O nome de Guillaume Postel é um marco relevante porque ele era um padre católico que pretendia reformar a Igreja – mas acabou sendo julgado pela Inquisição, considerado louco e proibido de ensinar.
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Se formos pesquisar as origens do projeto de usar a cristandade para tomar Jerusalém dos muçulmanos e instaurar um regime que trará o Messias, um nome que emerge é o de Guillaume Postel (1510 – 1581). Uma pesquisa completa provavelmente tem o seu primeiro marco nas pessoas do misterioso David Reubeni e do português Solomon Molcho (1500 – 1532), dois judeus cabalistas. O nome de Guillaume Postel é um marco relevante porque ele era um padre católico que pretendia reformar a Igreja – mas acabou sendo julgado pela Inquisição, considerado louco e proibido de ensinar.
Sucinta cronologia
Postel nasce pobre na Normandia em 25 de março de 1510, e aos 8 anos os seus pais morrem de peste. Mas o menino era brilhante. Aos 13 anos, já havia se tornado professor numa vila e conseguiu juntar dinheiro para ir estudar em Paris. Lá, tornou-se criado do humanista espanhol Juan de Gélida e aprendeu sem mestre o espanhol, português, grego e hebraico. Com 20 anos, torna-se mestre de artes. Postel teve muito contato com o mundo ibérico em Paris não só por causa do seu patrão espanhol, mas também por causa do Collège Sainte-Barbe, com forte presença ibérica. O convívio com os colegas lhe permite aprender o português e se empolgar com a empreitada missionária no Novo Mundo. Não custa observar que, para Europa da época, era difícil distinguir no estrangeiro português de judeu, dada a grande mistura dos judeus na sociedade portuguesa. Talvez o contato com esses mesmos colegas lhe tenha facilitado a aquisição de conhecimentos de hebraico. Em Sainte-Barbe, Postel foi colega de Santo Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus (1535), e do jesuíta São Francisco Xavier.
Benquisto pelos ibéricos, Postel rejeita o convite para dar aulas em Lisboa. Em 1536, em virtude dos seus conhecimentos linguísticos, aceita o convite de participar da missão francesa para Constantinopla. À época, o Rei Francisco I de França queria fazer uma aliança com o Império Otomano para combater o Imperador Romano-Germânico Carlos V, que também era Rei de Espanha. No itinerário, que incluiu estadia na Tunísia, Postel compra livros em árabe e noutras línguas orientais, providencia um professor de árabe e se torna o primeiro intelectual europeu moderno capaz de ensinar variadas línguas orientais (árabe incluso). Postel se interessa não só pelo idioma, mas também pelos cristãos do Oriente, pelo Corão e pela cultura. No caminho de volta, em 1537, Postel para em Veneza e se enturma com o círculo do tipógrafo hebraísta Daniel Bomberg – uma figura digna de nota, já que imprimiu a editio pinceps do Talmude Babilônico. Veneza era um lugar de liberdade intelectual, pois tinha uma Inquisição própria que era leniente. Além disso, era cheia de judeus – clientela assegurada para Bomberg.
O ápice da sua carreira acadêmica foi de 1538 a 1542, quando dava aulas de filologia e matemática para o rei. A sua carreira acaba porque ele resolve brigar com o rei. Postel queria traduzir a Bíblia para línguas orientais, ensiná-las aos missionários e enviá-los para a Turquia, onde converteriam os turcos ao cristianismo. Causar conflitos com o sultão não estava nos planos do Rei Francisco.
Imbuído de espírito missionário, Postel muda de vida. Redige De orbis terrae concordia (Sobre a concórdia do globo terrestre), publicada em dois volumes em 1542 e 1543. Essa seria considerada a obra mais importante de sua vida, pois aí desenha o seu plano para o mundo: Postel prova e justifica racionalmente o cristianismo usando a geometria euclidiana, e cabe aos missionários, pela via da razão, converter os povos do mundo ao cristianismo. Falta só convencer a Igreja a adotar as suas provas racionais do cristianismo e sua agenda – mas ele não consegue convencer nem Sorbonne. Segundo William Bouwsma (cujo livro Concordia Mundi uso para fazer esta cronologia), um grave problema no racionalismo de Postel é que “razão” poderia significar qualquer coisa: desde a geometria até a cabala.
