Líderes europeus vestem uniformes militares e brincam com guerra nuclear. Uma ordem sem futuro troca esperança por medo e arrisca autodestruição.
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Em um surto de simulação, durante a recente Cúpula Europeia do Ártico, em Rovaniemi, Finlândia, líderes europeus vestiram trajes militares para transmitir uma mensagem de preparação para uma confrontação com a Rússia, enquanto a máquina política e midiática repete, quase em uníssono, o alerta contra a “ameaça russa”. A declaração oficial da Cúpula coloca a segurança no centro das discussões e insiste na necessidade de fortalecimento da presença e das capacidades europeias na região, considerada estratégica para a segurança continental.
Essa encenação tem algo de profundamente inquietante. Tais dirigentes apresentam-se na condição de representantes de sociedades mobilizadas para a guerra, enquanto governam países profundamente divididos e enfrentam uma crescente erosão da confiança pública. Por si só, essa distância entre a retórica das lideranças e a disposição real das sociedades deveria recomendar prudência. Em vez disso, assistimos à construção de uma atmosfera psicológica de confrontação. E é justamente aí que começa o perigo.
O risco real de autodestruição
Em primeiro lugar, há um elemento de fingimento, pois a Europa não dispõe das condições industriais necessárias para sustentar autonomamente uma mobilização militar prolongada na escala sugerida pela retórica belicista. O próprio esforço para reconstruir estoques, aumentar a produção de munições e recuperar capacidade industrial demonstra o quanto essa estrutura foi reduzida nas últimas décadas. Mas a questão mais grave não é industrial, mas estratégica.
A Federação Russa dispõe de um enorme arsenal nuclear e de sistemas de ataque avançados, inclusive mísseis hipersônicos. Isto não significa que a Rússia possua superioridade tecnológica em todos os campos, mas algo muito mais importante para essa reflexão: qualquer guerra direta entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Rússia envolveria forças capazes de provocar uma destruição de escala civilizacional. A Rússia e os EUA continuam concentrando a esmagadora maioria das ogivas nucleares existentes, ao mesmo tempo em que os principais Estados nucleares modernizam seus arsenais e os mecanismos de controle de armas se enfraquecem. Portanto, tratar uma confrontação direta com a Rússia como apenas mais uma opção de política externa não é demonstração de coragem: é cortejar uma possibilidade de autodestruição.
Quando se atravessa determinado limiar, já não existe garantia de que os acontecimentos permaneçam sob o controle daqueles que os iniciaram. É este o ponto ausente da atual teatralização belicista.
E há algo ainda mais perturbador. A linguagem da destruição voltou a ser pronunciada abertamente pelas próprias lideranças ocidentais. Na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Donald Trump proclamou que os EUA poderiam “aniquilar” o Irã caso não fosse alcançado um acordo. Se uma ameaça dessa natureza – uma “solução final” – pode ser pronunciada na ONU sem provocar uma ruptura política proporcional à enormidade do que está sendo dito, algo extremamente grave está ocorrendo com a percepção ocidental dos limites da guerra. Porque a normalização da linguagem de aniquilação não permanece necessariamente confinada ao adversário contra o qual foi originalmente dirigida.
Hoje pode ser o Irã. Amanhã, numa espiral de escalada que ninguém consiga mais controlar, podem ser cidades europeias. É neste sentido que os atuais devaneios belicistas deixam de ser apenas uma encenação política e passam a representar um perigo concreto de autodestruição da própria civilização europeia. A Europa, que durante séculos foi um dos centros fundamentais da civilização ocidental, atravessou duas guerras mundiais e conheceu diretamente o que significa transformar rivalidades políticas em guerras de aniquilação. Justamente por isso, seria de esperar que suas lideranças fossem as primeiras a compreender que uma guerra entre potências nucleares não oferece uma segunda oportunidade para se corrigirem erros de cálculo.
No entanto, os vemos brincando com símbolos militares, discursos de mobilização, inimigos existenciais e horizontes de confrontação, como se ainda estivéssemos no mundo anterior a Hiroshima e Nagasaki. A ficção consiste precisamente nisso: representar a guerra como instrumento político disponível sem encarar até o fim o que ela poderia significar. E, se a confrontação escapar ao controle, não serão apenas governos, partidos ou alianças militares que pagarão o preço, mas a própria civilização que esses dirigentes afirmam estar defendendo.
Quem precisa da ameaça?
Então, perguntemos: quem está por trás de toda essa falsidade? Quem alimenta essa representação? Quem necessita dessa atmosfera permanente de ameaças? E por que uma ordem política em evidente crise de legitimidade parece encontrar na perspectiva da guerra uma das últimas narrativas capazes de justificar a sua própria continuidade?
