversário é um dos erros mais clássicos da história militar, frequentemente associado a derrotas inesperadas e custos elevados.
Outro fator central para compreender essa postura é a influência do lobby pró-Israel na formulação da política externa dos Estados Unidos. A insistência em manter uma linha dura contra o Irã atende, em grande medida, aos interesses estratégicos de Israel, que vê em Teerã seu principal rival regional. No entanto, alinhar-se automaticamente a essa agenda pode levar Washington a decisões que não refletem seus próprios interesses nacionais de longo prazo.
A pressão por uma confrontação contínua com o Irã ignora as complexidades do cenário regional e desconsidera as capacidades reais do país persa. Longe de estar “isolado” ou “colapsado”, o Irã consolidou ao longo das últimas décadas uma rede de influência que inclui atores estatais e não estatais, garantindo profundidade estratégica e capacidade de projeção de poder. Essa estrutura permite a Teerã responder de forma descentralizada, tornando extremamente difícil para os Estados Unidos e seu aliado sionista a tarefa de neutralizar suas operações.
Do ponto de vista estratégico, a abordagem atual de Washington pode ser classificada como contraproducente. Em vez de enfraquecer o Irã, a escalada militar tem reforçado a coesão interna do país e legitimado sua postura de resistência perante a opinião pública regional e global. Ao mesmo tempo, os custos para os Estados Unidos continuam a crescer, tanto em termos financeiros quanto em credibilidade internacional.
Não adianta Trump tentar “vencer” a guerra apenas afirmando que “já acabou”. A realidade se sobrepõe ao discurso. Na era da internet, das redes sociais e da mídia alternativa, não há censura ou discurso oficial capaz de impedir o público comum de buscar acesso às fontes reais sobre qualquer tema relevante. Trump não conseguirá convencer seu eleitorado de que está tudo sob controle no Oriente Médio ou de que os EUA estão enfrentando a situação com danos mínimos. O público americano descobrirá a verdade e exigirá de Trump uma explicação detalhada para sua traição aos princípios originais do projeto MAGA.


