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Bruna Frascolla
May 12, 2026
© Photo: Public domain

Em 1665, Natan de Gaza proclama Sabatai Zevi o Messias. Nasce o sabataísmo, mo-vimento messiânico que abala a diáspora judaica

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[Estamos vendo a história de Sabatai Zevi. Se você chegou agora, clique aqui e veja o começo.]

No ano de 1665, Sabatai conheceu o seu profeta. Tratava-se de um rapaz de 20 ou 21 anos; Sabatai, por outro lado, era já um quadragenário. O jovem, até então conhecido como Natan Asquenazita, era natural da Palestina e filho de um asquenazita que rodava a Europa coletando donativos para os judeus pobres da Terra Santa. Vivendo nesse ambiente místico, Natan estudou cabala como autodidata; e, em 1665, já tinha uma reputação razoável por causa de uma habilidade muito específica: saber os pecados alheios só de olhar para a cara. Os judeus da diáspora iam a Gaza, na Palestina otomana, para que Natan lhes dissesse os pecados e determinasse a sua penitência. Era como se fosse a confissão dos católicos, só que com um toque de mágica.

Scholem não dispõe de uma explicação laica para o fenômeno, mas nega que precise, já que, segundo ele, este é um fenômeno comum na história das religiões. De fato, no Ocidente moderno podemos apontar o Padre Pio, italiano que tinha também essa reputação no século XX e foi canonizado em pouco tempo. No entanto, para a Igreja esse fenômeno não é considerado bom em si mesmo, já que possuídos pelo demônio podem exibir esse tipo de conhecimento (bem como o de falar em línguas que não aprenderam). Outra coisa extraordinária admitida por Scholem é a possibilidade de aprender cabala por meio de magidim, isto é, de anjos e espíritos santos que se manifestam e dão aulas particulares ao cabalista. O autodidatismo de Natan de Gaza poderia vir daí, e isso supostamente é usual para cabalistas.

Em fevereiro ou março de 1665, meditando, Natan tem uma experiência mística: enxerga o rosto de Sabatai e vê nele o Messias. (Era possível que eles tenham se visto antes em Jerusalém.) Meses depois, sem saber do acontecido, Sabatai viaja até Gaza preocupado com suas aflições demoníacas e procura o famoso Natan Asquenazita, a fim de que ele o veja e lhe prescreva uma penitência. Natan lhe diz, porém, que ele não precisa de penitência nenhuma, pois sua alma é pura e ele é o Messias. Além disso, as suas fases de mania não eram aflição demoníaca, mas a iluminação divina. Sabatai, que estava sóbrio desde o exorcismo, em princípio recusou o diagnóstico.

Não obstante, durante o Pentecostes judaico de 1665, em Gaza, Natan participou de uma reunião com alguns rabinos, fez uma dança extática em que tirava gradualmente as peças de roupas, entrou em transe, caiu no chão desmaiado e, por sua boca, um magid ordenou aos rabinos que escutassem Natan e Sabatai. Desperto do transe, os rabinos lhes perguntaram que Sabatai era esse, e assim Natan proclamou que Sabatai era digno de reinar sobre Israel, que era o Messias. Esses rabinos da Terra Santa foram os primeiros conversos ao sabataísmo, e assim ficou mais fácil converter o próprio Sabatai Zevi. Segundo algumas fontes consultadas por Scholem, os rabinos foram aclamar Sabatai, que então se proclamou Messias e saiu montado a cavalo pelas ruas de Gaza “como um rei”, com um homem à sua frente. Tem início o sabataísmo, e a controvertida data oficial é 31 de maio de 1665. Espelhando-se em Jesus, ele escolheu 12 discípulos, os quais seriam rabinos representantes das tribos de Israel. Queria ir com eles para o Monte do Templo fazer sacrifícios.

Na dinâmica do movimento, Sabatai atuava e Natan escrevia. Em suas fases de mania, Sabatai cantava canções românticas espanholas com uma voz doce que embevecia os seguidores, pronunciava o nome inefável de Deus (“Shadai!”), mandava os seguidores comerem gorduras proibidas por crer que a transgressão da Lei santificava e alterava as práticas do calendário religioso (por exemplo, trocar um dia de jejum e penitência por um dia de festa e banquete). A santificação da transgressão é importante, porque o Talmude lista 36 transgressões puníveis por morte. Entre elas estão coisas simples como pronunciar o nome inefável, comer gorduras proibidas… E coisas como incesto. (Pesquisando as tais transgressões, encontrei uma fonte que lista uma transgressão ainda mais sinistra não mencionada por Scholem: entregar os filhos a Moloque, o deus que se comprazia com crianças incendiadas até a morte.)

Natan de Gaza, por outro lado, racionalizava as ações de Sabatai e edificava uma doutrina teológica. Para espanto de Scholem e também nosso, a teologia de Natan se assemelhava à do protestantismo, pois determinava que apenas a fé no Messias, e não as obras, salvam o homem. Por isso, Sabatai não faria milagres e ninguém devia esperá-los, pois a fé tinha que ser independente de provas.

ma vez que Sabatai era Deus (e a ideia de que o Messias era Deus não tinha precedente no judaísmo talmúdico ou místico), Natan determinou que ele poderia salvar o pior dos homens – Jesus Cristo – e condenar o melhor dos homens, segundo o seu arbítrio. Jesus era considerado o pior dos homens por ter fundado uma religião que persegue judeus. Como Sabatai era atormentado pela possibilidade de ser um falso Messias, Natan elaborou uma teoria segundo a qual todos os falsos Messias eram, na verdade, verdadeiros – até Jesus. Cada um continha um pedaço do Messias, e Jesus era a sua qelipá, a sua casca, sua ruindade. Mas Sabatai era o último Messias; depois dele, não haveria nenhum outro.

