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Bruna Frascolla
November 30, 2025
© Photo: Public domain

O fato de Trump ter recuperado as tarifas e transformado-as em mais um instrumento do xerife do mundo liberal, sem se importar com as necessidades internas da economia, mostra como os EUA não souberam cuidar do patrimônio intelectual.

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O segundo governo Trump tenta ser o governo das tarifas. Um trumpista mais erudito poderia argumentar que a fase inicial da história dos Estados Unidos se confunde com a história das tarifas; afinal, o Sul dos EUA era dirigido por fazendeiros adeptos do livre comércio enquanto o Norte defendia tarifas para proteger a indústria nascente da concorrência inglesa. Como os EUA se tornaram uma potência por causa do Norte e não por causa do Sul, já dá para ver que a Era Lochner (que precedeu a crise de 1929) e a desregulamentação neoliberal de Reagan engendrada em parceria com Thatcher são desvios da rota que levaram os EUA ao sucesso. No entanto, a propaganda liberal, muito ajudada pelo anticomunismo, conseguiu representar o livre comércio como essencial à identidade mesma dos EUA.

Por isso, vale meditar sobre as palavras do economista Friedrich List (1789 – 1846), um dos maiores defensores do “sistema americano” ou “sistema nacional de economia política”, que administrava tarifas para proteger a economia interna: “eu chamaria a atenção das pessoas nestes Estados Unidos que se baseiam no celebrado sistema de Adam Smith, que tomassem cuidado para não morrerem de um belo ideal. De fato, senhor, soaria quase como sarcasmo se, em eras vindouras, um historiador comemorasse o declínio deste país nos seguintes termos: ‘Eles foram um grande povo e estavam em todos os sentidos no caminho certo para se tornarem o primeiro de toda a Terra; mas enfraqueceram e morreram acreditando na infalibilidade – não de um Papa, nem de um Rei –, mas de dois livros importados, um escrito por um escocês [Adam Smith] e o outro, por um francês [Jean-Baptiste Say] – livros cujas falhas de conteúdo foram, pouco tempo depois, reconhecida por cada indivíduo’.” (Esboço de economia política americana, Carta 1)

Em primeiro lugar, o que chama a atenção no século XXI é alguém chamar o livre comércio, ou o liberalismo econômico, de utopia. Isso se deve ao fato de que o liberalismo econômico é apresentado ao público como as leis férreas da ciência que têm que ser aplicadas, sob pena de graves consequências. Essa estratégia nada tem de nova: quando Chesterton era vivo, já se queixava desse expediente. Tanto o malthusianismo quanto o darwinismo social apresentam suas trágicas políticas públicas como necessárias. Desses dois, o darwinismo social tem uma relação indissociável com o liberalismo econômico.

Não obstante, lendo List, notamos que Adam Smith e demais defensores do livre comércio pensam um mundo sem guerras, no qual ninguém tem que ter medo de ficar desabastecido por questões políticas. Por exemplo: em 1827, apenas 51 anos depois da independência, congressistas americanos adeptos de Adam Smith “asseveraram bastante seriamente que seria melhor importar pólvora da Inglaterra, se este material pudesse ser comprado mais barato por lá do que ser aqui fabricado. Eu me pergunto por que não propuseram queimar os nossos vasos de guerra, já que seria mais econômico contratar, em tempo de guerra, navios e marinheiros da Inglaterra” (Carta 2). Guerra é o de menos. Os adeptos do livre comércio consideram um mundo no qual não existem nem guerras econômicas.

A seguir, devemos considerar que cientificismo, utopismo e liberalismo político andam de mãos dadas. Vejamos bem: com o liberalismo político, entende-se que a fé é uma verdade subjetiva que deve ficar de fora da esfera pública. Não obstante, é necessário um terreno comum para os cidadãos adeptos de diversas confissões poderem viver em sociedade. Quem aparece no lugar da religião como portadora do conhecimento objetivo e universal é a ciência. Assim, é evidente que a ciência, ao se tornar a sede de tanto poder, acaba sendo instrumentalizada e corrompida. Nasce o cientificismo, a crença na capacidade da ciência de determinar todas as questões políticas e sociais.

