Português
Eduardo Vasco
March 15, 2026
© Photo: Public domain

Na superfície, pode até parecer que o Irã está perdendo a guerra. Mas, no fundo, a derrota já está decretada para os Estados Unidos.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Tudo o que Trump tem dito sobre a guerra com o Irã é pura mentira ou ao menos uma grande distorção dos fatos. No meio desta semana ele se gabou de ter supostamente destruído praticamente toda a infraestrutura de defesa do país, incluindo sua frota naval, a força aérea e a capacidade de mísseis. Chegou ao ponto de decretar que os Estados Unidos venceram a guerra.

Somente os jornalistas hipócritas da máquina de propaganda do Pentágono – os mesmos que gostam de se passar por imparciais e mesmo críticos das políticas internas de Trump – podem fingir acreditar e tentar lavar o cérebro de seu público com essa farsa.

Assim como o Hamas em Gaza e o Hezbollah no Líbano, a indústria de mentiras do imperialismo tenta enfiar goela abaixo da audiência que o Irã está de joelhos diante da onipotência de Estados Unidos e Israel. A própria inteligência americana, no entanto, admite que o regime iraniano “não está em perigo”, apesar de quase duas semanas de bombardeios incessantes e muita manipulação.

É claro que o Irã está sendo vítima de uma guerra de agressão covarde, cujos inimigos não têm pudor em bombardear escolas infantis matando 160 meninas ou em causar chuvas ácidas que causam doenças em civis através de ataques a instalações petrolíferas. São históricos criminosos de guerra, acostumados a utilizar os métodos mais vis e desprezíveis para atingir seus objetivos de aniquilação.

Mas o alto comando político e militar do país sabia que isso era inevitável e vinha se preparando para um confronto dessas proporções há décadas. A resiliência iraniana enfrenta poucos concorrentes no mundo. Estão preparados para suportar altos custos com a certeza de que sua guerra é sagrada e de que a vitória será alcançada.

Porque a vitória, em uma guerra assimétrica e desproporcional como a de um país oprimido contra a maior potência opressora da história da humanidade, não precisa ser e nem será alcançada com a destruição do inimigo. Basta impedir que os Estados Unidos e seu posto avançado israelense conquistem seus objetivos de curto e médio prazo. Em uma época de crise estrutural do sistema imperialista, inclusive em seu coração – os próprios EUA –, não apenas o inimigo não alcançará seus objetivos como também se enfraquecerá de uma forma nunca vista antes.

Quando bases militares americanas foram atingidas como estão sendo nesta guerra? Quando os americanos tiveram de evacuar tantas embaixadas e consulados como agora? Quando a toda-poderosa indústria bélica dos EUA foi tão humilhada ao verem arrasados sistemas de defesa tão caros como os que pretensamente protegem os seus clientes na região?

O Irã tem o potencial de gerar um dano econômico indelével aos Estados Unidos e a todo o sistema imperialista mundial. E já está mostrando suas armas ao fechar o Estreito de Ormuz e bombardear refinarias no Golfo Pérsico. De certa forma, o jogo virou contra o imperialismo: parece que o controle sobre a economia mundial não é tão férreo assim. Parece que quem controla, em certo sentido, essa economia mundial não são os países desenvolvidos, ricos e de primeiro mundo, mas sim os “lunáticos” e “fanáticos” aiatolás.

A revista The Economist, o primeiro porta-voz dos banqueiros internacionais, revelou o desespero desses especuladores ao estampar em sua mais recente manchete: “Uma guerra sem estratégia.” As pessoas mais poderosas do mundo estão começando a ficar em pânico diante da resiliência iraniana e já questionam a eficiência da agressão trumpista.

Não nos enganemos: eles apoiam integralmente a destruição total do Irã. Por eles, não deveria ser deixada pedra sobre pedra da sociedade persa milenar. Estamos falando dos promotores do genocídio de ao menos 70 mil palestinos. Prova desse apoio é a votação vergonhosa no Conselho de Segurança da ONU, proposta pelo Estado-fantoche do Bahrein, que condenou a legítima retaliação iraniana contra os regimes artificiais sustentados por EUA e Israel no Golfo, mas não deu nenhum pio sobre a agressão que o Irã está sofrendo.

