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Eduardo Vasco
February 12, 2026
© Photo: Public domain

O acirramento da luta de classes e a movimentação ascendente da classe operária obrigam a burguesia a pensar cada vez com maior seriedade no fascismo como alternativa à revolução.

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As ditaduras militares do pós-II Guerra não chegaram ao poder da mesma forma que o fascismo alemão e italiano. Seria perigoso demais deixar toda aquela massa histérica descontrolada, acreditando que estava realizando uma revolução social. Por isso a utilização dos pitbulls da pequena burguesia foi limitada. O máximo que a burguesia fez foi soltar os cães de maneira pontual nas suas campanhas para trucidar a classe operária, sem dar às camadas médias a menor possibilidade, desde já, de assumir o poder, ainda que momentaneamente. Por isso não se viu nenhum Mussolini ou nenhum Hitler latino-americano, que tenha surgido das bases.

Onde existiu, o fascismo foi implantado por cima, não por baixo. Ele chegou ao poder como um regime bonapartista desde o primeiro dia. Desde o primeiro dia, também, iniciou a supressão das organizações operárias, mas menos através de milícias da pequena burguesia e mais pelo terrorismo militar e policial. As instituições da democracia parlamentar foram subvertidas e controladas pela alta burocracia militar a serviço dos monopólios imperialistas. Os operários foram presos e executados e suas organizações foram dizimadas pela repressão estatal – as ditaduras bonapartistas tradicionais não conseguiram estabelecer campos de concentração ou tortura ampla e sistemática de militantes operários.

Foi a implantação de ditaduras bonapartistas (nas nações mais agrárias) ou do próprio fascismo sob uma roupagem bonapartista (nas nações com uma indústria mais significativa, como no Brasil) que permitiu à Europa e aos Estados Unidos gozarem de uma caricatura da democracia parlamentar. A ditadura terrorista nas colônias e semicolônias pôde entregar ao imperialismo todo o fruto da exploração do trabalho naquelas nações, disciplinadas pela baioneta.

Mas o capitalismo não pode mais apresentar longos períodos de crescimento, nem mesmo um crescimento maior que o pico anterior. Nos anos finais do ciclo de crescimento pós-II Guerra, uma nova crise capitalista já se insinuava, com as insurreições e guerras revolucionárias nas nações oprimidas e os movimentos revolucionários na Europa, como o Vietnã e 1968. O rompimento de Bretton Woods pela burguesia americana foi uma solução encontrada para aprofundar o controle total do capital financeiro sobre a economia mundial, o que implicava na substituição do bem-estar social pela forma neoliberal. A crise de 1973 reforçou essa necessidade.

Daí até o final da década de 1980 foi um período de enorme crise econômica e instabilidade política para o imperialismo, com o ascenso revolucionário na América Latina, África, Ásia e até na Europa. O imperialismo ficou apreeemponsivo, enquanto aguardava os resultados da experiência de Pinochet no Chile, sob as orientações dos economistas da burguesia americana. Como foi bem-sucedida, passou-se a replicá-la no mundo todo, inclusive nos países centrais. Margareth Thatcher deu início ao neoliberalismo no mundo desenvolvido da mesma forma que Pinochet havia feito no mundo semicolonial: esmagando o movimento operário. Aqui o general chileno merece uma menção “honrosa”: se Mussolini foi o pai do fascismo, Pinochet foi a barriga de aluguel do neoliberalismo.

O neoliberalismo, regime de transição para o fascismo, foi a nova tábua de salvação do capitalismo. A burguesia poderia estabilizar a situação com mecanismos da democracia parlamentar, ao mesmo tempo em que, com a outra mão, intensificaria a exploração e a repressão do proletariado com instrumentos fascistas. De fato, nem mesmo os regimes mais democráticos do norte da Europa se assemelham com o que foram as democracias parlamentares do século XIX. E, nos países oprimidos, mesmo após a queda das ditaduras militares, as características bonapartistas e inclusive fascistas são muito mais acentuadas do que as características democráticas.