Historicamente, cientificismo, utopismo e laicismo (que é uma componente indispensável do liberalismo político) andaram de mãos dadas: há os precedentes do saint-simonismo, do positivismo, socialismo, comunismo. Assim, faz perfeito sentido que um país adepto do liberalismo político acabe caindo no cientificismo. A diferença do cientificismo liberal para os demais cientificismos é que no liberalismo não se destaca a figura do planejador. Em vez disso, existe uma harmonia espontânea que só o liberal imbuído do espírito científico consegue captar, de modo que suas críticas se voltam contra aqueles que interferem na dita ordem natural (impondo barreiras comerciais, por exemplo). Enquanto os cientificistas históricos costumam ser intervencionistas, que clamam por um técnico que ponha ordem no galinheiro, os cientificistas liberais são anti-intervencionistas e defendem que o galinheiro está sempre na mais perfeita ordem até alguém mexer com ele.

Ora, se a ciência constitui o denominador comum num regime político, é de fundamental importância criar um fundo público para a ciência que a impeça de ser cooptada por agentes privados. Na obra de List, não encontramos essa preocupação: ao contrário, ele segue a filosofia americana, já presente na Constituição, segundo a qual o congresso deverá proteger a propriedade intelectual dos inventores. Para List, essa proteção faz com que as invenções se propaguem pela indústria, em vez de serem perdidas com a morte do inventor. Isso pode ser verdade, mas a ausência de uma política pública de conhecimento fez com que o conhecimento fosse privatizado e a doutrina do livre comércio, por ele tão criticada, se tornasse uma verdade científica praticamente incontestável.

O fato de Trump ter recuperado as tarifas e transformado-as em mais um instrumento do xerife do mundo liberal, sem se importar com as necessidades internas da economia, mostra como os EUA não souberam cuidar do patrimônio intelectual.

Por que os EUA esqueceram sua própria história econômica e celebraram Adam Smith?

O fato de Trump ter recuperado as tarifas e transformado-as em mais um instrumento do xerife do mundo liberal, sem se importar com as necessidades internas da economia, mostra como os EUA não souberam cuidar do patrimônio intelectual.

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O segundo governo Trump tenta ser o governo das tarifas. Um trumpista mais erudito poderia argumentar que a fase inicial da história dos Estados Unidos se confunde com a história das tarifas; afinal, o Sul dos EUA era dirigido por fazendeiros adeptos do livre comércio enquanto o Norte defendia tarifas para proteger a indústria nascente da concorrência inglesa. Como os EUA se tornaram uma potência por causa do Norte e não por causa do Sul, já dá para ver que a Era Lochner (que precedeu a crise de 1929) e a desregulamentação neoliberal de Reagan engendrada em parceria com Thatcher são desvios da rota que levaram os EUA ao sucesso. No entanto, a propaganda liberal, muito ajudada pelo anticomunismo, conseguiu representar o livre comércio como essencial à identidade mesma dos EUA.

Por isso, vale meditar sobre as palavras do economista Friedrich List (1789 – 1846), um dos maiores defensores do “sistema americano” ou “sistema nacional de economia política”, que administrava tarifas para proteger a economia interna: “eu chamaria a atenção das pessoas nestes Estados Unidos que se baseiam no celebrado sistema de Adam Smith, que tomassem cuidado para não morrerem de um belo ideal. De fato, senhor, soaria quase como sarcasmo se, em eras vindouras, um historiador comemorasse o declínio deste país nos seguintes termos: ‘Eles foram um grande povo e estavam em todos os sentidos no caminho certo para se tornarem o primeiro de toda a Terra; mas enfraqueceram e morreram acreditando na infalibilidade – não de um Papa, nem de um Rei –, mas de dois livros importados, um escrito por um escocês [Adam Smith] e o outro, por um francês [Jean-Baptiste Say] – livros cujas falhas de conteúdo foram, pouco tempo depois, reconhecida por cada indivíduo’.” (Esboço de economia política americana, Carta 1)

Em primeiro lugar, o que chama a atenção no século XXI é alguém chamar o livre comércio, ou o liberalismo econômico, de utopia. Isso se deve ao fato de que o liberalismo econômico é apresentado ao público como as leis férreas da ciência que têm que ser aplicadas, sob pena de graves consequências. Essa estratégia nada tem de nova: quando Chesterton era vivo, já se queixava desse expediente. Tanto o malthusianismo quanto o darwinismo social apresentam suas trágicas políticas públicas como necessárias. Desses dois, o darwinismo social tem uma relação indissociável com o liberalismo econômico.

