Português
Eduardo Vasco
February 22, 2026
© Photo: Public domain

A volta do PT ao governo, após o golpe de 2016, tem aprofundado essa adaptação ao regime – adaptação a um regime cada vez mais antidemocrático.

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A classe média liberal foi a principal base de apoio da burguesia desde o primeiro dia em que o PT esteve no governo. Todos se lembram da Carta aos Brasileiros, que sacramentou a eleição de Lula em 2002. Mas poucos se recordam de um dos mais importantes desdobramentos daquele pacto, o conluio com a Rede Globo e as ONGs imperialistas para passar por cima da vontade popular expressa em plebiscito e desarmar totalmente o povo. Já se revelava a necessidade do imperialismo de fortalecer o Estado subordinado a ele e enfraquecer a organização independente das massas oprimidas em pleno governo progressista.

Apesar de toda a opressão exercida durante séculos contra o povo brasileiro, foi a passagem do domínio para o capital imperialista, parte diretamente e parte através da burguesia nacional subordinada a ele, e institucionalizada quase à perfeição pela constituição de 1988 e o neoliberalismo, que garantiu de maneira mais estável uma política contrarrevolucionária e de esmagamento do povo. O papel progressista dos bandeirantes, das ferrovias e da Revolução de 1930 de unificar o território nacional e organizar a economia teve a sua contrapartida reacionária na imposição das instituições estatais que organizam o país para a dominação imperialista sobre o povo – e cujo desenvolvimento e fortalecimento se aceleraram sobretudo a partir do final do século passado. Tal constatação é admitida pelos próprios intelectuais da burguesia: em declarações a uma reportagem da imprensa do Senado, o historiador Adilson José de Almeida, autor de trabalhos sobre a relação do Estado com a sociedade na história do Brasil, reconheceu que foi apenas na chamada “Nova República” que o Estado conseguiu implementar uma política sistemática de desarmamento do povo. Eis a confissão do historiador:

“O Estado não tinha recursos financeiros nem humanos para montar forças que dessem conta da segurança externa e interna do Brasil. Por isso, contava com a população civil, que estava obrigada a pegar em armas quando era convocada. (…) Os brasileiros aprendiam a atirar desde pequenos. Embora tentasse, o Estado nem sempre tinha controle sobre essa sociedade armada. Como estavam sempre à mão, as armas que deveriam servir ao Estado eram também usadas para resolver brigas particulares e disputas políticas locais. Por vezes, acabavam se voltando contra o próprio Estado.”

Daí que, ao mesmo tempo em que hoje se estabelece um domínio total do Estado sobre a sociedade, distorce-se e ataca-se a história nacional, precisamente para que a burguesia apresente o período de reação pós-1988 como a maior (ou mesmo a única) conquista que o povo brasileiro já conheceu. Antes, embora fosse fraco, o Estado podia tolerar o povo armado, pois esse povo estava desorganizado e isolado em poucas localidades espalhadas pelo país. A partir do momento em que o território nacional foi unificado, o povo começou a se conhecer e a classe operária ganhou personalidade própria, tornou-se intolerável para a burguesia a convivência com as massas armadas. Como ela mesma reconhece, passou a ser inevitável que o povo se voltasse contra o Estado. Esse temor é compartilhado integralmente pelos pretensos marxistas e socialistas, embebidos da fé supersticiosa no Estado.

Veja-se bem. Não é que o PT deixou de realizar uma medida democrática básica, deixou de armar o povo, que deixou de aplicar o bê-a-bá de uma democracia. Nesse ponto, ele fez mais pela classe dominante do que os próprios representantes tradicionais da classe dominante: ele desarmou completamente o povo. Até hoje ouvimos desses mesmos setores afogados por inteiro nos preconceitos pequeno-burgueses que os trabalhadores e o povo em geral não têm recursos para comprar armas, não saberão manuseá-las, voltar-se-ão contra os seus irmãos, só os ricos conseguirão comprar armas e uma série de tolices do gênero.