No entanto, é preciso ter claro uma coisa: a conclusão natural do regime de transição neoliberal é o fascismo. O fascismo não é somente a superação da democracia parlamentar no sistema imperialista, mas a “fase superior” do próprio sistema imperialista. Ele é, finalmente, o imperialismo nu e cru, sem concessões. A destruição gradual dos direitos democráticos que é realizada no neoliberalismo abre alas para a passagem do fascismo, da mesma forma que a burguesia traidora da revolução francesa de 1848 abriu alas para o bonapartismo, assim como as medidas pré-bonapartistas e bonapartistas da burguesia alemã estenderam o tapete vermelho para Hitler. Por um lado, a caçada aos direitos elementares como a liberdade de expressão fortalece o poder repressivo do Estado sobre os cidadãos, enquanto por outro a retirada dos direitos trabalhistas, as terceirizações, a informalidade, a pejotização e finalmente o desemprego jogam milhões de trabalhadores e pequeno-burgueses pobres nas fileiras do que Trótski chamou de poeira de humanidade. E essa imensa massa desesperada, junto com a classe média igualmente em desespero pela crise capitalista, é precisamente a base social do fascismo.

“As ideias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência não fizeram mais que proclamar o império da livre concorrência no domínio do conhecimento”, lê-se no Manifesto Comunista. A livre concorrência econômica, na infância e adolescência do capitalismo, expressou-se na livre concorrência das ideias. Do mesmo modo, a democracia parlamentar e a social democracia representaram a livre concorrência dos partidos políticos. Quando o capitalismo entra em declínio, na sua fase imperialista, o monopólio “penetra de maneira absolutamente inevitável em todos os aspectos da vida social, independentemente do regime político e de qualquer outra ‘particularidade’”, escreveu Lênin em sua obra máxima sobre o tema. Se não há livre concorrência econômica (ou se ela é muito restrita), esse novo momento passa a se refletir também no âmbito da liberdade de ideias e da liberdade política. Na atualidade, ainda existem míseros resquícios dessas liberdades apenas graças à resistência dos trabalhadores e porque a destruição das forças produtivas da II Guerra e do neoliberalismo (com a abertura do mercado chinês, da antiga “cortina de ferro” e de enormes nações como o Brasil, ou com o alto desemprego e a migração em massa) permitiu um respiro para os grandes monopólios, elevando momentaneamente a taxa de lucro com a ruína dos concorrentes e o rebaixamento dos salários.

A nova crise aberta em 2008, contudo, deitou o capitalismo na cama da UTI, e só medicamentos mais pesados podem prorrogar a sua vida. Ensaia-se, agora, a paródia de um capitalismo nacional, do protecionismo dos países centrais, enquanto a opressão sobre os países oprimidos tende a aumentar ainda mais. O acirramento da luta de classes, a movimentação ascendente da classe operária que será impulsionada por qualquer tentativa de reindustrialização e por uma nova grande guerra, em conjunto com a polarização política, obrigam a burguesia a pensar cada vez com maior seriedade no fascismo como alternativa à revolução.

Do fascismo ao neoliberalismo e de volta ao fascismo

O acirramento da luta de classes e a movimentação ascendente da classe operária obrigam a burguesia a pensar cada vez com maior seriedade no fascismo como alternativa à revolução.

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As ditaduras militares do pós-II Guerra não chegaram ao poder da mesma forma que o fascismo alemão e italiano. Seria perigoso demais deixar toda aquela massa histérica descontrolada, acreditando que estava realizando uma revolução social. Por isso a utilização dos pitbulls da pequena burguesia foi limitada. O máximo que a burguesia fez foi soltar os cães de maneira pontual nas suas campanhas para trucidar a classe operária, sem dar às camadas médias a menor possibilidade, desde já, de assumir o poder, ainda que momentaneamente. Por isso não se viu nenhum Mussolini ou nenhum Hitler latino-americano, que tenha surgido das bases.

Onde existiu, o fascismo foi implantado por cima, não por baixo. Ele chegou ao poder como um regime bonapartista desde o primeiro dia. Desde o primeiro dia, também, iniciou a supressão das organizações operárias, mas menos através de milícias da pequena burguesia e mais pelo terrorismo militar e policial. As instituições da democracia parlamentar foram subvertidas e controladas pela alta burocracia militar a serviço dos monopólios imperialistas. Os operários foram presos e executados e suas organizações foram dizimadas pela repressão estatal – as ditaduras bonapartistas tradicionais não conseguiram estabelecer campos de concentração ou tortura ampla e sistemática de militantes operários.