A resposta mais simplória consistiria em explicar essa atitude como uma tentativa de manter regimes impopulares sob uma imaginária ameaça externa, ao mesmo tempo em que se condenam ou reprimem as forças políticas emergentes, apresentadas como agentes externos ou instrumentos de uma potência inimiga – no caso, vinculadas à “besta” russa.
Sem dúvida, há algo disso. A História oferece numerosos exemplos de governos que recorrem à ameaça externa para recompor coesões internas deterioradas, desacreditar adversários e justificar medidas que enfrentariam maior resistência em circunstâncias normais. Mas essa explicação é insuficiente. A crise não diz respeito apenas à legitimidade de um grupo de líderes europeus. Ela atinge o próprio sistema que os colocou nessa posição de poder – e é ele que está em crise.
A crise da ordem liberal-financeira
O chamado “mundo baseado em regras”, a globalização financeira, o livre comércio elevado à condição de dogma e a progressiva substituição da economia produtiva pela financeirização, estão sendo confrontados pelo retorno do Estado nacional soberano, das políticas industriais, da segurança energética, das cadeias produtivas estratégicas e da defesa dos interesses econômicos nacionais. Paradoxalmente, esse retorno do Estado nacional poderia representar também um caminho para que o Ocidente recuperasse parte de suas próprias raízes civilizatórias, essencialmente cristãs, nas quais o poder político não era concebido como absoluto, mas submetido a uma ordem moral superior.
Em profundidade, porém, o que se encontra por trás dessas quimeras é uma crise ainda maior: a crise do sistema liberal-financeiro organizado em torno de bancos centrais “independentes”, da autonomia crescente do poder financeiro em relação às comunidades nacionais e de uma concepção econômica que, ao longo de décadas, deslocou progressivamente o centro da riqueza da produção para as rendas financeiras. Esse sistema possui raízes históricas na formação da ordem comercial e financeira anglo-holandesa dos séculos XVII e XVIII, que posteriormente seria projetada sobre grande parte do mundo por meio das estruturas imperiais e financeiras britânicas e, depois, estadunidenses.
Com o passar do tempo, esse modelo adquiriu formas novas, mas conservou uma característica essencial: a capacidade do poder financeiro de se apresentar como uma realidade quase exterior à política, como se suas decisões fossem técnicas, neutras e independentes das escolhas soberanas das sociedades. É justamente essa arquitetura que hoje começa a ser questionada.
Uma religião secular sem promessa de redenção
O sistema profundo das oligarquias ocidentais perdeu a capacidade de gerar ideias e projetos capazes de mobilizar as sociedades em torno de um horizonte de futuro. Essa esterilidade se expressa também na mediocridade de grande parte das atuais lideranças, cada vez mais administradoras de uma ordem em crise do que criadoras de uma nova realidade política. A política liberal transformou-se, assim, em uma espécie de religião secular sem promessa de redenção. E esta talvez seja uma de suas características mais inquietantes.
Os grandes movimentos políticos dos séculos XIX e XX, mesmo quando conduziram sociedades inteiras à catástrofe, ainda prometiam alguma forma de redenção histórica: a sociedade sem classes, a grandeza nacional, o império, a revolução, o homem novo ou uma ordem futura supostamente definitiva.
A religião secular da ordem liberal em decomposição já não oferece sequer isso. Ela exige sacrifícios sem apresentar um paraíso futuro. Exige empobrecimento em nome da estabilidade, perda de soberania em nome das regras, desindustrialização em nome da eficiência e da “proteção” do meio ambiente, censura em nome da democracia e, finalmente, admite até mesmo o risco da guerra em nome da preservação de uma ordem cuja finalidade já não consegue explicar. Não existe mais uma verdadeira promessa de redenção. Existe apenas a promessa de que o sistema continuará existindo. Nas palavras do ex-chanceler da União Europeia, Josep Borrel, “nós somos o jardim do Éden, o resto é a selva”.
Nesse ponto, a política deixa de defender a sociedade e passa a exigir que a sociedade se sacrifique para defender o sistema. É precisamente aí que uma religião secular pode tornar-se autodestrutiva: quando a conservação da ordem existente passa a valer mais do que a conservação daqueles que vivem sob essa ordem.