Em um artigo sobre o programa militar da revolução proletária, escrito para os social-democratas europeus em 1916 (portanto antes do estabelecimento do Estado operário na Rússia e antes de existir uma situação revolucionária), Lênin identificava a origem desse posicionamento covarde: “o desarmamento como ideia social, isto é, como ideia gerada por determinado ambiente social e que pode atuar sobre determinado ambiente social e não permanece como simples capricho pessoal, foi gerado, evidentemente, pelas condições de vida especiais, excepcionalmente ‘tranquilas’, de alguns pequenos Estados, que durante um período de tempo bastante longo se mantiveram à margem do sangrento caminho mundial das guerras e têm esperanças de continuar à margem.”

No caso do Brasil, o ambiente social é a era neoliberal, de desorganização do proletariado, plena integração da burocracia sindical ao regime burguês e preenchimento do vácuo criado por essa orfandade dos trabalhadores pelo aparecimento de intelectuais e acadêmicos da pequena burguesia como “teóricos” do movimento operário, orientando os trabalhadores a se enquadrar no pensamento oriundo do conforto da vida do pequeno-burguês. O trabalhador que mora na favela e apanha da polícia está longe dessa realidade artificial. “Uma classe oprimida que não aspire a aprender a manejar as armas, a possuir armas”, opinou Lênin, no mesmo texto, “tal classe oprimida mereceria apenas ser tratada como são tratados os escravos”. A burguesia já está armada até os dentes. E se arma cada dia mais, com um destacamento de homens cada vez mais profissional, a polícia, treinados para arrebentar os miolos do povo trabalhador. Não se armar para se defender disso, não se armar para a revolução, que só pode ser armada, é trair os trabalhadores e jogá-los aos leões.

As palavras do historiador burguês citadas anteriormente mostram que, não importa o momento, a classe dominante teme um povo que esteja armado, porque o poder se resume, em última instância, à força – isto é, à força das armas – e não é possível manter uma casta separada e acima do povo, que oprime esse povo, sem o monopólio das armas. Por isso Lênin já dizia, recordando os revolucionários franceses, que um fuzil ao ombro de cada operário é a única garantia de democracia.

Não se trata de uma medida socialista ou mesmo radical por si só. Quando os dirigentes do Partido Operário Social-Democrata Alemão elaboravam o Programa de Gotha e exigiam, entre outras coisas, a formação de uma milícia popular, Marx debochava: “suas reivindicações políticas não vão além da velha e surrada ladainha democrática (…) São um simples eco do Partido Popular burguês”. Ele criticava asperamente aquele programa rebaixado, que se limitava a exigir o que já era realidade em países como Estados Unidos e Suíça, a “exigir coisas que só têm sentido numa República democrática”. Em plena ditadura militar, é claro que seria ridículo exigir o armamento do povo por meios legais; mas se a República democrática foi conquistada no Brasil, qual a razão de não se exigir esse direito fundamental a não ser o abandono dos princípios democráticos? O Programa de Gotha e a crítica de Marx datam de 1875, em um período de refluxo do movimento operário após a derrota da Comuna e de relativa calmaria dos conflitos sociais sob o bonapartismo bismarckiano – disso se esquecem os que advogam que os trabalhadores só devem ser armados em uma situação revolucionária, mas que fogem e fugirão diante dessa situação revolucionária.

Os governos do PT, desde o primeiro momento, nunca foram governos verdadeiramente democráticos, mas sim governos que só pretendem aplicar reformas democráticas secundárias e extremamente limitadas. Não poderia ser diferente, pois o PT é um partido cujo aparelho é dominado pela pequena burguesia e totalmente integrado ao regime burguês, que chegou ao governo e governa em um período de refluxo do movimento operário, cuja mobilização revolucionária seria a única capaz de abalar e demolir os pilares do regime. A apatia no seio do proletariado em consequência da reação neoliberal permite o controle dos sindicatos por uma burocracia de estilo de vida e pensamentos pequeno-burgueses, proveniente do correspondente brasileiro à aristocracia operária europeia.

Ao invés de minar, ainda que timidamente, o controle da burocracia estatal sobre o povo, de realizar as aspirações da sua base operária e sem terra, a fragilidade do PT diante da burguesia o fez manter e aprofundar o controle do Estado burguês sobre o povo e, além de desarmar os oprimidos, ignorou a reforma agrária, enfraqueceu os sindicatos, favoreceu a desigualdade social (Lula o reconheceu inúmeras vezes ao declarar que os bancos nunca lucraram tanto como em seus governos), reforçou o judiciário e a polícia e foi à reboque da burguesia contra os representantes eleitos pelo povo (como no caso da Lei da Ficha Limpa).