Realmente, o jogo virou contra o imperialismo. O fechamento de Ormuz significa o estrangulamento do sistema econômico mundial e, portanto, o sufocamento da própria economia americana. Já se considera seriamente lançar mão das reservas internacionais de petróleo para segurar a alta exponencial dos preços, uma medida absolutamente excepcional e eficiente apenas a curtíssimo prazo.

A Casa Branca, embora não reconheça, sabe que o tiro está saindo pela culatra: Trump, nervoso, já afirma que as forças armadas dos EUA irão escoltar os navios que precisam atravessar o Estreito de Ormuz, a fim de garantir o transporte de petróleo. Parece um blefe, ao menos por enquanto. De qualquer forma, se tentaram, no nível atual de escalada do conflito não restam dúvidas que o Irã irá destruir a escolta e afundar esses navios.

Os Estados Unidos já estariam desperdiçando cerca de 2 bilhões de dólares por dia com essa guerra. Ela é extremamente custosa para os cofres públicos, ainda mais com uma dívida pornográfica de quase 40 trilhões de dólares. A continuidade da guerra poderia acelerar uma nova crise financeira pior que a de 2008 – assim como uma crise do petróleo pior que a de 1973. O sistema capitalista mundial, este sim, seria colocado de joelhos.

A posição do Economist expressa a insatisfação da burguesia internacional, inclusive da americana. Alguns congressistas democratas e mesmo republicanos foram novamente mobilizados para criticar o governo. Por outro lado, eles também representam camadas de cidadãos comuns, trabalhadores, pequenos empresários e agricultores que se sentem traídos por Trump após ele se eleger prometendo o fim das guerras imperialistas sob o lema de “America First”.

Uma pesquisa da Reuters/Ipsos divulgada no dia seguinte ao início da guerra mostrou que apenas um em cada quatro americanos apoiava a agressão imperialista, enquanto 43% se opunham. Nas pesquisas posteriores, houve um equilíbrio maior – primeiro, 56% contrários e 44% favoráveis (NPR/PBS/Marist, 2-4 de março), depois 42% a favor de interromper os ataques e 34% a favor da continuação dos ataques (NYT, 6-9 de março). Isso indica que o aparato propagandístico CNN-Fox News-NY-WP etc. tem trabalhado para apresentar a agressão contra o Irã de um ponto de vista positivo, levando boa parte dos americanos a acreditar que os Estados Unidos estão corretos após o abalo inicial.

Mas a crença nos meios de comunicação já não é tão cega quanto antigamente. Em 2001 uma pesquisa do Washington Post/ABC News mostrou 93% de apoio à invasão do Afeganistão, enquanto a da Gallup mostrou quase 90% de apoio. Quando os EUA invadiram o Iraque, dois anos depois, o apoio também foi enorme: 72% segundo a Gallup e 70% segundo o Pew Research Center. O extermínio de civis e o desastre militar, apesar da destruição daqueles países, com a consequência expulsão do exército dos EUA, levaram a uma onda de protestos por todo o país, impulsionada pela abertura da crise capitalista em 2008. Desde então, a consciência política dos americanos vem se elevando, mesmo que timidamente devido à alta dose de estupidez do povo americano.

Hoje há um número crescente de influenciadores, principalmente de direita, que se opõem à globalização neoliberal cuja manifestação militar são precisamente as agressões conduzidas pelo exército dos Estados Unidos. Diversos ex-integrantes das forças armadas, dos serviços de inteligência e do governo americano são atualmente comentaristas independentes que desfrutam de grande popularidade e criticam abertamente as ações imperialistas. O mais importante é que eles influenciam a própria base social do governo Trump: cidadãos desiludidos com os políticos do establishment e com o status quo que pensavam que Trump seria diferente deles. Ainda que não seja tão palpável, há uma crise no trumpismo que se reflete na secundarização completa de figuras como Tulsi Gabbard e Robert F. Kennedy Jr. enquanto Marco Rubio assume as rédeas da política externa.

Já não é de hoje que a sociedade americana está dividida e desde os primeiros meses do segundo mandato a própria administração Trump tem sofrido uma fratura possivelmente incurável. O desastre militar e econômico da agressão ao Irã certamente contribuirá para colocar ainda mais abaixo esse frágil edifício político e social.

Na superfície, pode até parecer que o Irã está perdendo a guerra. Mas, no fundo, a derrota já está decretada para os Estados Unidos.

