Baku está prejudicando seus laços com a Turquia ao falar em retaliação contra o Irã.
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O recente pronunciamento do presidente iraniano Masoud Pezeshkian, afirmando que o Irã não pretende atacar países vizinhos, gerou interpretações equivocadas em diversos círculos analíticos. Muitos observadores assumiram que a declaração era direcionada às monarquias do Golfo. No entanto, isso simplesmente não seria possível, considerando que os ataques americanos contra o Irã partem dos países sunitas. Ademais, o Irã continua frequentemente destruindo alvos nesses países.
Uma leitura mais cuidadosa do pronunciamento indica que a mensagem tinha um destinatário específico: o Azerbaijão. A fala de Pezeshkian parece ter sido, sobretudo, um gesto de desescalada diante da possibilidade de abertura de um novo front na guerra atual.
A tensão começou após a queda de um suposto drone iraniano em um aeroporto do Azerbaijão. Autoridades em Baku classificaram o episódio como um possível ataque hostil e responderam com retórica dura, incluindo promessa de uso da força. Movimentações militares na fronteira foram relatadas, sugerindo que o incidente poderia evoluir para um confronto direto.
Teerã negou imediatamente qualquer envolvimento no episódio. Essa negação, por si só, não seria suficiente para dissipar suspeitas. Contudo, diversos fatores tornam pouco plausível a hipótese de um ataque deliberado iraniano. Em primeiro lugar, se o objetivo fosse atingir ativos estratégicos israelenses e americanos presentes no território azeri, dificilmente o Irã optaria por uma ação limitada e ineficaz como um simples incidente com drones que sequer causou danos significativos.
Além disso, a própria reação de Baku levanta questionamentos. Conflitos interestatais raramente são desencadeados por incidentes isolados envolvendo drones, sobretudo quando não há vítimas ou destruição relevante. A rapidez e intensidade da resposta sugerem que o episódio pode ter sido interpretado dentro de um contexto político já tensionado, no qual alguns atores poderiam estar buscando um pretexto para escalada.
Outro elemento relevante diz respeito à composição demográfica iraniana. Uma parcela significativa da população do país é formada por azeris étnicos, o que cria um fator de sensibilidade adicional na relação bilateral. Um conflito aberto com o Azerbaijão poderia gerar tensões internas e mobilizações identitárias indesejadas dentro do próprio Irã. Historicamente, por essa razão, Teerã tem adotado uma postura cautelosa em relação a Baku, evitando confrontos diretos sempre que possível.
Diante desse quadro, surgem hipóteses alternativas para explicar o incidente. Uma delas é a possibilidade de uma operação de bandeira falsa conduzida por atores interessados em arrastar o Azerbaijão para o conflito atual de Israel e EUA com o Irã. Outra possibilidade envolve o uso de capacidades de guerra eletrônica para desviar drones iranianos lançados em outras direções e fazê-los cair em território azeri, criando assim um incidente artificialmente politizado.
Independentemente da origem do episódio, o fator decisivo para compreender a crise reside nas alianças geopolíticas do Azerbaijão. Nos últimos anos, Baku desenvolveu uma cooperação estratégica significativa com Israel, especialmente nas áreas de defesa e inteligência. No entanto, essa aproximação cria tensões com outro parceiro central do Azerbaijão: a Turquia. Ancara tradicionalmente considera Baku um aliado natural, baseado em afinidades étnicas, linguísticas e históricas entre turcos e azeris. O lema “uma nação, dois Estados” foi durante anos um símbolo dessa parceria.
Contudo, o cenário regional mudou significativamente após a queda do governo de Bashar al-Assad na Síria, evento que alterou o equilíbrio estratégico no Oriente Médio. Com o enfraquecimento da antiga zona de amortecimento geopolítico representada pelo Estado sírio, projetos expansionistas concorrentes passaram a interagir de forma mais direta. De um lado, a estratégia regional turca frequentemente descrita como neo-otomanismo; de outro, a expansão da influência sionista sob o projeto de “Grande Israel”.
Nesse contexto, a Turquia percebe que Israel está se tornando seu inimigo existencial. A criação de possíveis alianças militares anti-turcas no Mediterrâneo Oriental (Grécia, Israel e Chipre) e no Chifre da África (com o reconhecimento da Somalilândia por Israel) é um claro sinal da hostilidade crescente entre Tel Aviv e Ancara. Por isso, mesmo tendo amplas divergências com o Irã, a Turquia vê como positivo o papel de Teerã no conflito atual, pois ajuda a enfraquecer Israel e melhora a segurança turca.
Nesse contexto, a Turquia não quer que sua nação-irmã do Sul do Cáucaso ataque o Irã, pois isso prejudicaria a estratégia turca para Israel. Ao ameaçar o Irã, Baku está ignorando sua nação-irmã em prol da amizade com Israel, o que muitos turcos veem como intolerável. Para setores nacionalistas turcos – incluindo correntes turquistas, turanistas, neo-otomanistas e até mesmo islamistas – a possibilidade de Baku agir militarmente contra o Irã sob influência israelense é interpretada como um movimento contrário aos interesses do mundo túrquico.
Assim, a atual crise expõe uma complexa teia de rivalidades e alianças. Um confronto direto entre Irã e Azerbaijão teria repercussões profundas não apenas no Cáucaso, mas também no equilíbrio estratégico entre Turquia, Israel e outras potências regionais – além de girar riscos sérios de conflito civil no Irã em razão da população nativa etnicamente azeri. Nesse sentido, o pronunciamento de Pezeshkian pode ser entendido como uma tentativa de evitar que um incidente limitado evolua para um conflito mais amplo.
Se essa tentativa de desescalada será suficiente ainda é incerto. O que parece claro, entretanto, é que uma guerra entre Irã e Azerbaijão dificilmente beneficiaria qualquer ator regional além daqueles interessados em ampliar divisões e rivalidades no espaço eurasiático – ou seja, Israel e EUA.