O PT começou por acoplar a aristocracia operária como um apêndice da burocracia estatal quando a burguesia lhe permitiu, mas as alianças com o centrão para “garantir a governabilidade” cada vez mais ameaçada pelas pressões do imperialismo o levaram a devolver com juros todo o poder à burocracia tradicional do Estado, aos elementos da burguesia. Assim como a social democracia europeia, ajudou a cavar a própria cova. Porque, diante da mudança de cenário com a crise de 2008, quando o imperialismo precisou elevar o nível do saque contra as nações pobres, o PT tornou-se um empecilho às necessidades dos monopólios. Parafraseando Rosa Luxemburgo sobre a social democracia alemã na revolução de 1918, os governos do PT mantiveram o Estado nas mãos dos que ontem apoiavam a ditadura militar e nas mãos dos que amanhã serão instrumentos da contrarrevolução.

A volta do PT ao governo, após o golpe de 2016, tem aprofundado essa adaptação ao regime – adaptação a um regime cada vez mais antidemocrático, e do qual o PT tem se esforçado para ser seu principal representante. Mesmo que tenha algum sucesso (e ele trabalha intensamente para isso), dificilmente o PT obterá 100% da confiança do imperialismo. Na verdade, não passa de um partido descartável. Também será descartável para os trabalhadores.

O PT, a esquerda e o armamento da população

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A classe média liberal foi a principal base de apoio da burguesia desde o primeiro dia em que o PT esteve no governo. Todos se lembram da Carta aos Brasileiros, que sacramentou a eleição de Lula em 2002. Mas poucos se recordam de um dos mais importantes desdobramentos daquele pacto, o conluio com a Rede Globo e as ONGs imperialistas para passar por cima da vontade popular expressa em plebiscito e desarmar totalmente o povo. Já se revelava a necessidade do imperialismo de fortalecer o Estado subordinado a ele e enfraquecer a organização independente das massas oprimidas em pleno governo progressista.

Apesar de toda a opressão exercida durante séculos contra o povo brasileiro, foi a passagem do domínio para o capital imperialista, parte diretamente e parte através da burguesia nacional subordinada a ele, e institucionalizada quase à perfeição pela constituição de 1988 e o neoliberalismo, que garantiu de maneira mais estável uma política contrarrevolucionária e de esmagamento do povo. O papel progressista dos bandeirantes, das ferrovias e da Revolução de 1930 de unificar o território nacional e organizar a economia teve a sua contrapartida reacionária na imposição das instituições estatais que organizam o país para a dominação imperialista sobre o povo – e cujo desenvolvimento e fortalecimento se aceleraram sobretudo a partir do final do século passado. Tal constatação é admitida pelos próprios intelectuais da burguesia: em declarações a uma reportagem da imprensa do Senado, o historiador Adilson José de Almeida, autor de trabalhos sobre a relação do Estado com a sociedade na história do Brasil, reconheceu que foi apenas na chamada “Nova República” que o Estado conseguiu implementar uma política sistemática de desarmamento do povo. Eis a confissão do historiador:

“O Estado não tinha recursos financeiros nem humanos para montar forças que dessem conta da segurança externa e interna do Brasil. Por isso, contava com a população civil, que estava obrigada a pegar em armas quando era convocada. (…) Os brasileiros aprendiam a atirar desde pequenos. Embora tentasse, o Estado nem sempre tinha controle sobre essa sociedade armada. Como estavam sempre à mão, as armas que deveriam servir ao Estado eram também usadas para resolver brigas particulares e disputas políticas locais. Por vezes, acabavam se voltando contra o próprio Estado.”

Daí que, ao mesmo tempo em que hoje se estabelece um domínio total do Estado sobre a sociedade, distorce-se e ataca-se a história nacional, precisamente para que a burguesia apresente o período de reação pós-1988 como a maior (ou mesmo a única) conquista que o povo brasileiro já conheceu. Antes, embora fosse fraco, o Estado podia tolerar o povo armado, pois esse povo estava desorganizado e isolado em poucas localidades espalhadas pelo país. A partir do momento em que o território nacional foi unificado, o povo começou a se conhecer e a classe operária ganhou personalidade própria, tornou-se intolerável para a burguesia a convivência com as massas armadas. Como ela mesma reconhece, passou a ser inevitável que o povo se voltasse contra o Estado. Esse temor é compartilhado integralmente pelos pretensos marxistas e socialistas, embebidos da fé supersticiosa no Estado.