Quem está mais perto do colapso?

Na superfície, pode até parecer que o Irã está perdendo a guerra. Mas, no fundo, a derrota já está decretada para os Estados Unidos.

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Tudo o que Trump tem dito sobre a guerra com o Irã é pura mentira ou ao menos uma grande distorção dos fatos. No meio desta semana ele se gabou de ter supostamente destruído praticamente toda a infraestrutura de defesa do país, incluindo sua frota naval, a força aérea e a capacidade de mísseis. Chegou ao ponto de decretar que os Estados Unidos venceram a guerra.

Somente os jornalistas hipócritas da máquina de propaganda do Pentágono – os mesmos que gostam de se passar por imparciais e mesmo críticos das políticas internas de Trump – podem fingir acreditar e tentar lavar o cérebro de seu público com essa farsa.

Assim como o Hamas em Gaza e o Hezbollah no Líbano, a indústria de mentiras do imperialismo tenta enfiar goela abaixo da audiência que o Irã está de joelhos diante da onipotência de Estados Unidos e Israel. A própria inteligência americana, no entanto, admite que o regime iraniano “não está em perigo”, apesar de quase duas semanas de bombardeios incessantes e muita manipulação.

É claro que o Irã está sendo vítima de uma guerra de agressão covarde, cujos inimigos não têm pudor em bombardear escolas infantis matando 160 meninas ou em causar chuvas ácidas que causam doenças em civis através de ataques a instalações petrolíferas. São históricos criminosos de guerra, acostumados a utilizar os métodos mais vis e desprezíveis para atingir seus objetivos de aniquilação.

Mas o alto comando político e militar do país sabia que isso era inevitável e vinha se preparando para um confronto dessas proporções há décadas. A resiliência iraniana enfrenta poucos concorrentes no mundo. Estão preparados para suportar altos custos com a certeza de que sua guerra é sagrada e de que a vitória será alcançada.

Porque a vitória, em uma guerra assimétrica e desproporcional como a de um país oprimido contra a maior potência opressora da história da humanidade, não precisa ser e nem será alcançada com a destruição do inimigo. Basta impedir que os Estados Unidos e seu posto avançado israelense conquistem seus objetivos de curto e médio prazo. Em uma época de crise estrutural do sistema imperialista, inclusive em seu coração – os próprios EUA –, não apenas o inimigo não alcançará seus objetivos como também se enfraquecerá de uma forma nunca vista antes.

Quando bases militares americanas foram atingidas como estão sendo nesta guerra? Quando os americanos tiveram de evacuar tantas embaixadas e consulados como agora? Quando a toda-poderosa indústria bélica dos EUA foi tão humilhada ao verem arrasados sistemas de defesa tão caros como os que pretensamente protegem os seus clientes na região?

O Irã tem o potencial de gerar um dano econômico indelével aos Estados Unidos e a todo o sistema imperialista mundial. E já está mostrando suas armas ao fechar o Estreito de Ormuz e bombardear refinarias no Golfo Pérsico. De certa forma, o jogo virou contra o imperialismo: parece que o controle sobre a economia mundial não é tão férreo assim. Parece que quem controla, em certo sentido, essa economia mundial não são os países desenvolvidos, ricos e de primeiro mundo, mas sim os “lunáticos” e “fanáticos” aiatolás.

A revista The Economist, o primeiro porta-voz dos banqueiros internacionais, revelou o desespero desses especuladores ao estampar em sua mais recente manchete: “Uma guerra sem estratégia.” As pessoas mais poderosas do mundo estão começando a ficar em pânico diante da resiliência iraniana e já questionam a eficiência da agressão trumpista.

Não nos enganemos: eles apoiam integralmente a destruição total do Irã. Por eles, não deveria ser deixada pedra sobre pedra da sociedade persa milenar. Estamos falando dos promotores do genocídio de ao menos 70 mil palestinos. Prova desse apoio é a votação vergonhosa no Conselho de Segurança da ONU, proposta pelo Estado-fantoche do Bahrein, que condenou a legítima retaliação iraniana contra os regimes artificiais sustentados por EUA e Israel no Golfo, mas não deu nenhum pio sobre a agressão que o Irã está sofrendo.

