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Bruna Frascolla
February 25, 2026
© Photo: Public domain

Uma disciplina – uma disciplina bem desprezada, e cujo conteúdo varia a depender da instituição – diz que milagres e ações demoníacas são reais.

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No mês passado, tratei do problema de que a ciência moderna padece desde o seu berço: o seu caráter fragmentário, já que existem mil disciplinas autônomas, com mil e uma especialidades, mas não existe um corpus de conhecimento. A física não sabe se o vidro é sólido ou líquido, a química tem certeza de que é sólido. Não existe uma definição do homem válida em todas as disciplinas, e de repente tivemos de aceitar (por força de lei) que mulheres têm pênis. Esse caráter fragmentário, creio eu, advém da influência que a magia renascentista teve sobre a constituição da ciência moderna: quando o edifício uno da filosofia escolástica foi destruído pela Revolução Copernicana, entraram em cena os homens da Renascença, que faziam tentativas ecléticas de construir conhecimento sem se preocupar com coerência, importando-se antes com a utilidade aparente. Além disso, a imensa influência da cabala na Renascença fez com que os homens de ciência colocassem em primeiro plano a meta de dominar a natureza para fazer “magia”, tal como Francis Bacon pretendia. Com o espírito da Renascença, a ciência abandona a pretensão universalista de descrever o todo e passa a procurar truques úteis.

Argumentei então que o mundo precisa restaurar o ideal original da universidade, que visava a constituir um conhecimento do todo (universum) que criasse um corpo coerente, em vez de continuarmos com disciplinas que não prestam contas umas às outras. Mesmo antes do advento do pós-modernismo, o atual estado de coisas é o do relativismo, já que cada disciplina tem a “sua” verdade.

Neste mês, temos visto a possibilidade de o neoateísmo ser um artifício propagandístico promovido por gente que, na verdade, quer privatizar os fenômenos não-explicáveis pelas ciências naturais. A plebe tem que ser ateia e guiar-se por um clero laico de divulgadores científicos, enquanto uns poucos iluminados têm um misterioso templo numa ilha privada, na qual se fazem as coisas mais horripilantes. Assim, devemos perguntar: qual é a atitude que a humanidade produtora de conhecimento deveria ter diante de fenômenos que não são explicáveis pelas ciências naturais?

A atitude atual creio que seja exatamente aquela promovida por David Hume (1711 – 1776) na Investigação sobre o entendimento humano. Aí ele defende que não se deve crer em nenhum relato de milagre, porque o testemunho de nenhuma autoridade humana deve ser superior ao testemunho que atesta a regularidade das leis naturais. Se todos os historiadores dissessem que a Rainha Elisabete morreu e dias depois ressuscitou, o homem de hoje teria de considerar que os historiadores estavam pregando uma peça, porque a experiência ensina que ninguém ressuscita, e nós devemos crer mais na experiência do que na palavra de terceiros. Ademais, os milagres não acontecem na Royal Society diante de cientistas, mas em meio à gente pobre e ignorante. Acontecem em rincões (como a Judeia), não em Roma à vista de todos. Se a experiência diz que a natureza nunca viola sua regularidade, diz também que os homens gostam de crer em relatos que despertam paixões – e isso explica não os milagres, mas a crença neles. Podemos dizer que o senso comum científico é esse: as leis da natureza não se suspendem jamais, então todo relato de milagre (ou, por extensão, de fenômenos demoníacos extraordinários) é fruto da mentira ou ignorância.

Alguns séculos após a morte de Hume, os métodos para documentar e analisar ocorrências miraculosas melhorou muito. Se a NASA analisou o manto de Guadalupe e não conseguiu encontrar alguma explicação natural para a maneira como foi feita, ou por que não se decompôs, não se trata mais de meros relatos que podem ser mentirosos. Além disso, os processos de canonização – que não são poucos desde o avanço da ciência – analisam reivindicações de milagres de potenciais santos. Ao badalado Carlo Acutis, por exemplo, foi atribuída a cura de um menino brasileiro que tinha uma deformidade no pâncreas – uma cura que não podia ser explicada pela medicina moderna. E aí ficamos assim: o senso comum científico é que não existem milagres, mas cientistas analisam rotineiramente alegações de milagres para o Vaticano.