Segundo Scholem, Natan foi a um só tempo o João Batista e o São Paulo de Sabatai, pois profetizou o Messias e pôs no papel as ideias a serem inculcadas nas comunidades de adeptos – que incluiriam judeus de toda a diáspora, do Iêmen a Amsterdã, passando pela Polônia. Por isso, Scholem diz que esse foi o movimento judaico mais importante desde a queda do Segundo Templo.

Como ele fazia isso? Sobretudo por meio de cartinhas. Já na primavera (mar.-jun.) de 1665, Natan havia “encontrado” um apocalipse antigo, segundo o qual o Messias se chamaria Sabatai Zevi, filho de Mordecai Zevi, e nasceria no ano de 5386 (1626 d. C.). Ele ainda escreveria outros apocalipses. A prática da pseudoepigrafia é uma constante na história da cabala: é comum escrever um texto novo e atribuir a alguma personagem histórica ou simplesmente mais antiga.

Mas até o verão (jun.-set.) de 1665, Natan ainda não enviava cartas sabataístas para a diáspora. Nesse período, ele e Sabatai estavam ocupados com o fervor messiânico na Terra Santa. Sabatai partiu para Jerusalém com 12 discípulos e fez preparativos para oferecer um sacrifício no Monte do Templo, tendo em vista, possivelmente, o início de sua reconstrução. Os rabinos de Jerusalém começaram a rasgar as vestes, indignados. Para piorar as coisas, Sabatai agiu da maneira costumeira da sua fase de mania: pronunciou o nome inefável etc. Resulta que ele foi excomungado pelos rabinos de Jerusalém.

Findo o verão de 1665, as cartinhas da Terra Santa começam a inundar a diáspora. No entanto, todas as cartinhas são favoráveis ao sabataísmo, e jamais um rabino de Jerusalém tornou pública a excomunhão de Sabatai. Por quê? Não se sabe. Esse é um fato que, segundo Scholem, permanece misterioso. Talvez seja o maior mistério da história do sabataísmo.

O fato é que, se os rabinos de Jerusalém quisessem, o sabataísmo não se criava. Podemos olhar para o movimento como um típico delírio político baseado em fake news (como o de que em 72 horas o Exército impedirá que Lula tome posse do terceiro mandato), só que urdido numa época em que a comunicação dependia de papel. Ao Ocidente, chegavam por duas rotas: iam de barco para a Itália, donde se espalhavam para o mundo ocidental, ou iam para os Bálcãs e daí alcançavam os asquenazitas, que faziam da Polônia um segundo centro de difusão no Ocidente. Muitas comunidades judaicas tinham alguém com um parente na Terra Santa, e uma casa que recebesse tais cartas logo atraía uma multidão. Produziam-se cópias e, claro, supostas cópias. No mundo calvinista (que hospedava a poderosa comunidade de Amsterdã), as cartinhas também eram objeto de vivo interesse dos cristãos.

Antes da chuva de cartas, porém, Sabatai foi expulso de Jerusalém e rumou para Alepo (Síria), passando por Safed (Galileia, norte da Palestina) e Damasco (Síria) no caminho. Ele foi muito bem recebido nesses lugares e instou as autoridades locais a não agirem como as de Jerusalém. Nessas cidades há as primeiras notícias de dons proféticos se manifestando nos presentes: até mulheres e crianças caíam ao som do shofar (a trombeta de chifre de carneiro) e começavam a pronunciar palavras em hebraico, língua que elas desconheciam (pois o hebraico era como o latim: língua morta usada por estudiosos, ou em liturgia). No entanto, as primeiras manifestações de profecia de massa acontecem em Esmirna, no começo do mês de dezembro, já depois da chuva de cartinhas da Palestina anunciando a redenção.

O ano novo judaico começa entre setembro e outubro. Nessa época, espalhou-se que o novo ano era o Ano do Jubileu – uma festa que presume a existência do Templo e o fim do exílio. A maior parte do Ano do Jubileu sabataísta coincidiu com 1666 no calendário cristão. A partir de então, as sinagogas pararam de citar o Sultão otomano como autoridade secular e substituíram-no pelo Sultão Sabatai. Nessa época, Natan redigiu para os “crentes” (é assim que os sabataístas se chamavam) uma profecia segundo a qual dentro de menos de dois anos Sabatai tiraria o poder do rei da Turquia, porque todos os reis do mundo se submeteriam a ele. O método de Sabatai para isso seria a sua cantoria, que tanto agradava os seus seguidores. Sabatai cantaria os salmos e canções românticas em espanhol, e os reis se tornariam seus servos.

Scholem chama essa produção de cartinhas da Terra Santa de máquina de propaganda. O sabataísmo teve a peculiaridade de ser um movimento sem instituição, todo fundado em boatos. Também teve a peculiar característica de ser um motim desarmado.