Veja-se bem. Não é que o PT deixou de realizar uma medida democrática básica, deixou de armar o povo, que deixou de aplicar o bê-a-bá de uma democracia. Nesse ponto, ele fez mais pela classe dominante do que os próprios representantes tradicionais da classe dominante: ele desarmou completamente o povo. Até hoje ouvimos desses mesmos setores afogados por inteiro nos preconceitos pequeno-burgueses que os trabalhadores e o povo em geral não têm recursos para comprar armas, não saberão manuseá-las, voltar-se-ão contra os seus irmãos, só os ricos conseguirão comprar armas e uma série de tolices do gênero.

Em um artigo sobre o programa militar da revolução proletária, escrito para os social-democratas europeus em 1916 (portanto antes do estabelecimento do Estado operário na Rússia e antes de existir uma situação revolucionária), Lênin identificava a origem desse posicionamento covarde: “o desarmamento como ideia social, isto é, como ideia gerada por determinado ambiente social e que pode atuar sobre determinado ambiente social e não permanece como simples capricho pessoal, foi gerado, evidentemente, pelas condições de vida especiais, excepcionalmente ‘tranquilas’, de alguns pequenos Estados, que durante um período de tempo bastante longo se mantiveram à margem do sangrento caminho mundial das guerras e têm esperanças de continuar à margem.”

No caso do Brasil, o ambiente social é a era neoliberal, de desorganização do proletariado, plena integração da burocracia sindical ao regime burguês e preenchimento do vácuo criado por essa orfandade dos trabalhadores pelo aparecimento de intelectuais e acadêmicos da pequena burguesia como “teóricos” do movimento operário, orientando os trabalhadores a se enquadrar no pensamento oriundo do conforto da vida do pequeno-burguês. O trabalhador que mora na favela e apanha da polícia está longe dessa realidade artificial. “Uma classe oprimida que não aspire a aprender a manejar as armas, a possuir armas”, opinou Lênin, no mesmo texto, “tal classe oprimida mereceria apenas ser tratada como são tratados os escravos”. A burguesia já está armada até os dentes. E se arma cada dia mais, com um destacamento de homens cada vez mais profissional, a polícia, treinados para arrebentar os miolos do povo trabalhador. Não se armar para se defender disso, não se armar para a revolução, que só pode ser armada, é trair os trabalhadores e jogá-los aos leões.

As palavras do historiador burguês citadas anteriormente mostram que, não importa o momento, a classe dominante teme um povo que esteja armado, porque o poder se resume, em última instância, à força – isto é, à força das armas – e não é possível manter uma casta separada e acima do povo, que oprime esse povo, sem o monopólio das armas. Por isso Lênin já dizia, recordando os revolucionários franceses, que um fuzil ao ombro de cada operário é a única garantia de democracia.

Não se trata de uma medida socialista ou mesmo radical por si só. Quando os dirigentes do Partido Operário Social-Democrata Alemão elaboravam o Programa de Gotha e exigiam, entre outras coisas, a formação de uma milícia popular, Marx debochava: “suas reivindicações políticas não vão além da velha e surrada ladainha democrática (…) São um simples eco do Partido Popular burguês”. Ele criticava asperamente aquele programa rebaixado, que se limitava a exigir o que já era realidade em países como Estados Unidos e Suíça, a “exigir coisas que só têm sentido numa República democrática”. Em plena ditadura militar, é claro que seria ridículo exigir o armamento do povo por meios legais; mas se a República democrática foi conquistada no Brasil, qual a razão de não se exigir esse direito fundamental a não ser o abandono dos princípios democráticos? O Programa de Gotha e a crítica de Marx datam de 1875, em um período de refluxo do movimento operário após a derrota da Comuna e de relativa calmaria dos conflitos sociais sob o bonapartismo bismarckiano – disso se esquecem os que advogam que os trabalhadores só devem ser armados em uma situação revolucionária, mas que fogem e fugirão diante dessa situação revolucionária.

