A tecnologia agora se deslumbra com o delírio de recriar a inteligência humana, e que essa fantasia já tinha um precedente mitológico no golem.
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No último texto, tangenciamos o fato de que a cabala era estudada por homens que deram contribuições importantíssimas à ciência moderna, surgida no mundo católico. Vimos também que esses homens não eram judeus; assim, uma influência da cabala sobre a ciência não é a mesma coisa que a influência de cientistas judeus sobre a ciência. Na verdade, ao contrário do que professa o atual revisionismo empreendido pelos fetichistas do QI, a participação dos judeus na ciência moderna era insignificante até a emancipação, e isso se devia ao peculiar obscurantismo do judaísmo medieval.
Curiosamente, na Renascença e no início da modernidade os homens de ciência se tornaram supersticiosos, renovando, por exemplo, o interesse pela astrologia (disciplina desmentida desde os tempos de Cícero). Numa época de enriquecimento das cidades e de maior produção de livros, não faltou ocasião para que se manifestasse o humano interesse por aquilo que se apresenta como oculto, velado e secretíssimo. Se a alquimia mirava a pedra filosofal e o elixir da juventude, capazes de deixar qualquer um rico e jovem para sempre, a cabala prometia algo próximo disso, e que talvez fosse um requisito para a alquimia: o domínio dos segredos da Criação.
Em A Cabala e seu simbolismo, Gershom Scholem faz uma exposição sobre o golem (criatura lendária judaica) na qual consta um mito muito próximo da atual concepção de ciência, e faz, portanto, cogitar que a ciência de hoje seja influenciada por uma visão cabalística da natureza.
Vamos primeiro ao que é um golem: um boneco de barro vivo, feito por um sábio judeu que emula a criação de Adão por Deus. No referido livro, aprendemos que para o judeu o homem tem muito mais poder de criar do que para um cristão. Por exemplo, ao derramar o esperma fora do corpo feminino, o homem torna-se pai de demônios, de criaturas espectrais que buscam um corpo (donde só se pode concluir que o rabino do Pornhub quer encher o mundo de demônios…). Assim, no enterro de um homem, é preciso evitar que os legítimos herdeiros compareçam antes da purificação do corpo, já que os seus irmãos espectrais, bastardos, querem prejudicá-los. Daí se vê que a ideia de o homem criar vida de forma mágica não era estranha à mente cabalista.
“Cabala” vem do hebraico e significa “tradição”. Em vez se de apegar à letra do Velho Testamento e das interpretações talmúdicas, o cabalista pretende ter acesso a uma tradição mística, mais velha que o próprio judaísmo, e usa esse conhecimento mágico para se relacionar com a Torá. Pode, por exemplo, dizer que a Torá é um conjunto de letras que a ser lido das mais variadas formas; que a Torá é, toda ela, um grande nome de Deus por extenso; que na Nova Era o branco da Torá (do papel) será legível e a Lei mudará, porque hoje só se lê o preto (das letras). Em suma, um monte de maluquice. Imagine dizer que “Não pise na grama” é um nome, ou que equivale a “Pão gise an nrama”. Fica difícil mandar alguém não pisar na grama.
De todo modo, o caráter divino da Torá não é negado – muito pelo contrário. Ter o conhecimento da Torá significa ter o conhecimento divino e, assim, adquirir poderes mágicos. Por isso, dominando a Torá, um homem muito justo poderia fazer um ritual maluco (talvez incluísse encher a casa de terra e dançar em círculos) para criar um golem: um humanoide feito de barro, capaz de seguir instruções e agir como um servo. Embora haja precedentes no Zohar (sefardita) e até numa anedota do Talmude da Babilônia (quando os rabinos fabricam um bezerro e comem-nos depois de estudar um tal Livro da Criação), o golem, com esse nome, é uma invenção dos asquenazitas.
Nas versões mais comuns do mito, o golem tem escrito em sua fronte emet, “verdade”. Quando se apaga uma letra, sobra met, que significa “morto”, e o golem se desfaz em terra inanimada. É recomendável matar o golem, porque ele vai crescendo indefinidamente e se torna perigoso para o seu criador.