Novamente, não existe nenhuma autoridade científica universal que determine que milagres existem ou que não existem. Tudo é subjetivo: se você é ateu, então para você com certeza não existem milagres; se você não é ateu, então para você talvez milagres existam. Mas se você disser que a terra tem 5 mil anos e que a evolução das espécies não existe, aí não pode, porque a ciência já deu o seu veredito sobre o assunto. Ora, talvez seja o caso de se perguntar se a ciência, enquanto corpo de conhecimento universal, não deveria ter uma posição sobre o assunto. O atual estado de coisas é do relativismo, o qual abre a possibilidade para a adoção de dogmas simplesmente errados por parte da maioria dos cientistas.

Um experimento engraçado foi feito por William Friedkin em seu documentário de 2017. William Friedkin (1935 – 2023) é famoso pelo seu filme O Exorcista, de 1973. Mais de 40 anos depois, ele soube que o exorcista da diocese de Roma, o Pe. Amorth, escreveu um livro de memórias no qual revela que O Exorcista é o seu filme predileto. Elogiou-o, ressalvando porém que os efeitos especiais são exagerados. Friedkin então entrou em contato com o Pe. Amorth, encontrou-o na Itália e pediu para filmar um exorcismo pela primeira vez na vida. O Pe. Amorth pediu um tempo para refletir e pouco depois conseguiu uma autorização – fato sem precedente. O combinado era que Friedkin iria filmar sozinho (isto é, sem equipe), com uma câmera pequena, a nona sessão de exorcismo de uma arquiteta na Itália.

E assim foi feito. O exorcista, nada lúgubre, é um velhinho bem humorado que gosta de fazer graça; a família da arquiteta está toda reunida, mais o namorado e uma porção de padres. Durante o ritual, ela se debate e se contorce, precisando ser segurada por homens, e ruge com uma voz que não é normal (é gutural e às vezes parece ser de várias pessoas). Respondendo às perguntas do exorcista, diz que se chama Satanás e é uma legião de 89 demônios.

Ato contínuo, Friedkin leva a gravação para a Ciência averiguar – na verdade, para três professores neurocirurgiões e um departamento de psiquiatria. Pergunta a todos o que a arquiteta tem, e se as suas respectivas especialidades poderiam resolver o problema dela. Dois neurocirurgiões, ambos da UCLA, não sabem o que ela tem e negam que possam resolver o problema dela. O primeiro, que é o mais normal, aponta que nunca viu coisa assim e que aquela voz não é deste mundo. Argumenta que ela está consciente e interage com as pessoas da sala, o que descarta um certo tumor que causa delírios. Em seguida, passa para a entrevista de um professor neurocirurgião de Tel-Aviv, que acha que pode ser um tumor e que ela pode estar delirando. Não menciona a voz, que é o que mais chama a atenção. Este último tem em comum com o segundo neurocirurgião da UCLA (que parece ser ateu) a crença de que a arquiteta só está naquela situação por causa da religião. Esse tipo de coisa pode acontecer com gente religiosa: um padre, com um rabino; em suma, com quem acredita. Ao que Friedkin pergunta ao israelense em que ele acredita, e ele fica incomodado. Embora não seja religioso, acredita que Deus existe no que não pode ser compreendido. Será um espinosano ambíguo como Sagan e Sam Harris? Até aqui, mesmo com um  crendo em Deus, temos dois neurocirurgiões que agem conforme a preceito humeano. O segundo neurocirurgião da UCLA pensa que talvez se trate de um fenômeno natural que, um dia, ainda será descoberto (como a radioatividade foi um dia), e acha que a arquiteta deve continuar com o exorcismo devido ao efeito placebo. Assim como uma pessoa pode se sentir melhor só por ter uma consulta com um psiquiatra que não prescreva remédios, uma pessoa religiosa pode se sentir melhor com um padre, e isso explicaria a eventual eficácia do exorcismo.