Scholem elenca três motivos para o sabataísmo ter ido tão longe: 1) partiu da Terra Santa; 2) contou com o clima messiânico do período; 3) pregava arrependimento, e era difícil os rabinos  protestarem contra um movimento que prega o arrependimento. Esse clima messiânico já contava com uma febre de cartinhas fantasiosas antes do sabataísmo. A moda anterior eram as notícias das dez tribos perdidas de Israel, que eram vistas por epistológrafos anônimos nos lugares mais improváveis, prontas para a guerra. Tudo isso porque, no fim dos tempos, as dez tribos perdidas voltariam e reconquistariam a Terra Santa. Num desses relatos, difundido no mundo cristão pelo rabino Menasseh Ben Israel, morto em 1657, as tribos perdidas estavam entre os índios da América.

As cartas sabataístas chegavam às comunidades de crentes, os rabinos conservadores ofereciam resistência e eram chamados de “infiéis”. O primeiro caso drástico foi em Esmirna, onde Sabatai já havia sido excomungado antes. Um rabino “infiel” da Sinagoga Portuguesa havia sido hostilizado pela multidão de “crentes” e por pouco não fora apedrejado. Então num shabat (o dia sagrado dos judeus) Sabatai caminhou até a Sinagoga Portuguesa com um machado nas mãos e uma legião de crentes, invadiu-a a machadadas e se proclamou rei. Fez um discurso com blasfêmias e cantou sua canção favorita: Melizelda. Os crentes caíram no chão e “profetizavam” em hebraico em meio a ataques de epilepsia.

A histeria em Esmirna era tal que as crianças turcas aprenderam a palavra “infiel” em hebraico e passaram a gritá-la a esmo para os judeus, fazendo-lhes troça. Ninguém teve coragem de enfrentar os crentes e o movimento ganhou ainda mais força. Sabatai nomeou reis para Roma e para os países islâmicos. (Depois os “reis” venderam os seus títulos, exceto por um mendigo orgulhoso.) As profecias se tornaram fenômenos de massa em Esmirna: as pessoas caíam no chão tremendo e falando hebraico, até crianças de quatro anos que não conheciam a língua. Em Constantinopla, apareceu um profeta carismático pregando a palavra de Sabatai e arrastando as multidões. Scholem aponta que o fenômeno da profecia de massa não se restringia, à época, aos judeus, e um observador protestante contrário à causa sabataísta notou a semelhança entre eles e os quacres.

Os observadores críticos notaram que as profecias populares não se concretizavam. Natan então criou uma teoria segundo a qual até mesmo Samael, o Príncipe do Mal, é obrigado a anunciar a boa nova. Então ele assobia para os demônios, que falam pelas bocas das mulheres, das crianças, do vulgo, e ao mesmo tempo o Profeta Elias, que diz a verdade, fala a uns poucos. Assim, todo esse alarido profético, que mistura verdade com mentira, seria para a glória de Israel.

A essa altura, já podemos entender que os judeus estavam mesmo muito loucos. E isso tinha consequências econômicas, porque os judeus paravam de trabalhar para fazer penitência. Nas algumas comunidades mais esclarecidas, como a de Amsterdã, os judeus discutiam a logística para se transferir para a Terra Santa em barcos. Noutras, que incluíam a Rússia e a Grécia, os judeus esperavam uma nuvem que iria transportá-lo. Judeus morriam por jejuns exagerados, ou porque subir no telhado e tentar alcançar a nuvem (há registro de um caso na Grécia). As autoridades cristãs, que não se comunicavam com as turcas, sabiam que algo estava errado. Um cristão novo que se comunicava com Amsterdã explicou a situação à Inquisição Espanhola, que então fez o possível para impedir os cristãos novos de viajarem. Toda a diáspora queria ir à Palestina esperar o Messias, ou então rumar para Esmirna a fim de contemplar a face de Deus, ou seja, olhar a cara de Sabatai.

Continua.

O início fulminante do movimento sabataísta

Em 1665, Natan de Gaza proclama Sabatai Zevi o Messias. Nasce o sabataísmo, mo-vimento messiânico que abala a diáspora judaica

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No ano de 1665, Sabatai conheceu o seu profeta. Tratava-se de um rapaz de 20 ou 21 anos; Sabatai, por outro lado, era já um quadragenário. O jovem, até então conhecido como Natan Asquenazita, era natural da Palestina e filho de um asquenazita que rodava a Europa coletando donativos para os judeus pobres da Terra Santa. Vivendo nesse ambiente místico, Natan estudou cabala como autodidata; e, em 1665, já tinha uma reputação razoável por causa de uma habilidade muito específica: saber os pecados alheios só de olhar para a cara. Os judeus da diáspora iam a Gaza, na Palestina otomana, para que Natan lhes dissesse os pecados e determinasse a sua penitência. Era como se fosse a confissão dos católicos, só que com um toque de mágica.

Scholem não dispõe de uma explicação laica para o fenômeno, mas nega que precise, já que, segundo ele, este é um fenômeno comum na história das religiões. De fato, no Ocidente moderno podemos apontar o Padre Pio, italiano que tinha também essa reputação no século XX e foi canonizado em pouco tempo. No entanto, para a Igreja esse fenômeno não é considerado bom em si mesmo, já que possuídos pelo demônio podem exibir esse tipo de conhecimento (bem como o de falar em línguas que não aprenderam). Outra coisa extraordinária admitida por Scholem é a possibilidade de aprender cabala por meio de magidim, isto é, de anjos e espíritos santos que se manifestam e dão aulas particulares ao cabalista. O autodidatismo de Natan de Gaza poderia vir daí, e isso supostamente é usual para cabalistas.