Foi a implantação de ditaduras bonapartistas (nas nações mais agrárias) ou do próprio fascismo sob uma roupagem bonapartista (nas nações com uma indústria mais significativa, como no Brasil) que permitiu à Europa e aos Estados Unidos gozarem de uma caricatura da democracia parlamentar. A ditadura terrorista nas colônias e semicolônias pôde entregar ao imperialismo todo o fruto da exploração do trabalho naquelas nações, disciplinadas pela baioneta.

Mas o capitalismo não pode mais apresentar longos períodos de crescimento, nem mesmo um crescimento maior que o pico anterior. Nos anos finais do ciclo de crescimento pós-II Guerra, uma nova crise capitalista já se insinuava, com as insurreições e guerras revolucionárias nas nações oprimidas e os movimentos revolucionários na Europa, como o Vietnã e 1968. O rompimento de Bretton Woods pela burguesia americana foi uma solução encontrada para aprofundar o controle total do capital financeiro sobre a economia mundial, o que implicava na substituição do bem-estar social pela forma neoliberal. A crise de 1973 reforçou essa necessidade.

Daí até o final da década de 1980 foi um período de enorme crise econômica e instabilidade política para o imperialismo, com o ascenso revolucionário na América Latina, África, Ásia e até na Europa. O imperialismo ficou apreeemponsivo, enquanto aguardava os resultados da experiência de Pinochet no Chile, sob as orientações dos economistas da burguesia americana. Como foi bem-sucedida, passou-se a replicá-la no mundo todo, inclusive nos países centrais. Margareth Thatcher deu início ao neoliberalismo no mundo desenvolvido da mesma forma que Pinochet havia feito no mundo semicolonial: esmagando o movimento operário. Aqui o general chileno merece uma menção “honrosa”: se Mussolini foi o pai do fascismo, Pinochet foi a barriga de aluguel do neoliberalismo.

O neoliberalismo, regime de transição para o fascismo, foi a nova tábua de salvação do capitalismo. A burguesia poderia estabilizar a situação com mecanismos da democracia parlamentar, ao mesmo tempo em que, com a outra mão, intensificaria a exploração e a repressão do proletariado com instrumentos fascistas. De fato, nem mesmo os regimes mais democráticos do norte da Europa se assemelham com o que foram as democracias parlamentares do século XIX. E, nos países oprimidos, mesmo após a queda das ditaduras militares, as características bonapartistas e inclusive fascistas são muito mais acentuadas do que as características democráticas.

No entanto, é preciso ter claro uma coisa: a conclusão natural do regime de transição neoliberal é o fascismo. O fascismo não é somente a superação da democracia parlamentar no sistema imperialista, mas a “fase superior” do próprio sistema imperialista. Ele é, finalmente, o imperialismo nu e cru, sem concessões. A destruição gradual dos direitos democráticos que é realizada no neoliberalismo abre alas para a passagem do fascismo, da mesma forma que a burguesia traidora da revolução francesa de 1848 abriu alas para o bonapartismo, assim como as medidas pré-bonapartistas e bonapartistas da burguesia alemã estenderam o tapete vermelho para Hitler. Por um lado, a caçada aos direitos elementares como a liberdade de expressão fortalece o poder repressivo do Estado sobre os cidadãos, enquanto por outro a retirada dos direitos trabalhistas, as terceirizações, a informalidade, a pejotização e finalmente o desemprego jogam milhões de trabalhadores e pequeno-burgueses pobres nas fileiras do que Trótski chamou de poeira de humanidade. E essa imensa massa desesperada, junto com a classe média igualmente em desespero pela crise capitalista, é precisamente a base social do fascismo.