O momento mais divertido, porém, é o da reunião com o departamento de psiquiatria de Colúmbia. Ali aprendemos que ela tem a Desordem de Transtorno Dissociativo, e mostram um paper que atrela esse diagnóstico a pessoas que relatam possessão demoníaca e se submetem a exorcismos. Nessa reunião, Friedkin aprende que o DSM respeita a diversidade cultural e, como os relatos de possessão demoníaca ocorrem em várias culturas, “possessão demoníaca” está no DSM. Conforme já vimos em maior detalhe antes (usando o trabalho do psiquiatra Guido Palomba), o DSM não tem causalidade: ele lista uma série de sintomas e dá um nome a uma síndrome que tem um protocolo de tratamento.

Nomear é fácil. E quanto ao tratamento? Um jovem médico se pronunciou. Relatar possessão demoníaca é algo que ocorre entre pessoas religiosas, e ele tem uma paciente protestante muito parecida com aquela da gravação. Inclusive tem aquela voz estranha – o jovem médico e o cirurgião normal são os únicos a destacar a coisa que mais chama a atenção na gravação. Pois a paciente tem feito terapia e tomado medicamentos e está melhor. Fica-se com a impressão de que, se um psiquiatra tiver uma paciente girando a cabeça 360º como no filme, fará terapia e tomará remédios. Ao cabo, os psiquiatras dizem que a arquiteta tem solução (terapia e remédio), enquanto os neurocirurgiões disseram que não.

Por outro lado, no documentário vê-se que tudo isso começou por causa da universidade. William Peter Blatty (1928 – 2017), autor do livro O Exorcista em que o filme se baseia, teve aulas de teologia com um jesuíta na Universidade de Georgetown, em Washington, e ouviu a história da possessão demoníaca de um adolescente ocorrida em 1949, em Maryland, numa família luterana. O menino de 14 anos dizia estar possuído, a família procurou médicos e psiquiatras, mas acabou recorrendo aos serviços da Igreja Católica, que enviou um padre de Washintgon para realizar o exorcismo. Blatty foi atrás da história e do padre, mas não conseguiu contato com a família do garoto, que queria manter sigilo máximo sobre a história. O fato de que uma família luterana procurou a Igreja Católica sugere que os cientistas estavam errados ao crerem que a eficácia, explicada como placebo, depende da afinidade cultural.

Pois bem: aí se vê bem o estado de coisas da universidade. Uma disciplina – uma disciplina bem desprezada, e cujo conteúdo varia a depender da instituição – diz que milagres e ações demoníacas são reais. Já as outras não dizem nada, mas têm um senso comum tácito, chancelado pela mídia, segundo o qual não existem em hipótese alguma. Cada um crê no que quiser.

As universidades, os milagres e o relativismo

Uma disciplina – uma disciplina bem desprezada, e cujo conteúdo varia a depender da instituição – diz que milagres e ações demoníacas são reais.

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No mês passado, tratei do problema de que a ciência moderna padece desde o seu berço: o seu caráter fragmentário, já que existem mil disciplinas autônomas, com mil e uma especialidades, mas não existe um corpus de conhecimento. A física não sabe se o vidro é sólido ou líquido, a química tem certeza de que é sólido. Não existe uma definição do homem válida em todas as disciplinas, e de repente tivemos de aceitar (por força de lei) que mulheres têm pênis. Esse caráter fragmentário, creio eu, advém da influência que a magia renascentista teve sobre a constituição da ciência moderna: quando o edifício uno da filosofia escolástica foi destruído pela Revolução Copernicana, entraram em cena os homens da Renascença, que faziam tentativas ecléticas de construir conhecimento sem se preocupar com coerência, importando-se antes com a utilidade aparente. Além disso, a imensa influência da cabala na Renascença fez com que os homens de ciência colocassem em primeiro plano a meta de dominar a natureza para fazer “magia”, tal como Francis Bacon pretendia. Com o espírito da Renascença, a ciência abandona a pretensão universalista de descrever o todo e passa a procurar truques úteis.