Em fevereiro ou março de 1665, meditando, Natan tem uma experiência mística: enxerga o rosto de Sabatai e vê nele o Messias. (Era possível que eles tenham se visto antes em Jerusalém.) Meses depois, sem saber do acontecido, Sabatai viaja até Gaza preocupado com suas aflições demoníacas e procura o famoso Natan Asquenazita, a fim de que ele o veja e lhe prescreva uma penitência. Natan lhe diz, porém, que ele não precisa de penitência nenhuma, pois sua alma é pura e ele é o Messias. Além disso, as suas fases de mania não eram aflição demoníaca, mas a iluminação divina. Sabatai, que estava sóbrio desde o exorcismo, em princípio recusou o diagnóstico.

Não obstante, durante o Pentecostes judaico de 1665, em Gaza, Natan participou de uma reunião com alguns rabinos, fez uma dança extática em que tirava gradualmente as peças de roupas, entrou em transe, caiu no chão desmaiado e, por sua boca, um magid ordenou aos rabinos que escutassem Natan e Sabatai. Desperto do transe, os rabinos lhes perguntaram que Sabatai era esse, e assim Natan proclamou que Sabatai era digno de reinar sobre Israel, que era o Messias. Esses rabinos da Terra Santa foram os primeiros conversos ao sabataísmo, e assim ficou mais fácil converter o próprio Sabatai Zevi. Segundo algumas fontes consultadas por Scholem, os rabinos foram aclamar Sabatai, que então se proclamou Messias e saiu montado a cavalo pelas ruas de Gaza “como um rei”, com um homem à sua frente. Tem início o sabataísmo, e a controvertida data oficial é 31 de maio de 1665. Espelhando-se em Jesus, ele escolheu 12 discípulos, os quais seriam rabinos representantes das tribos de Israel. Queria ir com eles para o Monte do Templo fazer sacrifícios.

Na dinâmica do movimento, Sabatai atuava e Natan escrevia. Em suas fases de mania, Sabatai cantava canções românticas espanholas com uma voz doce que embevecia os seguidores, pronunciava o nome inefável de Deus (“Shadai!”), mandava os seguidores comerem gorduras proibidas por crer que a transgressão da Lei santificava e alterava as práticas do calendário religioso (por exemplo, trocar um dia de jejum e penitência por um dia de festa e banquete). A santificação da transgressão é importante, porque o Talmude lista 36 transgressões puníveis por morte. Entre elas estão coisas simples como pronunciar o nome inefável, comer gorduras proibidas… E coisas como incesto. (Pesquisando as tais transgressões, encontrei uma fonte que lista uma transgressão ainda mais sinistra não mencionada por Scholem: entregar os filhos a Moloque, o deus que se comprazia com crianças incendiadas até a morte.)

Natan de Gaza, por outro lado, racionalizava as ações de Sabatai e edificava uma doutrina teológica. Para espanto de Scholem e também nosso, a teologia de Natan se assemelhava à do protestantismo, pois determinava que apenas a fé no Messias, e não as obras, salvam o homem. Por isso, Sabatai não faria milagres e ninguém devia esperá-los, pois a fé tinha que ser independente de provas.

ma vez que Sabatai era Deus (e a ideia de que o Messias era Deus não tinha precedente no judaísmo talmúdico ou místico), Natan determinou que ele poderia salvar o pior dos homens – Jesus Cristo – e condenar o melhor dos homens, segundo o seu arbítrio. Jesus era considerado o pior dos homens por ter fundado uma religião que persegue judeus. Como Sabatai era atormentado pela possibilidade de ser um falso Messias, Natan elaborou uma teoria segundo a qual todos os falsos Messias eram, na verdade, verdadeiros – até Jesus. Cada um continha um pedaço do Messias, e Jesus era a sua qelipá, a sua casca, sua ruindade. Mas Sabatai era o último Messias; depois dele, não haveria nenhum outro.

Segundo Scholem, Natan foi a um só tempo o João Batista e o São Paulo de Sabatai, pois profetizou o Messias e pôs no papel as ideias a serem inculcadas nas comunidades de adeptos – que incluiriam judeus de toda a diáspora, do Iêmen a Amsterdã, passando pela Polônia. Por isso, Scholem diz que esse foi o movimento judaico mais importante desde a queda do Segundo Templo.

Como ele fazia isso? Sobretudo por meio de cartinhas. Já na primavera (mar.-jun.) de 1665, Natan havia “encontrado” um apocalipse antigo, segundo o qual o Messias se chamaria Sabatai Zevi, filho de Mordecai Zevi, e nasceria no ano de 5386 (1626 d. C.). Ele ainda escreveria outros apocalipses. A prática da pseudoepigrafia é uma constante na história da cabala: é comum escrever um texto novo e atribuir a alguma personagem histórica ou simplesmente mais antiga.

Mas até o verão (jun.-set.) de 1665, Natan ainda não enviava cartas sabataístas para a diáspora. Nesse período, ele e Sabatai estavam ocupados com o fervor messiânico na Terra Santa. Sabatai partiu para Jerusalém com 12 discípulos e fez preparativos para oferecer um sacrifício no Monte do Templo, tendo em vista, possivelmente, o início de sua reconstrução. Os rabinos de Jerusalém começaram a rasgar as vestes, indignados. Para piorar as coisas, Sabatai agiu da maneira costumeira da sua fase de mania: pronunciou o nome inefável etc. Resulta que ele foi excomungado pelos rabinos de Jerusalém.