Não obstante, lendo List, notamos que Adam Smith e demais defensores do livre comércio pensam um mundo sem guerras, no qual ninguém tem que ter medo de ficar desabastecido por questões políticas. Por exemplo: em 1827, apenas 51 anos depois da independência, congressistas americanos adeptos de Adam Smith “asseveraram bastante seriamente que seria melhor importar pólvora da Inglaterra, se este material pudesse ser comprado mais barato por lá do que ser aqui fabricado. Eu me pergunto por que não propuseram queimar os nossos vasos de guerra, já que seria mais econômico contratar, em tempo de guerra, navios e marinheiros da Inglaterra” (Carta 2). Guerra é o de menos. Os adeptos do livre comércio consideram um mundo no qual não existem nem guerras econômicas.

A seguir, devemos considerar que cientificismo, utopismo e liberalismo político andam de mãos dadas. Vejamos bem: com o liberalismo político, entende-se que a fé é uma verdade subjetiva que deve ficar de fora da esfera pública. Não obstante, é necessário um terreno comum para os cidadãos adeptos de diversas confissões poderem viver em sociedade. Quem aparece no lugar da religião como portadora do conhecimento objetivo e universal é a ciência. Assim, é evidente que a ciência, ao se tornar a sede de tanto poder, acaba sendo instrumentalizada e corrompida. Nasce o cientificismo, a crença na capacidade da ciência de determinar todas as questões políticas e sociais.

Historicamente, cientificismo, utopismo e laicismo (que é uma componente indispensável do liberalismo político) andaram de mãos dadas: há os precedentes do saint-simonismo, do positivismo, socialismo, comunismo. Assim, faz perfeito sentido que um país adepto do liberalismo político acabe caindo no cientificismo. A diferença do cientificismo liberal para os demais cientificismos é que no liberalismo não se destaca a figura do planejador. Em vez disso, existe uma harmonia espontânea que só o liberal imbuído do espírito científico consegue captar, de modo que suas críticas se voltam contra aqueles que interferem na dita ordem natural (impondo barreiras comerciais, por exemplo). Enquanto os cientificistas históricos costumam ser intervencionistas, que clamam por um técnico que ponha ordem no galinheiro, os cientificistas liberais são anti-intervencionistas e defendem que o galinheiro está sempre na mais perfeita ordem até alguém mexer com ele.

Ora, se a ciência constitui o denominador comum num regime político, é de fundamental importância criar um fundo público para a ciência que a impeça de ser cooptada por agentes privados. Na obra de List, não encontramos essa preocupação: ao contrário, ele segue a filosofia americana, já presente na Constituição, segundo a qual o congresso deverá proteger a propriedade intelectual dos inventores. Para List, essa proteção faz com que as invenções se propaguem pela indústria, em vez de serem perdidas com a morte do inventor. Isso pode ser verdade, mas a ausência de uma política pública de conhecimento fez com que o conhecimento fosse privatizado e a doutrina do livre comércio, por ele tão criticada, se tornasse uma verdade científica praticamente incontestável.

O fato de Trump ter recuperado as tarifas e transformado-as em mais um instrumento do xerife do mundo liberal, sem se importar com as necessidades internas da economia, mostra como os EUA não souberam cuidar do patrimônio intelectual.

O fato de Trump ter recuperado as tarifas e transformado-as em mais um instrumento do xerife do mundo liberal, sem se importar com as necessidades internas da economia, mostra como os EUA não souberam cuidar do patrimônio intelectual.

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O segundo governo Trump tenta ser o governo das tarifas. Um trumpista mais erudito poderia argumentar que a fase inicial da história dos Estados Unidos se confunde com a história das tarifas; afinal, o Sul dos EUA era dirigido por fazendeiros adeptos do livre comércio enquanto o Norte defendia tarifas para proteger a indústria nascente da concorrência inglesa. Como os EUA se tornaram uma potência por causa do Norte e não por causa do Sul, já dá para ver que a Era Lochner (que precedeu a crise de 1929) e a desregulamentação neoliberal de Reagan engendrada em parceria com Thatcher são desvios da rota que levaram os EUA ao sucesso. No entanto, a propaganda liberal, muito ajudada pelo anticomunismo, conseguiu representar o livre comércio como essencial à identidade mesma dos EUA.