Argumentei então que o mundo precisa restaurar o ideal original da universidade, que visava a constituir um conhecimento do todo (universum) que criasse um corpo coerente, em vez de continuarmos com disciplinas que não prestam contas umas às outras. Mesmo antes do advento do pós-modernismo, o atual estado de coisas é o do relativismo, já que cada disciplina tem a “sua” verdade.

Neste mês, temos visto a possibilidade de o neoateísmo ser um artifício propagandístico promovido por gente que, na verdade, quer privatizar os fenômenos não-explicáveis pelas ciências naturais. A plebe tem que ser ateia e guiar-se por um clero laico de divulgadores científicos, enquanto uns poucos iluminados têm um misterioso templo numa ilha privada, na qual se fazem as coisas mais horripilantes. Assim, devemos perguntar: qual é a atitude que a humanidade produtora de conhecimento deveria ter diante de fenômenos que não são explicáveis pelas ciências naturais?

A atitude atual creio que seja exatamente aquela promovida por David Hume (1711 – 1776) na Investigação sobre o entendimento humano. Aí ele defende que não se deve crer em nenhum relato de milagre, porque o testemunho de nenhuma autoridade humana deve ser superior ao testemunho que atesta a regularidade das leis naturais. Se todos os historiadores dissessem que a Rainha Elisabete morreu e dias depois ressuscitou, o homem de hoje teria de considerar que os historiadores estavam pregando uma peça, porque a experiência ensina que ninguém ressuscita, e nós devemos crer mais na experiência do que na palavra de terceiros. Ademais, os milagres não acontecem na Royal Society diante de cientistas, mas em meio à gente pobre e ignorante. Acontecem em rincões (como a Judeia), não em Roma à vista de todos. Se a experiência diz que a natureza nunca viola sua regularidade, diz também que os homens gostam de crer em relatos que despertam paixões – e isso explica não os milagres, mas a crença neles. Podemos dizer que o senso comum científico é esse: as leis da natureza não se suspendem jamais, então todo relato de milagre (ou, por extensão, de fenômenos demoníacos extraordinários) é fruto da mentira ou ignorância.

Alguns séculos após a morte de Hume, os métodos para documentar e analisar ocorrências miraculosas melhorou muito. Se a NASA analisou o manto de Guadalupe e não conseguiu encontrar alguma explicação natural para a maneira como foi feita, ou por que não se decompôs, não se trata mais de meros relatos que podem ser mentirosos. Além disso, os processos de canonização – que não são poucos desde o avanço da ciência – analisam reivindicações de milagres de potenciais santos. Ao badalado Carlo Acutis, por exemplo, foi atribuída a cura de um menino brasileiro que tinha uma deformidade no pâncreas – uma cura que não podia ser explicada pela medicina moderna. E aí ficamos assim: o senso comum científico é que não existem milagres, mas cientistas analisam rotineiramente alegações de milagres para o Vaticano.

Novamente, não existe nenhuma autoridade científica universal que determine que milagres existem ou que não existem. Tudo é subjetivo: se você é ateu, então para você com certeza não existem milagres; se você não é ateu, então para você talvez milagres existam. Mas se você disser que a terra tem 5 mil anos e que a evolução das espécies não existe, aí não pode, porque a ciência já deu o seu veredito sobre o assunto. Ora, talvez seja o caso de se perguntar se a ciência, enquanto corpo de conhecimento universal, não deveria ter uma posição sobre o assunto. O atual estado de coisas é do relativismo, o qual abre a possibilidade para a adoção de dogmas simplesmente errados por parte da maioria dos cientistas.