Findo o verão de 1665, as cartinhas da Terra Santa começam a inundar a diáspora. No entanto, todas as cartinhas são favoráveis ao sabataísmo, e jamais um rabino de Jerusalém tornou pública a excomunhão de Sabatai. Por quê? Não se sabe. Esse é um fato que, segundo Scholem, permanece misterioso. Talvez seja o maior mistério da história do sabataísmo.

O fato é que, se os rabinos de Jerusalém quisessem, o sabataísmo não se criava. Podemos olhar para o movimento como um típico delírio político baseado em fake news (como o de que em 72 horas o Exército impedirá que Lula tome posse do terceiro mandato), só que urdido numa época em que a comunicação dependia de papel. Ao Ocidente, chegavam por duas rotas: iam de barco para a Itália, donde se espalhavam para o mundo ocidental, ou iam para os Bálcãs e daí alcançavam os asquenazitas, que faziam da Polônia um segundo centro de difusão no Ocidente. Muitas comunidades judaicas tinham alguém com um parente na Terra Santa, e uma casa que recebesse tais cartas logo atraía uma multidão. Produziam-se cópias e, claro, supostas cópias. No mundo calvinista (que hospedava a poderosa comunidade de Amsterdã), as cartinhas também eram objeto de vivo interesse dos cristãos.

Antes da chuva de cartas, porém, Sabatai foi expulso de Jerusalém e rumou para Alepo (Síria), passando por Safed (Galileia, norte da Palestina) e Damasco (Síria) no caminho. Ele foi muito bem recebido nesses lugares e instou as autoridades locais a não agirem como as de Jerusalém. Nessas cidades há as primeiras notícias de dons proféticos se manifestando nos presentes: até mulheres e crianças caíam ao som do shofar (a trombeta de chifre de carneiro) e começavam a pronunciar palavras em hebraico, língua que elas desconheciam (pois o hebraico era como o latim: língua morta usada por estudiosos, ou em liturgia). No entanto, as primeiras manifestações de profecia de massa acontecem em Esmirna, no começo do mês de dezembro, já depois da chuva de cartinhas da Palestina anunciando a redenção.

O ano novo judaico começa entre setembro e outubro. Nessa época, espalhou-se que o novo ano era o Ano do Jubileu – uma festa que presume a existência do Templo e o fim do exílio. A maior parte do Ano do Jubileu sabataísta coincidiu com 1666 no calendário cristão. A partir de então, as sinagogas pararam de citar o Sultão otomano como autoridade secular e substituíram-no pelo Sultão Sabatai. Nessa época, Natan redigiu para os “crentes” (é assim que os sabataístas se chamavam) uma profecia segundo a qual dentro de menos de dois anos Sabatai tiraria o poder do rei da Turquia, porque todos os reis do mundo se submeteriam a ele. O método de Sabatai para isso seria a sua cantoria, que tanto agradava os seus seguidores. Sabatai cantaria os salmos e canções românticas em espanhol, e os reis se tornariam seus servos.

Scholem chama essa produção de cartinhas da Terra Santa de máquina de propaganda. O sabataísmo teve a peculiaridade de ser um movimento sem instituição, todo fundado em boatos. Também teve a peculiar característica de ser um motim desarmado.

Scholem elenca três motivos para o sabataísmo ter ido tão longe: 1) partiu da Terra Santa; 2) contou com o clima messiânico do período; 3) pregava arrependimento, e era difícil os rabinos  protestarem contra um movimento que prega o arrependimento. Esse clima messiânico já contava com uma febre de cartinhas fantasiosas antes do sabataísmo. A moda anterior eram as notícias das dez tribos perdidas de Israel, que eram vistas por epistológrafos anônimos nos lugares mais improváveis, prontas para a guerra. Tudo isso porque, no fim dos tempos, as dez tribos perdidas voltariam e reconquistariam a Terra Santa. Num desses relatos, difundido no mundo cristão pelo rabino Menasseh Ben Israel, morto em 1657, as tribos perdidas estavam entre os índios da América.

As cartas sabataístas chegavam às comunidades de crentes, os rabinos conservadores ofereciam resistência e eram chamados de “infiéis”. O primeiro caso drástico foi em Esmirna, onde Sabatai já havia sido excomungado antes. Um rabino “infiel” da Sinagoga Portuguesa havia sido hostilizado pela multidão de “crentes” e por pouco não fora apedrejado. Então num shabat (o dia sagrado dos judeus) Sabatai caminhou até a Sinagoga Portuguesa com um machado nas mãos e uma legião de crentes, invadiu-a a machadadas e se proclamou rei. Fez um discurso com blasfêmias e cantou sua canção favorita: Melizelda. Os crentes caíram no chão e “profetizavam” em hebraico em meio a ataques de epilepsia.

A histeria em Esmirna era tal que as crianças turcas aprenderam a palavra “infiel” em hebraico e passaram a gritá-la a esmo para os judeus, fazendo-lhes troça. Ninguém teve coragem de enfrentar os crentes e o movimento ganhou ainda mais força. Sabatai nomeou reis para Roma e para os países islâmicos. (Depois os “reis” venderam os seus títulos, exceto por um mendigo orgulhoso.) As profecias se tornaram fenômenos de massa em Esmirna: as pessoas caíam no chão tremendo e falando hebraico, até crianças de quatro anos que não conheciam a língua. Em Constantinopla, apareceu um profeta carismático pregando a palavra de Sabatai e arrastando as multidões. Scholem aponta que o fenômeno da profecia de massa não se restringia, à época, aos judeus, e um observador protestante contrário à causa sabataísta notou a semelhança entre eles e os quacres.