Os governos do PT, desde o primeiro momento, nunca foram governos verdadeiramente democráticos, mas sim governos que só pretendem aplicar reformas democráticas secundárias e extremamente limitadas. Não poderia ser diferente, pois o PT é um partido cujo aparelho é dominado pela pequena burguesia e totalmente integrado ao regime burguês, que chegou ao governo e governa em um período de refluxo do movimento operário, cuja mobilização revolucionária seria a única capaz de abalar e demolir os pilares do regime. A apatia no seio do proletariado em consequência da reação neoliberal permite o controle dos sindicatos por uma burocracia de estilo de vida e pensamentos pequeno-burgueses, proveniente do correspondente brasileiro à aristocracia operária europeia.

Ao invés de minar, ainda que timidamente, o controle da burocracia estatal sobre o povo, de realizar as aspirações da sua base operária e sem terra, a fragilidade do PT diante da burguesia o fez manter e aprofundar o controle do Estado burguês sobre o povo e, além de desarmar os oprimidos, ignorou a reforma agrária, enfraqueceu os sindicatos, favoreceu a desigualdade social (Lula o reconheceu inúmeras vezes ao declarar que os bancos nunca lucraram tanto como em seus governos), reforçou o judiciário e a polícia e foi à reboque da burguesia contra os representantes eleitos pelo povo (como no caso da Lei da Ficha Limpa).

O PT começou por acoplar a aristocracia operária como um apêndice da burocracia estatal quando a burguesia lhe permitiu, mas as alianças com o centrão para “garantir a governabilidade” cada vez mais ameaçada pelas pressões do imperialismo o levaram a devolver com juros todo o poder à burocracia tradicional do Estado, aos elementos da burguesia. Assim como a social democracia europeia, ajudou a cavar a própria cova. Porque, diante da mudança de cenário com a crise de 2008, quando o imperialismo precisou elevar o nível do saque contra as nações pobres, o PT tornou-se um empecilho às necessidades dos monopólios. Parafraseando Rosa Luxemburgo sobre a social democracia alemã na revolução de 1918, os governos do PT mantiveram o Estado nas mãos dos que ontem apoiavam a ditadura militar e nas mãos dos que amanhã serão instrumentos da contrarrevolução.

A volta do PT ao governo, após o golpe de 2016, tem aprofundado essa adaptação ao regime – adaptação a um regime cada vez mais antidemocrático, e do qual o PT tem se esforçado para ser seu principal representante. Mesmo que tenha algum sucesso (e ele trabalha intensamente para isso), dificilmente o PT obterá 100% da confiança do imperialismo. Na verdade, não passa de um partido descartável. Também será descartável para os trabalhadores.

A volta do PT ao governo, após o golpe de 2016, tem aprofundado essa adaptação ao regime – adaptação a um regime cada vez mais antidemocrático.

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A classe média liberal foi a principal base de apoio da burguesia desde o primeiro dia em que o PT esteve no governo. Todos se lembram da Carta aos Brasileiros, que sacramentou a eleição de Lula em 2002. Mas poucos se recordam de um dos mais importantes desdobramentos daquele pacto, o conluio com a Rede Globo e as ONGs imperialistas para passar por cima da vontade popular expressa em plebiscito e desarmar totalmente o povo. Já se revelava a necessidade do imperialismo de fortalecer o Estado subordinado a ele e enfraquecer a organização independente das massas oprimidas em pleno governo progressista.

Apesar de toda a opressão exercida durante séculos contra o povo brasileiro, foi a passagem do domínio para o capital imperialista, parte diretamente e parte através da burguesia nacional subordinada a ele, e institucionalizada quase à perfeição pela constituição de 1988 e o neoliberalismo, que garantiu de maneira mais estável uma política contrarrevolucionária e de esmagamento do povo. O papel progressista dos bandeirantes, das ferrovias e da Revolução de 1930 de unificar o território nacional e organizar a economia teve a sua contrapartida reacionária na imposição das instituições estatais que organizam o país para a dominação imperialista sobre o povo – e cujo desenvolvimento e fortalecimento se aceleraram sobretudo a partir do final do século passado. Tal constatação é admitida pelos próprios intelectuais da burguesia: em declarações a uma reportagem da imprensa do Senado, o historiador Adilson José de Almeida, autor de trabalhos sobre a relação do Estado com a sociedade na história do Brasil, reconheceu que foi apenas na chamada “Nova República” que o Estado conseguiu implementar uma política sistemática de desarmamento do povo. Eis a confissão do historiador:

“O Estado não tinha recursos financeiros nem humanos para montar forças que dessem conta da segurança externa e interna do Brasil. Por isso, contava com a população civil, que estava obrigada a pegar em armas quando era convocada. (…) Os brasileiros aprendiam a atirar desde pequenos. Embora tentasse, o Estado nem sempre tinha controle sobre essa sociedade armada. Como estavam sempre à mão, as armas que deveriam servir ao Estado eram também usadas para resolver brigas particulares e disputas políticas locais. Por vezes, acabavam se voltando contra o próprio Estado.”

Daí que, ao mesmo tempo em que hoje se estabelece um domínio total do Estado sobre a sociedade, distorce-se e ataca-se a história nacional, precisamente para que a burguesia apresente o período de reação pós-1988 como a maior (ou mesmo a única) conquista que o povo brasileiro já conheceu. Antes, embora fosse fraco, o Estado podia tolerar o povo armado, pois esse povo estava desorganizado e isolado em poucas localidades espalhadas pelo país. A partir do momento em que o território nacional foi unificado, o povo começou a se conhecer e a classe operária ganhou personalidade própria, tornou-se intolerável para a burguesia a convivência com as massas armadas. Como ela mesma reconhece, passou a ser inevitável que o povo se voltasse contra o Estado. Esse temor é compartilhado integralmente pelos pretensos marxistas e socialistas, embebidos da fé supersticiosa no Estado.

Veja-se bem. Não é que o PT deixou de realizar uma medida democrática básica, deixou de armar o povo, que deixou de aplicar o bê-a-bá de uma democracia. Nesse ponto, ele fez mais pela classe dominante do que os próprios representantes tradicionais da classe dominante: ele desarmou completamente o povo. Até hoje ouvimos desses mesmos setores afogados por inteiro nos preconceitos pequeno-burgueses que os trabalhadores e o povo em geral não têm recursos para comprar armas, não saberão manuseá-las, voltar-se-ão contra os seus irmãos, só os ricos conseguirão comprar armas e uma série de tolices do gênero.

Em um artigo sobre o programa militar da revolução proletária, escrito para os social-democratas europeus em 1916 (portanto antes do estabelecimento do Estado operário na Rússia e antes de existir uma situação revolucionária), Lênin identificava a origem desse posicionamento covarde: “o desarmamento como ideia social, isto é, como ideia gerada por determinado ambiente social e que pode atuar sobre determinado ambiente social e não permanece como simples capricho pessoal, foi gerado, evidentemente, pelas condições de vida especiais, excepcionalmente ‘tranquilas’, de alguns pequenos Estados, que durante um período de tempo bastante longo se mantiveram à margem do sangrento caminho mundial das guerras e têm esperanças de continuar à margem.”

No caso do Brasil, o ambiente social é a era neoliberal, de desorganização do proletariado, plena integração da burocracia sindical ao regime burguês e preenchimento do vácuo criado por essa orfandade dos trabalhadores pelo aparecimento de intelectuais e acadêmicos da pequena burguesia como “teóricos” do movimento operário, orientando os trabalhadores a se enquadrar no pensamento oriundo do conforto da vida do pequeno-burguês. O trabalhador que mora na favela e apanha da polícia está longe dessa realidade artificial. “Uma classe oprimida que não aspire a aprender a manejar as armas, a possuir armas”, opinou Lênin, no mesmo texto, “tal classe oprimida mereceria apenas ser tratada como são tratados os escravos”. A burguesia já está armada até os dentes. E se arma cada dia mais, com um destacamento de homens cada vez mais profissional, a polícia, treinados para arrebentar os miolos do povo trabalhador. Não se armar para se defender disso, não se armar para a revolução, que só pode ser armada, é trair os trabalhadores e jogá-los aos leões.