No entanto, Scholem encontrou uma versão, digamos, nietzschiana do mito do golem datada do começo do século XIII, no Languedoc:
“O profeta Jeremias ocupou-se sozinho do Sefer Ietzirá [Livro da Criação]. Uma voz celestial ressoou então, dizendo: Toma um companheiro. Chamou ele seu filho Sira, e juntos estudaram o livro por três anos. Depois puseram-se a combinar os alfabetos, segundos os princípios cabalísticos de combinação, agrupamento e formação de palavras, e um homem lhe foi criado, em cuja testa estavam as letras YHWH Elohim Emet [“Deus é verdade”]. Mas este homem recém criado tinha uma faca na mão, e com ela raspou a letra alef da palavra emet: restou apenas met. Então Jeremias rasgou as vestes (por causa da blasfêmia: Deus está morto, sugerida agora pela inscrição mutilada) e disse: Por que apagaste o alef de emet? Respondeu ele: Vou te contar uma parábola. Um arquiteto construíra muitas casas, cidades e praças, e ninguém foi capaz de imitar sua arte e competir com seu conhecimento e habilidade, até que dois homens persuadiram-no. Aí ele ensinou-lhes o segredo de sua arte, e eles aprenderam a fazer tudo de maneira certa. Depois que aprenderam o seu segredo e sua habilidade, começaram a aborrecê-lo com palavras. Finalmente romperam com ele e tornaram-se arquitetos como ele, exceto que cobravam a metade do que ele cobrava. Ao se aperceberem disso, as pessoas deixaram de honrar o artista para procurar os outros, confiando a estes suas encomendas quando queriam alguma construção. Portanto, Deus te fez à Sua imagem e à Sua semelhança e forma. Mas agora, que criaste um homem, como Ele, as pessoas dirão: Não existe Deus no mundo, exceto esses dois! E Jeremias respondeu: Que solução há? Ele falou: Escreva os alfabetos de trás pra frente, sobre a terra que esparramaste com concentração intensa. Porém não medite no sentido da construção para cima, mas pelo contrário. Assim fizeram, e o homem se transformou em pó e cinzas diante dos olhos deles. Aí Jeremias disse: Na verdade, dever-se-ia estudar estas coisas só com o propósito de conhecer o poderio e a onipotência de Deus, mas não com o propósito de realmente praticá-las.”
Propaganda é a alma do negócio. Apesar das recomendações contra o uso, o fato é que os mestres cabalistas alegavam possuir poderes mágicos similares aos do próprio Deus. A ideia era que decifrar a Criação por meio de estudos religiosos dava tais poderes. A mera crença de que fulano ou beltrano desvendou os domínios da criação serve para exercer poder sobre todos os homens crédulos, sejam eles judeus ou não. Daí a possibilidade de a influência da cabala se infiltrar na ciência mesmo quando os judeus não participavam dela.
A cabala se torna tanto mais sedutora quanto mais se acostuma o senso comum a acreditar que “eles” estão mentindo para você, e que a Verdade foi oculta num determinado período da História. Noutras palavras, essa verdade se tornava mais sedutora em ambientes protestantes do começo da modernidade, em que a propaganda anticatólica afirmava que tudo aquilo em que seus pais e avós acreditavam era mentira, pois desde os tempos do Império Romano a cristandade era enganada por uma quadrilha eclesiástica fundada pelo Diabo. O ambiente era tanto mais propício, porque ao prometer que a pureza está em tempos mais antigos, coloca os judeus como habitantes privilegiados desse mundo incorrupto.