Os observadores críticos notaram que as profecias populares não se concretizavam. Natan então criou uma teoria segundo a qual até mesmo Samael, o Príncipe do Mal, é obrigado a anunciar a boa nova. Então ele assobia para os demônios, que falam pelas bocas das mulheres, das crianças, do vulgo, e ao mesmo tempo o Profeta Elias, que diz a verdade, fala a uns poucos. Assim, todo esse alarido profético, que mistura verdade com mentira, seria para a glória de Israel.

A essa altura, já podemos entender que os judeus estavam mesmo muito loucos. E isso tinha consequências econômicas, porque os judeus paravam de trabalhar para fazer penitência. Nas algumas comunidades mais esclarecidas, como a de Amsterdã, os judeus discutiam a logística para se transferir para a Terra Santa em barcos. Noutras, que incluíam a Rússia e a Grécia, os judeus esperavam uma nuvem que iria transportá-lo. Judeus morriam por jejuns exagerados, ou porque subir no telhado e tentar alcançar a nuvem (há registro de um caso na Grécia). As autoridades cristãs, que não se comunicavam com as turcas, sabiam que algo estava errado. Um cristão novo que se comunicava com Amsterdã explicou a situação à Inquisição Espanhola, que então fez o possível para impedir os cristãos novos de viajarem. Toda a diáspora queria ir à Palestina esperar o Messias, ou então rumar para Esmirna a fim de contemplar a face de Deus, ou seja, olhar a cara de Sabatai.

Continua.

Em 1665, Natan de Gaza proclama Sabatai Zevi o Messias. Nasce o sabataísmo, mo-vimento messiânico que abala a diáspora judaica

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No ano de 1665, Sabatai conheceu o seu profeta. Tratava-se de um rapaz de 20 ou 21 anos; Sabatai, por outro lado, era já um quadragenário. O jovem, até então conhecido como Natan Asquenazita, era natural da Palestina e filho de um asquenazita que rodava a Europa coletando donativos para os judeus pobres da Terra Santa. Vivendo nesse ambiente místico, Natan estudou cabala como autodidata; e, em 1665, já tinha uma reputação razoável por causa de uma habilidade muito específica: saber os pecados alheios só de olhar para a cara. Os judeus da diáspora iam a Gaza, na Palestina otomana, para que Natan lhes dissesse os pecados e determinasse a sua penitência. Era como se fosse a confissão dos católicos, só que com um toque de mágica.

Scholem não dispõe de uma explicação laica para o fenômeno, mas nega que precise, já que, segundo ele, este é um fenômeno comum na história das religiões. De fato, no Ocidente moderno podemos apontar o Padre Pio, italiano que tinha também essa reputação no século XX e foi canonizado em pouco tempo. No entanto, para a Igreja esse fenômeno não é considerado bom em si mesmo, já que possuídos pelo demônio podem exibir esse tipo de conhecimento (bem como o de falar em línguas que não aprenderam). Outra coisa extraordinária admitida por Scholem é a possibilidade de aprender cabala por meio de magidim, isto é, de anjos e espíritos santos que se manifestam e dão aulas particulares ao cabalista. O autodidatismo de Natan de Gaza poderia vir daí, e isso supostamente é usual para cabalistas.

Em fevereiro ou março de 1665, meditando, Natan tem uma experiência mística: enxerga o rosto de Sabatai e vê nele o Messias. (Era possível que eles tenham se visto antes em Jerusalém.) Meses depois, sem saber do acontecido, Sabatai viaja até Gaza preocupado com suas aflições demoníacas e procura o famoso Natan Asquenazita, a fim de que ele o veja e lhe prescreva uma penitência. Natan lhe diz, porém, que ele não precisa de penitência nenhuma, pois sua alma é pura e ele é o Messias. Além disso, as suas fases de mania não eram aflição demoníaca, mas a iluminação divina. Sabatai, que estava sóbrio desde o exorcismo, em princípio recusou o diagnóstico.

Não obstante, durante o Pentecostes judaico de 1665, em Gaza, Natan participou de uma reunião com alguns rabinos, fez uma dança extática em que tirava gradualmente as peças de roupas, entrou em transe, caiu no chão desmaiado e, por sua boca, um magid ordenou aos rabinos que escutassem Natan e Sabatai. Desperto do transe, os rabinos lhes perguntaram que Sabatai era esse, e assim Natan proclamou que Sabatai era digno de reinar sobre Israel, que era o Messias. Esses rabinos da Terra Santa foram os primeiros conversos ao sabataísmo, e assim ficou mais fácil converter o próprio Sabatai Zevi. Segundo algumas fontes consultadas por Scholem, os rabinos foram aclamar Sabatai, que então se proclamou Messias e saiu montado a cavalo pelas ruas de Gaza “como um rei”, com um homem à sua frente. Tem início o sabataísmo, e a controvertida data oficial é 31 de maio de 1665. Espelhando-se em Jesus, ele escolheu 12 discípulos, os quais seriam rabinos representantes das tribos de Israel. Queria ir com eles para o Monte do Templo fazer sacrifícios.