Um experimento engraçado foi feito por William Friedkin em seu documentário de 2017. William Friedkin (1935 – 2023) é famoso pelo seu filme O Exorcista, de 1973. Mais de 40 anos depois, ele soube que o exorcista da diocese de Roma, o Pe. Amorth, escreveu um livro de memórias no qual revela que O Exorcista é o seu filme predileto. Elogiou-o, ressalvando porém que os efeitos especiais são exagerados. Friedkin então entrou em contato com o Pe. Amorth, encontrou-o na Itália e pediu para filmar um exorcismo pela primeira vez na vida. O Pe. Amorth pediu um tempo para refletir e pouco depois conseguiu uma autorização – fato sem precedente. O combinado era que Friedkin iria filmar sozinho (isto é, sem equipe), com uma câmera pequena, a nona sessão de exorcismo de uma arquiteta na Itália.

E assim foi feito. O exorcista, nada lúgubre, é um velhinho bem humorado que gosta de fazer graça; a família da arquiteta está toda reunida, mais o namorado e uma porção de padres. Durante o ritual, ela se debate e se contorce, precisando ser segurada por homens, e ruge com uma voz que não é normal (é gutural e às vezes parece ser de várias pessoas). Respondendo às perguntas do exorcista, diz que se chama Satanás e é uma legião de 89 demônios.

Ato contínuo, Friedkin leva a gravação para a Ciência averiguar – na verdade, para três professores neurocirurgiões e um departamento de psiquiatria. Pergunta a todos o que a arquiteta tem, e se as suas respectivas especialidades poderiam resolver o problema dela. Dois neurocirurgiões, ambos da UCLA, não sabem o que ela tem e negam que possam resolver o problema dela. O primeiro, que é o mais normal, aponta que nunca viu coisa assim e que aquela voz não é deste mundo. Argumenta que ela está consciente e interage com as pessoas da sala, o que descarta um certo tumor que causa delírios. Em seguida, passa para a entrevista de um professor neurocirurgião de Tel-Aviv, que acha que pode ser um tumor e que ela pode estar delirando. Não menciona a voz, que é o que mais chama a atenção. Este último tem em comum com o segundo neurocirurgião da UCLA (que parece ser ateu) a crença de que a arquiteta só está naquela situação por causa da religião. Esse tipo de coisa pode acontecer com gente religiosa: um padre, com um rabino; em suma, com quem acredita. Ao que Friedkin pergunta ao israelense em que ele acredita, e ele fica incomodado. Embora não seja religioso, acredita que Deus existe no que não pode ser compreendido. Será um espinosano ambíguo como Sagan e Sam Harris? Até aqui, mesmo com um  crendo em Deus, temos dois neurocirurgiões que agem conforme a preceito humeano. O segundo neurocirurgião da UCLA pensa que talvez se trate de um fenômeno natural que, um dia, ainda será descoberto (como a radioatividade foi um dia), e acha que a arquiteta deve continuar com o exorcismo devido ao efeito placebo. Assim como uma pessoa pode se sentir melhor só por ter uma consulta com um psiquiatra que não prescreva remédios, uma pessoa religiosa pode se sentir melhor com um padre, e isso explicaria a eventual eficácia do exorcismo.

O momento mais divertido, porém, é o da reunião com o departamento de psiquiatria de Colúmbia. Ali aprendemos que ela tem a Desordem de Transtorno Dissociativo, e mostram um paper que atrela esse diagnóstico a pessoas que relatam possessão demoníaca e se submetem a exorcismos. Nessa reunião, Friedkin aprende que o DSM respeita a diversidade cultural e, como os relatos de possessão demoníaca ocorrem em várias culturas, “possessão demoníaca” está no DSM. Conforme já vimos em maior detalhe antes (usando o trabalho do psiquiatra Guido Palomba), o DSM não tem causalidade: ele lista uma série de sintomas e dá um nome a uma síndrome que tem um protocolo de tratamento.

Nomear é fácil. E quanto ao tratamento? Um jovem médico se pronunciou. Relatar possessão demoníaca é algo que ocorre entre pessoas religiosas, e ele tem uma paciente protestante muito parecida com aquela da gravação. Inclusive tem aquela voz estranha – o jovem médico e o cirurgião normal são os únicos a destacar a coisa que mais chama a atenção na gravação. Pois a paciente tem feito terapia e tomado medicamentos e está melhor. Fica-se com a impressão de que, se um psiquiatra tiver uma paciente girando a cabeça 360º como no filme, fará terapia e tomará remédios. Ao cabo, os psiquiatras dizem que a arquiteta tem solução (terapia e remédio), enquanto os neurocirurgiões disseram que não.

