Assim como a escolástica foi um corpo de conhecimento institucionalizado assentado sobre dogmas religiosos, todo o establishment científico atual provavelmente se assenta sobre dogmas coesos de natureza metafísica.
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Em meio à avalanche de coisas dignas de atenção relativas a Jeffrey Epstein, eu queria chamar atenção a uma combinação muito atípica: religiosidade rigorosa e ateísmo militante.
A religiosidade aparece em sua forma mais extravagante com a ideia de Epstein de financiar o desenvolvimento de um porco sem cascos fendidos – um porco kosher geneticamente modificado – para que ele pudesse comer bacon. O fato de se tentar driblar as proibições divinas está longe de ser uma novidade no judaísmo talmúdico (o exemplo mais prosaico é o uso de peruca para cobrir os cabelos femininos). Causa espécie a ideia de um criminoso terrível ser uma pessoa muito religiosa, já que nos defrontamos com a possibilidade de a religião dele se preocupar mais com restrições alimentares do que com restrições morais. Mas isso não deveria ser novidade. Como praticamente ninguém conhece o Talmude sem ser um judeu religioso capaz de ler hebraico, fica a recomendação da leitura do indispensável História judaica, religião judaica, de Israel Shahak, que expõe a imoralidade e o supremacismo racial intrínsecos ao Talmude. Daí não se segue que todo judeu religioso seja uma pessoa ruim, mas sim que, se ele for uma boa pessoa, é por inclinação natural e influência da cultura em que está inserido, não pelo Talmude (cujas dezenas de volumes Epstein exibia em sua estante).
Quanto ao ateísmo militante, foi divulgada uma foto em que constavam juntos, no Lolita Express, Richard Dawkins, Daniel Dennett e Steven Pinker. Ou seja, dois dos “quatro cavaleiros do neoateísmo” (Dawkins, Dennett, Harris e Hitchens, falecido em 2011), mais o judeu ateu de Harvard Steven Pinker, que tece científicas loas ao progresso moral dos nossos tempos. Além disso, foi divulgada a informação de que um clube de ateus que se acham cientistas geniais (do qual participa Sam Harris) contava com a filantropia de Epstein. É Edge.org, o nome do clube. Um religioso financiando ateus que têm certeza de que pessoas que acreditam em Deus são estúpidas? Que estranho!
É possível pensar numa conexão utilitária entre Epstein e o clube de ateus cientificistas. Em um longo artigo para o Unlimited Hangout sobre a adesão do pedófilo às ideias utópicas do Vale do Silício, o jornalista Max Jones destaca o que o clube tinha a oferecer: “Entre [os] cientistas [do clube] estava Craig Venter, um geneticista […] que continua a ser uma figura significativa nos anais do. Venter e Church — o supramencionado diretor do Personal Genome Project de Harvard — deram uma master class do Edge juntos, ensinando a uma nata de oligarcas das Big Techs e figuras da mídia, como Larry Page (fundador do Google) e Elon Musk […]. Sua aula focava num futuro utópico, no qual o homem se funde com máquinas por meio de leituras computadorizadas das sequências genéticas, ‘nas quais o código pode ser replicado de maneira exata, manipulado com liberdade e traduzido de volta para organismos vivos, escrevendo de volta’ — ou, dito de modo mais simples, edição genética.”
Já é bem sabido que Epstein tinha o próprio DNA na mais alta estima, e que queria congelar o próprio cérebro e pênis, então faz sentido que, por razões utilitárias, subsidie um clube de ateus que inclui cientistas com ideias malucas similares às suas. No entanto, devemos outra vez nos perguntar que diabos de religião é essa, tão compatível com crenças materialistas.
Os cristãos creem na ressurreição da carne. Já os judeus, segundo o Chabad, não creem na ressurreição dos corpos, e creem que todas as almas passam por uma purgação dolorosa antes de poderem gozar do prazer espiritual. Grosso modo, é como se todos fossem ao inferno antes de ir para o céu. Assim, se um judeu acreditar nisso porém amar muito a vida corpórea, precisará resolver o problema aqui neste mundo, impedindo a morte. E se Epstein é um judeu que acredita no sobrenatural, é muito plausível que busque o auxílio de algum dos vários demônios em cuja existência os judeus acreditam. Assim teríamos uma explicação para a existência de um misterioso templo em sua ilha – afinal, judeus normais têm sinagoga, não templo.