O protestantismo visa a rebobinar a história do cristianismo para um ponto anterior à corrupção católica. Uma vez que se comece a rebobinar, nada impede de chegar ao judaísmo e, por conseguinte, à cabala. Esta era cheia dos pseudoepigráficos, isto é, dos livros com autoria falsamente atribuída a um terceiro. Por exemplo, se o Talmude da Babilônia aludia a um Livro da Criação capaz de fazer os rabinos produzirem um bezerro, em 1562, Mântua, alguém achou uma boa ideia imprimir um volume em hebraico intitulado Livro da Criação e atribuir sua autoria a Abraão, o patriarca veterotestamentário. Ou seja, na Renascença os judeus e os ocultistas liam um manual de magia feito na Itália contemporânea e acreditavam que era uma obra secreta de Abraão.
Sobre a relação entre o golem e a ciência moderna, Scholem recolhe variadas versões do golem para apontar que, numa delas, há uma antecipação mais exata do homúnculo de Paracelso, pois o golem é criado a partir da argila dentro uma retorta. E assim ficamos sabendo que o Pai da Toxicologia acreditava ser capaz de produzir um homúnculo colocando esperma humano junto com o útero podre de uma égua e outras coisas nojentas dentro de uma retorta.
O que salta aos olhos na versão acima reproduzida da história do golem é a sua modernidade, ou até pós-modernidade. Nela, o homem é capaz de “matar Deus” (de torná-lo insignificante) por meio do conhecimento dos segredos da Criação – ou, modernamente, por meio do conhecimento da natureza. A função da ciência passa a ser pragmática: desvendar os segredos da natureza para manipulá-la tal como se fosse o seu autor. Na formulação de Francis Bacon, torturar a natureza para arrancar-lhe os segredos, porque conhecimento é poder. O conhecimento é instrumental, pois a teoria está subordinada à técnica.
Se as ideias baconianas de torturar a natureza e de que conhecimento é poder são notórias, o mesmo não se pode dizer da sua ideia de que a ciência é mágica. A este respeito, vale citar o estudioso de religiões Jason Josephson:
“Bacon descrevia seu famoso método experimental […] explicitamente em termos de mágica. Como disse em De Dignitate et Augmentis Scientiarum (1623): ‘A mágica pretende recuperar a filosofia natural de uma miscelânea especulativa e trazê-la para a grandeza de obras’, o que era exatamente o que ele tentava fazer com seu próprio projeto. Bacon também definiu a mágica ‘como a ciência que aplica o conhecimento às formas ocultas da produção de operações maravilhosas; e por meio da união (como se diz) dos ativos com os passivos, exibe as maravilhosas obras da natureza.’ A mágica era uma forma pragmática, ou instrumentalista, da filosofia natural, exatamente do tipo que Bacon via como faltante na escolástica. Bacon […] também queria aprimorar a mágica. Como argumentou em De augmentis, ‘devo estipular que a mágica, que foi usada por muito tempo com um mau sentido, seja mais uma vez restaurada para o seu significado antigo e honorável. Pois entre os persas a mágica era tomada como uma sabedoria sublime, o conhecimento da harmonia universal das coisas.’” (The Myth of Disenchantment, p. 46).
Ou seja, uma vez que se comece a rebobinar a história, não há nenhuma necessidade de parar, e todo livro que se suponha mais antigo do que a Igreja Romana é um potencial portador de segredos que “eles” não querem que você saiba. Essa é a mentalidade do surto de ocultismo da época da Reforma.
Por fim, outra coisa que chama a atenção nessa visão da ciência é a possibilidade de o homem se colocar como um outro perante a natureza. De fato, Deus é literalmente sobrenatural (o autor da natureza está acima dela). O homem, porém, ao se ver como êmulo de Deus, acaba por se colocar como uma espécie de manipulador sobrenatural da natureza, como se estivesse fora do escopo dos estudos científicos (excetuando-se o lado fisiológico). A natureza humana, que tanto ocupou a filosofia clássica, toma um chá de sumiço com o advento da ciência moderna, que tanto privilegia a técnica e o domínio da natureza.
A coisa é tanto mais estranha, quanto mais pensamos que a tecnologia agora se deslumbra com o delírio de recriar a inteligência humana (IA), e que essa fantasia já tinha um precedente mitológico no golem.