As palavras do historiador burguês citadas anteriormente mostram que, não importa o momento, a classe dominante teme um povo que esteja armado, porque o poder se resume, em última instância, à força – isto é, à força das armas – e não é possível manter uma casta separada e acima do povo, que oprime esse povo, sem o monopólio das armas. Por isso Lênin já dizia, recordando os revolucionários franceses, que um fuzil ao ombro de cada operário é a única garantia de democracia.

Não se trata de uma medida socialista ou mesmo radical por si só. Quando os dirigentes do Partido Operário Social-Democrata Alemão elaboravam o Programa de Gotha e exigiam, entre outras coisas, a formação de uma milícia popular, Marx debochava: “suas reivindicações políticas não vão além da velha e surrada ladainha democrática (…) São um simples eco do Partido Popular burguês”. Ele criticava asperamente aquele programa rebaixado, que se limitava a exigir o que já era realidade em países como Estados Unidos e Suíça, a “exigir coisas que só têm sentido numa República democrática”. Em plena ditadura militar, é claro que seria ridículo exigir o armamento do povo por meios legais; mas se a República democrática foi conquistada no Brasil, qual a razão de não se exigir esse direito fundamental a não ser o abandono dos princípios democráticos? O Programa de Gotha e a crítica de Marx datam de 1875, em um período de refluxo do movimento operário após a derrota da Comuna e de relativa calmaria dos conflitos sociais sob o bonapartismo bismarckiano – disso se esquecem os que advogam que os trabalhadores só devem ser armados em uma situação revolucionária, mas que fogem e fugirão diante dessa situação revolucionária.

Os governos do PT, desde o primeiro momento, nunca foram governos verdadeiramente democráticos, mas sim governos que só pretendem aplicar reformas democráticas secundárias e extremamente limitadas. Não poderia ser diferente, pois o PT é um partido cujo aparelho é dominado pela pequena burguesia e totalmente integrado ao regime burguês, que chegou ao governo e governa em um período de refluxo do movimento operário, cuja mobilização revolucionária seria a única capaz de abalar e demolir os pilares do regime. A apatia no seio do proletariado em consequência da reação neoliberal permite o controle dos sindicatos por uma burocracia de estilo de vida e pensamentos pequeno-burgueses, proveniente do correspondente brasileiro à aristocracia operária europeia.

Ao invés de minar, ainda que timidamente, o controle da burocracia estatal sobre o povo, de realizar as aspirações da sua base operária e sem terra, a fragilidade do PT diante da burguesia o fez manter e aprofundar o controle do Estado burguês sobre o povo e, além de desarmar os oprimidos, ignorou a reforma agrária, enfraqueceu os sindicatos, favoreceu a desigualdade social (Lula o reconheceu inúmeras vezes ao declarar que os bancos nunca lucraram tanto como em seus governos), reforçou o judiciário e a polícia e foi à reboque da burguesia contra os representantes eleitos pelo povo (como no caso da Lei da Ficha Limpa).

O PT começou por acoplar a aristocracia operária como um apêndice da burocracia estatal quando a burguesia lhe permitiu, mas as alianças com o centrão para “garantir a governabilidade” cada vez mais ameaçada pelas pressões do imperialismo o levaram a devolver com juros todo o poder à burocracia tradicional do Estado, aos elementos da burguesia. Assim como a social democracia europeia, ajudou a cavar a própria cova. Porque, diante da mudança de cenário com a crise de 2008, quando o imperialismo precisou elevar o nível do saque contra as nações pobres, o PT tornou-se um empecilho às necessidades dos monopólios. Parafraseando Rosa Luxemburgo sobre a social democracia alemã na revolução de 1918, os governos do PT mantiveram o Estado nas mãos dos que ontem apoiavam a ditadura militar e nas mãos dos que amanhã serão instrumentos da contrarrevolução.

A volta do PT ao governo, após o golpe de 2016, tem aprofundado essa adaptação ao regime – adaptação a um regime cada vez mais antidemocrático, e do qual o PT tem se esforçado para ser seu principal representante. Mesmo que tenha algum sucesso (e ele trabalha intensamente para isso), dificilmente o PT obterá 100% da confiança do imperialismo. Na verdade, não passa de um partido descartável. Também será descartável para os trabalhadores.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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