Da minoria criadora à minoria dominante
Esse é, talvez, um dos sinais mais profundos de esgotamento civilizatório. Uma elite deixa de ser criadora quando já não consegue imaginar um futuro distinto da simples continuação de si mesma. O historiador inglês Arnold Toynbee percebeu com enorme profundidade esse fenômeno ao distinguir a minoria criadora da minoria dominante. Uma minoria criadora exerce liderança, porque oferece respostas capazes de inspirar adesão. Sua autoridade nasce de sua capacidade de responder aos desafios históricos e de produzir formas novas de organização, cultura e sentido. Quando essa capacidade desaparece, a antiga minoria criadora pode converter-se numa minoria dominante, que já não lidera porque inspira, mas conserva-se porque controla. A persuasão é progressivamente substituída pela disciplina; a imaginação, pela administração; o projeto, pela propaganda; e a confiança, pelo medo.
É nesse momento que o sistema corre o risco de transformar a própria crise em justificativa para continuar existindo. Quanto mais fracassa, mais exige poder. Quanto mais perde legitimidade, mais necessita de inimigos. Quanto menos consegue imaginar um futuro, mais dramaticamente precisa apresentar o presente como uma batalha existencial.
Quando o temporal ocupa o lugar do transcendente
Aqui, a reflexão do filósofo germano-estadunidense Eric Voegelin sobre as ideologias totalitárias como “religiões políticas” se encontra com a de Toynbee sobre a desintegração das civilizações. Quando uma sociedade perde a referência a uma ordem transcendente, a necessidade humana do absoluto não desaparece necessariamente. Ela pode simplesmente ser transferida. A nação, a raça, a classe, o partido, a revolução, o mercado, as “regras”, a democracia entendida não como regime político, mas como categoria moral absoluta – qualquer realidade temporal pode ser sacralizada e elevada a uma condição que já não admite questionamento.
Nesse processo, o temporal ocupa o lugar do transcendente. Mas há uma diferença decisiva entre os antigos movimentos políticos e essa possível religião secular de uma ordem esgotada. Os primeiros prometiam uma redenção futura. Essa última parece pedir o sacrifício presente apenas para impedir que o sistema desapareça. É uma religião secular sem escatologia, paraíso, homem novo e um horizonte verdadeiramente novo. Seu único futuro é a continuação indefinida do presente.
Quando o medo substitui a imaginação
Possivelmente, essa ausência de futuro é o que explica a crescente importância do medo: do inimigo externo; da ruptura; da dissidência; da perda do controle. O medo de que aquilo que durante décadas foi apresentado como inevitável deixe subitamente de sê-lo. Quando uma ordem não consegue mais produzir esperança, precisa produzir medo. E quando o medo substitui a imaginação, o conflito pode converter-se numa forma de legitimação. A guerra, então, deixa de ser apenas um instrumento externo de política e pode tornar-se uma necessidade interna do sistema. É justamente aí que os devaneios belicistas contemporâneos adquirem uma dimensão muito mais profunda do que a discussão cotidiana sobre a Rússia, Ucrânia, OTAN ou os gastos militares.
A questão passa a ser civilizacional. Uma ordem que perdeu a capacidade de imaginar o seu próprio futuro pode começar a aceitar riscos que, em condições normais, pareceriam impensáveis. Pode terminar confundindo a sobrevivência de suas estruturas com a sobrevivência da própria civilização. E essa confusão é uma das mais perigosas que uma elite possa cometer. Porque instituições, regimes econômicos e sistemas políticos são históricos. Civilizações são muito maiores do que eles. Quando um sistema passa a exigir que a civilização se arrisque para que ele próprio sobreviva, a relação entre meios e fins foi completamente invertida.
Os sinais de uma mudança de época
É nesse ponto que se torna possível falar verdadeiramente em autodestruição.
Uma civilização pode começar a autodestruir-se, não porque tenha deixado de acreditar, mas porque transformou a sua própria ordem histórica em objeto de crença absoluta. E quando os dirigentes deixam de imaginar um futuro diferente daquele que administram; quando a guerra começa a substituir a política; quando o medo substitui o projeto; quando a conservação das instituições passa a ser considerada mais importante do que as pessoas para as quais essas instituições deveriam existir; não estamos diante apenas de uma crise política ou econômica, mas de uma profunda crise civilizacional.
E quando uma elite perde a capacidade de imaginar, criar e persuadir, isto pode ser o sinal premonitório de que uma época está terminando. Mas não necessariamente de que a civilização esteja condenada. Pode significar exatamente o contrário: que as estruturas que já não conseguem responder aos desafios do presente estão abrindo espaço para outras formas de organização, outras ideias e uma recuperação de princípios que pareciam esquecidos. Porque a perda da imaginação de uma ordem não significa o fim da imaginação humana. E quando aqueles que governam já não conseguem conceber nada além da perpetuação de si mesmos, talvez, este seja precisamente o primeiro sinal de que algo novo começa a aproximar-se.