“As ideias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência não fizeram mais que proclamar o império da livre concorrência no domínio do conhecimento”, lê-se no Manifesto Comunista. A livre concorrência econômica, na infância e adolescência do capitalismo, expressou-se na livre concorrência das ideias. Do mesmo modo, a democracia parlamentar e a social democracia representaram a livre concorrência dos partidos políticos. Quando o capitalismo entra em declínio, na sua fase imperialista, o monopólio “penetra de maneira absolutamente inevitável em todos os aspectos da vida social, independentemente do regime político e de qualquer outra ‘particularidade’”, escreveu Lênin em sua obra máxima sobre o tema. Se não há livre concorrência econômica (ou se ela é muito restrita), esse novo momento passa a se refletir também no âmbito da liberdade de ideias e da liberdade política. Na atualidade, ainda existem míseros resquícios dessas liberdades apenas graças à resistência dos trabalhadores e porque a destruição das forças produtivas da II Guerra e do neoliberalismo (com a abertura do mercado chinês, da antiga “cortina de ferro” e de enormes nações como o Brasil, ou com o alto desemprego e a migração em massa) permitiu um respiro para os grandes monopólios, elevando momentaneamente a taxa de lucro com a ruína dos concorrentes e o rebaixamento dos salários.

A nova crise aberta em 2008, contudo, deitou o capitalismo na cama da UTI, e só medicamentos mais pesados podem prorrogar a sua vida. Ensaia-se, agora, a paródia de um capitalismo nacional, do protecionismo dos países centrais, enquanto a opressão sobre os países oprimidos tende a aumentar ainda mais. O acirramento da luta de classes, a movimentação ascendente da classe operária que será impulsionada por qualquer tentativa de reindustrialização e por uma nova grande guerra, em conjunto com a polarização política, obrigam a burguesia a pensar cada vez com maior seriedade no fascismo como alternativa à revolução.

O acirramento da luta de classes e a movimentação ascendente da classe operária obrigam a burguesia a pensar cada vez com maior seriedade no fascismo como alternativa à revolução.

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As ditaduras militares do pós-II Guerra não chegaram ao poder da mesma forma que o fascismo alemão e italiano. Seria perigoso demais deixar toda aquela massa histérica descontrolada, acreditando que estava realizando uma revolução social. Por isso a utilização dos pitbulls da pequena burguesia foi limitada. O máximo que a burguesia fez foi soltar os cães de maneira pontual nas suas campanhas para trucidar a classe operária, sem dar às camadas médias a menor possibilidade, desde já, de assumir o poder, ainda que momentaneamente. Por isso não se viu nenhum Mussolini ou nenhum Hitler latino-americano, que tenha surgido das bases.

Onde existiu, o fascismo foi implantado por cima, não por baixo. Ele chegou ao poder como um regime bonapartista desde o primeiro dia. Desde o primeiro dia, também, iniciou a supressão das organizações operárias, mas menos através de milícias da pequena burguesia e mais pelo terrorismo militar e policial. As instituições da democracia parlamentar foram subvertidas e controladas pela alta burocracia militar a serviço dos monopólios imperialistas. Os operários foram presos e executados e suas organizações foram dizimadas pela repressão estatal – as ditaduras bonapartistas tradicionais não conseguiram estabelecer campos de concentração ou tortura ampla e sistemática de militantes operários.

Foi a implantação de ditaduras bonapartistas (nas nações mais agrárias) ou do próprio fascismo sob uma roupagem bonapartista (nas nações com uma indústria mais significativa, como no Brasil) que permitiu à Europa e aos Estados Unidos gozarem de uma caricatura da democracia parlamentar. A ditadura terrorista nas colônias e semicolônias pôde entregar ao imperialismo todo o fruto da exploração do trabalho naquelas nações, disciplinadas pela baioneta.

Mas o capitalismo não pode mais apresentar longos períodos de crescimento, nem mesmo um crescimento maior que o pico anterior. Nos anos finais do ciclo de crescimento pós-II Guerra, uma nova crise capitalista já se insinuava, com as insurreições e guerras revolucionárias nas nações oprimidas e os movimentos revolucionários na Europa, como o Vietnã e 1968. O rompimento de Bretton Woods pela burguesia americana foi uma solução encontrada para aprofundar o controle total do capital financeiro sobre a economia mundial, o que implicava na substituição do bem-estar social pela forma neoliberal. A crise de 1973 reforçou essa necessidade.