Na dinâmica do movimento, Sabatai atuava e Natan escrevia. Em suas fases de mania, Sabatai cantava canções românticas espanholas com uma voz doce que embevecia os seguidores, pronunciava o nome inefável de Deus (“Shadai!”), mandava os seguidores comerem gorduras proibidas por crer que a transgressão da Lei santificava e alterava as práticas do calendário religioso (por exemplo, trocar um dia de jejum e penitência por um dia de festa e banquete). A santificação da transgressão é importante, porque o Talmude lista 36 transgressões puníveis por morte. Entre elas estão coisas simples como pronunciar o nome inefável, comer gorduras proibidas… E coisas como incesto. (Pesquisando as tais transgressões, encontrei uma fonte que lista uma transgressão ainda mais sinistra não mencionada por Scholem: entregar os filhos a Moloque, o deus que se comprazia com crianças incendiadas até a morte.)

Natan de Gaza, por outro lado, racionalizava as ações de Sabatai e edificava uma doutrina teológica. Para espanto de Scholem e também nosso, a teologia de Natan se assemelhava à do protestantismo, pois determinava que apenas a fé no Messias, e não as obras, salvam o homem. Por isso, Sabatai não faria milagres e ninguém devia esperá-los, pois a fé tinha que ser independente de provas.

ma vez que Sabatai era Deus (e a ideia de que o Messias era Deus não tinha precedente no judaísmo talmúdico ou místico), Natan determinou que ele poderia salvar o pior dos homens – Jesus Cristo – e condenar o melhor dos homens, segundo o seu arbítrio. Jesus era considerado o pior dos homens por ter fundado uma religião que persegue judeus. Como Sabatai era atormentado pela possibilidade de ser um falso Messias, Natan elaborou uma teoria segundo a qual todos os falsos Messias eram, na verdade, verdadeiros – até Jesus. Cada um continha um pedaço do Messias, e Jesus era a sua qelipá, a sua casca, sua ruindade. Mas Sabatai era o último Messias; depois dele, não haveria nenhum outro.

Segundo Scholem, Natan foi a um só tempo o João Batista e o São Paulo de Sabatai, pois profetizou o Messias e pôs no papel as ideias a serem inculcadas nas comunidades de adeptos – que incluiriam judeus de toda a diáspora, do Iêmen a Amsterdã, passando pela Polônia. Por isso, Scholem diz que esse foi o movimento judaico mais importante desde a queda do Segundo Templo.

Como ele fazia isso? Sobretudo por meio de cartinhas. Já na primavera (mar.-jun.) de 1665, Natan havia “encontrado” um apocalipse antigo, segundo o qual o Messias se chamaria Sabatai Zevi, filho de Mordecai Zevi, e nasceria no ano de 5386 (1626 d. C.). Ele ainda escreveria outros apocalipses. A prática da pseudoepigrafia é uma constante na história da cabala: é comum escrever um texto novo e atribuir a alguma personagem histórica ou simplesmente mais antiga.

Mas até o verão (jun.-set.) de 1665, Natan ainda não enviava cartas sabataístas para a diáspora. Nesse período, ele e Sabatai estavam ocupados com o fervor messiânico na Terra Santa. Sabatai partiu para Jerusalém com 12 discípulos e fez preparativos para oferecer um sacrifício no Monte do Templo, tendo em vista, possivelmente, o início de sua reconstrução. Os rabinos de Jerusalém começaram a rasgar as vestes, indignados. Para piorar as coisas, Sabatai agiu da maneira costumeira da sua fase de mania: pronunciou o nome inefável etc. Resulta que ele foi excomungado pelos rabinos de Jerusalém.

Findo o verão de 1665, as cartinhas da Terra Santa começam a inundar a diáspora. No entanto, todas as cartinhas são favoráveis ao sabataísmo, e jamais um rabino de Jerusalém tornou pública a excomunhão de Sabatai. Por quê? Não se sabe. Esse é um fato que, segundo Scholem, permanece misterioso. Talvez seja o maior mistério da história do sabataísmo.

O fato é que, se os rabinos de Jerusalém quisessem, o sabataísmo não se criava. Podemos olhar para o movimento como um típico delírio político baseado em fake news (como o de que em 72 horas o Exército impedirá que Lula tome posse do terceiro mandato), só que urdido numa época em que a comunicação dependia de papel. Ao Ocidente, chegavam por duas rotas: iam de barco para a Itália, donde se espalhavam para o mundo ocidental, ou iam para os Bálcãs e daí alcançavam os asquenazitas, que faziam da Polônia um segundo centro de difusão no Ocidente. Muitas comunidades judaicas tinham alguém com um parente na Terra Santa, e uma casa que recebesse tais cartas logo atraía uma multidão. Produziam-se cópias e, claro, supostas cópias. No mundo calvinista (que hospedava a poderosa comunidade de Amsterdã), as cartinhas também eram objeto de vivo interesse dos cristãos.

Antes da chuva de cartas, porém, Sabatai foi expulso de Jerusalém e rumou para Alepo (Síria), passando por Safed (Galileia, norte da Palestina) e Damasco (Síria) no caminho. Ele foi muito bem recebido nesses lugares e instou as autoridades locais a não agirem como as de Jerusalém. Nessas cidades há as primeiras notícias de dons proféticos se manifestando nos presentes: até mulheres e crianças caíam ao som do shofar (a trombeta de chifre de carneiro) e começavam a pronunciar palavras em hebraico, língua que elas desconheciam (pois o hebraico era como o latim: língua morta usada por estudiosos, ou em liturgia). No entanto, as primeiras manifestações de profecia de massa acontecem em Esmirna, no começo do mês de dezembro, já depois da chuva de cartinhas da Palestina anunciando a redenção.

