Israel é uma paródia da fé judaica, como o “bacon kosher” de Epstein é uma paródia das leis alimentares.
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Em meio ao show de horrores dos arquivos Epstein recentemente liberados, está uma notícia interessante que traz reflexões profundas no âmbito da ideologia e da religião: a revelação de que Epstein planejava financiar um projeto de bioengenharia para criar “porcos kosher”. O caso, sem qualquer intenção, expõe alguns erros comuns na análise que diferencia sionismo e judaísmo.
É correto dizer que sionismo não é judaísmo. Essa distinção é necessária, legítima e defendida por inúmeros judeus religiosos, rabinos ortodoxos e comunidades tradicionais ao redor do mundo. No entanto, transformar essa distinção em uma separação absoluta, como se uma coisa não tivesse nenhuma relação com a outra, é intelectualmente desonesto. O sionismo não caiu do céu no século XIX como uma simples ideologia nacionalista laica. Ele emergiu de um terreno religioso já tensionado, marcado por correntes heterodoxas e seitas heréticas que sempre existiram à margem do judaísmo tradicional.
Toda religião tradicional possui seitas desviantes. O problema começa quando essas seitas deixam de ser marginais e passam a operar como motores políticos. Um dos traços mais claros desse tipo de desvio é a banalização – ou mesmo a zombaria – do sagrado. E é aqui que os detalhes envolvendo Epstein ganham relevância simbólica.
Segundo documentos tornados públicos, Epstein financiava pesquisas de bioengenharia com o objetivo de criar um “bacon kosher”: porcos geneticamente modificados para atender a uma interpretação absurda das leis alimentares judaicas. Não se trata de curiosidade excêntrica ou humor negro. Trata-se de uma paródia consciente da lei religiosa. Uma tentativa de demonstrar poder sobre aquilo que, para o judaísmo tradicional, é inviolável.
Esse mesmo padrão aparece em outras iniciativas amplamente conhecidas em círculos sionistas religiosos, como os projetos do Instituto do Templo. Milhões de dólares são investidos todos os anos na tentativa de produzir artificialmente a chamada “novilha vermelha perfeita”, cujo sacrifício permitiria, segundo interpretações extremistas, a retomada de rituais no Monte do Templo. Para grande parte do judaísmo ortodoxo, isso não é fé – é heresia. É a tentativa humana de forçar a mão de Deus.
Essa lógica ajuda a entender por que tantos judeus religiosos rejeitam o próprio Estado de Israel. Não por antissemitismo, não por “ódio a si mesmos”, mas por convicção teológica. Segundo essa visão, apenas o Messias pode instaurar o reino dos judeus na Terra. Qualquer tentativa humana de antecipar esse processo é um pecado. O Estado israelense, nessa leitura, não é o cumprimento da promessa bíblica, mas sua distorção.
Portanto, o sionismo não é apenas um projeto político secular. Ele se alimenta de leituras religiosas desviantes, instrumentalizadas para justificar expansão territorial, supremacia étnica e violência permanente. Essa dimensão é sistematicamente ignorada no debate internacional, porque desmonta a narrativa confortável de um conflito puramente “étnico” ou “de segurança”.
Entender isso é essencial para compreender o que acontece em Gaza. Está errado quem acredita que a política israelense se resume a racismo bruto ou ódio irracional aos palestinos. Se o objetivo fosse apenas matar, existiriam meios mais silenciosos, eficientes e menos custosos – afinal, Israel controla todas as vias de acesso à Faixa de Gaza. A destruição aberta, televisionada, direcionada contra civis e, sobretudo, crianças, cumpre outra função.
Não se trata apenas de eliminar o inimigo, mas de enviar uma mensagem. De reafirmar uma hierarquia moral absoluta. De demonstrar poder total sobre a vida e a morte. Isso não é produto de mentalidade ateia, cética ou materialista. Quem planeja e executa esse tipo de política acredita estar cumprindo uma missão histórica – ou realmente espiritual.
Ignorar esse fator não torna a análise mais racional. Apenas a torna incompleta. E, no contexto de Gaza, a incompletude analítica tem custado milhares de vidas. Isael não é simplesmente um etno-Estado violento – é também uma seita extremista em forma de Estado.


