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Há exatos três anos, uma pequena massa plebeia utilizou métodos plebeus para expressar seu desgosto pelo regime político. Quem vai negar seu direito de demonstrar indignação com um regime putrefato como a “democracia” brasileira? Nem a plebe bolsonarista nem o conjunto das massas empobrecidas se reconhecem nas instituições ditas democráticas.
A composição social do sistema de justiça e o soldo cobrado pelos ministros do STF são uma prova cabal de que o Estado é uma máquina controlada pela classe dominante. O salário médio no Brasil é de 3,5 mil reais. Mas isso não é tão realista, pois equilibra a massa de ⅓ dos trabalhadores que ganham até um salário mínimo com os poucos que recebem dezenas ou centenas de milhares de reais. Um ministro do STF, que não foi eleito por ninguém e que já nasceu em berço de ouro, recebe mais de R$ 46 mil, isto é, 13 vezes o salário médio dos brasileiros e 30 (trinta) vezes o salário mínimo, do qual depende um em cada três trabalhadores.
Se a democracia é o governo do povo, as instituições deveriam ser o reflexo da sociedade. Mas elas são o reflexo da burguesia, do latifúndio, dos banqueiros e não do povo.
Aos olhos de milhões de cidadãos comuns, os desembargadores, promotores, procuradores, juízes e ministros não têm a menor legitimidade. No entanto, sua função social dentro do organismo estatal lhes concede a maior de todas as autoridades. São pigmeus que, com o poder que têm até mesmo os mais medíocres deles, coagem o cidadão comum. Mas é uma autoridade artificial, e por isso mesmo ela precisa ser reforçada ininterruptamente. As palavras de Engels se encaixam perfeitamente neles:
“Donos da força pública e do direito de recolher os impostos, os funcionários, como órgãos da sociedade, põem-se então acima dela. O respeito livre e voluntariamente tributado aos órgãos da constituição gentílica já não lhes basta, mesmo que pudessem conquistá-lo; veículos de um poder que se tinha tornado estranho à sociedade, precisam impor respeito através de leis de exceção, em virtude das quais gozam de uma santidade e uma inviolabilidade especiais. O mais reles dos beleguins do Estado civilizado tem mais “autoridade” do que todos os órgãos da sociedade gentílica juntos; no entanto, o príncipe mais poderoso, o maior homem público, ou general, da civilização pode invejar o mais modesto dos chefes de gens, pelo respeito espontâneo e indiscutido que lhe professavam. Este existia dentro mesmo da sociedade, aqueles veem-se compelidos a pretender representar algo que está fora e acima dela.”
A polarização política e a desconfiança nas instituições, a oposição à “democracia”, revelam que o povo repudia um regime em que ele não participa ativamente da vida política. Que ele recusa um regime que o exclui das decisões, tomadas por funcionários que o oprimem. Significa que o povo quer ser um elemento ativo e decisivo da vida política, que ele quer tomar o poder em suas mãos. Significa, mesmo que isso ainda esteja confuso para a maioria, que ela quer derrubar toda essa velha e carcomida estrutura da burguesia e governar ela mesma, em uma verdadeira democracia – ao contrário dos que acham que o povo quer um Estado forte, totalitário, para se proteger (quem quer isso é a burguesia, para se proteger do povo).
O cidadão comum – inclusive a pequena burguesia e camadas da própria burguesia – é esmagado por esse regime putrefato, que o oprime e o humilha dia após dia. Mas ele tem que fingir que ama todo esse inferno que é a sociedade capitalista. Se ele expressar o seu sentimento legítimo e natural (o mais legítimo e o mais natural) de ódio por essa situação, ele pode ir preso por discurso de ódio contra essa maravilhosa democracia na qual ele vive. Odiar profundamente uma sociedade como essa é a obrigação de nove em cada dez cidadãos. Os bolsonaristas expressam esse ódio de forma confusa, mas a razão do seu ódio, no fundo, é a mesma dos trabalhadores organizados e de todas as massas oprimidas.
A esquerda põe a mão sobre o ombro do juiz, aponta o dedo para o trabalhador ou comerciante “intolerantes” e cochicha no ouvido da autoridade, pedindo para que o puna. E depois ainda se espanta com o apoio de grandes massas aos demagogos bolsonaristas, muitas vezes se perguntando: “onde nós erramos?” Mas o pequeno-burguês está distante da realidade do povo, ele vive sua vida relativamente confortável, e quanto mais longe da vida material, mais importância ele concede às idealizações. Logo, importa-se mais com o que as pessoas pensam do que com o que elas fazem, e inventa uma realidade fictícia para nela embriagar-se.
Ao apoiarem leis contra o “discurso de ódio”, os pretensos democratas também atuam como auxiliares da burguesia para conter a manifestação dos oprimidos contra os opressores achando que são os opressores que estão sendo proibidos (por eles mesmos!) de odiar os oprimidos! O Estado que proíbe o “discurso de ódio” é o mesmo que chacina centenas de pobres nas favelas. Não se pode desejar a morte de ninguém, mas a polícia tem carta branca para matar. E ai dos órfãos e das viúvas que se recusarem a engolir a indignação, porque, além de perderem seus familiares, ainda poderão ser processados por “discurso de ódio”!