Realmente, o jogo virou contra o imperialismo. O fechamento de Ormuz significa o estrangulamento do sistema econômico mundial e, portanto, o sufocamento da própria economia americana. Já se considera seriamente lançar mão das reservas internacionais de petróleo para segurar a alta exponencial dos preços, uma medida absolutamente excepcional e eficiente apenas a curtíssimo prazo.

A Casa Branca, embora não reconheça, sabe que o tiro está saindo pela culatra: Trump, nervoso, já afirma que as forças armadas dos EUA irão escoltar os navios que precisam atravessar o Estreito de Ormuz, a fim de garantir o transporte de petróleo. Parece um blefe, ao menos por enquanto. De qualquer forma, se tentaram, no nível atual de escalada do conflito não restam dúvidas que o Irã irá destruir a escolta e afundar esses navios.

Os Estados Unidos já estariam desperdiçando cerca de 2 bilhões de dólares por dia com essa guerra. Ela é extremamente custosa para os cofres públicos, ainda mais com uma dívida pornográfica de quase 40 trilhões de dólares. A continuidade da guerra poderia acelerar uma nova crise financeira pior que a de 2008 – assim como uma crise do petróleo pior que a de 1973. O sistema capitalista mundial, este sim, seria colocado de joelhos.

A posição do Economist expressa a insatisfação da burguesia internacional, inclusive da americana. Alguns congressistas democratas e mesmo republicanos foram novamente mobilizados para criticar o governo. Por outro lado, eles também representam camadas de cidadãos comuns, trabalhadores, pequenos empresários e agricultores que se sentem traídos por Trump após ele se eleger prometendo o fim das guerras imperialistas sob o lema de “America First”.

Uma pesquisa da Reuters/Ipsos divulgada no dia seguinte ao início da guerra mostrou que apenas um em cada quatro americanos apoiava a agressão imperialista, enquanto 43% se opunham. Nas pesquisas posteriores, houve um equilíbrio maior – primeiro, 56% contrários e 44% favoráveis (NPR/PBS/Marist, 2-4 de março), depois 42% a favor de interromper os ataques e 34% a favor da continuação dos ataques (NYT, 6-9 de março). Isso indica que o aparato propagandístico CNN-Fox News-NY-WP etc. tem trabalhado para apresentar a agressão contra o Irã de um ponto de vista positivo, levando boa parte dos americanos a acreditar que os Estados Unidos estão corretos após o abalo inicial.

Mas a crença nos meios de comunicação já não é tão cega quanto antigamente. Em 2001 uma pesquisa do Washington Post/ABC News mostrou 93% de apoio à invasão do Afeganistão, enquanto a da Gallup mostrou quase 90% de apoio. Quando os EUA invadiram o Iraque, dois anos depois, o apoio também foi enorme: 72% segundo a Gallup e 70% segundo o Pew Research Center. O extermínio de civis e o desastre militar, apesar da destruição daqueles países, com a consequência expulsão do exército dos EUA, levaram a uma onda de protestos por todo o país, impulsionada pela abertura da crise capitalista em 2008. Desde então, a consciência política dos americanos vem se elevando, mesmo que timidamente devido à alta dose de estupidez do povo americano.

Hoje há um número crescente de influenciadores, principalmente de direita, que se opõem à globalização neoliberal cuja manifestação militar são precisamente as agressões conduzidas pelo exército dos Estados Unidos. Diversos ex-integrantes das forças armadas, dos serviços de inteligência e do governo americano são atualmente comentaristas independentes que desfrutam de grande popularidade e criticam abertamente as ações imperialistas. O mais importante é que eles influenciam a própria base social do governo Trump: cidadãos desiludidos com os políticos do establishment e com o status quo que pensavam que Trump seria diferente deles. Ainda que não seja tão palpável, há uma crise no trumpismo que se reflete na secundarização completa de figuras como Tulsi Gabbard e Robert F. Kennedy Jr. enquanto Marco Rubio assume as rédeas da política externa.

Já não é de hoje que a sociedade americana está dividida e desde os primeiros meses do segundo mandato a própria administração Trump tem sofrido uma fratura possivelmente incurável. O desastre militar e econômico da agressão ao Irã certamente contribuirá para colocar ainda mais abaixo esse frágil edifício político e social.

Na superfície, pode até parecer que o Irã está perdendo a guerra. Mas, no fundo, a derrota já está decretada para os Estados Unidos.