Por isso, vale meditar sobre as palavras do economista Friedrich List (1789 – 1846), um dos maiores defensores do “sistema americano” ou “sistema nacional de economia política”, que administrava tarifas para proteger a economia interna: “eu chamaria a atenção das pessoas nestes Estados Unidos que se baseiam no celebrado sistema de Adam Smith, que tomassem cuidado para não morrerem de um belo ideal. De fato, senhor, soaria quase como sarcasmo se, em eras vindouras, um historiador comemorasse o declínio deste país nos seguintes termos: ‘Eles foram um grande povo e estavam em todos os sentidos no caminho certo para se tornarem o primeiro de toda a Terra; mas enfraqueceram e morreram acreditando na infalibilidade – não de um Papa, nem de um Rei –, mas de dois livros importados, um escrito por um escocês [Adam Smith] e o outro, por um francês [Jean-Baptiste Say] – livros cujas falhas de conteúdo foram, pouco tempo depois, reconhecida por cada indivíduo’.” (Esboço de economia política americana, Carta 1)

Em primeiro lugar, o que chama a atenção no século XXI é alguém chamar o livre comércio, ou o liberalismo econômico, de utopia. Isso se deve ao fato de que o liberalismo econômico é apresentado ao público como as leis férreas da ciência que têm que ser aplicadas, sob pena de graves consequências. Essa estratégia nada tem de nova: quando Chesterton era vivo, já se queixava desse expediente. Tanto o malthusianismo quanto o darwinismo social apresentam suas trágicas políticas públicas como necessárias. Desses dois, o darwinismo social tem uma relação indissociável com o liberalismo econômico.

Não obstante, lendo List, notamos que Adam Smith e demais defensores do livre comércio pensam um mundo sem guerras, no qual ninguém tem que ter medo de ficar desabastecido por questões políticas. Por exemplo: em 1827, apenas 51 anos depois da independência, congressistas americanos adeptos de Adam Smith “asseveraram bastante seriamente que seria melhor importar pólvora da Inglaterra, se este material pudesse ser comprado mais barato por lá do que ser aqui fabricado. Eu me pergunto por que não propuseram queimar os nossos vasos de guerra, já que seria mais econômico contratar, em tempo de guerra, navios e marinheiros da Inglaterra” (Carta 2). Guerra é o de menos. Os adeptos do livre comércio consideram um mundo no qual não existem nem guerras econômicas.

A seguir, devemos considerar que cientificismo, utopismo e liberalismo político andam de mãos dadas. Vejamos bem: com o liberalismo político, entende-se que a fé é uma verdade subjetiva que deve ficar de fora da esfera pública. Não obstante, é necessário um terreno comum para os cidadãos adeptos de diversas confissões poderem viver em sociedade. Quem aparece no lugar da religião como portadora do conhecimento objetivo e universal é a ciência. Assim, é evidente que a ciência, ao se tornar a sede de tanto poder, acaba sendo instrumentalizada e corrompida. Nasce o cientificismo, a crença na capacidade da ciência de determinar todas as questões políticas e sociais.

Historicamente, cientificismo, utopismo e laicismo (que é uma componente indispensável do liberalismo político) andaram de mãos dadas: há os precedentes do saint-simonismo, do positivismo, socialismo, comunismo. Assim, faz perfeito sentido que um país adepto do liberalismo político acabe caindo no cientificismo. A diferença do cientificismo liberal para os demais cientificismos é que no liberalismo não se destaca a figura do planejador. Em vez disso, existe uma harmonia espontânea que só o liberal imbuído do espírito científico consegue captar, de modo que suas críticas se voltam contra aqueles que interferem na dita ordem natural (impondo barreiras comerciais, por exemplo). Enquanto os cientificistas históricos costumam ser intervencionistas, que clamam por um técnico que ponha ordem no galinheiro, os cientificistas liberais são anti-intervencionistas e defendem que o galinheiro está sempre na mais perfeita ordem até alguém mexer com ele.

Ora, se a ciência constitui o denominador comum num regime político, é de fundamental importância criar um fundo público para a ciência que a impeça de ser cooptada por agentes privados. Na obra de List, não encontramos essa preocupação: ao contrário, ele segue a filosofia americana, já presente na Constituição, segundo a qual o congresso deverá proteger a propriedade intelectual dos inventores. Para List, essa proteção faz com que as invenções se propaguem pela indústria, em vez de serem perdidas com a morte do inventor. Isso pode ser verdade, mas a ausência de uma política pública de conhecimento fez com que o conhecimento fosse privatizado e a doutrina do livre comércio, por ele tão criticada, se tornasse uma verdade científica praticamente incontestável.

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The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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