Daí até o final da década de 1980 foi um período de enorme crise econômica e instabilidade política para o imperialismo, com o ascenso revolucionário na América Latina, África, Ásia e até na Europa. O imperialismo ficou apreeemponsivo, enquanto aguardava os resultados da experiência de Pinochet no Chile, sob as orientações dos economistas da burguesia americana. Como foi bem-sucedida, passou-se a replicá-la no mundo todo, inclusive nos países centrais. Margareth Thatcher deu início ao neoliberalismo no mundo desenvolvido da mesma forma que Pinochet havia feito no mundo semicolonial: esmagando o movimento operário. Aqui o general chileno merece uma menção “honrosa”: se Mussolini foi o pai do fascismo, Pinochet foi a barriga de aluguel do neoliberalismo.

O neoliberalismo, regime de transição para o fascismo, foi a nova tábua de salvação do capitalismo. A burguesia poderia estabilizar a situação com mecanismos da democracia parlamentar, ao mesmo tempo em que, com a outra mão, intensificaria a exploração e a repressão do proletariado com instrumentos fascistas. De fato, nem mesmo os regimes mais democráticos do norte da Europa se assemelham com o que foram as democracias parlamentares do século XIX. E, nos países oprimidos, mesmo após a queda das ditaduras militares, as características bonapartistas e inclusive fascistas são muito mais acentuadas do que as características democráticas.

No entanto, é preciso ter claro uma coisa: a conclusão natural do regime de transição neoliberal é o fascismo. O fascismo não é somente a superação da democracia parlamentar no sistema imperialista, mas a “fase superior” do próprio sistema imperialista. Ele é, finalmente, o imperialismo nu e cru, sem concessões. A destruição gradual dos direitos democráticos que é realizada no neoliberalismo abre alas para a passagem do fascismo, da mesma forma que a burguesia traidora da revolução francesa de 1848 abriu alas para o bonapartismo, assim como as medidas pré-bonapartistas e bonapartistas da burguesia alemã estenderam o tapete vermelho para Hitler. Por um lado, a caçada aos direitos elementares como a liberdade de expressão fortalece o poder repressivo do Estado sobre os cidadãos, enquanto por outro a retirada dos direitos trabalhistas, as terceirizações, a informalidade, a pejotização e finalmente o desemprego jogam milhões de trabalhadores e pequeno-burgueses pobres nas fileiras do que Trótski chamou de poeira de humanidade. E essa imensa massa desesperada, junto com a classe média igualmente em desespero pela crise capitalista, é precisamente a base social do fascismo.

“As ideias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência não fizeram mais que proclamar o império da livre concorrência no domínio do conhecimento”, lê-se no Manifesto Comunista. A livre concorrência econômica, na infância e adolescência do capitalismo, expressou-se na livre concorrência das ideias. Do mesmo modo, a democracia parlamentar e a social democracia representaram a livre concorrência dos partidos políticos. Quando o capitalismo entra em declínio, na sua fase imperialista, o monopólio “penetra de maneira absolutamente inevitável em todos os aspectos da vida social, independentemente do regime político e de qualquer outra ‘particularidade’”, escreveu Lênin em sua obra máxima sobre o tema. Se não há livre concorrência econômica (ou se ela é muito restrita), esse novo momento passa a se refletir também no âmbito da liberdade de ideias e da liberdade política. Na atualidade, ainda existem míseros resquícios dessas liberdades apenas graças à resistência dos trabalhadores e porque a destruição das forças produtivas da II Guerra e do neoliberalismo (com a abertura do mercado chinês, da antiga “cortina de ferro” e de enormes nações como o Brasil, ou com o alto desemprego e a migração em massa) permitiu um respiro para os grandes monopólios, elevando momentaneamente a taxa de lucro com a ruína dos concorrentes e o rebaixamento dos salários.

A nova crise aberta em 2008, contudo, deitou o capitalismo na cama da UTI, e só medicamentos mais pesados podem prorrogar a sua vida. Ensaia-se, agora, a paródia de um capitalismo nacional, do protecionismo dos países centrais, enquanto a opressão sobre os países oprimidos tende a aumentar ainda mais. O acirramento da luta de classes, a movimentação ascendente da classe operária que será impulsionada por qualquer tentativa de reindustrialização e por uma nova grande guerra, em conjunto com a polarização política, obrigam a burguesia a pensar cada vez com maior seriedade no fascismo como alternativa à revolução.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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