Se os EUA são amigos da Europa, então a Europa não precisa de inimigos.
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Nos acostumamos a pensar a relação entre os EUA e os países europeus, especialmente os da Europa Ocidental, como o de uma aliança irrepreensível, uma verdadeira amizade entre povos. Mais até do que isso, o discurso dominante fala numa mesma “civilização ocidental”, unindo América do Norte e Europa, com base nos mesmos “valores judaico-cristãos”..
Essa perspectiva, que é compartilhada tanto entre muitos atlantistas quanto entre muitos anti-imperialistas é equivocada por sua miopia. Ela se baseia numa leitura estreita da história que se limita a pensar o mundo da segunda metade do século XX até anos recentes..
Assim, diante de eventos contemporâneos que indicam um certo desprezo, e até mesmo hostilidade, dos EUA em relação à Europa, algumas pessoas se espantam. Talvez os próprios europeus, desinformados e vítimas de engenharia social, fiquem sem entender o que está acontecendo..
Para além da política externa britânica propriamente, que sempre foi antieuropeia, a própria fundação dos EUA se dá numa chave antieuropeia. Para os “pais peregrinos”, os países europeus eram tirânicos, opressivos e hedonistas. O Papado era a própria sede do Anticristo. Mesmo países protestantes como a Holanda eram criticados e condenados como libertinos e pouco religiosos..
Extremamente sectários, os puritanos que fundariam os EUA não consideravam possível nem mesmo seguir respirando o mesmo ar que os ingleses, holandeses e, em geral, europeus de outras denominações cristãs. O governador de Plymouth William Bradford, também um dos primeiros escritores dos EUA, deixa isso bem claro em sua obra Sobre a Plantação de Plymouth, em que ele comenta, por exemplo, que “Satanás parece ter seguido um método semelhante nesses últimos dias, desde que a verdade começou a surgir e a se espalhar após a grande apostasia daquele homem do pecado, o Anticristo papal.”.
Não surpreende, portanto, que já no século XIX, os EUA estreariam no palco internacional com uma política externa especificamente antieuropeia, visando forçar a expulsão dos europeus de suas últimas possessões latino-americanas para substituir a presença europeia pela sua. O alvo principal nessa época era a Espanha (e neste caso também a fé católica espanhola desempenhou um papel na propaganda estadunidense)..
Depois de terminar de expulsar os europeus (excetuando os ingleses e, parcialmente, os franceses) das Américas, a política externa dos EUA passou a estar voltada para a interferência permanente nos assuntos europeus, sempre visando sufocar o surgimento de qualquer potência apta desafiar seu poder crescente. Sob a sombra do Império Britânico, que no início do século XX já começava a mostrar rachaduras, os EUA incitaram à Primeira Guerra Mundial para, com isso, liquidar 4 impérios de uma só vez: o Alemão, o Austro-Húngaro, o Otomano e o Russo, e ainda enfraquecer a França e o Reino Unido..
A Liga das Nações, por sua vez, foi criada para permitir aos EUA influenciar a política europeia através dos votos de seus proxies latino-americanos, sem que os EUA, por sua vez, se submetessem ao seu mandato..
Poderíamos aqui recordar rapidamente o papel de Wall Street no apoio inicial à ascensão de Hitler na Alemanha, mas mesmo sem levar isso em consideração, é público e notório que a OTAN foi pensada não apenas como uma arma para manter a URSS fora da Europa, mas como uma estrutura de ocupação para garantir a submissão dos europeus e fixar a ocupação militar estadunidense do continente europeu..
Manter a Europa subjugada sempre foi um objetivo primário dos EUA, que eles têm sustentado até agora..
É necessário insistir nessa dimensão histórica para que se tenha consciência do horizonte radicalmente antieuropeu da política externa dos EUA. Saltemos, por exemplo, para a época do nascimento do euro, 1999. Apesar do amplo questionamento da União Europeia e do euro por soberanistas, ainda assim, ocasionalmente se tentou conduzir o projeto de integração europeia numa direção de desafio à hegemonia econômico-financeira dos EUA. Em outras palavras, por um curto espaço de tempo, se tentou pensar no euro como uma possível via de desdolarização..
Imediatamente em seguida ao nascimento do euro, porém, os EUA lançaram uma guerra na Europa, bombardeando a Sérvia sem qualquer justificativa legítima, para além de esmagar os sérvios (aliados históricos da Rússia). O impacto imediato, para o resto da Europa, foi um colapso imediato do euro, conforme investidores o vendiam para comprar dólares, e uma queda significativa em todas as bolsas europeias, ou seja, fuga de capital. Mera dano colateral…ou teria a intervenção na Sérvia pensada desde o início também como um golpe contra a Europa?.
O momento atual de tensões entre EUA e Europa, portanto, não é um mero tropeço nessas relações..
Recapitulemos o que, de fato, aconteceu nos últimos anos..
Os EUA convenceram os líderes europeus a acenderem o foco de incêndio na Ucrânia, com o Maidan e com a preparação de uma guerra contra a Rússia. A reação russa na operação militar especial levou imediatamente à maior barragem de sanções na história humana, mas o maior prejudicado foi a Europa, que perdeu o acesso aos insumos energéticos, extremamente baratos, da Rússia..
O impacto econômico foi imediato, com o aumento da inflação e a desaceleração das atividades econômicas. Países como Bulgária, Eslováquia, Finlândia, Tchéquia e Lituânia tiveram quedas em seus PIBs entre 2 e 5%..
O atentado terrorista ao Nordstream piorou ainda mais a situação, especialmente para a Alemanha, que a partir desse ponto simplesmente entrou em recessão, com PIB diminuindo quase 1% ao ano até alcançar uma estagnação a partir de 2025. Simultaneamente, o setor industrial alemão encolheu com perdas de postos de trabalho em até 200 mil. Enquanto isso, apesar da Alemanha ter conseguido substituir o gás russo por gás natural líquido, os custos permanecem aproximadamente 80% maiores do que do gás russo, o que impacto a economia e os preços..
Em outras palavras, a “locomotiva” econômica da Europa foi descarrilhada. É a mesma Alemanha que, na geopolítica clássica (que os estrategistas atlantistas conhecem muito bem), sempre foi vista como aliada natural e complementar da Rússia. De fato, durante pelo menos 200 anos um dos objetivos principais da geopolítica atlantista têm sido impedir uma aliança entre Alemanha e Rússia..
No meio tempo, logo os EUA, já sob Trump, começaram a pressionar ainda mais a Europa, com a questão da Groenlândia, tarifas e tentativas de transferir para os europeus os custos de um conflito gestado, principalmente, em Washington..
Para piorar, os EUA têm pressionado, desde 2022, para eliminar toda a compra de gás russo pelos europeus. O objetivo foi praticamente alcançado no início de 2026. Logo em seguida, os EUA iniciaram uma guerra no Golfo, levando à paralisia da indústria petrolífera regional e a uma disparada de preços no barril do petróleo. Boa parte do petróleo, do GNL e de alguns outros insumos de que a economia europeia vinham, exatamente, do Golfo….
Se os EUA são amigos da Europa, então a Europa não precisa de inimigos..