Por outro lado, no documentário vê-se que tudo isso começou por causa da universidade. William Peter Blatty (1928 – 2017), autor do livro O Exorcista em que o filme se baseia, teve aulas de teologia com um jesuíta na Universidade de Georgetown, em Washington, e ouviu a história da possessão demoníaca de um adolescente ocorrida em 1949, em Maryland, numa família luterana. O menino de 14 anos dizia estar possuído, a família procurou médicos e psiquiatras, mas acabou recorrendo aos serviços da Igreja Católica, que enviou um padre de Washintgon para realizar o exorcismo. Blatty foi atrás da história e do padre, mas não conseguiu contato com a família do garoto, que queria manter sigilo máximo sobre a história. O fato de que uma família luterana procurou a Igreja Católica sugere que os cientistas estavam errados ao crerem que a eficácia, explicada como placebo, depende da afinidade cultural.

Pois bem: aí se vê bem o estado de coisas da universidade. Uma disciplina – uma disciplina bem desprezada, e cujo conteúdo varia a depender da instituição – diz que milagres e ações demoníacas são reais. Já as outras não dizem nada, mas têm um senso comum tácito, chancelado pela mídia, segundo o qual não existem em hipótese alguma. Cada um crê no que quiser.

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No mês passado, tratei do problema de que a ciência moderna padece desde o seu berço: o seu caráter fragmentário, já que existem mil disciplinas autônomas, com mil e uma especialidades, mas não existe um corpus de conhecimento. A física não sabe se o vidro é sólido ou líquido, a química tem certeza de que é sólido. Não existe uma definição do homem válida em todas as disciplinas, e de repente tivemos de aceitar (por força de lei) que mulheres têm pênis. Esse caráter fragmentário, creio eu, advém da influência que a magia renascentista teve sobre a constituição da ciência moderna: quando o edifício uno da filosofia escolástica foi destruído pela Revolução Copernicana, entraram em cena os homens da Renascença, que faziam tentativas ecléticas de construir conhecimento sem se preocupar com coerência, importando-se antes com a utilidade aparente. Além disso, a imensa influência da cabala na Renascença fez com que os homens de ciência colocassem em primeiro plano a meta de dominar a natureza para fazer “magia”, tal como Francis Bacon pretendia. Com o espírito da Renascença, a ciência abandona a pretensão universalista de descrever o todo e passa a procurar truques úteis.

Argumentei então que o mundo precisa restaurar o ideal original da universidade, que visava a constituir um conhecimento do todo (universum) que criasse um corpo coerente, em vez de continuarmos com disciplinas que não prestam contas umas às outras. Mesmo antes do advento do pós-modernismo, o atual estado de coisas é o do relativismo, já que cada disciplina tem a “sua” verdade.

Neste mês, temos visto a possibilidade de o neoateísmo ser um artifício propagandístico promovido por gente que, na verdade, quer privatizar os fenômenos não-explicáveis pelas ciências naturais. A plebe tem que ser ateia e guiar-se por um clero laico de divulgadores científicos, enquanto uns poucos iluminados têm um misterioso templo numa ilha privada, na qual se fazem as coisas mais horripilantes. Assim, devemos perguntar: qual é a atitude que a humanidade produtora de conhecimento deveria ter diante de fenômenos que não são explicáveis pelas ciências naturais?