O ano novo judaico começa entre setembro e outubro. Nessa época, espalhou-se que o novo ano era o Ano do Jubileu – uma festa que presume a existência do Templo e o fim do exílio. A maior parte do Ano do Jubileu sabataísta coincidiu com 1666 no calendário cristão. A partir de então, as sinagogas pararam de citar o Sultão otomano como autoridade secular e substituíram-no pelo Sultão Sabatai. Nessa época, Natan redigiu para os “crentes” (é assim que os sabataístas se chamavam) uma profecia segundo a qual dentro de menos de dois anos Sabatai tiraria o poder do rei da Turquia, porque todos os reis do mundo se submeteriam a ele. O método de Sabatai para isso seria a sua cantoria, que tanto agradava os seus seguidores. Sabatai cantaria os salmos e canções românticas em espanhol, e os reis se tornariam seus servos.

Scholem chama essa produção de cartinhas da Terra Santa de máquina de propaganda. O sabataísmo teve a peculiaridade de ser um movimento sem instituição, todo fundado em boatos. Também teve a peculiar característica de ser um motim desarmado.

Scholem elenca três motivos para o sabataísmo ter ido tão longe: 1) partiu da Terra Santa; 2) contou com o clima messiânico do período; 3) pregava arrependimento, e era difícil os rabinos  protestarem contra um movimento que prega o arrependimento. Esse clima messiânico já contava com uma febre de cartinhas fantasiosas antes do sabataísmo. A moda anterior eram as notícias das dez tribos perdidas de Israel, que eram vistas por epistológrafos anônimos nos lugares mais improváveis, prontas para a guerra. Tudo isso porque, no fim dos tempos, as dez tribos perdidas voltariam e reconquistariam a Terra Santa. Num desses relatos, difundido no mundo cristão pelo rabino Menasseh Ben Israel, morto em 1657, as tribos perdidas estavam entre os índios da América.

As cartas sabataístas chegavam às comunidades de crentes, os rabinos conservadores ofereciam resistência e eram chamados de “infiéis”. O primeiro caso drástico foi em Esmirna, onde Sabatai já havia sido excomungado antes. Um rabino “infiel” da Sinagoga Portuguesa havia sido hostilizado pela multidão de “crentes” e por pouco não fora apedrejado. Então num shabat (o dia sagrado dos judeus) Sabatai caminhou até a Sinagoga Portuguesa com um machado nas mãos e uma legião de crentes, invadiu-a a machadadas e se proclamou rei. Fez um discurso com blasfêmias e cantou sua canção favorita: Melizelda. Os crentes caíram no chão e “profetizavam” em hebraico em meio a ataques de epilepsia.

A histeria em Esmirna era tal que as crianças turcas aprenderam a palavra “infiel” em hebraico e passaram a gritá-la a esmo para os judeus, fazendo-lhes troça. Ninguém teve coragem de enfrentar os crentes e o movimento ganhou ainda mais força. Sabatai nomeou reis para Roma e para os países islâmicos. (Depois os “reis” venderam os seus títulos, exceto por um mendigo orgulhoso.) As profecias se tornaram fenômenos de massa em Esmirna: as pessoas caíam no chão tremendo e falando hebraico, até crianças de quatro anos que não conheciam a língua. Em Constantinopla, apareceu um profeta carismático pregando a palavra de Sabatai e arrastando as multidões. Scholem aponta que o fenômeno da profecia de massa não se restringia, à época, aos judeus, e um observador protestante contrário à causa sabataísta notou a semelhança entre eles e os quacres.

Os observadores críticos notaram que as profecias populares não se concretizavam. Natan então criou uma teoria segundo a qual até mesmo Samael, o Príncipe do Mal, é obrigado a anunciar a boa nova. Então ele assobia para os demônios, que falam pelas bocas das mulheres, das crianças, do vulgo, e ao mesmo tempo o Profeta Elias, que diz a verdade, fala a uns poucos. Assim, todo esse alarido profético, que mistura verdade com mentira, seria para a glória de Israel.

A essa altura, já podemos entender que os judeus estavam mesmo muito loucos. E isso tinha consequências econômicas, porque os judeus paravam de trabalhar para fazer penitência. Nas algumas comunidades mais esclarecidas, como a de Amsterdã, os judeus discutiam a logística para se transferir para a Terra Santa em barcos. Noutras, que incluíam a Rússia e a Grécia, os judeus esperavam uma nuvem que iria transportá-lo. Judeus morriam por jejuns exagerados, ou porque subir no telhado e tentar alcançar a nuvem (há registro de um caso na Grécia). As autoridades cristãs, que não se comunicavam com as turcas, sabiam que algo estava errado. Um cristão novo que se comunicava com Amsterdã explicou a situação à Inquisição Espanhola, que então fez o possível para impedir os cristãos novos de viajarem. Toda a diáspora queria ir à Palestina esperar o Messias, ou então rumar para Esmirna a fim de contemplar a face de Deus, ou seja, olhar a cara de Sabatai.

Continua.

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