O templo havia sido esvaziado quando foi fotografado por dentro. Restou pouco mais que uma estante vazia e uma pintura no teto representando o céu com os signos do zodíaco. Ora, a astrologia fazia parte do ocultismo, assim como a cabala, e esse caldo cultural ganhou tração no Ocidente durante a Renascença. Como temos visto nos últimos artigos, essa movimentação ocultista também era usualmente conexa com um proto-sionismo cristão: no mínimo desde o cabalista cristão Guilherme Postel (1510 – 1581), circula na Europa a crença de que os judeus têm um messias secular distinto do messias cristão (Jesus), de modo que eles aguardam um monarca que irá derrubar Constantinopla e devolver-lhes a Terra Santa. De lá, o monarca governará o mundo, o qual terá uma única religião. Vimos também que século XVI essa ideia era divulgada por pessoas ligadas ao rabino português Menasseh Ben Israel. Tanto Cristina da Suécia quanto Vieira acreditavam em tal profecia. O que variava era o monarca: para Cristina, provavelmente foi em algum momento o Príncipe Condé, pois essa era a versão divulgada por La Peyrère; para Antônio Vieira, era João IV de Portugal, o primeiro rei da dinastia Bragança. Ora, Epstein afirmava representar os Rothchild (família judaica que viabilizou o Estado de Israel) e tinha estreitas relações com figuras importantes da entidade sionista.
Uma olhada para o século XVII ajuda a compreender também o próprio Epstein. Na entrevista inédita concedida a Steve Bannon, que foi vazada recentemente, Epstein falava suas concepções da alma. Ele estava certa de que existia alma, mas ela era composta por uma matéria inobservável: era a “matéria escura” do cérebro, que com certeza existe, está no cérebro, mas não pode ser vista nem definida. Chama a atenção, então, que em vez de simplesmente concluir que a alma não é material, Epstein conclui que é uma matéria inobservável. Daí conclui-se que ele era um materialista dogmático. Isso é tanto mais intrigante porque ele se expressa em termos muito dualistas; assim, em vez de dividir o mundo entre extensão e espírito (corpo e alma), ele divide entre matéria visível e matéria invisível. (Na verdade, nem dá para dizer que esse seja um vício original de Epstein, pois o conceito de matéria escura é tomado da física. Há um texto do cosmólogo e historiador da ciência beneditino Stanley Jaki contra um cliente de Epstein chamado Stephen Hawking no qual é criticada a pressuposição dogmática da matéria inobservável. O título é “Evicting the Creator” e está na coletânea Christ and Sience. Agradeço ao leitor da Strategic Culture que enviou à redação a recomendação desse autor.)
A ideia de que a alma é uma coisa material, inclusive composta por átomos, não é invenção de Epstein. É, na verdade, mais velha do que Cristo: consta em De rerum natura, o livro que Cristina da Suécia considerava representar melhor a religião dos filósofos seguida por ela. A obra foi escrita pelo epicurista romano Tito Lucrécio Caro, que viveu no século I a. C. Segundo sua explicação, todo o mundo é composto por átomos em movimento caótico. A ordem visível no mundo não tem sua origem num criador, mas sim nesse eterno movimento: os átomos vão se combinando e como que testando as formas. As que são bem ordenadas subsistem, as que não mal ordenadas perecem. É, a rigor, seleção natural muito antes de Darwin. E como tudo é material, a nossa alma também se dissolve quando a ordem do nosso corpo se rompe em definitivo, levando-nos à morte e à putrefação. Os deuses existem, mas ficam se deleitando entre si e não se importam com os mortais. A religiosidade das pessoas se explica pela ignorância das causas (que são todas naturais). Em suma, De rerum natura e um livro muito alinhado com as crenças cientificistas.
O livro passou boa parte da História ocidental perdido. Foi redescoberto na Renascença (época áurea do ocultismo na Europa ocidental) e há um livro de propaganda cantando a sua redescoberta: A Virada, de Stephen Greenblatt, mais um professor judeu ateu de Harvard. Ele ganhou um Pulitzer pela peça de propaganda em que ensina que Roma é uma fábrica de mentiras.
Diante do quadro geral, que inclui Jeffrey Epstein, vemos que não há uma contradição essencial entre o materialismo e a religiosidade mais supersticiosa. O mais provável é que haja uma escola de pensamento ocidental anti-romana, anti-turca e filossionista que surge na Renascença com o ocultismo (que inclui tanto as escolas da Antiguidade descartadas pela escolástica, como o epicurismo, quanto as diversas cabalas), desenvolve-se com o empirismo no início da modernidade, transforma-se em Iluminismo e depois vai dar no cientificismo que alcança os nossos dias. Entre as figuras mais conhecidas que são importantes nessa história estão o britânico Francis Bacon (que considerava a ciência uma forma de magia), Espinoza (judeu português da Holanda cujo sistema filosófico racionalista bebe do epicurismo, e cujo panteísmo se confunde a tal ponto com ateísmo que acarretou em excomunhão), o britânico David Hume (que tem um ensaio contra a imortalidade da alma no qual revive a ideia epicurista de alma composta por átomos) e o britânico Charles Darwin (que melhor soube aproveitar a premissa epicurista da ordem intrínseca à matéria).
Assim como a escolástica foi um corpo de conhecimento institucionalizado assentado sobre dogmas religiosos, todo o establishment científico atual provavelmente se assenta sobre dogmas coesos de natureza metafísica. A questão é que não estamos informados disto, nem discernimos o seu nexo na História.