A atitude atual creio que seja exatamente aquela promovida por David Hume (1711 – 1776) na Investigação sobre o entendimento humano. Aí ele defende que não se deve crer em nenhum relato de milagre, porque o testemunho de nenhuma autoridade humana deve ser superior ao testemunho que atesta a regularidade das leis naturais. Se todos os historiadores dissessem que a Rainha Elisabete morreu e dias depois ressuscitou, o homem de hoje teria de considerar que os historiadores estavam pregando uma peça, porque a experiência ensina que ninguém ressuscita, e nós devemos crer mais na experiência do que na palavra de terceiros. Ademais, os milagres não acontecem na Royal Society diante de cientistas, mas em meio à gente pobre e ignorante. Acontecem em rincões (como a Judeia), não em Roma à vista de todos. Se a experiência diz que a natureza nunca viola sua regularidade, diz também que os homens gostam de crer em relatos que despertam paixões – e isso explica não os milagres, mas a crença neles. Podemos dizer que o senso comum científico é esse: as leis da natureza não se suspendem jamais, então todo relato de milagre (ou, por extensão, de fenômenos demoníacos extraordinários) é fruto da mentira ou ignorância.

Alguns séculos após a morte de Hume, os métodos para documentar e analisar ocorrências miraculosas melhorou muito. Se a NASA analisou o manto de Guadalupe e não conseguiu encontrar alguma explicação natural para a maneira como foi feita, ou por que não se decompôs, não se trata mais de meros relatos que podem ser mentirosos. Além disso, os processos de canonização – que não são poucos desde o avanço da ciência – analisam reivindicações de milagres de potenciais santos. Ao badalado Carlo Acutis, por exemplo, foi atribuída a cura de um menino brasileiro que tinha uma deformidade no pâncreas – uma cura que não podia ser explicada pela medicina moderna. E aí ficamos assim: o senso comum científico é que não existem milagres, mas cientistas analisam rotineiramente alegações de milagres para o Vaticano.

Novamente, não existe nenhuma autoridade científica universal que determine que milagres existem ou que não existem. Tudo é subjetivo: se você é ateu, então para você com certeza não existem milagres; se você não é ateu, então para você talvez milagres existam. Mas se você disser que a terra tem 5 mil anos e que a evolução das espécies não existe, aí não pode, porque a ciência já deu o seu veredito sobre o assunto. Ora, talvez seja o caso de se perguntar se a ciência, enquanto corpo de conhecimento universal, não deveria ter uma posição sobre o assunto. O atual estado de coisas é do relativismo, o qual abre a possibilidade para a adoção de dogmas simplesmente errados por parte da maioria dos cientistas.

Um experimento engraçado foi feito por William Friedkin em seu documentário de 2017. William Friedkin (1935 – 2023) é famoso pelo seu filme O Exorcista, de 1973. Mais de 40 anos depois, ele soube que o exorcista da diocese de Roma, o Pe. Amorth, escreveu um livro de memórias no qual revela que O Exorcista é o seu filme predileto. Elogiou-o, ressalvando porém que os efeitos especiais são exagerados. Friedkin então entrou em contato com o Pe. Amorth, encontrou-o na Itália e pediu para filmar um exorcismo pela primeira vez na vida. O Pe. Amorth pediu um tempo para refletir e pouco depois conseguiu uma autorização – fato sem precedente. O combinado era que Friedkin iria filmar sozinho (isto é, sem equipe), com uma câmera pequena, a nona sessão de exorcismo de uma arquiteta na Itália.

E assim foi feito. O exorcista, nada lúgubre, é um velhinho bem humorado que gosta de fazer graça; a família da arquiteta está toda reunida, mais o namorado e uma porção de padres. Durante o ritual, ela se debate e se contorce, precisando ser segurada por homens, e ruge com uma voz que não é normal (é gutural e às vezes parece ser de várias pessoas). Respondendo às perguntas do exorcista, diz que se chama Satanás e é uma legião de 89 demônios.