Assim, para implementar a sua própria agenda “racionalista”, resolve, em 1544, ingressar na recém-criada Companhia de Jesus. É aí que ele se torna padre. Sua permanência dura pouco: em 1545, após as ineficazes repreensões públicas de Santo Inácio de Loyola, é expulso da Companhia. Postel defendia que Roma era corrupta, por isso cabia ao Rei da França escolher o próximo papa e transferir o papado para a França, e só depois disso poderia começar a Era Messiânica esperada pelos judeus.
Expulso, Postel se dedica mais ainda a estudar cabala e, estabelecido em Veneza, começa a traduzir para o latim o Zohar (Livro dos Esplendores), talvez a mais importante obra da cabala. Usa seus conhecimentos rabínicos para fundamentar a sua teoria de que o Rei da França deve ser o Rei da Monarquia Universal.
Em 1549, o tipógrafo Bomberg financia sua viagem para a Palestina para que ele produza bíblias em línguas orientais. Postel passa um ano e meio em Jerusalém e Constantinopla, estudando e comprando livros. Na volta, ele descobre que a “Mãe Joana”, ou a “Virgem Veneziana” – uma senhora que era sua amiga e, segundo ele, lhe explicava cabala mesmo sendo analfabeta e o considerava um filho – havia morrido durante sua viagem. Em 1551, ele tem uma experiência mística e fica persuadido de que tal mulher era a Shekhinah (uma emanação feminina de Deus segundo a cabala), e que ela o havia possuído, de modo que agora a alma da Shekhinah habitava o seu corpo.
No seu tresloucado esquema fortemente influenciado pela cabala, a Mãe Joana era a contraparte feminina de Jesus Cristo; a Shekhinah era a contraparte feminina do Espírito Santo; Veneza era a segunda Jerusalém; e ele, Postel, sendo o filho de Cristo e da Mãe Joana, dava início à Nova Era. No cosmos cabalístico, tudo é sexuado, e tudo, portanto, tem uma contraparte feminina – inclusive Cristo e o Espírito Santo, conclui o sincrético Postel.
Assim, ele prega loucamente. Entre 1551 e 1555, publica pelo menos 23 livros, e tinha certeza de que o Apocalipse aconteceria em 1556. Tenta convencer os dois reis franceses subsequentes, mais o imperador romano-germânico, a adotarem o seu esquema. No caso do Rei Henrique II, ele tinha acesso à esposa Catarina de Médici. Mesmo assim, Postel cai em desgraça na França porque fez um livro ameaçando o Rei, caso ele não se dobrasse aos seus desígnios. Nesse caso, o povo francês, e não o Rei, seria considerado o Eleito, e teria o direito de fazer uma revolução francesa contra o Rei.
A essa altura, Postel acreditava que uma liderança cristã (na falta do Rei da França, o povo francês; na falta do povo francês, o Imperador Romano-Germânico; na falta do imperador…) deveria conquistar Jerusalém e transferir o papado para lá, porque Roma é corrupta e porque a Shekhinah só se manifesta em sua plenitude em Jerusalém. Para a conquista, Postel contribuía com seu material racionalista; mas, se os turcos não quisessem dar ouvidos à razão, seria necessário recorrer às armas para libertar os orientais da tirania: um neocon avant la lettre! Quando isso acontecesse, todo o conhecimento oculto seria revelado e todos viveriam a mesma religião – o que quer dizer que todo o mundo seria cabalista, como o próprio Postel.
No fim das contas, Postel era demais até para a leniente Inquisição Veneziana. Em 1555, ele estava são e salvo na Áustria quando soube que a Inquisição Veneziana colocou seus livros no Index, então saiu de lá às pressas para tentar ensinar a Razão aos inquisidores. No caminho, ainda tentou pregar a palavra da Virgem Veneziana para as massas. O resultado é que Postel foi considerado louco pela Inquisição. Viveu seus últimos anos em clausura, proibido de ensinar, amargurado, sem arredar o pé de suas convicções. Como ele era louco, era caso de piedade, não de punição.
Aspectos sionistas
O sionismo religioso, seja judeu ou cristão, tem como traços característicos as crenças (1) na excepcionalidade eterna dos judeus e (2) no papel ativo dos sionistas para fazer a profecia se cumprir (seja ela vinda do Messias ou o retorno de Jesus). Uma coisa relevante do sionismo religioso judaico é que há dois Messias: o Messias ben José seria um preparador secular para a vinda do Messias ben Davi, que é o Messias propriamente dito. Consultando o site do Chabad, vemos que tal crença vigora no mais importante movimento sionista judaico religioso.
