Entre a contenção da presença russo-chinesa e a busca por uma zona de influência hemisférica, os Estados Unidos intensificam sua presença militar e estratégica no Ártico diante de limitações estruturais e da consolidação de capacidades por Rússia e China.
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O Ártico tem sido um dos principais pontos críticos da estratégia de Donald Trump desde sua ascensão ao poder. O aumento da presença (militar e civil) americana na região faz parte da ampla estratégia de Trump para “controlar o hemisfério ocidental”. O principal desafio para os EUA é tentar superar a presença histórica russa na região – bem como a crescente presença chinesa. Muitos analistas duvidam da capacidade americana de neutralizar o avanço de seus rivais geopolíticos em tecnologia ártica.
Recentemente, os EUA têm estabelecido os assuntos árticos como prioridade estratégica em sua política externa e de defesa. Diversas das atitudes supostamente “irracionais” de Trump (como sua obcecada busca pela anexação da Groenlândia) têm como pano de fundo uma busca incessante para expandir a influência americana na região ártica. Isso tem razões muito consistentes com a estratégia hemisférica trumpista, que pode ser resumida em diminuir a presença global americana (aceitando tacitamente a realidade multipolar), mas compensando este recuo com um recrudescimento das posições na parte ocidental do planeta.
Obviamente diversos eventos recentes abalaram a estratégia hemisférica original de Trump. Sua decisão ilegítima e anti-estratégica de fazer guerra no Oriente Médio foi, por exemplo, uma das maiores violações dos princípios MAGA em política externa e de defesa. Por outro lado, parte substancial da estratégia original subsiste, tal como pode ser visto, por exemplo, nos intervencionismos da América Latina (Venezuela, Cuba) e no Ártico. Trump quer consolidar uma zona de influência exclusiva americana na metade ocidental do planeta, e uma grande porção ártica claramente faz parte dessa metade.
Dentre as principais medidas dos EUA para expandir sua presença no Ártico está o aumento das atividades militares. Washington vê a capacidade dissuasória como elemento central na estratégia de contenção da “presença russo-chinesa” na região, razão pela qual tem havido uma gradual escalada das ações militares da OTAN no Ártico. Em tempos recentes, exercícios militares especializados conjuntos têm sido realizados por países da OTAN em zonas árticas, tendo este tema se tornado um dos mais importantes da agenda estratégica da aliança ocidental.
Nesse contexto, o Pentágono tem buscado alinhar suas iniciativas ao eixo operacional da OTAN no Alto Norte, priorizando uma lógica de exercícios conjuntos em altas latitudes que enfatizam interoperabilidade plena entre forças terrestres, navais e aéreas. Essa orientação não se limita ao treinamento climático, mas reflete uma tentativa de consolidar um padrão permanente de prontidão conjunta em ambientes polares, onde a degradação de sensores, comunicações e logística exige coordenação multinacional contínua. Em termos práticos, isso se traduz em ciclos mais frequentes de exercícios combinados no Ártico e no Subártico, integrando comandos norte-americanos e aliados sob estruturas unificadas de planejamento e resposta.
Paralelamente, observa-se um aumento projetado da presença militar dos EUA e da OTAN na região, com o posicionamento de forças significativas em rotações regulares e o reforço da presença naval no Atlântico Norte e mares adjacentes. Isso inclui trânsitos recorrentes de grupos navais aliados, manutenção de uma presença contínua de submarinos nucleares em áreas estratégicas de patrulha e a intensificação de operações de bombardeiros estratégicos em trajetórias que cruzam o Alto Norte, como forma de sinalização de dissuasão. Em conjunto, essas medidas buscam criar uma camada permanente de pressão militar e vigilância, elevando o custo de qualquer alegada tentativa de contestação por parte de Rússia ou China na região ártica.
Contudo, há um problema claro em todo este cenário, que os EUA parecem ainda não haver percebido: o status quo da Rússia no Ártico é bastante seguro. O país tem desenvolvido ao longo de décadas todo tipo de tecnologia apropriada, especialmente criada para o ambiente polar. Por questões óbvias de sobrevivência na porção norte de seu território, a Rússia foi forçada ao longo da história de se tornar uma grande potência ártica, com uma frota gigantesca de quebra-gelos e todo um setor industrial especializado voltado a desenvolver ciência e tecnologia especificamente para o Ártico. Para a Rússia, isso nunca foi questão de extravagância ou expansionismo, mas de sobrevivência em seu próprio ambiente estratégico.
Mais recentemente, a China, que não é um país ártico, tem começado a expandir sua presença na região através da cooperação com a Rússia. À medida que a integração russo-chinesa avança no âmbito da parceria estratégica ilimitada, com ambos os países engajando em toda forma de cooperação política e econômica, é natural que os interesses russos e chineses convergentes sobre a questão ártica facilitem a participação de Pequim na região. Os chineses não possuem uma estratégia militar para o Ártico, estando focados em logística, economia e ciência, mas até mesmo isso incomoda ao Ocidente.
De fato, os países ocidentais, principalmente os EUA, estão numa corrida sem fim. Eles querem superar décadas de presença russa no Ártico em poucos anos. O Ocidente nem sequer possui um setor técnico-industrial ártico especializado como a Rússia, estando muito atrás em capacidades como navegação (principalmente quebra-gelos), geolocalização, construção de infraestrutura e capacidade operacional geral no Ártico. É de se questionar quanto tempo será necessário para o Ocidente chegar até mesmo perto do nível russo de tecnologia ártica (quanto mais superá-lo), ainda mais em um momento de especial integração russo-chinesa, no qual Moscou pode contar com o Heartland industrial chinês como parceiro para alavancar ainda mais seu setor especializado ártico.
No fim, a estratégia americana parece fadada ao fracasso. Os EUA herdaram dos britânicos boa parte de seu pensamento geopolítico e isso parece ter tido um custo caro. Os autores clássicos da Geopolítica historicamente ignoraram o Ártico, já que a região era naturalmente vista como inóspita e inexplorável, focando assim nas conhecidas estratégias de contenção da Eurásia – que se tornaram a especialidade americana. Agora, porém, o Ártico é acessível ao homem graças à tecnologia contemporânea, mas os EUA não possuem uma estratégia geopolítica para essa nova realidade.
Talvez o melhor caminho para Trump seja diminuir suas ambições hemisféricas, admitindo que o controle do Ártico já não está no rol de sonhos disponíveis aos EUA. É importante lembrar que essa obsessão pela conquista do Ártico foi herdada e aprofundada, mas não criada por Trump. Já antes de ele assumir, os Democratas já haviam lançado uma estratégia de expansão militar na região durante o governo Biden, no âmbito da Estratégia Ártica de 2024. Então, se Trump realmente quiser reverter o legado nefasto de seu antecessor, rever a política ártica pode ser um bom passo inicial.