Ato contínuo, Friedkin leva a gravação para a Ciência averiguar – na verdade, para três professores neurocirurgiões e um departamento de psiquiatria. Pergunta a todos o que a arquiteta tem, e se as suas respectivas especialidades poderiam resolver o problema dela. Dois neurocirurgiões, ambos da UCLA, não sabem o que ela tem e negam que possam resolver o problema dela. O primeiro, que é o mais normal, aponta que nunca viu coisa assim e que aquela voz não é deste mundo. Argumenta que ela está consciente e interage com as pessoas da sala, o que descarta um certo tumor que causa delírios. Em seguida, passa para a entrevista de um professor neurocirurgião de Tel-Aviv, que acha que pode ser um tumor e que ela pode estar delirando. Não menciona a voz, que é o que mais chama a atenção. Este último tem em comum com o segundo neurocirurgião da UCLA (que parece ser ateu) a crença de que a arquiteta só está naquela situação por causa da religião. Esse tipo de coisa pode acontecer com gente religiosa: um padre, com um rabino; em suma, com quem acredita. Ao que Friedkin pergunta ao israelense em que ele acredita, e ele fica incomodado. Embora não seja religioso, acredita que Deus existe no que não pode ser compreendido. Será um espinosano ambíguo como Sagan e Sam Harris? Até aqui, mesmo com um  crendo em Deus, temos dois neurocirurgiões que agem conforme a preceito humeano. O segundo neurocirurgião da UCLA pensa que talvez se trate de um fenômeno natural que, um dia, ainda será descoberto (como a radioatividade foi um dia), e acha que a arquiteta deve continuar com o exorcismo devido ao efeito placebo. Assim como uma pessoa pode se sentir melhor só por ter uma consulta com um psiquiatra que não prescreva remédios, uma pessoa religiosa pode se sentir melhor com um padre, e isso explicaria a eventual eficácia do exorcismo.

O momento mais divertido, porém, é o da reunião com o departamento de psiquiatria de Colúmbia. Ali aprendemos que ela tem a Desordem de Transtorno Dissociativo, e mostram um paper que atrela esse diagnóstico a pessoas que relatam possessão demoníaca e se submetem a exorcismos. Nessa reunião, Friedkin aprende que o DSM respeita a diversidade cultural e, como os relatos de possessão demoníaca ocorrem em várias culturas, “possessão demoníaca” está no DSM. Conforme já vimos em maior detalhe antes (usando o trabalho do psiquiatra Guido Palomba), o DSM não tem causalidade: ele lista uma série de sintomas e dá um nome a uma síndrome que tem um protocolo de tratamento.

Nomear é fácil. E quanto ao tratamento? Um jovem médico se pronunciou. Relatar possessão demoníaca é algo que ocorre entre pessoas religiosas, e ele tem uma paciente protestante muito parecida com aquela da gravação. Inclusive tem aquela voz estranha – o jovem médico e o cirurgião normal são os únicos a destacar a coisa que mais chama a atenção na gravação. Pois a paciente tem feito terapia e tomado medicamentos e está melhor. Fica-se com a impressão de que, se um psiquiatra tiver uma paciente girando a cabeça 360º como no filme, fará terapia e tomará remédios. Ao cabo, os psiquiatras dizem que a arquiteta tem solução (terapia e remédio), enquanto os neurocirurgiões disseram que não.

Por outro lado, no documentário vê-se que tudo isso começou por causa da universidade. William Peter Blatty (1928 – 2017), autor do livro O Exorcista em que o filme se baseia, teve aulas de teologia com um jesuíta na Universidade de Georgetown, em Washington, e ouviu a história da possessão demoníaca de um adolescente ocorrida em 1949, em Maryland, numa família luterana. O menino de 14 anos dizia estar possuído, a família procurou médicos e psiquiatras, mas acabou recorrendo aos serviços da Igreja Católica, que enviou um padre de Washintgon para realizar o exorcismo. Blatty foi atrás da história e do padre, mas não conseguiu contato com a família do garoto, que queria manter sigilo máximo sobre a história. O fato de que uma família luterana procurou a Igreja Católica sugere que os cientistas estavam errados ao crerem que a eficácia, explicada como placebo, depende da afinidade cultural.

Pois bem: aí se vê bem o estado de coisas da universidade. Uma disciplina – uma disciplina bem desprezada, e cujo conteúdo varia a depender da instituição – diz que milagres e ações demoníacas são reais. Já as outras não dizem nada, mas têm um senso comum tácito, chancelado pela mídia, segundo o qual não existem em hipótese alguma. Cada um crê no que quiser.

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