Nos últimos artigos, vimos que a crença de que um monarca cristão conquistaria a Terra Santa e daria início à Era Messiânica não era incomum nos séculos XVI e XVII. Assim, é razoável crer que tais monarcas seriam o Messias ben José da cabala, ainda que não usem esse nome. Uma dado relevante é que os judeus acreditam que o Messias ben José será morto na guerra – e podemos até nos perguntar se essa crença não é uma leitura cabalística do Apocalipse, no qual se encontra a Besta, que será derrotada antes do Juízo Final. À luz da cabala, faz sentido que alguém que não se saiba judeu desempenhe esse papel, já que um descendente de José pertence a uma das dez tribos perdidas de Israel.
Postel prefere defender o direito francês ao trono universal da Era Messiânica por meio de Flávio Josefo, que considera que os gauleses são descendentes de Gômer, que é o filho mais velho de Jafé, filho de Noé. Assim, os franceses têm direito pela primogenitura, e Jafé é considerado meio judeu.
No entanto, ele estava bem ciente da profecia do Messias ben José. No Tesouro das profecias do universo, diz que os judeus “têm também uma tradição que diz que há um Messias ou Cristo [sic] que deve ser filho de José por meio de Efraim, o qual deve ser morto na guerra de Gogue e Magogue, e depois haver um Cristo ou Messias, filho de Judá [ancestral de Davi], ressuscitado e confirmado em seu reinado, o qual será fundado em Jerusalém […]. Todavia as primeiras guerras que o referido filho de José fará serão contra Roma e contra Armilo (como chamam o Anticristo). […] Não conhecendo o tronco, [os judeus] esperam o primeiro ramo, o qual será puro homem, em vez de Deus e homem ao mesmo tempo, e será quanto, ao corpo, de Edom [o mesmo que Roma, na cabala] ou de Jafé, mas, quanto ao espírito e virtude, será daquele único que tem em si a imortalidade que, crescendo aos pouquinhos e multiplicando, ele dá e distribui aos seus membros, de modo que os talmudistas dizem: o gentio, embora seja idumeu [i. e., romano], se estudar a Lei com boa consciência, será tão grande quanto o soberano pai da Lei. Para ser isto, é eleito um rei dos franceses ou gauleses, que mediante boas obras faça certa a sua vocação e predestinação”.
Outra coisa importante que coloca Postel como um marco do sionismo cristão é o fato de ele desejar que o poder temporal reconstrua o Terceiro Templo: “Deus, por Isaías, chama Ciro de seu servidor e de seu Cristo ou Messias, em prefiguração do que se fará agora por todo o universo, edificando o último Templo de Jerusalém, mãe geral do universo, tal como Ciro, rei da Pérsia, por sua ordem em favor dos judeus, mandou e fez o segundo Templo da lei judaica, como então pela ordem de Ciro […], é preciso que agora o último Ciro edifique entre os cristãos, que são os últimos e verdadeiros judeus, um outro [templo] no lugar dos precedentes”. Até hoje a propaganda sionista (judaica, cristã ou até mesmo ateia) gosta de elogiar a figura de Ciro ao tratar de políticos. De resto, vale mencionar que Postel na mesma obra se refere a Cristo como “verdadeiro judeu e Deus”, nesta ordem – e é a coisa mais comum do mundo no meio evangélico sionista destacar a identidade judaica de Cristo em primeiro lugar, fazendo uma confusão entre o judaísmo antigo, o talmúdico e a cabala. Confusão digna de Postel.
É possível encontrar uma fixação desmesurada pelo judaísmo na Grã-Bretanha dos anos 1530, anteriores à loucura de Postel. No entanto, os calvinistas britânicos tinham uma postura passiva: achavam, por exemplo, que os judeus iriam se converter espontaneamente ao conhecer o verdadeiro cristianismo, livre da corrupção romana. No entanto, até onde eu saiba, eles não tinham o plano de usar um monarca cristão para reconquistar Jerusalém e dar início à Era Messiânica. Assim, até prova em contrário, penso que vale considerar o cabalista Guillaume Postel o primeiro sionista cristão da História. E, coisa mais importante, penso que dá para considerar que o sionismo cristão é infiltração da cabala no cristianismo.