Na superfície, pode até parecer que o Irã está perdendo a guerra. Mas, no fundo, a derrota já está decretada para os Estados Unidos.

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Tudo o que Trump tem dito sobre a guerra com o Irã é pura mentira ou ao menos uma grande distorção dos fatos. No meio desta semana ele se gabou de ter supostamente destruído praticamente toda a infraestrutura de defesa do país, incluindo sua frota naval, a força aérea e a capacidade de mísseis. Chegou ao ponto de decretar que os Estados Unidos venceram a guerra.

Somente os jornalistas hipócritas da máquina de propaganda do Pentágono – os mesmos que gostam de se passar por imparciais e mesmo críticos das políticas internas de Trump – podem fingir acreditar e tentar lavar o cérebro de seu público com essa farsa.

Assim como o Hamas em Gaza e o Hezbollah no Líbano, a indústria de mentiras do imperialismo tenta enfiar goela abaixo da audiência que o Irã está de joelhos diante da onipotência de Estados Unidos e Israel. A própria inteligência americana, no entanto, admite que o regime iraniano “não está em perigo”, apesar de quase duas semanas de bombardeios incessantes e muita manipulação.

É claro que o Irã está sendo vítima de uma guerra de agressão covarde, cujos inimigos não têm pudor em bombardear escolas infantis matando 160 meninas ou em causar chuvas ácidas que causam doenças em civis através de ataques a instalações petrolíferas. São históricos criminosos de guerra, acostumados a utilizar os métodos mais vis e desprezíveis para atingir seus objetivos de aniquilação.

Mas o alto comando político e militar do país sabia que isso era inevitável e vinha se preparando para um confronto dessas proporções há décadas. A resiliência iraniana enfrenta poucos concorrentes no mundo. Estão preparados para suportar altos custos com a certeza de que sua guerra é sagrada e de que a vitória será alcançada.

Porque a vitória, em uma guerra assimétrica e desproporcional como a de um país oprimido contra a maior potência opressora da história da humanidade, não precisa ser e nem será alcançada com a destruição do inimigo. Basta impedir que os Estados Unidos e seu posto avançado israelense conquistem seus objetivos de curto e médio prazo. Em uma época de crise estrutural do sistema imperialista, inclusive em seu coração – os próprios EUA –, não apenas o inimigo não alcançará seus objetivos como também se enfraquecerá de uma forma nunca vista antes.

Quando bases militares americanas foram atingidas como estão sendo nesta guerra? Quando os americanos tiveram de evacuar tantas embaixadas e consulados como agora? Quando a toda-poderosa indústria bélica dos EUA foi tão humilhada ao verem arrasados sistemas de defesa tão caros como os que pretensamente protegem os seus clientes na região?

O Irã tem o potencial de gerar um dano econômico indelével aos Estados Unidos e a todo o sistema imperialista mundial. E já está mostrando suas armas ao fechar o Estreito de Ormuz e bombardear refinarias no Golfo Pérsico. De certa forma, o jogo virou contra o imperialismo: parece que o controle sobre a economia mundial não é tão férreo assim. Parece que quem controla, em certo sentido, essa economia mundial não são os países desenvolvidos, ricos e de primeiro mundo, mas sim os “lunáticos” e “fanáticos” aiatolás.

A revista The Economist, o primeiro porta-voz dos banqueiros internacionais, revelou o desespero desses especuladores ao estampar em sua mais recente manchete: “Uma guerra sem estratégia.” As pessoas mais poderosas do mundo estão começando a ficar em pânico diante da resiliência iraniana e já questionam a eficiência da agressão trumpista.

Não nos enganemos: eles apoiam integralmente a destruição total do Irã. Por eles, não deveria ser deixada pedra sobre pedra da sociedade persa milenar. Estamos falando dos promotores do genocídio de ao menos 70 mil palestinos. Prova desse apoio é a votação vergonhosa no Conselho de Segurança da ONU, proposta pelo Estado-fantoche do Bahrein, que condenou a legítima retaliação iraniana contra os regimes artificiais sustentados por EUA e Israel no Golfo, mas não deu nenhum pio sobre a agressão que o Irã está sofrendo.

Realmente, o jogo virou contra o imperialismo. O fechamento de Ormuz significa o estrangulamento do sistema econômico mundial e, portanto, o sufocamento da própria economia americana. Já se considera seriamente lançar mão das reservas internacionais de petróleo para segurar a alta exponencial dos preços, uma medida absolutamente excepcional e eficiente apenas a curtíssimo prazo.

A Casa Branca, embora não reconheça, sabe que o tiro está saindo pela culatra: Trump, nervoso, já afirma que as forças armadas dos EUA irão escoltar os navios que precisam atravessar o Estreito de Ormuz, a fim de garantir o transporte de petróleo. Parece um blefe, ao menos por enquanto. De qualquer forma, se tentaram, no nível atual de escalada do conflito não restam dúvidas que o Irã irá destruir a escolta e afundar esses navios.

Os Estados Unidos já estariam desperdiçando cerca de 2 bilhões de dólares por dia com essa guerra. Ela é extremamente custosa para os cofres públicos, ainda mais com uma dívida pornográfica de quase 40 trilhões de dólares. A continuidade da guerra poderia acelerar uma nova crise financeira pior que a de 2008 – assim como uma crise do petróleo pior que a de 1973. O sistema capitalista mundial, este sim, seria colocado de joelhos.

A posição do Economist expressa a insatisfação da burguesia internacional, inclusive da americana. Alguns congressistas democratas e mesmo republicanos foram novamente mobilizados para criticar o governo. Por outro lado, eles também representam camadas de cidadãos comuns, trabalhadores, pequenos empresários e agricultores que se sentem traídos por Trump após ele se eleger prometendo o fim das guerras imperialistas sob o lema de “America First”.

Uma pesquisa da Reuters/Ipsos divulgada no dia seguinte ao início da guerra mostrou que apenas um em cada quatro americanos apoiava a agressão imperialista, enquanto 43% se opunham. Nas pesquisas posteriores, houve um equilíbrio maior – primeiro, 56% contrários e 44% favoráveis (NPR/PBS/Marist, 2-4 de março), depois 42% a favor de interromper os ataques e 34% a favor da continuação dos ataques (NYT, 6-9 de março). Isso indica que o aparato propagandístico CNN-Fox News-NY-WP etc. tem trabalhado para apresentar a agressão contra o Irã de um ponto de vista positivo, levando boa parte dos americanos a acreditar que os Estados Unidos estão corretos após o abalo inicial.

Mas a crença nos meios de comunicação já não é tão cega quanto antigamente. Em 2001 uma pesquisa do Washington Post/ABC News mostrou 93% de apoio à invasão do Afeganistão, enquanto a da Gallup mostrou quase 90% de apoio. Quando os EUA invadiram o Iraque, dois anos depois, o apoio também foi enorme: 72% segundo a Gallup e 70% segundo o Pew Research Center. O extermínio de civis e o desastre militar, apesar da destruição daqueles países, com a consequência expulsão do exército dos EUA, levaram a uma onda de protestos por todo o país, impulsionada pela abertura da crise capitalista em 2008. Desde então, a consciência política dos americanos vem se elevando, mesmo que timidamente devido à alta dose de estupidez do povo americano.

Hoje há um número crescente de influenciadores, principalmente de direita, que se opõem à globalização neoliberal cuja manifestação militar são precisamente as agressões conduzidas pelo exército dos Estados Unidos. Diversos ex-integrantes das forças armadas, dos serviços de inteligência e do governo americano são atualmente comentaristas independentes que desfrutam de grande popularidade e criticam abertamente as ações imperialistas. O mais importante é que eles influenciam a própria base social do governo Trump: cidadãos desiludidos com os políticos do establishment e com o status quo que pensavam que Trump seria diferente deles. Ainda que não seja tão palpável, há uma crise no trumpismo que se reflete na secundarização completa de figuras como Tulsi Gabbard e Robert F. Kennedy Jr. enquanto Marco Rubio assume as rédeas da política externa.

Já não é de hoje que a sociedade americana está dividida e desde os primeiros meses do segundo mandato a própria administração Trump tem sofrido uma fratura possivelmente incurável. O desastre militar e econômico da agressão ao Irã certamente contribuirá para colocar ainda mais abaixo esse frágil edifício político e social.

Na superfície, pode até parecer que o Irã está perdendo a guerra. Mas, no fundo, a derrota já está decretada para os Estados Unidos.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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March 14, 2026

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